Lana Del Rey fala sobre Lou Reed, Dan Auerbach e Ultraviolence em entrevista à radio Triple J

por / sexta-feira, 04 julho 2014 / Publicado emEntrevistas

IMAGEM POST LDRA

Por telefone, Lana Del Rey foi entrevistada por Richard Kingsmill da rádio australiana Triple J e falou sobre Lou Reed, Ultraviolence, personas, várias curiosidades sobre algumas das músicas do novo álbum e muito mais! Confira a tradução a seguir.


 

 

Nós temos ouvido bastante a respeito do novo álbum de Lana Del Rey, “Ultraviolence”, aqui na Triple J nas últimas semanas, e este é um álbum que, mais uma vez, tem feito muitas pessoas falarem a respeito dessa cantora norte-americana nos últimos dias. Alguns tem conjecturado sobre o porquê de ela soar sempre tão triste e trágica em suas canções e, também, sobre o quanto a respeito de sua vida suas músicas realmente documentam. Isto é, claro, se você souber que Lana Del Rey e Lizzy Grant são a mesma pessoa. Lana me disse que ela não sente que há uma divisão entre as duas, mas também comentou que ainda há muitas inverdades sobre ela que continuam circulando na mídia. Eu nunca entrevistei Lana Del Rey antes, mas sempre fui intrigado por sua música, pela história de sua vida. Muitas de suas canções parecem verídicas, mas sempre me perguntei se não seriam um elemento criativo, a construção de um mito, algo existente no processo de escrita de suas, frequentemente, trágicas canções. Eu tive vinte minutos para conversar com ela recentemente, ela estava em Paris, onde havia acabado de celebrar seu 28º aniversário em um dos primeiros shows para seu novo álbum. A multidão francesa no show inclusive cantou ‘Feliz Aniversário’ à cantora. Eu tive a intenção de cobrir o máximo possível a respeito do novo álbum e tentei enxergar de onde surgiram algumas dessas ideias.

Então nós começamos falando sobre o fato de ela haver regravado grande parte de ‘Ultraviolence’ com Dan Auerbach, do ‘The Black Keys’.
Sabe, eu estava em Nova Iorque, no Electric Lady Studios, meu melhor amigo, Lee Foster, comanda Electric Lady e ele disse “por que você não vem aqui e vê o que acontece…”. Eu comecei o álbum sozinha com um baterista e o guitarrista da minha banda e eu acho que por volta de 20 de dezembro eu realmente achei que havia terminado, mas não tinha certeza se tinha chegado aonde querida e, hm…. Eu saí para uma casa noturna uma noite com o produtor do meu primeiro álbum, Emile Haynie, e ele ia encontrar com o Dan e….. Eu nunca havia conhecido o Dan antes e….. Eu não sei, foi só que…. Conhecê-lo foi muito divertido e eu contei a ele sobre o álbum e ele disse que gostaria de ouvi-lo e quando ele ouviu as músicas ele disse que havia gostado muito pelo…. Pelo lugar que eu queria chegar, algo como uma fusão da Costa Oeste com um toque de jazz do subúrbio e ele disse que acha que talvez eu não tinha realmente alcançado esse som, então… Ele queria apenas levar o álbum adiante, eu acho…

Sim, mas você está satisfeita com essas gravações também?
Eu gostei delas, mas elas estavam se direcionando mais para um tipo de rock clássico (risadas).

E você queria algo que fosse um pouco mais melancólico, com um pouco mais de sangue…
Sim, eu acho, foi engraçado, tipo, tudo o que eu estava procurando era um som distorcido… E depois, lendo algumas das entrevistas do Dan, depois que eu trabalhei com ele, eu estava rindo porque eu li que ele era famoso por suas guitarras distorcidas, então… (risadas). Houve essa coisa, eu acho, ele foi meio que trazido até a minha vida por um motivo, ele não gosta de todo esse som casual, mas ao mesmo tempo caótico que eu estava procurando…

E ele toca a maioria, ele toca guitarra nas faixas que você gravou naquelas sessões, porém algumas canções do álbum são ainda daquela primeira sessão, certo?
Sim, existem sim, apenas algumas.

Ok, nós podemos falar sobre uma delas? Nós conversaremos um pouco mais sobre sua relação com Dan e sobre trabalhar com ele, porém “Pretty When You Cry” é uma das minhas favoritas do álbum. Inicialmente eu não estava certo sobre isso…
Sério?

Sim, inicialmente eu não sabia se gostava da faixa quando a ouvi pela primeira vez, ela possui uma vocalidade tão áspera no início. Então, esta é uma das faixas que você fez da primeira vez e decidiu manter…
Sim.

