‘Nunca quis ser famosa, só queria ser respeitada’, leia a entrevista concedida à revista alemã Piranha Magazin

por / terça-feira, 01 julho 2014 / Publicado emEntrevistas

Piranha

 

Lana Del Rey: “Eu só queria ser respeitada”

Nós encontramos com Lana Del Rey no dia seguinte de sua celebrada apresentação no festival que ocorre no deserto californiano, o Coachella. O hotel onde a encontramos se chama Sunset Marquis, localizado na parte oeste de Hollywood e que tem sido uma instituição de rock and roll há décadas. Lana chega desfilando, acompanhada pelo seu amigo, o músico escocês Barrie-James O’Neill. Ela veste uma blusinha leve, um short jeans e sandálias. Seu cabelo está castanho, ela parece mais natural e mais atraente do que quando a entrevistei na era Born to Die, há dois anos e meio. Muito aconteceu desde então, a cantora de 28 anos batizada Elizabeth Grant, que havia lançado dois álbuns rejeitados sob esta alcunha, encantou o mundo com sua música (que tinha uma estética solar da década de 60). Agora “Video Games” e “Summertime Sadness” são praticamente clássicos, e as expectativas de Ultraviolence obviamente cada vez mais altas.

A impressão: não foi apenas a aparência de Lana que se tornou mais natural, mas também sua música. O sintetizador, o hip hop e as batidas marcantes de seu primeiro álbum não tem mais papel aqui. Ao invés disso tudo, há um toque do final da década de 60 e início da década de 70 (The Eagles, Fleetwood Mac, Beach Boys), um pop opulento com muitas cordas, violões, guitarras e uma voz que soa mais como um belo gemido triste, tão lindo como em Born to Die. Claro que as melodias continuam suaves e melancólicas, com o single “West Coast”, que é tão leve quanto você poderia esperar de Lana.

E o que mais você poderia esperar de, por exemplo, “Money Power Glory” ou “Fucked My Way to the Top”, um pop de tão alta qualidade e teatral? Dan Auerback, o frontman do The Black Keys, e um minimalista consagrado, não apenas produziu o álbum, mas certificou-se de que o Ultraviolence não soasse tão carregado.

Steffen Ruth: Lana, o que você achou de sua performance no Coachella?
Lana Del Rey: Achei ótima. Preciso dizer que essa performance foi um dos meus melhores momentos. Foi simplesmente ótimo. Tudo foi tão fácil. E normalmente na minha vida, nada é fácil.

SR: Parece que as pessoas duvidaram muito da autenticidade de “Video Games”, de sua autenticidade, da autenticidade de suas músicas.
LDR: Ah Deus, sim. Esse foi um problema muito grande.

SR: Você concorda que você mesma resolveu essa controvérsia? Ninguém mais está lhe chamando de cantora fabricada, certo?
LDR: Possivelmente, sim. Ainda suspeito da opinião alheia. E ainda assim acredito nas minhas músicas, sempre acreditei. Estou certa de que não se pode criar algo de valor eterno para a música pop se não tiver algo a dizer. Ou se alguém for apenas um fenômeno volátil. Sei que um dia eu poderei contar toda a história de minha vida para meus filhos através de minhas músicas.

SR: Porque você polarizou tanto?
LDR: Nunca soube, e ainda não sei. Talvez eu tenha sido tão honesta com minha história e minhas experiências que tinha que incluí-las nas músicas. Acho que é muito triste e infeliz que sinceridade tenha encarado tanta rejeição.

SR: Em “Fucked My Way Up to the Top” você canta “a vida é ótima”. Esse é seu novo modo de vida?
LDR: Bom, a música é pra ser sarcástica. É sobre essa cantora que eu detesto. E ela também me detesta. Primeiro ela reclamou sobre meu estilo não ser original, e depois ela me copiou. E agora ela age como se eu fosse arte e uma artista super autêntica. Ela é desonesta, copiadora, querendo ser ícone de estilo. Isso me irrita muito.

SR: A canção “Money Power Glory” também é sobre sua vida limitada como pop star?
LDR: Sim. As duas canções são similares, como irmãs. Quando compus “Money Power Glory”, estava tão triste como não me sentia há anos. Claro, ganhei dinheiro pela primeira vez em muito tempo, tinha uma certa aura, então um pouco de poder também, e certamente tive momentos de glória. Mas o reconhecimento que eu queria me foi negado. Nunca quis ser famosa, só queria ser respeitada.

SR: As músicas em Ultraviolence são bem quietas, calmas, algumas vezes como hinos e muito atmosféricas. Os elementos de hip hop presentes em seu primeiro álbum, Born to Die, ficam em segundo plano.
LDR: Exatamente. A grande inspiração em Ultraviolence são os sentimentos. No primeiro álbum, devido ao trabalho com o produtor Emile Haynie, que também um grande amigo meu, que as músicas tiveram um toque de hip hop da década de 90. E quando eu estava no estúdio trabalhando no Ultraviolence, me encontrei com o Dan Auerbach em um restaurante de Nova York. Depois fomos a uma balada, e eles tocaram o remix de “Summertime Sadness” e começamos a dançar juntos. Depois nos olhamos, rimos e dissemos quase que simultaneamente: “Não seria engraçado se trabalhássemos juntos?”. O que gostei em Dan é que ele é espontâneo demais, e que ele simplesmente concordava com minhas ideias e decisões. Voei para Nashville na semana seguinte, ele convidou seus músicos favoritos e seis semanas depois o álbum estava pronto.

SR: Apesar todas as influências retrô, você desenvolveu uma linguagem musical única.
LDR: Obrigada, é muito importante para mim quando você diz isso. Ainda tenho muito a agradecer por ter alcançado um público com minhas músicas. Não importa o que os outros dizem, desenvolvi minha música sozinha, sob minhas próprias regras. Não sou um produto de fábrica, quero deixar isso claro.

SR: Você está morando em Los Angeles atualmente?
LDR: Sim, moro com Barrie e com meus dois irmãos mais novos, Charlie e Caroline, em um chalé perto de Los Angeles.

SR: Então você se tornou uma garota da costa oeste?
LDR: Sim. Gosto muito da história e da cultura da costa oeste. Em meu novo vídeo, por exemplo, meu tatuador favorito aparece, Mark Mahoney, que é um grande mestre de seu trabalho. A energia de Mark e de profissionais do skate, que também estão no vídeo, fazem de Los Angeles uma mistura incrível, que eu adoro.

SR: Como você concilia sua vida entre uma indie do Brooklyn e uma estrela de Hollywood?
LDR: Bom, talvez esse seja meu desafio na vida. Alguns dias são muito fáceis, mas às vezes perco minha identidade e não sei onde me sinto em casa. Felizmente tenho mais dias alegres do que dias ruins.

 

Por Steffen Ruth
Tradução por Lucas Almeida

 

Confira em nossa galeria scans da revista e as fotos usadas (que foram feitas por Neil Krug para divulgação do Ultraviolence):



Redação LDRA
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