‘Não é uma crise de confiança, não é!’, confira a tradução da mais nova entrevista concedida a Rolling Stone

por / sexta-feira, 18 julho 2014 / Publicado emEntrevistas

IMAGEM POST LDRA

 

Não tenho certeza se eles devem lançar essa matéria” Lana Del Rey diz, esparramada em um sofá marrom-claro, em seus shorts jeans curtos e camiseta em gola V, fazendo bolas de chiclete de forma pensativa.

Eu sinto que deveríamos esperar até termos algo bom para falar”, ela continua, em um ar que se torna uma súplica. “Entende? Eu só queria que você pudesse escrever sobre alguma outra coisa. Tem que existir outra pessoa pra ser a capa. Tipo, tem que existir. Qualquer um.

Talvez não deveria ter sido um choque, estando aqui. A marca do estrelato pop de Del Rey é ambivalente, autofrustrante, frágil. Em seu núcleo nebuloso, sob o considerável glamour, ela é mais Cat Power ou Kurt Cobain do que Rihanna ou Katy Perry, completada com a misteriosa, afeição tipo-Kurt que a persegue por suas turnês. Por último, temos a tatuagem no lado de sua mão direita, bem embaixo com tinta negra em letra cursiva: Trust no one. (no mesmo local da mão oposta: Paradise).

Ainda no dia anterior, tudo parece diferente. Em uma tarde ofensivamente quente e sem nuvens no meio de Junho em New York, no dia do lançamento do segundo álbum de Del Rey por uma grande gravadora, Ultraviolence, ela atende a porta de madeira pintada em verde da casa em Greenwich Village onde tem estado. “Eu sou Lana, prazer em vê-lo”, ela diz, oferecendo um leve aperto de mão e um grande, claro e esperançoso sorriso; sorriso este que instantaneamente sugere que tudo o que você pensa saber sobre ela está errado: que você leu demais os significados das músicas “Sad Girl” e “Pretty When You Cry” do novo álbum; que você levou certas citações de entrevistas recentes (principalmente, “Eu queria já estar morta,” que a rendeu um xingamento no Twitter por parte de Frances Bean Cobain) a sério demais; que é um erro assumir que seus modos nos palcos tem alguma coisa a ver com sua real personalidade.

Sua risada, doce e feminina, vem facilmente. Ela está tudo, menos apreensiva, pelo fato de seu álbum estar sendo lançado: sem compromissos, guiado por guitarras, uma produção sem hits: “É o que eu queria”. A camisa em gola V de hoje é de um azul claro, quase da mesma cor que o esmalte de suas unhas longas, sobre jeans pálidos estrategicamente surrados que terminam enrolados logo abaixo das panturrilhas, familiares pela sessão de fotos de outra revista. Ela está usando cílios postiços, mas sem muita maquiagem. Del Rey está há quatro dias de seu 29º aniversário (por razões que ela não sabe explicar, ela normalmente afirmava a repórteres ser mais jovem), mas aparenta, no momento, uma caloura universitária passando o verão em casa.

Ela parece tão livre – radiante até – que após dez minutos, parece seguro quebrar o gelo. “Então, numa escala de zero a dez, o quanto você desejaria estar morta agora?

Seus grandes olhos marrom-esverdeados se arregalam ainda mais. Então ela solta uma própria brincadeira. “Dez estando morta?” ela responde. “Você é engraçado! Hoje é um dia bom”. Hoje ela escolhe a vida? “Sim, hoje eu escolho a vida”. Então, tipo, 1? “10. 10!”, ela fala como em um cântico, não muito diferente de Diane Keaton murmurando “la di da” em Annie Hall. “Sete. 12!” Ela joga a cabeça para trás e ri, possivelmente começando a aproveitar o momento.

Mas quando se trata de Lana Del Rey, quem pode dizer algo com certeza? Ela é um conjunto desafiante de significados contraditórios, um mistério que 10.000 pensadores torturados falharam em solucionar. David Nichtern, que a assinou à sua pequena gravadora indie quando ela ainda estava na faculdade, viu nela um “aspecto exterior de Marilyn Monroe com o interior de Leonard Cohen”: ela pode até parecer um pouco com Nico, mas é sua própria Lou Reed. Ela é ansiosa e centrada quando está nos palcos, mas destemida em suas letras (“My pussy tastes like Pepsi-Cola”. “I was an angel looking to get fucked hard”). Seus vídeos constantemente virais são cortejos infestados pelo assustadoramente nostálgico gênero musical “Americana”, com dicotomias garota-boa/garota-má e os ocasionais amassos com um cara mais velho. Apenas tente entender o que está acontecendo em seu clipe “National Anthem” de 2012, onde ela interpreta tanto Marylin Monroe como Jackie Kennedy, ousa nas tomadas Zapruder e porta o rapper A$AP Rocky como JFK.

