Site ‘Pitchfork’ publica matéria sobre o Ultraviolence e a questão do empoderamento feminino

por / quinta-feira, 19 junho 2014 / Publicado emNotícias

pitchfork

Lindsay Zoladz fez em sua coluna, “Ordnary Machines”, no site Pitchfork, uma breve análise do Ultraviolence, baseada no conceito de “empoderamento” feminino da sociedade atual, e os motivos pelos quais ele espelha o pensamento da nova geração de mulheres. Confira a tradução a seguir:

 

Pretty When You Cry

Em uma cultura que espera que as mulheres sejam objetos felizes e brilhantes, tristeza pode se tornar sua própria forma de desafio.

Alguns meses atrás, um homem pouco conhecido que trabalha em meu escritório veio para mim e disse, “Por que você não nos dá um sorriso, querida?” O que eu lhe dei, em troca, foi um olhar confuso, seguido por um tardio, radioativo olhar mortal desconfiado para a traseira de sua cabeça enquanto ele andava entre alguns de meus colegas homens, em direção à porta. A expressão facial de ninguém é um sorriso enquanto olha para uma tela de computador; qualquer um que já tenha aberto o PhotoBooth por acidente e tenha sido inesperadamente saudado com seus olhos grandes e sua cara de “eu estou na internet” sabe que isso é verdade. Mas, como o refrão sem imaginação de “Smile for Me, Baby” [documentário de Cecelia Watcher] frequentemente nos lembra, a sociedade ainda prefere que as mulheres mostrem um rosto feliz. Em pleno século 21, muitas pessoas esperam que as mulheres estejam sorrindo calorosamente, como no filme “Mulheres Perfeitas”, emitindo raios de sol de cada poro. Se você não está feliz, pelo menos aprenda como fingir.

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[…]

Aí entra “Ultraviolence”, de Lana Del Rey – um álbum que parece emergir completamente na forma dessa estética [de aceitar a tristeza]. “Ultraviolence” é, em quase todos os aspectos, a coisa mais provocativa que Del Rey já fez; quando lançadas antes do álbum, os títulos das músicas sozinhas – “Sad Girl”, “Fucked My Way Up to the Top”, “Pretty When You Cry” – foram suficientes para causar uma sensação na internet. Seu álbum de estreia, “Born To Die”, foi algumas vezes criticado por glorificar uma aparente postura retrógada da passividade feminina, fraqueza e pouca animação (sua legião de fãs provavelmente nunca irão me deixar esquecer que eu comparei o álbum a “um orgasmo fingido”). Ao invés de encolher de tantas críticas, no entanto, em “Ultraviolence” Del Rey encarna todas essas qualidades controvérsias bem mais – tanto que há algo perturbador e até descarado sobre isso.

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“They say I’m too dumb to see,” [Dizem que sou muito burra para ver], ela canta com uma voz de bebê-sexy. “They judge me like a picture book, by the colors like they forgot to read” [Me julgam como um livro de desenhos pelas cores como se esquecessem de ler]. Isso é exagerado? Isso é “real”? A piada está em qualquer um que insiste em perguntar aquelas perguntas – a questão sobre Del Rey é que é impossível dizer, e que talvez haja ainda um estranho poder nessa ambiguidade.  “Ultraviolence” tem um ar de “OI HATERS” respingado em gasolina, e um imaculado e cuidadoso toque de um cigarro no chão, em câmera lenta.

Começando com a lânguida, com quase sete minutos de duração, “Cruel World”, o álbum é saturado de tristeza, seu tempo raramente acelera mais que uma planta que rola pela estrada. Del Rey muitas vezes traz meias palavras e às vezes parece esta à beira de desaparecer; tem um momento em “Shades Of Cool” quando o solo da guitarra literalmente afoga suas palavras. Melancolia, anseio e morbidez estão presentes em cada nota, mas em seus momentos genuinamente mais comoventes, “Ultraviolence” parece sugerir o quanto é insatisfatório encarnar uma fantasia masculina. “Eu me tornei a garota Americana perfeita, exatamente como você queria”, Del Rey parece dizer, “e eu estou tão solitária que eu poderia morrer”.

