‘Eu tive diferentes relações com homens, com pessoas, elas eram meio que erradas, mas ainda sim, lindas para mim’, leia a entrevista concedida ao The Guardian

por / quinta-feira, 12 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

The Guardian

 

Lana Del Rey: Eu queria já estar morta.

Lana Del Rey tem enfrentado uma experiência desagradável desde de o sucesso de sua descoberta, o que a levou a uma reação feroz, mostrada no “narco-swing” em seu novo álbum Ultraviolence – e o fato de que ela não para de falar sobre morrer.

Eu queria já estar morta.” Lana Del Rey diz, me pegando de surpresa. Ela estava falando sobre os hérois que ela e o namorado compartilham – Amy Winehouse e Kurt Cobain entre eles – quando apontei que o que os liga é a morte,  pergunto se ela vê a morte precoce como glamurosa “Eu não sei. Umm, sim“, e logo após, o desejo de morte.

“Não diga isso, eu disse instintivamente.”

Mas eu quero.”

“Não quer!”

Eu quero. Eu não quero continuar fazendo isso. Mas eu faço.

“Fazer o que? Música?”

Tudo. É apenas como me sinto. Se não fosse desse jeito, então eu não diria isso. Eu ficaria apavorada se soubesse que a morte está chegando, mas…

Estamos em New Orleans, uma cidade conhecida pela paz e tranquilidade. A duas quadras do hotel de Lana Del Rey na Bourbon Street, cenário de alvoroços de bêbados da manhã até a noite. Siga na direção oposta e você pode esperar ser assaltado pelo bronze vibrante dos músicos de jazz de rua do French Quarter. Mesmo dentro da suite elegante de Del Rey há um massacre: malas meio-explodidas; sacos de salgadinhos de milho espalhados pelo chão.  Até mesmo seu laptop está mergulhado em molho de tomate, frustrando temporariamente nossas tentativas de ouvir músicas do seu novo álbum Ultraviolence. “Ewww“, diz ela, perplexa com como um condimento poderia ter encontrado uma maneira de chegar dentro da tomada.

No entanto, quando fomos para sua varanda, o cenário se transformou em completa calma. “Este lugar é mágico“, diz ela, acendendo um de seus muitos cigarros.  O cenário é de fato tão sereno que me supreende quando Del Rey começa a me contar o quanto é infeliz: que não gosta de ser uma pop star, que ela se sente constantemente alvo de críticas, que ela não queria estar viva.

Membros da família vêm comigo para a estrada e dizem: ‘Uau, sua vida é como um filme’,” diz ela em um ponto. “E eu fico tipo: ‘Sim, um filme realmente fodido’.”

Durante nossa conversa de uma hora, ela continua voltando para temas obscuros. Contando sua história – um furacão notável que envolve ficar sem abrigo, gangues motociclistas, e ser pega pelo olho da mídia – também envolve o trabalho e porque uma compositora que já vendeu mais de 7 milhões de cópias do seu último álbum, se sente desiludida com a vida.

Talvez o lugar mais lógico para começar é a extraordinária reação a Video Games, sua canção revolucionária em 2011. Chegando aparentemente de lugar nenhum (embora Del Rey tem postado suas músicas e vídeos caseiros por um tempo) a mesma bizarrice Lynchiniana jogou um feitiço em quase todos que o viram, fazendo da música um viral. No entanto, os aplausos começaram a rolar (The Guardian a elegeu como melhor música de 2011) e Del Rey foi colocada sobre um senso escrutínio de posts de blogs e pensamentos, com críticas debruçadas em seu passado: ela realmente foi esteticamente estudada? Ela realmente era um fantoche da gravadora?  Seu pai financiou seu último lance para a fama? Seus lábios são resultado de uma cirurgia plástica? Ela realmente nasceu como a boa e velha Elizabeth Grant, em vez de emergir do ventre completamente formada como a popstar Lana Del Rey?

Eu perguntei por quanto tempo ela aproveitou o sucesso de Video Games antes que a repercussão chegasse e ela pareceu surpresa “Eu nunca senti qualquer prazer,” ela diz “Foi ruim, tudo foi ruim.

Del Rey diz que ela não tem medo de lançar outro álbum pois ela “sabe o que esperar dessa vez,” mas durante os dois anos e meio desde que Born To Die saiu, ela tem constantemente dispensado a ideia de um segmento porque ela “já disse tudo que tinha que dizer“.

Então, o que mudou?

Quero dizer, eu ainda me sinto daquele jeito,” ela diz. “Mas com esse álbum eu me sinto menos como seu tivesse que escrever crônicas sobre minhas jornadas e mais como se eu pudesse contar apenas trechos do meu passado recente, o que seria emocionante pra mim.