Ela é uma superestrela do pop com quase nenhum hit nas rádios dos Estados Unidos, apenas um remix de sua canção “Summertime Sadness”, que ela nunca havia ouvido antes do lançamento. E, talvez mais do que qualquer outra artista pop deste século, ela foi mal compreendida e até mesmo odiada. Ela foi o assunto de um selvagem ataque – um pré-ataque, na verdade – antes mesmo de grande parte de a América ouvi-la. (Dentre outras reclamações, blogueiros de música se sentiram de alguma forma enganados quando seu hit virtual “Video Games” levou a um quase instantâneo acordo com uma grande gravadora). Sua tremida, levemente tediosa estreia no Saturday Night Live foi tratada como uma emergência nacional, inspirando semanas de debate, incluindo Brian Williams brincando de crítico da música (ele não era um fã). Ela havia mudado seu nome de Lizzy Grant, apresentado mais como uma evidência de decepção do que como uma estrela do showbiz. Ela teve que negar seus lábios aumentados cirurgicamente (de perto, para qualquer registro, eles parecem apenas lábios).

Lançado no amanhecer de sua performance no SNL, sua estreia pela Interscope Records em 2012, Born to Die, foi alvo de céticas críticas. As músicas, e sua tonalidade, com vocais múltiplos e em diversas camadas, pareciam estar afogando em uma produção luxuriosa do tipo trip-hop. Mas com a ajuda de fortes e cinemáticas novas faixas em seu EP bônus, Paradise, o jogo foi virado: o álbum vendeu mais de um milhão de cópias nos Estados Unidos (e mais de 7 milhões ao redor do mundo); a canção-single “Young and Beautiful” para a trilha sonora de O Grande Gatsby, ganhou platina. Kanye West, que leva a sério seus gostos musicais, a convidou para tocar em seu casamento com Kim Kardahsian. “Foi lindo apenas estar lá”, Del Rey diz. “Eles pareceram muito felizes”. Mais cedo, durante o almoço, West havia dito a ela que “realmente gostava de onde eu estava vindo, visualmente e sonoramente.”

Del Rey não está inclinada a celebrar nenhuma dessas coisas, entretanto. “Nada disso parece ser o sucesso”, ela informa. “Porque com tudo que poderia ter sido algo realmente doce, sempre houve algo na periferia do meu mundo, além do meu controle, pra meio que destruir tudo que estava acontecendo. Eu nunca senti como ‘oh, isso é perfeito’.”

A casinha na qual Del Rey está hospedada pertence a alguém que ela chama de “amigo”: Francesco Carrozzini, 31 anos, um elegante fotógrafo italiano que tirou fotos suas para diversas revistas europeias. Ele obviamente se dá bem na vida – “melhor do que nós”, brinca Del Rey enquanto me mostra o local. Sua casa de quatro andares é um verdadeiramente incrível pedaço de Manhattan, uma mansão digna de uma estrela do cinema, suas paredes de madeira escura cobertas por fotos artísticas e por suas sessões com celebridades, como Keith Richards. A casa está no mesmo quarteirão onde Bob Dylan mudou com sua família em 1969; Anna Wintour vive na região, assim como Baz Luhrmann.

Na mesa de café no segundo andar, próximo a um box de Serge Gainsbury, há um livro chamado The Boudoir Bible*. “Não se envergonhe”, Del Rey fala com um sorriso. Ela está sentada no sofá marrom, fumando cigarros American Spirit de Carrozzini à sua maneira lânguida, sob uma enorme foto em preto e branco de um monte de pessoas magras e nuas, umas sobre as outras. O sol do meio-dia ilumina fortemente por uma janela aberta e seu cabelo marrom e pele clara estão brilhando em sua luz – um filtro do Instagram ou cinematógrafo não poderiam fazer melhor. “Eu paro as vezes”, ela diz, sobre os cigarros. “E então paro de parar”. Ela fuma nos palcos também – é puro desejo, não uma coisa imaginária. “Eu descubro às vezes, quando metade do show já se foi, que definitivamente preciso de um cigarro”.