Você pode falar sobre essa canção e também sobre aqueles vocais… foi muito difícil chegar lá
Bem, primeiramente, eu fico feliz por a canção ter um significado para você, porque para mim, ela realmente tem um significado para mim e, não, não levou muito tempo para fazer o álbum, sabe, é importante que cada faixa esteja certa, a entrega dos vocais e a letra e a melodia… A companhia como um todo, tudo tem que estar realmente coeso. E “Pretty When You Cry” foi uma dessas faixas, entende, eu tenho o mesmo guitarrista na minha banda pelos últimos quatro anos, Blake Stranathan, e ele estava meio que tocando uns acordes para mim quando eu estava no Eletric Lady Studios, apenas alguns acordes que eu realmente gostava, hm…. Nós estávamos tentando alguns, começamos a experimentar… Ele tocou um pequeno, tipo, um interlúdio de dez segundos e eu comecei a cantar. O motivo pelo qual eu gosto dessa música é porque eu capturei exatamente como ela era naquela primeira sessão e é especial para mim porque não há…. Eu não sei qual é a palavra… Como aceitação…. Não, a verdade é que eu não estava realmente tentando gravar algo, eu estava apenas sentindo a melodia e eu gosto do fato da canção ser orgânica daquela forma. Acho que para mim isso é tudo o que envolve o álbum tipo, conhecer pessoas que são divertidas e com as quais eu tive química…. Então, sim, aquela canção é realmente meio que preservada da primeira tentativa.

Eu estou falando com Lana Del Rey, nós temos que conversar sobre West Coast porque obviamente aquela foi a primeira faixa, o primeiro single que tivemos do álbum, uma música tão incrível. Eu acredito que a gravadora deve ter enlouquecido um pouco com o que você fez com o refrão!
Bem, eu acho que foi uma combinação de eu dizendo a eles que seria, bem, um álbum bem dirigido para o jazz e com uma vibe da Costa Oeste… E então a primeira música que eu mostrei a eles foi tipo, essa música deveria ser um single que eu transformei numa batida de meio-tempo ainda mais lenta durante o refrão, eu acho que eles estavam tipo “ah, vamos lá, você pode uma única vez, tipo, fazer algo normal? ”. Mas, quero dizer, não, eu brinco sobre isso, mas a verdade é que eles são incríveis, eles meio que sabem que eu apenas farei aquilo que vou fazer… Mas eu amo aquela canção por ter sido o primeiro, porém meio leve, single, apenas porque a vibe está correta e aquele é o tom exato para esse sentimento da Costa Oeste. E Dan a ama (risadas).

Bem, sim, quero dizer, é meio óbvia a influência que ele possui nessa faixa também. E sobre a letra? Aquilo era realmente um ditado sobre a Costa Oeste ou você apenas inventou o verso?
Bem, isso é o que alguém disse a mim uma vez quando eu estava na praia. Eu estava em uma festa na praia e alguém disse “você sabia, eles têm um ditado, se você não está bebendo, você não está jogando” e eu achei fofo, eu achei que seria um fofo verso de abertura…

Basicamente significa que se você não está se divertindo em uma festa é porque não bebeu o suficiente…
(Risadas) Exatamente.

Como você se sente com aquele verso, porque obviamente já foi falado sobre os problemas que você teve com o álcool na adolescência…
Sim.

Você se sentiu confortável ao cantar aquele verso?
Sim, quero dizer, para mim, tipo, pensar em como as coisas funcionam para mim e como as minhas inspirações e motivações funcionaram por tanto tempo, elas ainda parecem ser parte da minha vida, mesmo eu não estando bebendo hoje, sabe, por alguma razão, eu ainda realmente gosto de absorver o momento, entende, a forma como a dinâmica das festas, entende, na Costa Oeste, tipo… Porque eu gosto do fato de que outras pessoas podem se divertir e se soltar, eu sinto que sou uma parte disso quando estou lá… Então, sim, eu me senti confortável com o verso.

E você não bebe nada mais? (Ambos riem)
Não agora. Eu não posso prometer nada! Eu não posso prometer nada no futuro! Depende de como as coisas acontecerem (risadas).

Aqui na Triple J, Lana Del Rey, temos mais da entrevista nos próximos minutos. Ela vai falar sobre Lou Reed!

***

Eu não sei se Lou Reed deveria cantar parte da canção, ou se a canção não estava totalmente escrita e você iria terminar de escrevê-la com ele… O que você estava pensando para ela?
Eu havia a escrito e, durante todo o tempo, estava conversando com o empresário do Lou Reed, por uns dois meses, para saber se eu poderia ir à Nova Iorque, apenas para conhecê-lo, dizer oi e eu sabia que ele ainda estava compondo… Sabe, finalmente uma noite eu peguei o último voo e esse era o momento em que eu esperançosamente iria conhecê-lo, mas na manhã, eu cheguei logo de manhã, nesta manhã ele faleceu então, sabe, quero dizer, ele nunca ouviu “Brooklyn Baby”, eu a compus meio que com ele na minha mente, essa era a faixa que eu achava que ele iria realmente gostar.

