‘Estou tentando fazer o que parece ser o certo’, confira a entrevista para a The Fader

por / domingo, 01 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

Fader

 

Lana Del Rey é quem ela quer ser

O zoom da câmera está em Lana Del Rey quando ela se vira da multidão, escondendo tudo, menos a delicada silhueta de seu rosto. Na parte de trás do palco, um telão brilha em roxo escuro e azul. Ao seu lado no palco vê-se uma palmeira. Por um minuto completo: incessantes e carinhosos aplausos. Gentilmente ela esconde uma lágrima com o dedo do meio de sua mão esquerda e em seguida enxuga o nariz, o que, desse ângulo, parece ser a parte de baixo de um S perfeito que se inicia em sua testa, desce por sua face e escorrega dentro do vazio. Finalmente ela se vira para atender ao público, sorri e diz: “Eu acho que vocês vão ter que cantá-la para mim”. O piano começa e todos reclamam, muito alto e claramente. Ela tenta cantar também, claro, mas então pausa para chorar e sorrir ao mesmo tempo, seu semblante embargado pelo carinho da plateia. Mas ninguém para de cantar. “It’s you, it’s you, it’s all for you…”

Lana Del Rey, a cantora cuja inteira personalidade e imagem parecem com tanta frequência serem cuidadosamente construídos não parece pertencer a esse tempo, como em seus vídeos caseiros que a ajudaram a alcançar a fama. Primeiro vieram as montagens de 2008 que já sinalizavam o estrelato, nas quais ela misturava filmagens e aparecia em frente a uma bandeira americana sob o seu nome artístico, Lizzy Grant. Naquela época, algumas vezes ela fazia quatro vídeos para a mesma música mas, quase sempre, ninguém os assistia. Em seguida veio “Video Games”, que apresentava o mesmo look, com um som ligeiramente mais cheio e estrelando Grant, agora cantando como Lana Del Rey, saindo de filmagens caseiras para grandes cenários. E então, os grandes orçamentos chegaram: ela estava sentada em um trono ladeada por dois tigres no vídeo para a canção “Born to Die”, incorporou tanto Jackie O quanto Marilyn em poucos minutos para “National Anthem” e, para “Tropico”, deitou-se com Elvis e John Wayne em um paraíso gerado por computadores. A filmografia de Lana Del Rey é uma aula de mestre sobre como construir um ícone, mas mesmo assim, nenhuma filmagem é prova tão grande de sua autenticidade quanto o vídeo tremido de uma performance em lágrimas em 2013, filmada em um celular por um fã em Dublin.

Eu a pergunto porque ela estava chorando. “Eu tenho estado doente em turnê por cerca de dois anos com essa doença que os médicos não conseguem entender” ela diz, para minha surpresa. “Isso é grande parte da minha vida: eu apenas me sinto muito doente grande parte do tempo e não consigo descobrir porquê. Eu havia tomado algumas injeções na Rússia, onde estivemos recentemente. É muito difícil cantar para pessoas que realmente se importam com você enquanto você não se importa consigo mesmo às vezes. Eu achei triste. Achei que minha atitude era triste. Eu achei que era triste estar na Irlanda cantando para pessoas que realmente se importam enquanto eu não tinha certeza se eu mesma me importava”. Eu esperava ouvir congratulação pessoal, o triunfo de ter por fim alcançado a fama. Realmente não sabemos de nada.

Nós estamos conversando no Brooklyn, no jardim do fotógrafo dessa entrevista e ela está usando uma de suas blusas. Cai de uma forma simples – provavelmente uma camisa masculina extra-grande – e com seu cabelo e maquiagem feitos para a sessão de fotos desta capa ela parece ser o par de um trabalhador na manhã após o baile de formatura. Ela deve saber disso. Eles estavam tirando fotos na casa mais cedo, em uma tentativa de captar um visual mais simples de uma estrela conhecida por seu glamour hollywoodiano, quando ela viu um conjunto de blusas vintage e perguntou se poderia usar uma delas. Mais do que crua beleza, é dela o mérito de produzir exatamente o efeito desejado: voilá, ela parece a namorada de alguém.

Poucas semanas faltam para o lançamento de seu segundo álbum, Ultraviolence, e, como qualquer outro artista com mais de um bilhão de visualizações no Youtube, a Lana Del Rey de 27 anos é abençoada e amaldiçoada com uma agenda rigorosa. Até o momento em que eu desligo o gravador, após cerca de 90 minutos, seu publicitário chegou duas vezes para finalizar a entrevista. Em ambos os casos ela se recusa. Descalça, ela carrega uma simplicidade sem nenhum sinal da pop star imperial que eu esperava: ela está alegre, pensativa, um pouco apreensiva. Só depois ela me informa ser essa a entrevista mais longa que ela já fez.

