Leia a tradução da review feita pela revista Time sobre o ‘Ultraviolence’

por / terça-feira, 17 junho 2014 / Publicado emNotícias

Time

Foi publicada hoje no site da revista ‘TIME’ uma review do álbum Ultraviolence. Confira a tradução abaixo

 

REVIEW: Ultraviolence de Lana Del Rey é o álbum que precisamos agora


Dez anos atrás, eu pendurei um poster na minha parede que dizia, “Ser as aventuras de um jovem homem que tenha como principais interesses estupro, ultraviolência e Beethoven”. Ele era uma réplica de um anúncio vintage para o filme Laranja Mecânica, comprado em um
 plástico laminado da minha loja de artigos punks local. A adaptação de Kubrick do livro de Anthony Burgess é como isso: Um ladrão em série e estuprador de 15 anos de idade chamado Alex mata uma mulher, depois opta por uma reabilitação psicológica durante sua pena em uma prisão. A reabilitação acidentalmente o condiciona a odiar sua música favorita, destruindo até as partes inocentes de sua identidade. A história conclui que para ser um humano completo, homens precisam ser livres para escolher assassinar. Não importa o dano colateral de, assim dizer, mulheres mortas. Você não pode previnir criminosos; você pode apenas puni-los.

Lana Del Rey aparece em sua complicação ainda maior em seu segundo álbum, Ultraviolence. Na música título, ela canta através de espasmos de um relacionamento fisicamente abusivo. Ela repete o título de “He Hit Me (And It Felt Like a Kiss)”, uma música escrita em 1962 por Gerry Goffin e Carole King, gravada pelo The Crystals e Phil Spector, e depois renegada por King. Del Rey canta sobre um homem que a apelida de “veneno” e “belladonna”, então bate nela de um jeito que a faz suspeitar que seja um sinal de amor verdadeiro. Ela ouve sirenes, dos tipos que significam emergência ou os tipos que a isca para ser jogada contra a costa. Ela ouve violinos e violência na mesma palavra. “Eu poderia ter morrido ali mesmo porque ele estava ao meu lado”, ela canta, sua voz pairando sobre isso. Morrer de amor ou morrer por causa dele? Há uma diferença?

Auxiliada pelo talento de produção de Dan Auerback de The Black Keys, Ultraviolence apresenta uma cornucópia infinitamente fascinante da disfunção. A voz de Del Rey floreia. Dentro do grande balanço vintage do álbum, ela canta a si mesma por lugares que Born to Die, que é folheado de pop, não poderia chegar. Suas letras abastecem a trilha maravilhosa para o mais recente projeto de The Black Keys, Turn Blue, o qual terminou numa conclusão que “todas as mulheres boas se foram”. Malditamente certo, Del Rey parece zombar. Aqui vai uma galeria de pessoas más.

Tanto Del Rey quanto Auerbach se baseiam em significantes da cultura do século XX, mas suas motivações ao olhar pro passado parecem ter milhas de distância. The Black Keys encontra conforto nos anos 1970. Eles adotaram um modo de tocar e compor que é bem constituída e fácil de recordar carinhosamente. Ultraviolence, ao mesmo tempo, soa nostálgico. Ele não engancha ao passado através dos papéis desempenhados pelas cantoras do século passado, apesar de Del Rey dominar a feminilidade clássica como uma arma estética. Aqui, ela usa um gênero que já foi emoldurado numa visão idealizada de saudade feminina e preenchido com toda essa ideia das outras mulheres: as mulheres implícitas pelas canções que homens cantavam, as mulheres que serviam como forragem para gerações de corações partidos por homens.

Derramando os apertados refrões e amostras de hip-hop que impulsionaram seu primeiro álbum, Del Rey agora mergulha completamente no impulso do século XXI de tornar a cultura do século XX um fetiche. “Eles dizem que eu sou muito nova pra amar você”, ela sorri em “Brooklyn Baby”. Primeiramente soa como se ela estivesse falando sobre um homem mais velho, mas se transforma em uma conversa sobre um monte deles: Lou Reed, a geração Beat, a primeira geração de músicos de jazz e então cresce. A música não é sobre Brooklyn de 30 anos atrás, que se foi faz tempo, que era ideal para artistas que viviam rápido e com simplicidade. Não, a música é sobre a Brooklyn de agora, um confuso museu vivo que honra sua própria memória geográfica através de um bizarro canibalismo cutural. “Eu sou uma garota do Brooklyn”, ela canta. “Se você não entende, então esqueça”. Isso é de longe a música mais milenar já escrita.

Ao longo do Ultraviolence, ele marca a superfície da cultura de ouro e então desaparece. Chevy Malibus circulam pela costa da Califórnia, mulheres usam colares de pérola e bobes em seus cabelos, e até Hemingway aparece brevemente ao lado de Burgess. Del Rey controla a órbita deles como se ela injetasse ela mesma para dentro de toda a arte que ela consumiu tempo depois que isso desvaneceu do zeitgeist (termo alemão cuja tradução significa “espírito da época”). E ela é assim. Sua re-imaginação do passado consigo mesma ao centro disso surge como uma necessidade, não conforto. Todas essas mulheres que rock stars cantam sobre? Elas eram pessoas reais, e nós nunca ouvimos falar do lado delas das histórias. Del Rey canta nesse vazio. Graças às suas palavras, sua voz e sua impenetrável presença, ela dá a essas mulheres vida interior.