Como você reagiu quando saiu do avião e ouviu as notícias? O que passou pela sua cabeça?
Eu estava apenas chocada que, no segundo após o pouso, o fato, o fato estava em todos os noticiários, hm…. Foi apenas que, o momento em que isso aconteceu foi o que me surpreendeu, quero dizer, obviamente eu não o conhecia, então não me afetou de forma tão pessoal, entende, como deve ter acontecido com a família e aqueles que realmente o conheciam, mas eu estava realmente surpresa pelo momento, apenas tendo pousado e recebendo as notícias, foi apenas… Foi esse sentimento realmente estranho.

Hm, Barrie, seu namorado, ele co-escreveu “Brooklyn Baby” com você e os acordes de guitarra meio que me lembraram um pouco dos momentos mais suaves do “Velvet Underground”. Esses sons fizeram você se sentir conectada ao Lou Reed durante a música?
Bem, eu acho, eu fico feliz de você ter percebido isso, eu achei que o som era meio reminiscente de algumas coisas do “Velvet Underground” que eu gosto bastante e é por isso que tinha esperança que ele gostaria da música também quando a ouvisse.

Sim, a música passava essa sensação, meio que “Pale Blue Eyes” ou algumas outras mais suaves do Velvet Undergound com acordes parecidos.
Sim, definitivamente. Eu realmente amo essa canção do álbum e, é engraçada a forma como a produção mudou tanto a canção. Sabe, quando ela era um demo, era mais crua, e então com Dan e a banda, ela apenas alcançou esse novo tipo de, eu não sei, sentimento exótico trazido pelo Brooklyn. Eu realmente a amo.

***

Lana Del Rey está conosco aqui na Triple J. Então, vamos voltar ao Dan do “Black Keys” e quando você decidiu regravar a maioria das faixas com ele. Eu acredito que tenha sido tudo muito rápido, foram apenas algumas semanas o tempo gasto para fazer a maior parte do álbum?
Hum…. Bem, pareceu um tempo maior, mas eu acho que foram três semanas com o Dan.

Três semanas, bem, isto ainda é muito rápido para, sabe, o que é um álbum realmente coeso e substancial além das faixas bônus…
Sim, com certeza.

No CD também, na parte de dentro, você inclusive agradece ao Dan por ter trazido as chamas de volta à sua vida. Você havia falado um pouco que, com “Born to Die’, você havia sentido que tudo o que havia para ser dito acerca de Lana Del Rey havia terminado ali. Você havia começado a sentir que estava perdendo… O sentimento, a musa, a paixão pela música em algum momento?
Sim, um pouco, quero dizer, eu realmente não sei de onde vem…. Para mim, eu sou, tipo, instintiva, até mesmo os títulos de minhas canções, entende, às vezes eu tenho títulos que são apenas algumas palavras que nem são mencionadas no decorrer da música e eu nunca sei realmente o porquê de as ter escolhido, apenas meio que pareceu o certo. Então, para mim, meio que ser dirigida pelo instinto e pela intuição, eu cheguei a um ponto que sempre acredito estar no lugar certo na hora certa… E, eu não sei, às vezes estar viajando nas turnês, entende, não ser capaz de ficar em apenas um lugar, eu acho que é o que mais dificulta a minha composição. Eu também, sabe, eu conheci muitas pessoas que não gostaram do primeiro álbum e eu pensei, bem, não, eu realmente não sei o quanto quero seguir esse caminho novamente, investindo tanta paixão e amor em outro álbum. Mas, sabe, depois de tudo isso, o engraçado foi que tudo foi falado de forma tão árdua e contínua que dois anos depois eu realmente me sinto mais livre para escrever o que quer que eu deseje porque eu meio que sei o que está por vir de qualquer forma… Mas, o negócio com o Dan é que ele estava interessado em mim e ele estava interessado no álbum e eu meio que…. Não sei, ele fez com que eu me sentisse interessante de novo. Sabe, às vezes depende de você e as vezes depende que outra pessoa te mostre e, para mim, meio que dessa vez alguém precisava me mostrar.

