‘Tudo que eu escrevi é tão autobiográfico que chega a ser uma análise pessoal’, leia a matéria completa do The New Work Times sobre a Lana e o Ultraviolence.

por / quinta-feira, 12 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

The New York Times

 

Encontrando seu futuro olhando para o passado

Lana Del Rey continua a instigar paixões com “Ultraviolence”

Em outubro, antes de começar sua turnê internacional, a compositora Lana Del Rey procurou um vidente. Ela foi instruída para que escrevesse quatro perguntas para poder refletir sobre as mesmas. A primeira pergunta na lista, que Lana disse em uma entrevista em maio na sua própria casa em Nova Iorque, era “Eu sou feita para este mundo?”

Provavelmente não é o tipo de pergunta que cantoras famosas perguntariam a si mesmas com suas carreiras em ascensão. Este ano, Del Rey foi convidada para cantar um sombrio remake de “Once Upon a Dream” para o filme Malévola, além de cantar no Palácio de Versailles na festa de pré-casamento de Kanye West e Kim Kardashian.

Mas dúvidas, arrependimentos, desejos obsessivos e impulsos autodestrutivos são frequentemente citados nas músicas e vídeos de Lana Del Rey. “Eu espero por você, baby, isso é tudo que eu faço, baby/Não venha, baby, você nunca vem” ela canta em “Pretty When You Cry” em seu novo álbum “Ultraviolence”, com lançamento previsto pra esta terça-feira.

Desde que surgiu em uma famosa gravadora com o single “Video Games” em 2011, e o álbum “Born to Die” em 2012, Lana vem chamando atenção de formas opostas. Suas canções e videoclipes entram em vários aspectos culturais, explorando o erotismo, mortalidade, poder, submissão, glamour, fé, iconografia da cultura pop e o(s) significado(s) do “sonho americano”. Ela vem sendo acusada, em críticas e discussões online, por inautencidade, amadorismo, anti-feminismo e estratégia de marketing (apesar que seu único single top 10 nos Estados Unidos foi inesperado: Um remix feito por Cedric Gervais de sua balada melancólica “Summertime Sadness”). Mas ela também tem, principalmente por causa do YouTube, conquistado fãs em todo mundo que amam suas letras.

“Ultraviolence” irá, sem dúvida, provocar mais discussões. Mas uma coisa é certa: Lana não está procurando emplacar hits. O álbum atinge a mais lenta e profunda noção de tempo, sua mistura de sofisticação retrô e sinceridade aparentemente inocente. Ele também vai entre mágoa e um humor manhoso, as vezes até mesmo em uma só canção.

A música em “Ultraviolence” a distancia ainda mais daquilo que faz sucesso atualmente no mundo pop. Enquanto as playlists das rádios estão cheias de batidas futurísticas e depoimentos para a autoestima feitos com a partir do AutoTune, Lana Del Rey, atualmente com 28 anos, pegou o caminho contrário, melancólico e melódico. Muitas de suas músicas tem sido exuberantes e com batidas lentas, trazendo dezenas de filmes antigos e ecos dos anos 50 e 60, além de ter momentos mais quietos. Sua voz soa humana e indefesa, oferecendo doçura e dor, mesmo quando ela canta pequenas palavras.

As músicas presentes no “Born to Die” são baseadas no hip-hop, com batidas mais pesadas e refrãos mais intensos, mas agora, ela diz, “Eu não amo tanto certas partes dessa produção”. A influência do hip-hop já havia sendo deixada de lado com o “Paradise”, EP lançado em 2012. E “Ultraviolence” é mais letárgico do que nunca. Seu primeiro single, “West Coast”, na verdade se reduz a um ritmo mais lento durante o seu refrão, onde o padrão das musicas tocadas atualmente nas rádios exige o oposto.

Em um retrocesso para uma época menos informatizada, muitas faixas de “Ultraviolence” foram compostas por Lana e uma banda de sete pessoas, todas gravando ao mesmo tempo e correspondendo uma a outra. As canções muitas das vezes parecem uma névoa psicodélica que ela descreveu como um “balanço narcótico”. Dan Auerbach, o guitarrista dos Black Keys, produziu e tocou na gravação do álbum. Ele disse: “Ela estava nos observando e rebolava enquanto nos tocávamos”

Auerbach foi atraído por suas canções, pois, segundo ele “Elas pareciam velhas e novas ao mesmo tempo”. Lana sempre cita como suas influências Frank Sinatra, Bob Dylan, Cat Power, Niravana e Eminem, mas nenhum desses surgiu nesse século. “Pense no que está acontecendo agora” ela disse. “De onde vou tirar minha inspiração? Eu não consigo pensar em algo, nos dias de hoje, que eu realmente gostaria de fazer parte”.