Indiferente de como você se sente quanto a Del Rey, é claro que o seu som e sua pessoa estão mais realizados em “Ultraviolence”, comparados a “Born To Die”, o qual veio fraco e mal feito para mim (quer dizer, as pessoas realmente bebem Diet Mountain Dew?). Na época que “Born To Die” foi lançado, eu pensei em para quem, exatamente, ele era. Mas ele encontrou um público – e qualquer álbum que venda 7 milhões de cópias provavelmente diz algo sobre o momento cultural a qual ele pertence. Então vale a pena perguntar: em um momento em que “empoderamento” é considerado uma virtude para garotas, por que Lana Del Rey se tornou um ícone? A melhor resposta que eu encontrei é de uma dissertação da escritora francesa Catherine Vigier: “[Lana Del Rey] representa e fala de uma contradição que milhares de mulheres enfrentam hoje, mulheres que seguiram a receita do sucesso padrão da sociedade no que tem sido chamado de mundo pós-feminismo, mas que acham que a real libertação e satisfação genuína se esquiva delas.”

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Por mais de duas décadas – começando com as Spice Girls – “empoderamento” tem sido a principal aspiração de uma pop star.(Prense em quase todos os hits já gravados por Beyoncé. Ou Kelly Clarkson. Ou Pink. Ou Ke$ha. Ou…). Nós costumamos usar essa palavra como se fosse uma virtude feminina inquestionável, mas, assim como qualquer palavra, o uso excessivo acaba por fazê-la parecer vazia. O salto do empoderamento pop deve ter sido no ano passado, quando “Roar”, o hino de autoafirmação de Katy Perry, disparou nos charts. Eu gosto da música, mas eu também meio que me sinto como um cachorro de Pavlov** por gostar disso; “Roar” parece ter sido delineada por um grupo focal e geneticamente projetada em um laboratório pelo propósito de *ME EMPODERAR*. Um escritor até propôs uma teoria conspiratória de que o refrão tinha sido feito para atrair quantos times esportivos do ensino médio fossem possíveis… Ainda que pareça essa abordagem pode não ter dado certo.
**Cachorro de Pavlov: experimento com cachorros feito por Ivan Pavlov sobre o condicionamento clássico, que é um processo que descreve a gênese e a modificação de alguns comportamentos com base nos efeitos do binômio estímulo-resposta sobre o sistema nervoso central dos seres vivos. (Fonte: Wikipedia)

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“Ultraviolence”, então, é o anti-“Roar”, e eu realmente acho que isso reflete uma certa desilusão em nossa cultura de agora. De alguma forma, é uma fantasia de lazer: as pessoas no universo musical de Del Rey não lutam ou acreditam que as coisas vão melhorar, elas passam o tempo fazendo as unhas e depois bebem e fumam em um estado glamuroso e inerte de estupor à noite. Isso tem sido verdade desde seu disparo; como Vigier escreve, “O sucesso do vídeo de Video Games, de Lana Del Rey, deve ser, em parte, relacionado pelo jeito que ele comporta um passado sem preocupações – no qual jovens não estão performando ou lutando por algo, mas simplesmente andando por aí, na piscina, andando de skate ou dirigindo motos.”

Quando Del Rey realmente canta sobre lutar para adquirir poder, é geralmente por lutar contra a exploração com mais exploração (“Halleluljah, I’m gonna take men for all that they’ve got”, ela canta na suntuosamente ameaçadora “Money, Power, Glory”). “Ultraviolence” é cotado para ser um grande hit, e eu acho que parte de seu atrativo é o quão ousadamente ele voa na cara dos valores das gerações anteriores; canções como “Fucked My Way Up To The Top” parece ter sido feita para brincar com o tipo de pais que disseram a suas filhas que elas podem conseguir qualquer coisa que os garotos poderiam usando trabalho duro e respeitando a si mesmas. E enquanto existe algo nocivo sobre “Ultraviolence”, visão de mundo derrotista, ele também explora uma fadiga genuína que um monte de jovens – e garotas, em particular – têm quando se fala em “realização”. Não que isso seja algo novo; essa fadiga faz parte de ser jovem.

Eu percebi agora que não era exatamente “tristeza”, mas uma forma particular de força – uma que permite as contradições, complexidade e uma oscilação emocional de uma experiência vivida. Talvez a resposta seja não glamorizar  nem a força e nem a fraqueza, nem a tristeza e nem a alegria, mas procurar pelas várias alternativas no meio. “Ultraviolence” é um álbum que eu tenho certeza que vou tocar de vez em quando, quando meu humor variar, mas algo sobre seu universo parece sufocantemente monocromático. É bom aceitar sua sombra, mas você não pode pintar uma vida usando apenas tons de cinza.

 

Por Lindsay Zoladz
Tradução por Isabela Guiaro

 

Redação LDRA
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