ANÁLISE | The Other Woman: A música mais sincera e vulnerável que já ouvimos na voz da Lana Del Rey

por / quarta-feira, 27 agosto 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

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Talvez essa seja a música mais sincera e vulnerável que já ouvimos na voz da Lana Del Rey. Pode até parecer a mais deslocada do álbum pra muitos fãs, mas é com certeza a canção que mais sentimos dor e nos arrepiamos a cada verso.

Pra quem não sabe, esse é um cover da música gravada e lançada por Nina Simone em 1959, uma das maiores – se não a maior – ídolas de Del Rey, que vez ou outra colocava uma de suas músicas em seu perfil pessoal do Spotify e gostava de falar em tantas entrevistas. A musa deu inspiração à morena inclusive em uma de suas tatuagens na clavícula, onde se lê “Nina Billie” (o outro nome referido a Billie Holiday, cantora daquela música deliciosa que toca no finalzinho do clipe de Summer Wine).

The Other Woman, portanto, narra a visão sobre uma mulher que é amante de alguém, como se a visse pela janela de um apartamento antigo de Nova York e pudesse dizer cada tristeza que observa. E, segundo a Lana, essa é a música que irá interligar “Ultraviolence” ao seu próximo álbum.

No monólogo de Ride, há a passagem “eu nasci pra ser a outra mulher”, onde vemos nossa querida cantora sozinha. Ela “não é do tipo que se casa”, como ela diz na canção Guns And Roses, “mas devia ter se casado mesmo assim” só pra não perder seu amor. E em tantas e tantas outras músicas nós interpretamos que ela já foi a amante de alguém, como em Sad Girl que diz “Ser uma amante de lado/Pode não ser apelativo para tolos como você” e em Cola com “Eu conheço a sua esposa/E ela não se importaria”.

Quando alguém fala em traição e infidelidade, sempre pensamos na mulher traída ou no homem que trai, mas nunca pensamos na amante. Existe o lado bom e ruim de cada coisa nesse mundo – vemos na maioria das vezes pelo ponto de vista da mulher que foi traída, sentimos pena dela e nos colocamos em seu lugar, imaginando o quanto deve ser angustiante. Mas e a outra mulher? O que ela sente? Como é tudo isso pra ela? Qual é o outro lado da história? Ela é feliz por isso?

Não. E é exatamente isso o que sentimos lá dentro do peito com essa melodia abafada e de instrumentos antigos tão anos 50. É isso o que sentimos ao ouvir a voz quebrada da Lana, é isso o que sentimos quando prestamos atenção na música e notamos que ela quase chora ao falar dessa angústia.

A outra mulher é perfeita, está sempre linda, impecável, sempre à disposição do seu homem. Sua casa está sempre arrumada, sem brinquedos espalhados por crianças e com um cheirinho de perfume francês e flores recém-colhidas em cada cômodo. Ela não tem nada com o que se preocupar, sempre tem tempo de se arrumar e sua única missão é fazer seu homem feliz, porque é ela quem ele quer ver pra sair da rotina, quando está cansado da vida monótona de casado e de crianças correndo por todo lado. É na outra mulher que ele se refugia quando quer esquecer seus problemas e se lembrar dos velhos tempos.

Mas só isso.

A outra mulher não o terá pela manhã ao acordar, não o terá a abraçando durante a noite, não terá seu conforto durante um dia ruim e não poderá tê-lo sempre que quiser – porque, apesar de estar com ela, o homem ama sua esposa acima de tudo. É pela esposa que ele tem respeito, que ele decidiu compartilhar toda a sua vida, ter filhos e lhe sorrir de manhã ao preparar um café com torradas. Ele não se lembra da outra mulher quando tem sua esposa ao seu lado lhe dando momentos maravilhosos como ter um filho. Não é a outra mulher que tem seu suor. Não é a outra mulher que tem seu coração.

E ela sofre por esse pecado. Ela sofre e se machuca cada vez mais porque, por trás de toda a perfeição, há a tristeza perdida de sua alma solitária. E por isso ela chora até conseguir dormir, porque nunca terá o amor do homem para manter.

E com o tempo… ela passará sua vida sozinha.

Sozinha….

 

Texto por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
  • http://katzm0tel.tumblr.com/ João Lima

    Análise incrível! Me lembram algumas coisas pelas quais eu já passei e é realmente angustiante. Eu tento ver esse lado profundo por trás de cada música da Lana, e ela é uma grande poeta da nossa geração. Como eu havia dito a um colega um tempo atrás: realmente, a Lana faz muita referência ao mundo gangster, drogas, sexo, vida promíscua… mas sempre com amor e poesia. Sempre com sentimentos, referências literárias e cultas, e com todo o seu talento. Talvez (acredito) tenha sido parte da vivência dela, e ela não tem medo de dizer. E além de que não é só disso que ela canta. Essa mulher é incrível e me inspira. Já me arrepiei ao menos uma vez com cada música dela, naqueles momentos em que estou passando por algo que me identifico na música e ouço de olhos fechados, cambaleando no escuro do meu quarto, sentindo a música. Admiro a Lana com todo o meu coração.

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