Das várias canções que ouvi no hotel, posso garantir que o novo material tem muito coisa para os blogueiros trabalharem. Sad Girl, por exemplo, fala sobre como “ser uma amante não é ideal para tolos como você”.

Ela ri quando pergunto de onde veio a inspiração: “É uma boa pergunta. Quer dizer… Eu tive diferentes relações com homens, com pessoas, elas eram meio que erradas, mas ainda sim, lindas para mim.

Por errada ela quis dizer ser a amante?

Ela ri novamente e desvia o olhar timidamente “Quer dizer, eu acho que sim.

Não está claro se “Money, Power, Glory” foi originalmente escrita apenas para para irritar seus difamadores, mas dá uma boa facada, avisando: “Vou levá-los para tudo o que eles têm”

Eu estava sendo sarcástica,” ela diz sobre escrever aquela música. “Tipo, se tudo aquilo que me era permitido ter da mídia era dinheiro, muito dinheiro, então que se foda… O que eu realmente queria era algo tranquilo e simples: uma comunidade de escritores e respeito.” Ela fala sobre aquilo frequentemente: o desejo de uma vida pacífica numa comunidade artística, longe de todo o brilho da mídia que “sempre coloca um adjetivo na frente de seu nome, e nunca um agradável“.

Como o soft rock teaser do álbum, a faixa West Coast, muitas músicas do Ultraviolence são lentas e atmosféricas, abandonando as pegadas de hip-hop de Born to Die para o que ela e seu produtor – o Black Keys, Dan Auerbach – chamam de narco-swing. Del Rey originalmente achou que tinha terminado seu álbum em dezembro, mas depois de conhecer Auerbach em uma boate e dançar a noite toda com ele, se deu conta de que precisava gravar tudo de novo com suas técnicas mais frouxas – a adição de uma vibe mais casual da California, atráves da gravação em uma única leva, com microfones baratos comprados em uma farmácia.

Não foi tudo tão fácil. Uma faixa, Brooklyn Baby, tinha sido escrita com Lou Reed em mente: Ele queria trabalhar com Del Rey, ela voou para Nova York para se encontrar com ele. “Peguei um vôo noturno, ele pousou às 7h… e dois minutos depois ele morreu“, diz ela.

Se as críticas da mídia haviam morrido, então Del Rey encontrou sua vida sendo invadida por outro, mais intruso. Em 2012, seu computador foi acessado por hackers e todo tipo de informação começou a aparecer online: fotos, detalhes financeiros, registros de saúde, sem mencionar suas músicas. “Todas as 211,” ela suspira. “Apenas mais um elemento do  desconhecido da minha vida.” Ela diz que não tem ideia de quem tem acesso a anos de material utilizável, e não tem como controlar o vazamento dele online, incluido músicas escritas para outras pessoas, menos uma – Black Beauty – que foi originalmente programada para Ultraviolence.

De fato, quando você olha cuidadosamente os ultimos 3 anos de Del Rey, não é dificil ententer porque ela se sente queimada pela experiência da fama. Você também é forçado a se perguntar porque popstars que mais atraem o público são artistas solo femininas.

As pessoas me perguntam isso o tempo todo,” ela diz. “Eu acredito que eles pensam que tem um elemento de sexismo nisso, mas acho que é mais pessoal. Eu não vejo onde a parte feminina entra nisso. Eu não entendo o ângulo feminista.

Eu menciono alguns nomes atuais de cantoras que são o centro das atenções: Miley Cyrus, Lorde, Lily Allen, Lady Gaga, Sinéad O’Connor me vem a mente.

Talvez essas pessoas sejam realmente provocadoras,” ela diz. “Mas eu não sou nem nunca fui. Eu não acho que tenha algum valor chocante nas minhas coisas – bem, talvez as letras estranhas e desconcertantes – mas acho que outras pessoas provavelmente merecem a crítica, porque estão realmente provocando isso.

Sobre seu vídeo Ride, onde ela fica com uma sucessão de caras mais velhos de gangues de motociclistas (que recebeu críticas por, entre outras coisas, parecer glamourizar a prostituição)?

Ok,” ela admite. “Eu consigo entender como aquele vídeo iria arquear uma sobrancelha feminista. Mas é pessoal para mim – era sobre meus sentimentos no amor livre e o efeito que estranhos podem trazer para sua vida: como te fazer desequilibrar no caminho certo e te libertar de obrigações sociais que espero que nos livremos em 2014.”

Quanto daquele video reflete em sua vida real?

Ah, 100%

Saindo com gangues de motociclistas e saindo com caras de diferentes idades?

Sim.” ela diz, desviando o olhar novamente com outra risada estranha.

