‘Escrever este disco foi muito doloroso em alguns momentos’, leia a entrevista concedida à Veja

por / domingo, 13 julho 2014 / Publicado emEntrevistas

Veja

Lana concedeu uma entrevista à revista Veja, confira:

Lana Del Rey, a musa triste da música indie

Com canções depressivas e olhar blasé, a cantora americana se tornou uma estrela mundial e abriu portas para outras garotas consideradas estranhas no ninho da indústria musical

A cantora americana Lana Del Rey, 28 anos, tem atributos de sobra. É linda, famosa, lota shows em festivais pelo mundo e tem uma longa lista de fãs celebridades, como Kim Kardashian, Katy Perry, Daniel Radcliffe e até o cineasta David Lynch. Kim, aliás, a convidou para cantar em seu badalado casamento no início do ano. Rumores dizem que George Clooney fez o mesmo pedido e estaria disposto a pagar o que for preciso para tê-la cantando em suas bodas, em setembro deste ano.

Apesar de tamanha popularidade, Lana recentemente disse ao jornal The Guardian que já gostaria de estar morta e suas canções — estranhamente entoadas em casamentos — deixariam até a alegre personagem do livro Poliana Moça, de Eleanor H. Porter, em depressão.

A combinação de lábios carnudos, olhar tristonho-blasé e voz arrastada faz parte da fórmula de sucesso da moça, que despontou em 2012 com o disco Born to Die, seu segundo de estúdio, e vendeu mais de 7 milhões de cópias pelo mundo. Para comparação, o número é mais que o dobro do comercializado por Beyoncé com seu último álbum.

Ultraviolence, lançado em junho deste ano, segue caminho parecido. Em um mês nas lojas, o disco já figura entre os dez álbuns de rock mais vendidos do ano, de acordo com a empresa especializada Nielsen SoundScan, e está próximo da marca de 300.000 cópias apenas nos Estados Unidos.

“Eu era um risco para as gravadoras. Não era um bom investimento. Mas sou persistente e nunca desisti”, diz a cantora em entrevista ao site de VEJA.

O risco passou e depois de Lana outras cantoras de indie rock, que também encontram glamour na tristeza e compram roupas em brechó, se tornaram boas apostas para gravadoras e hits instantâneos no YouTube.

Julian Perry: Seu caminho até a fama foi longo e marcado por mudanças. Como é, agora, viver no centro dos holofotes?
Lana Del Rey: É bom poder ter o meu estilo e ver que tudo caminha com facilidade. Tenho participado de diversos shows e festivais e a experiência de estar no palco em lugares diferentes é ótima, combina com minhas mudanças de humor. A energia do público motiva e assusta ao mesmo tempo. É sempre uma surpresa imaginar como será. Apesar da experiência, ainda sinto um frio no estômago ao subir no palco.

JP: Você já confessou ter medo de palco no passado. Superou esse problema?
LDR: 
Sim, especialmente porque não estou mais ansiosa com meu disco. Com ele pronto posso me concentrar nos shows. Quando estou em turnê, interrompo meu processo de criação, tenho dificuldade de compor na estrada. Mas agora sinto que tudo faz parte do fluxo.

JP: Quando você explodiu no cenário musical surgiram muitas críticas sobre seu estilo ser fabricado e falso. Como lida com isso?
LDR: 
É difícil julgar alguém de longe e imaginar o seu processo de crescimento pessoal e o de sua equipe. Conforme as coisas ganham proporções maiores, fica ainda mais complicado dizer se ela realmente se importa com a música, se realmente merece o que está vivendo. Minha ideia é continuar fazendo meu trabalho e amadurecer. Nos bastidores, não tenho muitas pessoas me ajudando, ou alguém que me impulsione para fazer coisas que não gosto.

JP: Se não foi fabricado, então seu estilo deve ter incomodado, pois destoa do cenário musical pop. Ninguém tentou mudar você para que ficasse mais próxima da maioria das cantoras famosas?
LDR: 
Apenas no começo da carreira. As gravadoras me viram como um risco. Eu não era um bom investimento, mas sou persistente e nunca desisti. Por isso me senti ótima quando a música Video Games virou um sucesso. Eu gosto muito daquela canção e a versão que ficou famosa era a que eu queria que o público ouvisse. Eu a toquei por um ano e a gravadora em que eu estou agora gostou, mas ficou com um pé atrás. Disseram que era muito lenta.

JP: Dan Auerbach, do The Black Keys, produziu o disco Ultraviolence. Como começou essa parceria? Você era fã da banda?
LDR: 
Eu conhecia bastante do trabalho do The Black Keys, mas não sabia muito sobre Dan. Trabalhamos bem juntos. Decidimos fazer o disco em parceria quando nos conhecemos em Nova York. Estávamos nos divertindo com alguns amigos, nos olhamos e falamos: “Por que não fazemos um disco juntos?”. Percebi que ele era o produtor que eu estava procurando. Ele acrescentou guitarras distorcidas e uma pegada meio anos 1970 ao disco. Ele também tem as mesmas referências bizarras que eu. E foi bom mudar um pouco, pois trabalhei com o mesmo produtor por três anos.