Sim, você havia dito também que às vezes não sentia que Lana era levada a sério como uma artista. Isso, quero dizer, até mesmo o “Born to Die”, foram milhões de cópias e você conquistou fãs no mundo inteiro com aquele álbum. Mas ainda, você sente que o reconhecimento e a reação de algumas pessoas acerca de Lana Del Rey não é boa ou esperada?
Bem, quero dizer, eu acho que houve muito erro na comunicação e eu acho que como eu era uma pessoa quieta… Então, enquanto eu ainda não havia nem feito meu cabelo para a primeira entrevista, já haviam tantas coisas escritas e que não eram verdadeiras e meio que recicladas, a histórias inteira, sobre como as coisas caminharam para eu chegar onde havia chegado. E, eu acho que isso me incomodou, considerando minha própria experiência de vida, eu realmente não sei porque me senti incomodada, acho que foi algo pessoal. Era mais, tipo, eu queria ter certeza que a música estava perfeita, eu queria ter certeza, sabe, que a forma como as músicas se apresentariam estava intacta e… Sabe, eu acho que quando as pessoas têm sua própria impressão sobre como você chegou aonde chegou, isso muda a cabeça delas sobre a música. Às vezes é difícil olhar dentro das palavras quando você está pensando no autor por trás daquilo. Eu sentia que minha própria história estava sendo um obstáculo nesse caminho.

Há também, com a criação que você trouxe, com Lana Del Rey, quero dizer, a música e a artista são um veículo que você usa para explorar alguns aspectos que podem ser reflexos do que você experimentou na sua própria vida, mas também lhe permite explorar um monte de outras coisas e personalidades que talvez você não viva no seu dia-a-dia. Isso é verdade?
Aham, é verdade que isso pode acontecer, sim.

Eu acho que é aí que reside a confusão para muita gente, eles não sabem o que é Lizzy ou Lana, e eles acham que as coisas podem ser falsas, mas os versos são o poder da música de Lana Del Rey. Porém, o quanto da música de Lana Del Rey é realmente você?
Tudo. Quero dizer, a combinação de ter mudado meu nome associada às histórias escritas se tornaram mais um monte de peças vazias do que uma entrevista com perguntas e respostas o que levou a essa concepção errada de que há uma divisão entre as duas. Para mim, a transição é realmente fluida, estar num palco e sair, voltar para minha vida pessoal. É claro que eu li algumas coisas que talvez tenha achado válidas, porém vindo de um cenário mais alternativo, onde eu vivi e pude meio que compor o que quis e não ter visibilidade por cerca de sete, oito anos. Eu nunca tive um senso do que deveria ou não escrever e definitivamente nunca tive que explicar sobre o que eu queria dizer por meio dos versos, quero dizer, sabe, é claro que isso mudou bastante nos últimos dois anos. Mas, para mim, no fim das contas, definitivamente tem esse mundo, esse mundo visual que eu amo construir por meio de edições e direções e criar os vídeos, mas em termos de divisão de personalidade, eu não consigo ver isso.

Hum… A provocação para Lana Del Rey é um elemento forte na arte que ela cria e está nesse novo álbum também. Você gosta disso?
Não uma provocação forçada, hum…. Eu não sou realmente provocativa na minha vida pessoal, então no palco, isto não é algo que eu busco, mas eu gosto de brincar com as palavras. Eu amo compor, é meio que minha paixão, então…. Eu uso trocadilhos e metáforas ao invés de apenas dizer as coisas diretamente. Em outras vezes eu digo as coisas diretamente sem trocadilhos ou metáforas, sabe, isso depende, eu estou sempre mudando. Eu vou mudando sobre minhas próprias palavras, as vezes numa mesma frase. Às vezes eu estou fazendo referência a algo e às vezes eu estou apenas sendo realmente direta com o que eu quero dizer, eu estou meio que embaçando a linha entre as duas coisas, apenas porque eu não tenho certeza no quanto pessoal ou o quanto artística eu quero realmente tornar a música.

***

Lana Del Rey está aqui tendo uma conversa sobre seu novo álbum, “Ultraviolence”. Ok, você quer saber o que ela disse sobre voltar à Austrália? Vamos te contar logo agora! Vamos ver outra faixa do álbum agora. Então, e essa? Se trata de trocadilhos ou as linhas estão borradas? Esta com certeza é provocativa e há uma linguagem forte nesta próxima faixa de Lana Del Rey.

(Toca “Fucked My Way Up to the Top”)

Então aqui estamos, na Triple J, e eu perguntei a ela quando ela planeja voltar ao país e ela disse que não há nada definido por agora, mas ela está planejando uma turnê para o fim do ano e é nisso que seus esforços estão agora. Se você chegou no meio da entrevista com Lana Del Rey, ela estará disponível para stream logo após o programa, no nosso site.

 

Por Richard Kingsmill
Tradução por Wesley Lima

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • João Vianini

    <3

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