*Um livro de tema sexual escrito por Betony Vernon. Sem tradução para o português.

Dentro de poucos dias, ela será fotografada se aconchegando à Carozzini na Europa. Mas por agora, ela diz, está solteira. Começando por volta de dezembro, Del Rey iniciou um prolongado término com Barrie-James O’Neill, seu namorado de três anos. Ele é um compositor, o que a permitiu vivenciar algumas fantasias do tipo Dylan/Joan Baez (ela se compara parcialmente ao hino de Baez naquele romance, “Diamonds and Rust,” até mesmo citado em “Ultraviolence”) “Tudo tem sido bem difícil”, Del Rey diz. “Sim, minha vida tem sido bem pesada sobre meus ombros, e a própria obsessão dele em conseguir sempre o seu melhor, eu acho, tornou a relação insustentável. O que é triste, porque foram realmente as circunstâncias, as razões pelas quais não estamos mais juntos”.

Em certas partes, Ultraviolence parece um álbum de término de namoro, apesar de Del Rey afirmar serem todas as músicas sobre seus relacionamentos anteriores. De qualquer forma, o álbum responde muitas perguntas sobre a cantora, ao mesmo tempo que cria novas questões. Se ela era o fantoche de uma corporação ou a fraude calculada que alguns de seus críticos imaginaram que ela seria, Ultraviolence não seria jamais um álbum que ela faria. O principal produtor foi o líder da banda Black Keys, Dan Auerbach, que é abençoado por conseguir juntar uma atmosfera vintage com uma grandiosidade típica de Morricone, mas que está em certo perigo de ser confundido com Dr. Luke ou Max Martin. Eles gravaram grande parte do álbum ao vivo, com sua tripulação de músicos do rock em Nashville enquanto Del Rey cantava segurando um microfone de 100 dólares, seu vocais diferentemente ríspidos, com tons de jazz e poderosos. Existem muitos solos de guitarra. Mas nenhuma das faixas parecem nem levemente se encaixar nos padrões pop das rádios.

Mesmo antes de Auerbach se envolver na produção, Del Rey sabia que queria algo bem diferente desta vez. “Esse álbum era, ‘Eu vou fazer do meu jeito’”, diz seu amigo Lee Foster, que dirige a Eletric Lady Studios e co-produziu parte do álbum lá. Foster disse a ela que Bruce Springsteen havia continuado Born in the U.S.A. com o despojado Nebraska (Foster havia invertido a ordem, mas chegou perto). “Nós conversamos sobre seguir essa linha, como Springsteen trocando as marchas e dizendo ‘Eu vou fazer exatamente o que você não espera que eu faça’.”

Auerbach encontrou Del Rey por acidente no Electric Lady, onde ele estava mixando o novo álbum de Ray LaMontagne. “Honestamente, nós dois nos beneficiamos por não conhecer nada um do outro,” ele diz. Logo após ela tocar alguns dos demos em que estava trabalhando para ele, ele se tornou um fã, pressionando-a para que ele a produzisse. Mas ele foi surpreendido pelas chatices das gravadoras – Del Rey tem contrato com duas delas, Interscope e, no Reino Unido, Polydor. “Houve muita porcaria com a qual não estou acostumado,” Auerbach diz. “A gravadora diz ‘Nós não vamos te dar o dinheiro para estender essa sessão a não ser que ouçamos algo.’ E nós lhes enviamos o mix cru e eles fodidamente odiaram e eles odiaram o modo que mixamos. E é tipo, “obrigado, idiotas”.

“A história que me contaram”, ele continua, “É que eles tocaram as músicas para alguns membros da gravadora e eles disseram: ‘Nós não vamos lançar este disco que você fez com o Dan, a menos que você se encontre com o produtor da Adele.’ e ela disse ‘Tudo bem, que seja.’ E ela estava atrasada para a reunião, então, enquanto eles estavam esperando, um cara da gravadora tocou para o produtor da Adele o que nós havíamos produzido e ele disse ‘Isto é maravilhoso, eu não faria nada para mudar estas músicas’ e então, de uma hora para outra, o cara da gravadora disse ‘Bom, eu também achei tudo ótimo’.”

