‘Todos que estão criticando minha música estão criticando a mim como pessoa’, confira a entrevista concedida ao jornal Kronen Zeitung

por / sábado, 12 julho 2014 / Publicado emEntrevistas

Kronen

Em entrevista ao jornal austríaco Kronen Zeitung, Lana falou sobre algumas das músicas do Ultraviolence, o processo de gravação do álbum e sobre o seu desejo de se apresentar em vários países com uma tour para divulgá-lo no ano que vem. Leia abaixo a tradução da entrevista que foi publicada há uma semana (5 de Julho).

 

Roberto Fröwein: Lana, em uma recente entrevista você especificou que quando escreve músicas você também está documentando algo do presente ou olhando pro futuro e sonhando. Então você é uma sonhadora?
Lana Del Rey: Com certeza. Eu acho que os sonhos são tão importantes quanto a realidade. Eu aprendi isso com o autor Charles F. Haanel que escreveu um livro chamado “The Master Key System”. Eu ainda me lembro quando eu era bem jovem e sonhava com o meu futuro. Essa imaginação futura continuou se manifestando em minha realidade/se tornando mais e mais realidade. Essa manifestação é muito importante pra imaginar seu mundo interior e acreditar em seus sonhos.

RF: Então você está muitas vezes deliberadamente deixando a realidade?
LDR: Às vezes, mas eu sinto como se os meus sonhos fosse muito próximos da realidade porque eles são tão reais. Muitos deles na verdade se tornaram realidade mesmo de uma forma um pouco estranha do que eu pensava. (risos)

RF: Em contraste ao seu álbum de estreia “Born to Die”, sua nova composição “Ultraviolence” soa mais vulnerável. O ouvinte pode literalmente ouvir a dor em algumas de suas músicas. Por que esse álbum ficou tão melancólico?
LDR: Eu acho que para todas as coisas boas e bonitas que aconteceram comigo nos últimos três anos houve também certa amargura. Algumas experiências que eu passei tinham uma tristeza ou um tom suave de dificuldade. Eu acho que muito frequentemente eu tenho sido mal interpretada. Além do mais, eu tinha que lidar com algumas dificuldades pessoais em minha vida. Certas coisas que eu não posso controlar às vezes me colocam muita pressão e influenciam fortemente o som do álbum que aqui e ali é bastante pesado. Há certa opressão no álbum, mas eu não tentei deixá-lo triste de propósito.

RF: A música “Sad Girl” é autobiográfica? Você está descrevendo a si mesma como uma triste garota lá?
LDR: Bem, eu meio que estou brincando com clichês. Talvez eu seja um pouco sarcástica nessa música. Mas ela tem uma vibe jazz impulsora e de certo modo tem influência autobiográfica.

RF: Às vezes é doloroso pra você quando você está escrevendo letras muito pessoais e acaba colocando termos do passado em suas músicas?
LDR: Não, na verdade é muito divertido e um alívio pra mim. É de fato doloroso pra falar – depois que as músicas estão finalizadas – com pessoas que consideram você uma inspiração e podem ficar desapontadas com você. Então você está lá tentando se explicar e isso é muito difícil e até doloroso.

RF: Em “Cruel World” você surge com termos sobre o fim de um longo relacionamento. Então não é realmente difícil pra você escrever letras como essa?
LDR: Não, eu acho que o mundo é catártico. Nessa canção eu mergulhei dentro dessa catarse, há muita beleza e reflexão nela. Talvez isso entristeça você quando se está ouvindo a música, mas na verdade não é pra ter esse efeito.

RF: O que você quer dizer exatamente com “Ultraviolence”? Esse título parece um tanto agressivo.
LDR: Eu amo palavras com grande força de expressão. Palavras que imediatamente fica na sua mente. Eu também sou influenciada por certas pessoas e com “Ultraviolence” eu quis criar um mundo que se encaixa no contexto dessa palavra. De qualquer forma, eu tinha o título antes mesmo do álbum. Eu amo escolher palavras e construir algo em volta delas. É uma palavra forte e isso é imensamente importante pra mim.