“Eu sou fodidamente louca”, ela insiste em “Cruel World”. “Eu quero seu dinheiro, poder e glória”, ela demanda em “Money Power Glory”. “Eu fodi meu caminho para o topo”, ela se vangloria na canção assim intitulada, naturalmente, “Fucked My Way Up To The Top”. “Esse é o meu show”. Em uma série de manobras que deliciosamente lembram Kanye, ela antecipa o pior de seus críticos.

Del Rey bravamente enorme e frequentemente com gestos absurdos, mas meu Deus, ela soa como se quisesse significar isso. O refrão de “Money Power Glory” articula como sua melodia mais triunfante até agora, enquanto “Shades of Cool” e “West Coast” dão arrepios com seus sopranos de coração partido. Ela nunca cantou assim antes. Os personagens e artefatos que rodeiam essas músicas parecem artificiais, como suportes de adereços, mas a música que Del Rey evoca os divide, balança suas vidas. Ela caminha por essa fina linha de alto melodrama, demandando investimento emocional em histórias que, de forma nua, exibem sua própria falsidade. A forma como ela canta, você começa a imaginar que há amor verdadeiro em algum lugar dentro de todo esse brilho.

Esse amor escoa da forma mais complicada através de uma de suas músicas mais difíceis de digitalizar, a lenta e ardente, baseada em cordas, “Old Money”. A penúltima faixa do álbum alcança o mesmo patético doce de “Young And Beautiful”, a recente contribuição de Del Rey para a trilha sonora de O Grande Gatsby. Talvez “Old Money” toma o lugar dentro da mesma ficção. O jeito que encaixa a riqueza ao lado da perda, possessão material ao lado da carência emotiva, eu acho que poderia. Ela soa como se fosse cantada por Daisy Buchanan, o amor perdido de Gatsby, cuja história foi unicamente contada pelo homem próximo a ela. De certa forma, Del Rey dá ainda mais vida ao personagem do que Carey Mulligan deu pelas câmeras. “Eu irei correr até você, eu irei correr até você / Eu irei correr, correr, correr”, ela canta em um timbre que por si só cristaliza o desejo e aconchego paradoxal de Daisy, a sutil tristeza, uma tristeza que F. Scott Fitzgerald usou para simbolizar uma traição americana que ainda continua.

Eu continuo procurando mais afundo no Ultraviolence porque eu quero entender o que Del Rey está tentando entender. Eu quero saber por que a cultura ao meu redor continua ávida aos emblemas do passado — por que fazer os pôsteres de filmes de 40 anos atrás ainda decoram dormitórios de faculdade, por que eu posso fazer meu iPhone parecer uma Polaroid, por que 90 mil pessoas cantam junto as raízes do rock no Bonnaroo. Eu quero saber por que nós reutilizamos esses bordões acriticamente, buscando por análogo sem perguntar o que dá esse poder. Lana Del Rey aparenta o imaginário que nós mantemos e tentamos encontrar o que está faltando. O que nós evitamos olhar quando nós compramos fotografias de Marilyn Monroe, não pensando no por que Norma Jeane Mortenson morreu tão jovem? Cujas histórias nós permitimos continuarem por sob os panos? Ultraviolence surge para preencher os vazios por trás dos ícones, para imaginar a mágoa e o desespero e a raiva verdadeira das mulheres ainda expressas em holofotes dos homens.

A palavra “ultraviolência” usada de Laranja Mecânica refere ao espancamento de gangues que ultimamente parecem contar como apenas uma violência regular. Eu não tenho certeza se é isso o que Del Rey se refere aqui. Ela usa a palavra para cantar sobre agressão física, mas a violência final parece como se isso fosse apagado, silenciado, negado, o tipo de coisa que você não quer ouvir porque é uma ausência da natureza. Você pode ver isso se você ler On The Road ou ouvir Berlin e tentar imaginar as vidas internas de mulheres que são mencionadas nas passagens, que existem apenas para escupirem as histórias dos homens.

Esse espaço negativo é seu próprio tipo de violência. Lana Del Rey avança para as sombras que isso deixa. Ela tem o poder lá, sussurrando velhos segredos, dando voz aos personagens que nunca falaram por si mesmos. Ela contrapõe um mundo em que “estupro” nem sequer é considerado na mesma categoria que “ultraviolência”, arrastando-se à segunda palavra e o proclamando em letras maiúsculas abaixo de uma foto dela mesma olhando enigmaticamente para a câmera. Ela faz sua violência à cultura do século passado assim como nós nos rendemos a isso em píxels pela segunda vez. Ela é exatamente a vilã que nossa história precisa.

Faixas essenciais: “West Coast”, “Money Power Glory”, e “Old Money”

 

Por Sasha Geffen
Tradução por Raphaella Paiva

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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