“Eu fiquei sabendo a respeito das músicas”, disse o chefe da Interscope, John Janick. “Mas Lana tem uma visão e ela conhece seu público e é nossa responsabilidade seguir as ideias dela.” Del Rey admite que teve um período de seis semanas difícil na primavera passada: “Quero dizer, haviam pessoas com as quais eles gostariam que eu trabalhasse“, ela diz, “Eu não sabia quem eram eles. Quando eu disse que estava preparada, eles me perguntavam ‘Você tem certeza?’“, ela ri. “Por que eu sinto como se você pudesse ir mais fundo.

“Neste álbum, na minha opinião, não queríamos que ela tentasse fazer algo.” Disse o representante de Janick, Jimmy Iovine. “Eu senti como se ela estivesse atingindo o olho do touro. Todos estavam me dizendo ‘Nós precisamos de um single’, me ligando da Europa. Eu disse ‘Vocês não precisam de nada’. É um trabalho muito coerente, e eu acho que qualquer outra conversa seria uma distração. Lana me lembra outros artistas com quem trabalhei.” – disse pensando particularmente em Patti Smith e Stevie Nicks – “E isso a torna diferente da maioria dos outros artistas que estão na Interscope. Porque você simplesmente não encontra artistas assim todos os dias. Ela é algo raro de se encontrar, uma liricista. Você sabe como pessoas assim são raras hoje em dia, fora do rap?”

O co-acessor de Del Rey a alertou que ela teria que dar declarações sobre alguns dos versos do álbum novo, particularmente sobre a faixa-título, que cita o velho verso “He hit me and it felt like a kiss,” e então adiciona “He hurt me and it felt like true love,” para o caso de seu ponto não ter ficado claro o suficiente. Ela é vaga se esse é um tema autobiográfico: “Eu acho que diria, tipo, eu sou definitivamente atraída por pessoas fortes fisicamente”, ela diz com um dar de ombros, “por uma personalidade dominante.”

Ela não está preocupada sobre qualquer mensagem que os versos podem passar. “Não é para ser popular”, ela diz, sentando no jardim de trás da casa, que se abre em um outro jardim compartilhado, onde Dylan enraiveceu seus vizinhos décadas atrás por tentar colocar uma cerca. Ela está bebericando café quente por um canudo, um velho hábito que ela própria reconhece ser tanto “estranho” como “nerd”. “Não é música pop”, ela responde. “A única coisa que eu faço é o que eu quero fazer. Apenas espero que as pessoas não fiquem me perguntando a respeito. Então eu não sinto responsabilidade nenhuma, quero dizer, eu só não sinto. E me sinto responsável de outras formas, na comunidade – como ser uma boa cidadã, seguindo a lei.

Mas, precisamente, o que ela espera que o público ouça por meio dos versos? “Eu só não quero que eles ouçam de forma alguma”, ela responde, “Eu sou muito egoísta. Eu meio que faço tudo para mim. Quero dizer, cada pequena coisa, desde a guitarra até a bateria. É só para mim. Eu quero ouvir, eu quero dirigir ouvindo, eu quero nadar no oceano ouvindo. Eu quero pensar nas músicas e então eu quero escrever algo novo depois delas. Entende? É só… Eu não quero que eles ouçam e pensem a respeito. Não é da conta deles!

Mas, hum, ela não está vendendo essa música para as pessoas? “Eu não estou vendendo o álbum”, ela diz. “Eu assinei com uma gravadora que está vendendo o álbum. Eu não preciso fazer dinheiro. Eu realmente poderia até me importar menos. Mas eu me importo sim em fazer música. Eu faria de qualquer forma. Então é por isso que tem que ser nos meus termos”.

Del Rey nunca fez terapia. “Não há nada que ninguém poderia jamais me dizer que eu já não saiba”, ela responde. “Eu sei tudo sobre mim mesma. Eu sei porque eu faço e o que eu faço. Todas as minhas compulsões e interesses e inspirações. Eu estou realmente em sintonia com isso. São as outras coisas que eu não consigo controlar, simplesmente o que vai acontecer a cada dia minhas interações”.