De todas as acusações de ser uma fraude, Lana del Rey parece ter vivido uma existência mais rock’n’roll do que popstar. Ela fala sobre sua adolescência que passou “Deslocada… eu não tinha uma casa, não sabia meu número da segurança social” e que ela não entrava em contato com seus pais há mais ou menos 6 anos.  Que deve ter isso adicionado irritantes acusações de que sua carreira foi financiada pelo seu pai. “Eu sabia que era exatamente o oposto daquilo,” ela diz. “Nós nunca tivemos mais dinheiro que ninguém que conhecíamos na cidade. Meu pai era um empresário bem-amado – ele estava interessado no amanhecer da internet em 1994 – Mas não foi nada traduzido financeiramente” Quando essas histórias surgiram pela primeira vez, na ascendência de Video Games ela disse que não tinha certeza sobre o que seu pai estava fazendo da vida: “E eu não acho que ele estava muito certo sobre o que eu estava fazendo também.. Então, foi interessante que eles meio que nos colocaram lado a lado e o envolveram naquela história.”

Del Rey gosta de descrever os períodos mais tumultuosos de sua vida em termos românticos: ela diz que ela muitas vezes ela passa suas noites vagando por Nova York – “West Side Highway, Lower East Side, partes do Brooklyn” –  conhecendo estranhos, vendo onde a noite os levaria. “Eu fui inspirada por histórias de Dylan, conhecendo pessoas e fazendo músicas depois que as conhece. Eu conheci diversos cantores, pintores, ciclistas que passavam. Eles eram amigos, as vezes até mais. Todas as pessoas que eu estava realmente interessada no impacto.

Soa um tanto quanto perigoso.

Sim, eu era sortuda, mas também tenho intuição forte.

Ela ainda tem?

Às vezes.

Alguém já disse: “Espere… você é Lana Del Rey!”

Às vezes sim. Metade do tempo sim, metade do tempo não. Se elas sabem quem eu sou eu posso simplesmente sair, ou dizer que não é uma grande coisa, sou só uma cantora.

E eles não ficam surpresos em te ver vagando pelas ruas?

Se estiver em LA, provavelmente. Se estiver em Omaha, talvez não

Quando tinha 18 anos, suas experiências mais obscuras – ela falou sobre ser alcoólatra – a levou a assumir um trabalho de proximidade com aqueles que eram viciados em álcool ou drogas. Algo que ela descreve como sua verdadeira vocação e algo que ela ainda faz quando tem a chance.

Eu vivo em Koreatown no limite do Hancock Park [em Los Angeles], então faço coisas diferentes onde e quando posso. Não só pessoas com doenças mentais na rua, mas também pessoas que, ao longo dos anos, perderam informações de identificação, esse tipo de coisa. E eu sei o que fazer, sei que posso ajudar, por que eu era aquela pessoa.”

Ela diz que se alimenta diretamente em sua música. “Muitas das minhas músicas não são apenas simples canções verso-refrão pop – elas são mais psicológicas.” Ela fala sobre tempo, e como ela gosta de refletir seu estado mental através da velocidade de uma música: “Quando eu toquei [para a gravadora] West Coast eles realmente não ficaram felizes que ela escorregou para um BPM ainda mais lento no refrão“, diz ela. “Eles diziam: ‘Nenhuma dessas músicas são boas para a rádio e você está diminuindo sua velocidade quando na verdade deve ser acelerada.’ Mas, para mim, a minha vida estava escura, e aquela sensação de desconexão das ruas é parte disso.

Ela anseia ser considerada uma compositora séria, razão pela qual as primeiras acusações de falsidade a fizeram tão mal. No entanto, Del Rey realmente só precisava dar um passo para trás para ver como as coisas têm corrido para ela desde que ela cavalgava naquela tempestade inicial e começou a acumular o respeito da crítica que ela sente que merece. Fora da música, também, a vida dela parece ser relativamente constante, mesmo se ela descrever sua relação com o colega Barrie James O’Neil intensamente: “Nós tivemos um caminho difícil. Ele é uma figura obscura. Ele ficou meses no trecho escuro da escrita e da espera, ele tem seu próprio mundo, então…

Ela fica em silêncio. Uma lufada de bronze flutua e se mistura com sua fumaça de cigarro. Eu penso em seus shows, como é o ar livre onde ela tocará mais tarde, naquela noite, durante a qual ela vai responder aos gritos constantes – os fãs estão muito ocupados tirando fotos para aplaudir – deixando seu banda tocar por 20 minutos enquanto ela vagueia pelo espaço entre o palco e plateia, posando para selfies com fãs na primeira fila. Certamente, durante esses momentos, ela deve amar o que faz.

Não“, ela diz. Então, depois de outra tragada em seu cigarro, ela olha para a rua movimentada abaixo e diz “Eu não sei o que pensar, tudo que eu sei é que, agora, eu gosto de sentar aqui neste terraço.” Ela se curva para trás e, por um momento, parece contida no silêncio.

 

Por Tim Jonze
Tradução por Kassia Lasarino

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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