‘A energia masculina é uma grande inspiração pra mim’, confira a entrevista concedida ao XLSemanal

por / domingo, 01 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

XL SEMANAL

 

Lana Del Rey: “Não mereço a minha má fama. Sou uma boa garota”

Há três anos ela surgiu como um foguete: vendeu milhões de discos, os designers de moda a disputavam, seus vídeos lançavam fumaça na Internet. E disparou-se a polêmica. Foi acusada de ser o produto de marketing perfeito. Lana Del Rey tenta tirar de si essa fama com o novo disco… E com essa conversa com o ‘XLSemanal’.

Lana Del Rey fala com essa voz melosa que a fez famosa. Sentada em um terraço em Los Angeles com um shorts, uma camiseta branca e descalça, fuma um cigarro após outro poucas horas depois que o primeiro single de Ultraviolence, seu terceiro álbum (a venda em 17 de junho) tinha chegado ao mercado. Longe de se comportar como uma estrela, cada vez que se refere a uma fama que parece não acreditar por inteiro, Del Rey utiliza um eufemismo para isto: “Desde que me tornei visível”. Algo que aconteceu em 2011 graças ao clipe de Video Games e a um look nostálgico que se tornou sua marca. Seu segundo disco, Born To Die, vendeu cinco milhões de cópias em todo o mundo.

Mas desde que é “visível”, Del Rey vive presa na polêmica. Principalmente desde que o The New York Times escreveu uma matéria com o título “Lana Del Rey é uma fraude”. Seus “haters” a acusam de ser um produto pré-fabricado por um pai milionário, de que seus lábios são obra de um cirurgião plástico, de que seu nome artístico para Elizabeth Grant é obra de um publicitário sagaz e de que, em um cenário de divas extravagantes e sexys, ela é o contraponto “retrô” perfeito saído da cabeça de algum gênio do marketing. É acusada, definitivamente, de não ser autêntica. Mas de perto, parece qualquer coisa menos um produto. Amável e mais próxima, quer contar sua história.  Está farta de que todo o mundo a conte por ela.

XLSemanal: Ultraviolence é seu terceiro disco. Qual estado de ânimo ele reflete?
Lana Del Rey: Um estado de animo sexy, algo incomum em mim [risos]. Também é um disco livre. Gravei-o em seis semanas. Foi muito divertido. Antes disso, tudo era muito difícil.

XL: Se refere a seu êxito repentino?
LDR: Sim. Ainda que muita gente tenha comprado meu último álbum, sabia que ele não tinha agradado a quase ninguém. Há quem escreveu que era horrível. Inclusive perigoso.

XL: Se sentiu maltratada pela imprensa?
LDR: Me deram uma má reputação [risos].

XL: E não a merecia?
LDR: Por que a mereceria? Sou uma boa garota.

XL: Acusam-te de ser uma estrela pré-fabricada…
LDR: A autenticidade não me parece um valor. “Você é autêntica!”. E daí? Que aborrecimento! Além disso, eu escrevo e produzo todas as minhas músicas!

XL: Nisso tem razão. Dezenas de estrelas não escrevem o que cantam e ninguém coloca sua autenticidade à prova.
LDR: Exato. Fui invisível durante sete anos. Nenhuma gravadora se interessava por mim. Não havia espaço para uma cantora lírica em um movimento no qual só funcionavam nos Estados Unidos o rap e o pop. Nem sequer o rock estava vivo.

XL: E, em 2011, Video Games te coloca rápido no mapa…
LDR: Faz três anos, me tornei visível e as pessoas começaram a se perguntar “De onde saiu?”. Havia várias páginas em branco em minha história e muito espaço para inventar coisas. Ao final, a verdade é o que se escreve sobre você, a palavra jornalística. Sempre foi assim. As manchetes ditam a trajetória das estrelas.

XL: Ou a odeiam ou a amam. Você acha que isso se deve a que?
LDR: Talvez minhas mensagens foram confusas. Eu não faço pop, meu processo criativo é mais psicológico. Quando as pessoas começaram a me ouvir, eu já tinha levado dez anos escrevendo e tinha um universo psicológico muito profundo.

XL: Chegaram a te tachar de antifeminista
LDR: Sim, há que acredite que eu transmito uma mensagem perigosa para as mulheres, mas eu falava de meus sentimentos. Tenho uma relação maravilhosa com os homens. A energia masculina é uma grande inspiração pra mim.

XL: Dá a sensação de que sem uma certa dose de polêmica é difícil triunfar…
LDR: Não sei. Mas tem gente que a provoca, pede-a a gritos. Eu não a tenho procurado.

XL: Também dizem que você se submeteu a algum retoque estético. Isso te irrita?
LDR: Claro que sim [risos]. O que eu mais gosto é parecer um camaleão, mas não suporto mentiras.

XL: Dá a impressão de que seu estilo “retrô” é quase uma reação ao look hiper sexual de outras estrelas como Miley Cyrus, Rihanna e Lady Gaga. É assim?
LDR: Não tem nenhuma intenção declarada contra o que outras cantoras representam. É meu estilo natural. Ainda que, sendo sincera, às vezes penso “vou aproveitar a fama”. É só uma manifestação de minhas origens. Minha família é muito tradicional.

XL: O que buscava quando se meteu nesse negócio?
LDR: Buscava uma comunidade artística como a de Dylan, Joan Baez ou a geração Beat, Jack Kerouac, Allen Ginsberg… Nos anos 60, onde passavam noites escrevendo romances ou canções folk. Também o respeito como escritora dentro da comunidade. E, na verdade, não encontrei nenhuma das duas coisas.

XL: O que encontrou em troca?
LDR: Pra ser sincera, nada. Desde que sou visível, nada é realmente claro na minha vida. Quando o caminho clareia, um novo obstáculo o escurece. Tive muitos altos e baixos.