Então o que a move? “Agora? Nada”, ela fala. “Eu não tenho mais o que me mova. Mas eu gosto de gravar. Antes, eu sentia que isso me movia, mas agora sinto que é apenas um interesse. Com o primeiro álbum tendo recebido tantas análises, não há mais espaço para a ambição. Meio que estraga esta parte, porque você já sabe o que esperar, e que nada vai funcionar do jeito que você espera no fim das contas”.

Ela não quer conquistar o mundo? “Não, o que eu adoraria fazer é, Francesco tem uma moto no andar de baixo”, ela diz.” Eu adoraria pegar a moto e ir a Coney Island e ter um papo incrível com você e depois pular na água.” De alguma forma, esse plano nunca surge novamente.

Mesmo como uma pequena criança, Elizabeth Woolridge Grant foi, em sua própria recordação, “obstinada, contrária”. Ela nasceu em Manhattan de pais que trabalhavam em empregos estilo Mad Men na propaganda da gigante Grey, mas quando ela tinha um ano de idade, eles abriram mão de suas carreiras e se mudaram para o sonolento norte do estado, Lake Placid. Seu pai iria começar sua própria companhia imobiliária, entrando em imóveis e então se tornou um investidor de sucesso em domínios da Web. Mas Lizzy só queria que eles tivessem continuado na cidade grande. “Era muito, muito quieto”, diz Del Rey, que comparou a cidade a Twin Peaks. “Eu estava esperando para voltar a New York City. A escola foi difícil. O sistema tradicional de educação não estava funcionando pra mim”.

Aos 14 mais ou menos, Lizzy começou a beber e sair com garotos mais velhos. O cenário, ela reconhece com uma risada, era parecido com o lancinante filme Aos Treze. “Em cidades pequenas, você meio que cresce rápido porque lá não há muito o que se fazer”, ela diz, “então você sai com a galera que já se graduou, e isso era totalmente normal. Mas não se encaixou muito bem na minha família”.

 “I’m a sad girl/I’m a bad girl,” ela canta no novo álbum – mas a parte triste não veio até mais tarde. Ela “se sentia apaixonada” por beber, compartilhando garrafas de aguardente de pêssego e cereja com suas amigas. “Eu senti como se eu tivesse finalmente chegado à minha própria vida”, ela diz, sua voz se tornando sonhadora. “Eu me sentia livre. Por mais que eu tenha amado deixar a cidade, quando eu fiz 15 anos eu já sabia que provavelmente iria ficar lá e ter uma vida lá. Quero dizer, eu tinha uma visão para mim mesma; definitivamente, naquele ponto eu não me via me tornando uma cantora nem nada parecido. Eu só queria crescer e me casar e me divertir. Ter minha própria vida, meu próprio lugar.” Seus pais, enquanto isso, queriam que ela se tornasse uma enfermeira.

Perdendo a paciência com suas festas frequentes, eles a enviaram para a Kent School em Connecticut. A mudança falhou em impedir suas bebidas, e ela estava miserável. Deixando de lado o aparente sucesso de seu pai, ela diz que tinha ajuda financeira da escola para se manter. “Eu era muito quieta”, ela diz, “tentando entender as coisas. Eu não me relacionava bem com o que estava acontecendo culturalmente”. Ela não gostava muito dessa história de garotas más. “O modo como as pessoas tratavam umas às outras, pra mim era meio cruel. A mentalidade do ensino médio, eu realmente não entendia. Eu não era realmente má, ou sacana”. Em uma música do início de sua carreira chamada “Boarding School“, ela menciona que faz parte da “nação pró-ana“, fazendo referência à anorexia, e canta, “Tive que usar drogas pra parar a compulsão por comida”. Mas ela insiste que isso é ficção: “A mentalidade da comunidade pró-ana era só algo que me interessou”.

Um jovem instrutor inglês a introduziu a Allen Ginsberg. Walt Whitman e Vladimir Nabokov (ela tem tatuagem do sobrenome dos dois em seu antebraço), além de Tupac, o notótio B.I.G. e filmes antigos como The Big Sleep. Frases de “Boarding School” e outra faixa não-lançada, “Prom Song“, deixou os fãs questionarem a natureza precisa desse relacionamento, mas Del Rey diz que não era nada inapropriado: “Ele era apenas meu amigo”.