Do jardim em que estamos sentados, através de uma porta antiga envolvida por viscos eu posso quase ouvir seus assessores. Dentre os seis ou sete no interior está seu guarda-costas anteriormente contratado por Brad Pitt e seu estilista britânico Johnny Blueeyes, que durante a sessão de fotos estava a ponto de invadir o quarto gritando “Você é uma estrelaaaa!”. Toda a equipe, ela diz, foi contratada em 2011 quando “Video Games” resultou em ofertas das gravadoras Interscope e Polydor. “Conheci todos na mesma semana”, ela conta. “Como eu era muito tímida, eu meio que aceitei todos”. Mais tarde ela menciona a equipe novamente, a partir do ponto de vista pessoal. “Eu nunca sou a estrela do meu próprio show”, ela diz. “Eu tenho uma vida familiar bastante complicada. Eu tenho uma vida pessoal complicada. Não é apenas minha vida, são todos os envolvidos nessa extensa unidade familiar. Tudo é sempre para outra pessoa, inclusive para aquelas com as quais trabalho. Eu sou a pessoa mais quieta nos cenários normalmente. Eu sou aquela que tenta manter tudo funcionando. É bem estranho. É um estranho, estranho mundo”. Ela fuma Parliaments, um após o outro.

Todos conhecem a chamada identidade real de Lana Del Rey: seu nome de nascimento é Elizabeth Grant, filha de um empresário vendedor de domínios na internet. Na imprensa, tem havido perverso regozijo em rotulá-la como uma farsa, seja por se tratar de seus lábios supostamente aumentados cirurgicamente (algo que ela sempre negou) ou pela recriação visual e a sua mudança de nome, fatos que marcaram o início de sua carreira. Ela nasceu em Lake Placid, no estado de Nova Iorque e de lá partiu para um colégio interno em Connecticut. Quando ela iniciou suas performances em 2006, enquanto estudava metafísica pela Fordham University no Bronx, foi com um som leve, popular e um violão que seu tio lhe ensinou a tocar. O acorde fá era muito difícil, ela contou mais tarde para Mark Savage, da BBC – “Quatro dedos? Jamais vai acontecer. ” – mas ela gravou um álbum acústico sob o nome de May Jailer da mesma forma. (O álbum em questão, Sirens, nunca foi lançado, apesar de ter eventualmente vazado na internet). Em 2008, ainda na faculdade, ela assinou um contrato de dez mil dólares para a produção de um álbum com uma gravadora indie chamada 5 Points e se mudou para um trailer em North Bergen, Nova Jersey. A revista Index filmou uma simplória entrevista com ela nesse local; ela aparece usando a jaqueta de um mecânico, seu cabelo loiro preso alto com uma tira de tecido azul claro, e, quando perguntada acerca do caráter bastante coesivo de sua identidade musical ela responde, “É o desejo e a ambição de uma vida… Ter uma vida planejada e viver num mundo ideal”. Durante essa época, ela associou-se à David Kahne, um dos produtores de Paul McCartney e The Strokes e desenvolveu um som mais idiossincrático para suas composições, com vocais jazzísticos, instrumentação com orquestra sintetizada e batidas de hip-hop – uma mistura incomum do antigo e do novo. Sob o nome de Lizzy Grant ela lançou um EP, Kill Kill, e gravou um álbum, Lana Del Ray A.K.A. Lizzy Grant, que permaneceu nas prateleiras da 5 Points por dois anos até ser lançado digitalmente em 2010. Nessa época, ela já estava morena com mechas onduladas à lá Veronica Lake, e em Londres, procurando outro contrato. Com a ajuda de um novo empresário e advogado, ela comprou novamente os direitos do álbum e o tirou do mercado. Daí pra frente seria conhecida como Lana Del Rey.