Enquanto fala, Lana não usa aquele calmo tom que está presente em suas canções, como “Video Games” ou “Blue Jeans”; sua voz tem um tom juvenil, cadência soprano, com algumas risadinhas. Vestindo um minivestido azul e sandálias claras que revelaram unhas pintadas na cor pêssego, ela se sentou em seu sofá, tomando café e fumando um maço de cigarros, sob uma pintura de anjos querubins. Ela mostrou uma recente tatuagem em seu braço direito: “Whitman Nabovok”, dois autores que tem suas citações citadas em suas canções. Ela tinha acabado de voltar de Los Angeles para terminar sua turnê norte-americana, com um show no Shrine Auditiorium and Expo Hall.

Depois de viver em Londres e sair para sua turnê, Del Rey comprou sua casa aqui, uma elegante residência ao estilo inglês que precisava de reformas, sete meses atrás. As paredes recém pintadas em azul e verde que também estavam presentes no clipe caseiro de “Video Games” – que foi editado por ela mesma em seu laptop – que alavancou sua carreira e já foi visto mais de 119 milhões de vezes nos seus dois canais do YouTube. As pinturas na sua sala de estar são de ícones – a Virgem Maria, Elizabeth Taylor – e um livro em sua mesa estampava uma foto de Marilyn Monroe na capa.

Eu tenho forte admiração por ícones”, ela disse. “Eles são provavelmente os meus relacionamentos mais significativos. Eu sinto que eles são pessoais, mas talvez isso é o que é ser um ícone. Talvez todos sentem que é uma relação diferente de todas as outras, que você gosta deles e os entende melhor do que qualquer outra pessoa, ou sentem o que eles realmente são”.

Não é uma posição que ela aspira para si mesma. “Eu realmente não sei como me moldar como um ícone”, ela disse com sinceridade.

Muitas das acusações que foram feitas a ela quando lançou seu álbum com uma grande gravadora era imprecisos. Ela não era só um rosto bonito fazendo o que mandavam, muito menos uma amadora. Como Lizzy Grant – nascida Elizabeth Woolridge Grant – ela tinha trabalhado como compositora desde sua adolescência, e cantava em pequenos bares no Lower East Side e em Williamsburg. Ela cresceu em Lake Placid, Nova Iorque, e veio para a Cidade de Nova Iorque na esperança de encontrar uma comunidade de escritores, coisa que nunca chegou a acontecer.

Em 2007 ela assinou o seu primeiro contrato de gravação, quando ela estava no último ano na faculdade de Fordham, estudando metafísica. Ela gravou um EP de estreia em 2008, e rapidamente lançou um álbum em 2010 – “Lizzy Grant a.k.a Lana Del Ray” – antes de ser retirado das prateleiras quando ela renomeou-se Lana Del Rey. As músicas desse álbum já exploravam a inocência manchada e os impulsos perigosos que voltariam a ser citados em “Born to Die”. A produção mudaria com seus colaboradores, mas a sua perspectiva não.

Como muitos compositores fazem, ela trabalha com outros músicos mais experientes que produzem as bases para suas letras e melodias. As vezes eles oferecem progressões de acordes, enquanto ela improvisa; as vezes ela traz palavras e tons para eles harmonizarem. “Ela é bem decidida sobre o que ela quer e não quer” disse Rick Nowels, que escreveu “Young and Beautiful” e “West Cost” e fez colaborações com Madonna e Dido. “Ela é quem decide tudo”

Lana descreve suas composições como simples. “Eu quero uma das duas coisas”, ela disse. “Eu quero dizer como aquilo realmente é ou foi, ou eu quero imaginar o futuro da maneira que eu espero que ele seja. Estou contando sobre algo ou sonhando”.

Em “Ultraviolence” isso quer dizer que músicas como “Cruel World”, a qual ela termina um relacionamento relativamente longo – “Dividi meu corpo e minha mente com você/Está tudo acabado agora” – e “Sad Girl”, uma triste reflexão “Ser uma amante de lado”; ela também faz um cover de “The Other Woman” da Nina Simone.

Preparada para qualquer desaprovação, ela disse: “Se você realmente quer me analisar, é algo que você está interessado, deixe-me dizer a minha história para que você possa fazer isso”.

A gravação de “Pretty When You Cry” é construída ao redor da primeira tentativa de produzir a mesma: Acordes de seu guitarrista, Blake Stranathan, e palavras que ela estava cantando no momento da gravação. “Eu sou mais forte do que todos os meus homens” ela canta, “exceto por você”. Uma abordagem mais convencional seria substituir a sua voz melancólica por uma mais bonita. “Eu nem mesmo pensei em voltar e consertar isso”, ela disse, “Pois se você sabe a história por trás disso, então você sabe porque foi cantada dessa forma”.