Ela começou a pensar que ela poderia querer ser cantora, mas dificilmente poderia dizer isso em voz alta, especialmente a sua família. Eu só pensei que isso seria uma coisa presunçosa de se dizer, vindo de um cenário mais tradicional. Você não poderia dizer isso a menos que você esteja muito sério sobre isso”.

No verão posterior a seu último ano, de volta a Lake Placid, ela acordou doente e de ressaca numa manhã, e de repente percebeu que algo importante estava faltando. Eu perdi meu carro”, ela diz. Eu não conseguia encontrá-lo. E… Eu não sei, eu simplesmente o perdi. E eu só estava realmente doente. Essa foi só uma das razões do porquê minha vida estava tão complicada. Eu não queria continuar fodendo com tudo. E naquele ponto, se eu fosse continuar com aquilo, eu queria ter algo que eu realmente quisesse fazer”.

Ela diz que nunca tomou um drinque ou ficou chapada desde aquele ano, mas não iremos esclarecer se ela considera a si mesma uma alcoólatra, ou se ela já fez uma reabilitação. É só que você nunca sabe o que vai acontecer”, ela diz. Coisas mudam todos os dias”.

Ela entrou na SUNY Genesco, uma faculdade do sistema estadual de universidades de Nova York, mas decidiu não ir. Ela tirou um ano pra si, indo para a casa de sua tia e tio em Long Island. Ela trabalhou como garçonete, o que ela fez durante vários verões. E amava isso”, ela diz, apesar de sua mãe ter dito uma vez a um dos executivos de sua gravadora que ela era uma garçonete terrível.

Seu tio ensinou a ela um pouco de cordas de violão, e ela começou a tocar em shows abertos na cidade. Em algum lugar naquele tempo, ela leu a primeira biografia de Bob Dylan, de Anthony Scaduto, na qual ela viu um guia de como se tornar um artista.

No outono seguinte, ela se inscreveu na Fordham University no Bronx, onde ela se formou em filosofia mas dificilmente participou como uma estudante presente. Ela viveu com namorados, espatifada em sofás. Eu estava escrevendo, escrevendo, por anos”, ela diz. Tentando entender o que eu realmente queria dizer e por que eu era consumida por essa paixão por escrever, de onde veio isso. Isso me mantinha acordada a noite toda. Então eu estava esperando para entender o por quê. Isso era um mundo totalmente à parte”.

Ela iria andar de metrô tarde da noite, compondo letras em sua cabeça. Havia essas noites que eu adorava, simplesmente ficando acordada e escrevendo canções”. Ela cita uma música com tom pertencente a Cat Power chamado “Disco(“Eu sou meu único deus agora”, ela canta alegremente) e “Trash Magic” (uma amostra da letra: “Garoto, você quer vir ao motel, querido?/ Garoto, você quer me abraçar, dizer que me ama?“): Eu sentia como se eu estivesse capturando minha vida em forma da música, e isso era muito prazeroso. E isso era toda a minha vida, entende? E era muito feliz, porque eu estava fazendo exatamente o que eu amava”.

Uma competição de compositores de Williamsburg, Brooklyn, em 2006, a levou à gravadora 5 Points, uma pequena gravadora de Nichtern, quem, anos antes, escreveu o hit “Midnight at the Oasis” de Maria Muldaur. “Eu soube imediatamente que ela seria uma grande estrela”, disse Nichtern. “E ela sabia também, e não apenas pela sua ousadia ou bravura. Em certo nível ela soube que isso era o que seu karma.”

Nichtern a juntou com o produtor David Kahne, o cara por trás dos hits de Sublime e Sugar Ray, que se lembra de a levar às batidas eletroacústicas pela primeira vez. Kahne era um veterano da indústria com ótimos contatos e ela era uma jovem desconhecida, mas ele a encontrou um pouco assustada. “Ela era misteriosa,” Kahne diz, “Eu estava muito confuso na época se o que eu estava fazendo era certo ou errado, se ela gostava disso ou não. Parecia, várias vezes, como se tudo pudesse mudar repentinamente.” Como, por exemplo, o nome Lizzy.