Mas seu passado deixou rastros pela internet, a história da garota do interior com grandes sonhos e coragem o suficiente para se reconstruir e torná-los realidade. Tudo seria um conto americano, se ela ao menos parecesse original; ao invés disso, reinava o sentimento de haver alguém por trás de tudo, orquestrando uma farsa comercial com vídeos secretamente financiados, o que apenas diminuía seu valor “faça-você-mesmo”. Para uma artista que estourou na internet, o passado de seu pai levantou bandeiras vermelhas – além de vender domínios online, ele havia trabalhado em marketing e ajudado nos lançamentos de Lizzy Grant. E havia um suspeito curto tempo entre “Video Games” que foi listado por muitos blogs como um lançamento independente e o anúncio de que ela havia assinado contrato com duas grandes gravadoras. De qualquer forma, ela nunca se mostrou constrangida por suas ambições: ao contrário, ela abraça-as como uma das características que a define. Em “Radio”, uma das canções mais instigantes do impiedosamente criticado álbum de estreia “Born to Die” de Lana Del Rey, ela canta sobre o sucesso com um tom provocativo: “American dreams came true somehow / I swore I’d chase em until I was dead / I heard the streets were paved with gold / That’s what my father said… Baby, love me cause I’m playing on the radio / How do you like me now?” Ela foi uma estrela que anunciou a própria chegada, cantando sobre a fama com uma certeza impressionante, mesmo que ela estivesse apenas começando a prová-la.

Muitos críticos já estavam munidos contra sua suposta fraude. Jon Caramanica do The New York Times pronunciou em uma cáustica review que a cantora já estava morta em sua estreia, concluindo com: “A única opção real é lavar a maquiagem do rosto, bagunçar o cabelo e tentar novamente em alguns anos. Há tantos outros nomes por aí para escolher”. Lindsey Zoladz da página Pitchfork intitulou Born to Die como “o álbum equivalente a um orgasmo fingido”. Era um tempo incomum para a música, com grandes gravadoras caçando e testando novatos inexperientes a partir da força de uma canção viral e uma aparência desejável. Para céticos, Lana Del Rey se tornou inteiramente o símbolo da supervalorização de um murmurinho virtual. (Anteriormente à review com nota 5.5 de Zoladz’s, o Pitchfork havia notadamente premiado “Video Games” com o título de Melhor Canção e garantido a ela um perfil no Rising, ostensivamente reservado apenas para artistas por eles recomendados). O blogger Carles do Hipster Runoff, um comentarista amador relativamente desconsiderado pela imprensa, foi, de todos, o crítico mais obsessivo e visceral com Lana Del Rey, mas também um dos mais perspicazes, porque criticá-la sempre vinha acompanhado por críticas pessoas e pelo apetite incessante da música virtual em fazer artistas com o intuito de vendê-los às gravadoras. Ele chamava isso de “escura, abusiva e co-dependente relação dos parasitas virtuais”.

Mas, no fim das contas, muitos fãs de música simplesmente não se importaram. Hoje, Born to Die vendeu mais de sete milhões de cópias no mundo todo, mais do que os últimos dois álbuns de Beyoncé juntos. Dez meses após o lançamento do disco, seu EP Paradise estreou no top 10 da Billboard. Oito meses depois, o remix eletrônico de “Summertime Sadness” feito por Cedric Gervais ganhou platina; um pouco depois, sua canção para a trilha sonora de O Grande Gatsby, “Young and Beautiful” também ganhou platina. Nesta última canção, uma composição assombrosamente orquestrada, ela se dirige ao seu próprio status e posição como mulher, independentemente de ser um ídolo pop: “Will you still love me when I’m no longer Young and beautiful?” Às vezes suas músicas se arrastam e as vezes sua seriedade pode soar desinteressante, mas em momentos belos como esse, com sua voz doce em uma canção apaixonante, a confidência de Lana Del Rey acerca de sua própria vulnerabilidade transcende o melodrama alcançando a realeza da grande arte. No período desde o reconhecimento de sua autenticidade, um aspecto se tornou claro: acusações de farsa e ausência de originalidade não irão destruí-la. Ela disse que eles chegaram perto, apesar disso. Pouco tempo após o lançamento de “Video Games”, ela iniciou um relacionamento com outro músico, Barrie-James O’Neill. De acordo com um perfil seu no Nylon, ele primeiro ligou para ela sem aviso prévio após seu empresário enviá-lo o vídeo com a legenda “Sua futura ex-mulher. ” Eu a pergunto como ele era durante esse tempo em que os ataques eram pesados e frequentes. “Ele estava preocupado”, ela diz. “Eu estava, você sabe, horrível. Eu queria muito me matar todos os dias”.