As duras críticas de “Born to Die” deixaram cicatrizes. “Carl Jung disse que inevitavelmente, o que as outras pessoas pensam sobre você torna-se uma pequena parte daquilo que você é, mesmo você querendo ou não”, ela disse. Seu novo álbum tem uma réplica: “Money, Power, Glory” que afirma, com sarcasmo, que essas são as coisas que ela está almejando.

Eu aprendi que tudo o que eu fiz, induziu a uma resposta oposta, então eu tenho certeza que ”Money, Power, Glory” vai parecer que é aquilo que eu realmente quero”, ela disse com um encolher de ombros. “Eu sei o que está por vir, então não tem problema  explorar a ironia e a amargura”.

Uma crítica recorrente era que suas canções sobre se perder por causa do amor eram antifeministas; ela afirma que estava escrevendo sobre sentimentos particulares e imediatos, não estabelecendo uma doutrina. “Para mim, uma verdadeira feminista é aquela mulher que faz o que ela quer”, ela disse. “Se a minha escolha é, por exemplo, ficar com um monte de homens, ou se eu realmente gosto de uma relação mais física, eu não acho que isso seria necessariamente antifeminismo. Para mim o argumento do feminismo nunca deveria ter sido retratado de tal forma. Eu não sei muito sobre a história do feminismo, então eu não sou uma das melhores pessoas para falar sobre esse assunto. Tudo que eu escrevi é tão autobiográfico que chega a ser uma análise pessoal”.

Ela também foi criticada por seus clipes enaltecerem a morte: por afogamento, por queda, por asfixia. O video de “Born to Die” termina com ela nos braços de seu namorado, inerte e coberta de sangue. Ela concorda que seus vídeos frequentemente explorar “maneiras de morrer”, ela disse, “Eu amo a ideia que tudo aquilo irá acabar. É um alívio. Eu tenho medo de morrer, mas eu quero morrer. O título de canção de “Ultraviolence” se aventura em um pequeno território. Em um arranjo que mescla lamento barroco e guitarra wah-wah“, a cantora se descreve como “cheia de veneno, mas abençoada com beleza e raiva” e chega a citar um fragmento da canção dos Crystals de 1962, “Ele me bate (E é como um beijo)”

A letra também cita um “líder de culto” e Lana disse que a música parece voltar a um tempo logo depois que ela se mudou para Nova Iorque, quando ela decidiu seguir um guru que “acreditava em se derrubar e se reerguer novamente”. “Aquilo parecia estranho”, ela acrescentou, “mas isso era do que se tratava, ter sentimentos românticos entrelaçados com a ideia de ser submisso e deixar aquilo ir e se render. Isso sempre foi um conceito pra mim, como se eu estivesse oscilando entre a independência e a submissão”.

Há um padrão adjacente em todas as canções do “Ultraviolence”. A voz de Lana Del Rey parece ser sozinha e frágil nos versos e de repente é cercada pelos instrumentos e pelos múltiplos backs vocais. “Cada tom representa os fluxos e refluxos, os períodos de normalidade misturados com aquele caos incontrolável que vem através das circunstâncias da minha vida”, ela disse. “É a sua história. Se é você quem está escrevendo, você quer que ela seja contada da maneira certa”.

Na noite seguinte, Del Rey estava no Shrine’s Expo Hall, lotado de fãs. Houve gritos escandalosos quando ela entrou no palco, e desde o início até o final da plateia, vozes cantavam junto com ela. Aquilo não foi como um show social, a plateia era devota, cantando cada palavra, às vezes perto de se afogar nas mesmas. No palco, Lana só ficou lá e cantou, rebolando ocasionalmente, quando ela fez sua coreografia planejada, uma volta com os quadris durante “Body Eletric”, todo o lugar tremeu.

A energia é maior na plateia do que no palco” ela observou. Ela desceu duas vezes até o local onde ela se encontra com a plateia para tirar fotos, seguida por uma câmera, enquanto os fãs iam até ela com presentes e abraços; um abraço ardoroso parecia que ia sufocá-la. “Eu perdi muito cabelo nessa turnê”, ela disse mais tarde nos bastidores. “O público tem sido uma inesperada fonte de conforto que eu tenho me apoiado. Isso nunca foi algo com que eu pensei que contaria para ter força ou afirmação”.

Mas toda essa admiração não tem conseguido tirar a solidão de suas canções. “Sim, eu estou em um lugar diferente hoje do que eu estava há quatro anos atrás”, ela disse. “Mas de alguma forma eu ainda estou no mesmo lugar. Ainda estou na periferia”.

 

Por Jon Pareles
Traduzido por Hallem Anderson

 

Veja em nossa galeria as fotos em alta qualidade do ensaio feito para a matéria feitas por Kurt Iswarienko


Redação LDRA
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