Lana Del Rey é, diz ela, a mesma pessoa – a mesma artista até – que Lizzy Grant. Não há, tipo, uma separação entre as pessoas”, ela diz. Na verdade é só um nome diferente, e é tipo onde isso começa e termina. Eu só achei que fosse estranho, sendo nascida em um local geograficamente controlado, e ter um nome que eu não escolhi e ir pra escola por fodidos 23 anos. Isso era simplesmente impossível pra mim. Então eu pensei que escolhendo esse nome, era simplesmente mais como se eu me tornasse quem eu sou, entende? Isso não era relacionado à música. Era apenas parte da minha vida”. O outro possível nome era Cherry Galore, ela diz, provavelmente brincando: “Você estaria sentado aqui me chamando de ‘Cherry’?”.

Naquela época Lizzy se tornou Lana para sempre, 5 Points já tinha lançado um EP das sessões de Kahne sob o nome Lizzy Grant – e o iTunes selecionou Lizzy como uma das melhores novas artistas de 2008. “Conforme fizemos o álbum, ela diz algo como ‘Eu realmente quero mudar meu nome’,” lembra Nichtern, que vinha levando Lizzy e o álbum através da indústria. “Se nós estivéssemos fazendo um filme, você teria uma surpresa. Nós teríamos chegado longe com Lizzy Grant.” Mas Del Rey encontrou um novo agente, pintou seu cabelo de loiro para o castanho e estava pronta para seguir em frente. Eles terminaram tudo, exterminando a existência dos LPs da internet, o que parece como se eles estivesse tentando esconder o passado de Del Rey, contribuindo para a conspiração de que ela era um produto. “E se isso criou uma suspeita aos olhos dos esquisitões na internet, então tudo bem”.

Del Rey foi a Londres por meses em sessões de composições, uma das quais rendeu uma elegíaca ode a um namorado que gostava de jogar World of Warcraft, apesar de ela saber que a simplicidade chamada de “Video Games” era bastante poética (“Às vezes uma garota só quer generalizar”). Ele começou a fazer vídeos usando o iMovie, mixando segmentos de imagens de si mesma na webcam e clipes do YouTube: Só colocando coisas juntas, construindo um pequeno mundo”. Ela aperfeiçoou a introdução com “Video Games“, criando um vídeo viral para o lançamento de carreira. Mesmo ela encarando ação legal por se apropriar de sequências, as pessoas a acusaram de não ter feito o clipe de “Video Games” sozinha – The New Yorker, de todos os lugares, o chamou de “supostamente caseiro”. Eu definitivamente não diria que fiz algo que eu não fiz”, ela diz com um suspiro, mostrando a mim o software em seu MacBook, o qual tem um rachado na tela. Isso seria estranho”.

É uma clarividência apropriadamente suficiente, quem deu a primeira sugestão de que algo iria dar errado no segundo dia. Eu estava tentando pensar na merda que poderíamos fazer”, Del Rey diz, me cumprimentando outra vez na porta da sua casa. A única coisa que eu poderia pensar era se nós podíamos ver um psíquico juntos”. Em todo caso, ela precisava de cigarros, então nós saímos para o calor de Junho. Ela está usando um óculos de sol barato, de armação dourada e lentes cor de pêssego. Ele é tão feio”, ela diz, caminhando pela rua Blecker. Óculos cor de rosa. É o que o médico ordenou”.

Del Rey cresceu no catolicismo, mas ela tem uma inclinação mística. Eu sou definitivamente uma pesquisadora”, ela diz. Enquanto ela estava esperando o álbum de Kahne sair, ela se envolveu com um guru do East Village” que tinha uma habilidade de ver através do passado e ler seu futuro”. Mas ela deixou sua órbita depois de detectar algo “sinistro” nele.

Nós acabamos pagando uma visita a uma vitrine psíquica ao lado de uma bodega, em uma sala assustadora de paredes vermelhas. O místico se transformou em uma mulher inesperadamente jovem usando um vestido curto vermelho, que começou a impor regras sobre “energia”. Del Rey lhe pediu para fazerem leitura juntas, mas a psíquica objeta: Eu posso falar com a jovem senhorita sozinha?” O passeio está se tornando divertidamente sem sentido.

Del Rey está rindo enquanto voltamos para a casa, embora talvez levemente irritada. Merda”, ela diz. Eu deveria ter pensado melhor nisso. Eu não acho que ela tinha o dom. É sempre uma vibe negativa a menos que você vá a alguém que, tipo, seja famoso”. A psíquica lhe disse que esse é seu ano de amor e felicidade – Del Rey brinca que ainda há seis meses sobrando. Ela está divertida em ouvir que sua psíquica me disse que eu sou espiritualmente sensitivo: Ela poderia provavelmente dizer que você pensou que ela estava sendo uma maldita vadia”.