JP: Seu disco sofreu um atraso quando seu computador foi roubado. Como foi recomeçar tudo do zero?
LDR:
 Foi um atraso, mas também foi uma benção, pois eu odiava as músicas que vazaram. Eram coisas que eu ainda estava trabalhando e mais da metade eu estava compondo para outras pessoas. Então, quando elas foram divulgadas, eu percebi que não gostava daquela sonoridade. Por isso recomecei do zero. Quando achei que tinha terminado o disco, conheci Dan. Fomos para o estúdio e começamos a regravar tudo que eu escrevi nos últimos dois anos. Foi maravilhoso, foi quando descobri esse som novo que eu amei.

JP: Por que o título Ultraviolence?
LDR: 
É meu disco mais escuro e, apesar dos elementos românticos da minha música, sinto uma aversão ao ouvir algumas canções. Mesmo que eu as tenha escrito. Eu não me sinto bem ao ouvir algumas faixas, enquanto sou apaixonada por outras. Escrever este disco foi muito doloroso em alguns momentos, pois se eu não componho de forma natural, então não funciona. O tempo não colaborou e o prazo foi apertado. Comecei a sofrer de ansiedade quando percebi que não tinha mais tempo. Não trabalho bem sob pressão, mas no fim chegamos lá e tudo deu certo.

JP: Então sofreu uma crise de ansiedade fazendo Ultraviolence?
LDR: 
Sim, eu tinha a sensação de que meu próximo disco não seria bem-sucedido. Tento não ouvir essas vozes, mas sou um pouco pessimista e me sentia triste. Não gostava de nada que eu escrevia. Então comecei a fazer turnês e o público me motivou. Na primeira semana de shows, percebi que queria fazer isso para o resto da vida. Foi ótimo, pois cheguei a um ponto que não sabia se voltaria a cantar de novo. Porém, este ano foi decisivo para mim.

JP: Acredita que está bem agora?
LDR:
 Com certeza. Estou muito animada e simplesmente amo esse disco. Fiquei muito preocupada, queria escrever algo de que eu realmente gostasse, pois tudo na minha vida tem sido muito complicado, especialmente na minha vida pessoal. A música é a única coisa estável para mim. E como um disco dura tanto tempo, você quer que ele seja perfeito, porque terá que conviver com ele e cantar as canções em shows.

JP: Sua identidade visual e seus videoclipes também andam lado a lado com seu estilo musical. Quando você compõe já imagina como será o vídeo?
LDR: 
Sim, eu costumo pensar tudo e imaginar uma história do começo ao fim que se conecta com a música. Tive sorte de trabalhar com ótimos diretores de vídeo, como Yoann Lemoine e Anthony Mandler. Temos uma química estranha e boa. Eu desenhava toda a ideia para eles. Acho que até os irritava de vez em quando. Provavelmente por isso eles não trabalham mais comigo. Mas a mágica é que no fim tudo ficou exatamente como imaginei no início, e isso é muito raro. Esse controle é o oposto do que acontece em minha vida pessoal. Eu traduzi de maneira minuciosa o que sonhei para os diretores, e eles conseguiram adaptar para a tela com fidelidade.

JP: Tem o mesmo cuidado com a arte do encarte do CD?
LDR:
 Tenho. Amo acompanhar o trabalho da arte. Para este disco trabalhei com o fotógrafo Neil Krug. Ele conseguiu mudar o jeito como eu via as coisas. Ele transforma polaroides em ótimos retratos e me ajudou a pensar no que eu queria para a arte do disco. Para mim, o visual do encarte e capa também ajudam na identidade do CD. Assim que consegui ver a capa e a contracapa passei a imaginar o disco como um todo. Eu vejo Ultraviolence como uma história. A história começa com o solo de guitarra que Dan faz na primeira música, Cruel World.

JP: Você se mudou de Nova York para Los Angeles durante o processo de produção do disco. Como essa mudança a influenciou?
LDR: 
Mudar também é uma grande parte da história do disco. Eu estava vivendo em Londres por um tempo e voltei para os Estados Unidos. Fui para a Califórnia, que é outro mundo para mim. Passei muitos anos em Nova York, e eles inspiraram a música West Coast. A faixa Brooklyn Baby, em que Dan toca guitarra, é sobre o Brooklyn, como diz o título. Enfim, consegui trazer todos os meus mundos para dentro do disco, e isso me deixa feliz.

 

Por Julian Perry

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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