XL: Pelo que me diz, parece ter sido um processo difícil. Pensou em deixar a carreira?
LDR: A todo momento. A vida é curta. Estar entre gente que não te entende não é agradável.

XL: Confessa que não gosta muito de performar. Por quê?
LDR: No estúdio, com meu produtor, é quase como uma relação romântica, temos uma química natural. Mas quando não conhece seu público, não pode confiar se vão te aceitar caso você perca o equilíbrio e caia ou desafine. Agora sei que isso também é parte do espetáculo e estou começando a desfrutá-lo.

XL: Quais são as diferenças entre Lana e Lizzy?
LDR: Nenhuma. Mudei o nome para mostrar aos demais como eu era por dentro. Porque, ao nascer, te dão um nome, uma localização geográfica e as vezes até dizem a profissão que deveria exercer. E não quero responder a um arquétipo.

XL: E por que um nome artístico tão hispânico?
LDR: Tenho muita afinidade com a cultura hispânica. Seu exotismo e sua paixão me encantam. E gosto do nome Lana, parece que ele cai da língua.

XL: Desde pequena queria ser poetisa. Que tipo de menina você era?
LDR: Era imaginativa, tinha um forte diálogo interior, era tradicional e demasiadamente precoce. Com dez anos pensava que já era adulta. Meus amigos eram os amigos dos meus pais, achava que era um deles. E eu amava escrever.

XL: Com 15 anos te enviaram a um internato. Isso te marcou?
LDR: Pode ser… Quase não me lembro daquela época. Para mim, a vida começou quando fui a Nova York com 18 anos. O que aconteceu antes sumiu na névoa. Não gostava do internato, não falava com ninguém. Estava no coro, queria cantar com todas as forças e não sabia como.

XL: O que pesa mais na indústria: o talento, o marketing ou a sorte?
LDR: Para a maioria das pessoas é, acima de tudo, uma questão de marketing. Para mim foi a persistência. Era meu sonho.

XL: E ninguém tentou te empurrar para outra direção?
LDR: Às vezes. Eu faço o disco sozinha, o envio para a gravadora e me devolvem dizendo “Não tem singles!”. E eu digo “Eu sei!” [risos]. Você tem que ser muito forte, mas sempre acabo ganhando.

XL: Sempre teve tanta confiança em si mesma?
LDR: Como pessoa, sim; musicalmente, não. Com vinte anos, um produtor famoso se interessou por mim depois que nenhuma gravadora gostou do que eu fazia. Entendi que não ia ser uma artista compreendida, mas também que tinha gente que se interessava pelo que eu fazia. É tudo o que eu preciso.

XL: Trabalhou com pessoas marginalizadas desde que era adolescente. O que essa experiência te ensinou?
LDR: Conhece a expressão “um tigre não pode mudar suas listras”? Pois as pessoas podem mudar suas listras e até se converterem em dragão. Vi como pessoas sem esperança conseguiram se transformar e servir de inspiração para outras.

XL: Estudou Metafísica na universidade. De onde surgiu esse interesse?
LDR: Com 11 anos soube que todos íamos morrer… E me angustiei. Os conceitos de infinito e eternidade também me torturavam. No internato, tive aulas de Metafísica. Era a primeira matéria, além de Literatura, que me interessava. Pela primeira vez me senti em boa companhia, ainda que os pensadores antigos tivessem desaparecido há séculos.

XL: Sempre fala de um plano divino. A que se refere?
LDR: Antes traçava meu caminho e sempre terminava frustrada. Deixei de tentar e aceitei que a vida funciona segundo suas próprias regras. Quando fiz isso, tudo começou a se encaixar. Se, por exemplo, alguém me recomendava um livro, alguém no ônibus o esquecia a meu lado. Coisas assim.

XL: Sinais?
LDR: Sincronicidades. Costuma-se dizer que as coincidências são a maneira que Deus tem de permanecer anônimo. As sincronicidades são um sinal de divindade. Respire fundo e diga “Não quero nada. Vou deixar que as coisas aconteçam”.

XL: Requer muito autocontrole, não?
LDR: É paciência. Como deixar que as coisas venham a mim. É doloroso, mas é a única forma. Sinto que meu caminho foi revelado, mas precisava ser uma vasilha vazia para que isso acontecesse. Como um condutor elétrico. A eletricidade não te atravessa se você está cheio de bloqueios.

XL: Sua música é melancólica. Você também?
LDR: Me esforço para ser feliz… E eu tenho sido. Sou solitária.

XL: E onde busca a tranquilidade no meio do barulho que rodeia uma estrela?
LDR: Faz tempo que não estou tranquila. Minha vida pessoal é uma loucura e a profissional está cheia de altos e baixos. Mas não pode ser pior do que era [risos]. Só pode melhorar.

 

Vida pessoal

1. Nascida em Nova York em 1986, é filha de um especialista em marketing de internet

2. Com 15 anos, seus pais a mandaram a um internato para superar o vício em álcool. “Grande parte do que eu escrevi em Born To Die fala desses dias”.

3. Em 2010 lançou seu primeiro álbum, Lana Del Ray A.K.A. Lizzy Grant. Pouco depois pediu à sua gravadora que o tirasse do mercado. Não estava satisfeita com o resultado.

4. O cantor Barrie-James O’Neill, com quem gravou um cover de Nancy Sinatra, é seu noivo.

5. Em sua mão esquerda tem um “M” tatuado, para sua avó Madeleine, e a palavra “paradise”. Na direita, “Trust no one” (Não confie em ninguém). E no anelar direito, “Die young” (Morrer jovem).

 

Por Ixone Díaz Landaluce
Traduzido por Isabela Guiaro

Redação LDRA
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