Nós voltamos à conversa, com Del Rey soprando a fumaça do cigarro pela janela, através da luz. Nós finalmente tocamos no assunto Saturday Night Live, ainda um assunto perigoso. A apresentação, ela continua, não foi dinâmica, mas foi fiel à forma”. Mas a reação foi agonizante. Ela sentiu seus amigos da música se afastando dela. Todos que eu conhecia de repente não estavam tão certos sobre mim”, ela diz. Eles estavam, tipo, ‘talvez eu não queira ser associado a ela – não é uma grande reputação’.” Iovine diz que eles simplesmente “foram pegos em alta velocidade” com a performance anterior, e que ele passou um tempo no estúdio depois escondendo Del Rey usando fones de ouvido.

“Eu me sinto louca”, Del Rey diz. “Mas eu não acho que sou. As pessoas fazem com que eu me sinta louca.”

Eu lhe perguntei sobre “Ride“, uma música onde ela canta sobre o sentimento “fodidamente louco” – não um sentimento isolado em seu catálogo. Bem, eu me sinto fodidamente louca”, ela diz. Mas eu não acho que sou. As pessoas fazem com que eu me sinta louca”. Nós conversamos um pouco sobre o lance do “eu queria estar morta”, o qual ela culpa as questões principais. Eu descubro que a maioria das pessoas que eu conheço acham que eu meio que quero me matar, ou algo assim”, ela diz. Então isso surge o tempo todo”.

Então, realmente sem avisar, seu humor muda. É como uma coisa poderosa, palpável na sala, como uma repentina massa de nuvens ameaçadoras. Seus olhos parecem ficar num tom mais escuro: Confie em ninguém. Eu pergunto, perversamente, sobre “Fucked My Way Up To The Top“, uma das melhores canções do Ultraviolence, na qual ela ataca um imitador não-denominado que não precisou da mudança que Del Rey precisou. Pode ser a Lorde, que criticou as letras de Del Rey, mas tem um estilo de voz não-diferente.

Ela só lançou a música ontem, mas ela não quer falar sobre isso. Agora você está me incomodando”, ela diz, meio que tentando soar como se ela estivesse brincando. Ela acende um cigarro, parecendo miserável.

Nós começamos uma conversa agonizante e infinita sobre nossa entrevista e seu relacionamento com a imprensa. Eu descubro que a natureza das questões são difíceis”, ela diz, porque não é como se eu fosse uma banda de rock e você estivesse perguntando como tudo deu certo e o como é estar fazendo turnês em arenas e do que as garotas gostam. É sobre meu pai. É sobre minha saúde mental. É malditamente pessoal. E essas perguntas todas tem inferências negativas: É como ‘o SNL’, ‘você realmente quer se matar?’… Talvez eu esteja sensível. Você acha?”

Aí é quando ela diz que ela não quer estar na capa da Rolling Stone mais. Ela também diz, O que você escreve não vai importar” – significa que nada irá mudar a mente de quem fala mal dela.

Isso continua de novo e de novo. Você atinge toda a minha mais sensível fraqueza, todos os meus tendões de Aquiles. Você está fazendo todas as perguntas certas, eu só não quero respondê-las.

Toda a atenção de se abrir com esses ressaltos retóricos parece ficar ainda pior. Del Rey se levanta, em um distinto gesto de “hora de ir”.

Eu definitivamente me apresentei bem, e isso é tudo o que eu fiz, ela diz, descendo as escadas comigo. E isso nunca me leva a lugar algum. Eu só estou desconfortável, e não tem nada a ver com você.

Indo para fora, eu tento a convencer que sua crise de confiança ter acabado com a entrevista não é um grande problema. É, de novo, a coisa errada a se dizer.

Não é uma crise de confiança, não é!”, ela diz parada na porta da frente. Eu sou confiante”. Seus olhos estão flamejantes com dor e orgulho. Eu sou. Ela diz adeus, e fecha a porta.

 

Traduzido por Raphaella Paiva, Guilherme Lewer e Wesley Lima.

 

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Redação LDRA
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