RF: Desde seu aparecimento fulminante no palco do pop você tem sido criticada por todos os lados. Como você lida com isso?
LDR: Não muito bem, pra ser honesta. Quando se trata disso eu não sou muito diferente de qualquer outro humano – nem tudo me deixa fria, mas está ficando mais fácil a cada dia. Quando críticos falam sobre minha família, eles podem estar esclarecendo algo porque pra mim isso é uma zona de tabu absoluta. Quando as pessoas dizem que minha música é chata, eu percebo isso como um insulto porque todos que estão criticando minha música estão criticando a mim como pessoa. É frequentemente um julgamento puro sem ir a fundo e pensar o que pode estar por trás disso. Apesar de tudo, eu poderia dizer que isso realmente me afeta, mas me chateia menos a cada dia. Isso também depende do quão importante o ambiente é. Se for um muito importante mas completamente errado, então isso me incomoda.

RF: Você leva isso mais pro lado pessoal, então?
LDR: Eu realmente me importo muito com as minhas canções, bem como a herança e a história de toda a minha música. Eu estou sempre tentando proteger minhas músicas novas e antigas da melhor forma que eu posso. É por isso que eu levo pra um lado tão pessoal.

RF: De qual humor você precisa pra compor músicas?
LDR: Eu preciso me divertir. Essa é também a razão do porquê o álbum foi produzido pelo Dan Auerbach, do Black Keys. Eu o conheci em uma boate e percebi que ele é um cara muito relaxado e legal. Ele definitivamente trouxe espontaneidade pro álbum. Eu gostaria de participar de uma músicas dos Black Keys e eu sou uma grande fã. Vamos ver se isso acontece. 

RF: O especial sobre suas músicas é, em contraste com a maioria de todos os outros produtos que estão encabeçando os charts, elas nem ao menos tem elementos eletrônicos nem uma característica pra se tocar em festas. Por que você é, apesar disso, tão bem sucedida?
LDR: Por esse ponto de vista você poderia dizer que eu sou muito sortuda. Estou fazendo exatamente o tipo de música que eu gosto de ouvir quando estou dirigindo em meu carro e colocando um vinil na minha casa à noite. É importante pra mim que a música crie um humor especial e que isso seja atmosférico. As críticas são, em sua maioria, maldosas, mas eu sou sortuda por ter chegado tão longe. No final do dia você somente está feliz se você fez o que é divertido pra você – eu tenho essa sensação. Eu também gosto de música desleixada e otimista, mas eu sou uma pessoa mais reflexiva e pensativa. Por isso minha música é mais lenta também.

RF: Você gravou o álbum em diferentes cidades. Isso dependia do seu humor ou era apenas por razões de produção?
LDR: Isso foi principalmente sobre produção. Eu comecei na Califórnia junto de Rick Nowels porque eu já tinha escrito “Summertime Sadness” e “Dark Paradise” com ele – agora “West Coast”. Eu compus as letras e as melodias e ele fez os acordes. Eu mesma produzi o álbum no Electric Lady Studios em Nova York e quando eu conheci Dan Auerbach nós fomos pra Nashville.

RF: Você acabou de dizer que, pra compor músicas, você precisa estar de bom humor. Mas uma das suas músicas é chamada “Pretty When You Cry”. Então você somente se sente bonita quando está chorando?
LDR: Não, um cara me disse isso uma vez quando eu estava zangada e derramei algumas lágrimas. Eu não gostei realmente de ele ter dito isso pra mim, mas essa era a frase perfeita pra um título de música. (risos)

RF: Com a música “Money Power Glory” você está atacando críticos do seu primeiro álbum de um jeito sarcástico.
LDR: Sim, um pouco. A música tem um ano e meio, por isso ela é a mais velha do “Ultraviolence”. A música surgiu em uma época quando eu estava muito frustrada pelo mundo externo. Algumas pessoas se limitavam a me relacionar com o dinheiro. Eu tive muita sorte e poder então houve conotação negativa em termos de vergonha e não glória. Eu não queria ser vista assim, mas em algum ponto eu sabia que tinha que aceitar isso. Mas não é uma agressão direta, eu também brinco com metáforas. Ao mesmo tempo, a respeito da música escrita, eu sempre pensei que a coisa toda não valia a raiva porque eu não gosto de ser sarcástica. De qualquer forma essa música só tinha que ser simples.

