ANÁLISE | Ultraviolence: Amá-lo nunca era o bastante

por / domingo, 03 agosto 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

ULTRAVIOLENCE

Polêmica, dúbia, cheia de sentimentos ensurdecedores em uma bagunça melódica que ainda soa tão pura como se nada daquilo fosse errado. E claro, fodidamente linda. Essa é a música Ultraviolence, a faixa-título do álbum e que deixa todos sem saber o que dizer sempre que terminam de ouvir.

O termo “ultraviolence” surgiu com o livro e filme “Laranja Mecânica”, um clássico que se tornou ainda maior por ser dirigido por Stanley Kubrick (um dois maiores e mais polêmicos diretores de cinema de todos os tempos, que também dirigiu a primeira versão do filme “Lolita” em 1962). O significado da palavra que, traduzida é “ultraviolência”, se refere a uma violência excessiva, uma violência gratuita que, no filme, é praticado por um grupo de garotos suburbanos aterrorizantes.

O início da música é surgido com suaves batidas e uma melodia que quase lembram sinos, parecido com a harmonia inicial de Video Games – e então a voz da Lana aparece com ela narrando um romance onde o homem costumava compará-la com plantas belas, porém venenosas e alucinógenas. E então surge o nome dele, Jim, que se muitos notarem já foi citado nas canções Motel 6 e Hundred Dollar Bill. Nessa última citada, inclusive, ela diz “J. é uma montanha-russa romântica/ele não faz nada que deveria fazer/Eu gosto deles rudes e malvados/Jim é o pior que eu já vi” e após o terceiro verso continua com “eu gosto do seu ritmo ultraviolento/eu gosto quando você me trata mal”.

E então voltamos para a música atual, onde ela diz que ele lhe bate e pra ela é como um beijo. Sadomasoquismo? Violência doméstica? Difícil de se interpretar quando não conhecemos Lana Del Rey e seu jeito tão submisso de mulher dos anos 60. Ela simplesmente se sente culpada por algo, se sente presa e sente entorpecida e não liga quando Jim bate nela, porque é uma forma de ela reagir e uma forma de fazê-la sentir algo.

Lana é apaixonada por músicas que lembram a geração beat e foi exatamente daí que ela tirou o termo “ele me bate e parece um beijo” da canção de mesmo nome, da banda Crystals. Como nós sabemos que ela tirou essa frase exatamente daí? Porque em 1995 ela foi interpretada pela banda Hole, liderada por Courtney Love, que Del Rey tanto é fã. Nessa canção há os trechos “Ele me bate e parece um beijo/Ele me bate, mas isso não me machuca/Ele não conseguiu aguentar ouvir/Que eu estive com um novo alguém/E quando eu lhe disse que fui infiel/Ele me bateu” seguido por “Ele me bateu e eu soube que ele me amava/Porque se ele não se importasse comigo/Ele nem ficaria bravo”.

Teria Lana traído Jim e por isso ele batia nela? Fomos várias vezes apresentados a uma mulher assim no clipe de West Coast, por exemplo, ou na música Sad Girl e tantas outras onde ela diz ser amante de um homem mais velho. As suposições são inúmeras, mas a que mais se encaixa é que Jim sempre foi um cara ultraviolento e de pavio curto e Lana nunca se importou em provocar e adorava ser punida por isso. Realmente um relacionamento não-saudável, tanto que ela cita “sirenes, sirenes […] violinos, violinos” que poderiam ser o perigo mortal unido à beleza de um romance que ela julgava ser perfeito.

Mais a frente, Ultraviolence é seguido com o trecho “Nós poderíamos voltar para Woodstock”, o maior festival da contracultura ocorrido em 1969, que Lana ama seguir (inclusive citado na canção Summer of Sam, no qual ela diz “Verão do amor, de volta a 1969”). E com mais influências de suas músicas antigas, ela surge com um “O Paraíso está na Terra/Eu faria qualquer coisa por você, baby”. Alguém se lembrou do mesmo trecho em Video Games, Match Made in Heaven e tantas outras canções dela? Ela com certeza está narrando o mesmo amor, mas de pontos de vista diferentes.

E próximo ao final da canção, a voz vulnerável e frágil da cantora cita trechos em espanhol: “yo soy la princesa” (comuns em West Coast, já que ela citou também em outras músicas que seu amor tinha descendências hispânicas, como em American com “you’re skin so golden-brown”, Black Beauty com “you’re like your women spanish, dark, strong and proud” e West Coast com “you’re crazy and cubano como yo, my love”). Entretanto, essa descendência hispânica que ela cita poderia não ser realmente uma descendência hispânica/cubana, mas sim uma metáfora de que seu amor era perigoso. Por quê? Lana já admitiu incontáveis vezes que é uma fã doente do filme Scarface, e nele o ator Al Pacino, um gângster perigoso, tem um sotaque exatamente cubano. Seria esse “cubano” de West Coast e as frases em espanhol em Ultraviolence apenas uma referência sutil de que seu amor era realmente ultraviolento e um gângster? Provavelmente.

Ela diz que sempre o amará, porque ela está completamente cega por esse amor, e continua com a frase “eu sou sua princesa, compreenda minha carreiras brancas” – uma referência à cocaína, quando a pedra é quebrada e espalhada em fileiras finas e opacas antes de ser inspirada. Ambos são viciados em drogas, Lana sempre teve seus problemas com bebida alcoólica, os dois estão perdidos entre entorpecentes, amor proibido, complicado e extremamente destrutivo.

E ela o amará para sempre, ele é o maldito homem que, em uma entrevista, disse que sempre amará. Ela não consegue se livrar desse sentimento agonizante dentro dela, ela sempre será sua cantora particular e ele sempre será seu líder de culto, o líder de seus pensamentos e quem ela sempre irá guiar.

O que houve com Jim, no entanto? Não sabemos. Podemos interpretar por outras músicas que ele morreu, foi preso ou eles simplesmente tiveram uma grande briga. Mas sabemos que Lana jamais se livrará dele e nós sentimos isso em cada palavra abafada que ela canta na música, seu tom extremamente frágil tão perto do choro.

Por que acabou assim? Amá-lo nunca era o bastante.
E a estrada fica difícil, não sabemos por quê.

 

Escrito por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
  • Igor

    Gente, e se for o Axl?! Ele tem relação direta com a parte de “sirens, sirens…” da música. O/ shippo forte

  • Vagner

    O Jim que ela cita na música é Jim Morrison e, se vocês perceberem, o novo corte de cabelo da Lana é o mesmo que a Pam (ex namorada de Jim) usava.

  • Bruna

    A música é sobre o romance de Jim Morrison e Pamela Courson. Ambos tiveram um relacionamento longo e intenso, que começou quando eles se conheceram no festival de Woodstock. Jim e Pamela foram infiéis durante grande parte do relacionamento, e Jim era violento com Pamela, mas ela o amava muitíssimo e seu grande sonho era um dia conseguir se casar com Jim, apesar de tudo. É sobre isso que a música trata, essa é a análise correta. Só não dá pra saber exatamente porque o fanatismo de Lana por Jim – que além de ser citado nessas duas músicas que estão no post, também foi citado em Gods & Monsters – e também como já disseram, a estranha semelhança física entre ela e Pamela.

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