RF: O que você aprendeu nesse tanque de tubarões da indústria da música nos últimos anos, depois de ter ascendido tão rápido?
LDR: O que eu aprendi foi que mesmo antecipadamente eu costumava ser diferente e nada mudou quanto a isso. Só de estar sentada aqui eu sei mais sobre por que as pessoas não gostam de mim ou das minhas músicas. Quando eu tinha uns 20 anos eu escrevia músicas, eu era invisível. Eu vim de um plano de fundo alternativo e não tinha que lidar com repórteres ruins. Quando as pessoas cada vez mais começavam a ouvir “Born to Die” e o álbum se tornava mais e mais popular, elas provavelmente pensavam: “Quem diabos ela pensa que é? Se ela quer influenciar, ela deveria pelo menos ser mais inspiradora”. Minha música nunca foi feita pra ser popular, de qualquer forma isso é por que nunca era pra ser música pop. É mais música alternativa. Eu acho que isso incomodou a maioria das pessoas porque as expectativas não atenderam a todos. Mas acima de tudo, eu estou compondo minha música e, por isso, eu não tenho nada a ver com as histórias que foram escritas sobre mim. Agora há uma separação completa da minha vida pública.

RF: Às vezes é difícil pra você ser tão famosa?
LDR: Às vezes. Porque a verdade é o que as pessoas pensam de você. A verdade é o que as pessoas pensam que eles sabem sobre você. É difícil viver minha vida normalmente se eu já sou caracterizada por tantos. Visto de um ponto psicológico é realmente louco. Mas, bem, está tudo bem.

RF: Como você relaxa de toda essa pressão e problemas que seu trabalho e a fama trazem juntos?
LDR: Há duas coisas que eu realmente amo. De um lado eu realmente aprecio ir a shows. Recentemente eu vi Courtney Love em Troubadour. Eu também vi Guns n’ Roses, KISS, Mötley Crüe e The Who. Você sabe que eu sou uma garota do rock. E eu gosto de estar na praia e eu amo a Califórnia. Essas duas coisas me acalmam muito rapidamente. 

RF: Quanto tempo leva até você se satisfazer com uma música?
LDR: Isso não depende necessariamente do tempo, mas em como as letras se parecem, como eu canto certas passagens e como a melodia se encaixa. Se você estiver considerando tudo isso, na verdade levou dois anos e meio. (risos) Algumas músicas como “Cruel World” e “Pretty When You Cry” fizeram isso muito rapidamente, com outras eu estive trabalhando por mais de um ano. 

RF: Você está se sentindo confortável no palco quando está fazendo um show ao vivo atualmente?
LDR: Sim, eu me sinto muito mais confortável agora. No começo eu costumava ser muito tímida, mas com experiência, cada concerto se torna melhor e melhor. A plateia é sempre muito receptiva e feliz. Quando eu estou começando o show virada de costas pra plateia e fazendo meus aquecimentos, eles já estão cantando juntos muito alto e me apoiando. Eles simplesmente não se importam que eu não seja tão extravagante e super animada. 

RF: Finalmente: Quando você planeja apresentar seu álbum na Europa?
LDR: Eu espero que eu possa apresentar o álbum em todos os lugares no ano que vem. Eu não posso dizer muito agora.

 

Por Roberto Fröwein
Traduzido por Raphaella Paiva

Redação LDRA
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