Com o passar dos anos, quatro temas passaram a definir suas músicas, independente do protagonista: indecisão, submissão, reverência aos ícones da América e auto-destruição, tanto consigo mesma quanto para com os homens idolatrados em suas canções. É bastante “He hit me (And it Felt Like a Kiss)” e, de fato, ela cita esse verso infame na canção-título do álbum Ultraviolence, antes de continuar com, “You’re my cult leader, I love you forefer, I love you forever”. A consistência com a qual esses quatro temas aparecem em sua música sugere não uma artista pomposa e icônica, mas alguém movendo peças superficiais em torno de si mesma – um nome, um olhar – até que finalmente encontre uma identidade confortável o bastante como qualquer um adentrando a idade adulta. Então eu a pergunto o que ela queria com aqueles velhos vídeos estilo Lizzy Grant, quando ela colocava uma peruca Marilyn Monroe, se portava como estrelas de época e mandava beijos para a webcam. “Sinceramente, eu sinto que é mais uma coisa de garotas”, ela diz. “Eu só estava brincando, e, literalmente, eu ainda estou brincando. Para mim, ser desse jeito e me vestir assim não é diferente de usar uma peruca. É tudo a mesma coisa para mim. É tudo um nada, e é tudo um tudo. Para mim qualquer um desses caminhos está bom. Eu vivi muitas vidas diferentes. Vivi no Alabama com meu namorado e vivi aqui no Brooklyn e em Jersey. Eu tenho sido várias pessoas diferentes, eu acho”.

Existe um monólogo que abre seu vídeo para a música “Ride”, o qual ela me diz ser autobiográfico. Segue uma parte: “Eu sempre fui uma garota incomum. Minha mãe me disse que eu tinha uma alma de camaleão. Sem bússola moral apontando para o norte, sem personalidade definida. Apenas uma indecisão interna que era tão grande e revolta como o oceano”. No vídeo, ela faz sexo com um motoqueiro de 40 e poucos anos sobre uma máquina de pinball. Em “National Anthem”, ela está casada com A$AP Rocky, que interpreta um presidente negro que gosta de jogar dados valendo dinheiro. Em “Tropico”, ela corre com uma multidão latina. Em vários outros, ela está com um rapaz franzino e tatuado. Os homens mudam, mas o sexo é constante: Lana Del Rey incorpora a busca por si mesma em um outro alguém. “Eu não sei exatamente o que estou fazendo”, ela me diz a certo ponto. “Estou tentando fazer o que parece ser o certo. Eu tentei diferentes estilos de vida, entende, coisas as quais nunca comento, apenas porque elas são um pouco diferentes. Eu nunca tive um jeito correto no qual eu conseguia me ver vivendo. Indo de uma relação boa à outra relação boa – eu achava que isso era saudável”.

Seu retrato dessas relações, apesar disso, tem levantado opiniões diversas entre os feministas. Alguns criticam o modo como ela parece idealizar a impotência e a servidão, enquanto outros apreciam sua incorporação fluida de diferentes identidades, assim como a sinceridade com que trata tanto seus desejos como sua fragilidade. De qualquer forma, seus comentários no assunto serão desapontadores para ambos os campos: “Para mim, o feminismo simplesmente não é um conceito interessante”, ela diz. “Eu estou mais interessada, sabe, em SpaceX e Tesla, no que vai acontecer com as nossas possibilidades intergalácticas. Sempre que as pessoas levantam o assunto do feminismo, eu fico, tipo, meu Deus. Eu só não estou interessada”. Felizmente, sua ambivalência no campo político não desfaz nenhuma subversão que pode estar inserida em seu trabalho (nem justifica qualquer mal que ela possa fazer). Quando pressionada, ela acrescenta, mais esclarecedora: “Minha ideia de uma feminista de verdade é uma mulher que se sente livre o suficiente para fazer o que quiser”. Eu a pergunto porque ela é sempre sufocada em seus vídeos, e ela me dá uma resposta sincera: “Eu gosto de um amor mais hardcore”. Isso levanta um ponto importante: ela é aquela que deseja esses cenários na realidade, romantizando as mesmas coisas que a ferem. Ela escreve suas próprias músicas e filmagens dos vídeos, e uma auto-mitologia semelhante se aplica às suas entrevistas também. Em uma pequena entrevista feita pelo Huffington Post na era Lizzy Grant ela disse a um repórter, “Apresentação mais estranha: sozinha em um porão para um bonito executivo de uma gravadora. [Canção] mais estranha já escrita: De volta ao seu escritório enquanto dávamos uns amassos”. Quando eu a pergunto se ela se arrepende por ter brincado desse jeito, dado a frequência com a qual as pessoas a viam como um fantoche de uma equipe executiva, ela diz que não, que a história era verdadeira: “Eu tive um relacionamento de sete anos com o chefe dessa gravadora, e ela era uma grande inspiração para mim. Eu lhe contarei mais tarde, quando mais pessoas souberem. Ele nunca assinou um contrato, mas ele era o meu muso, o amor da minha vida”. Ao invés de se distanciar do poço de cobras que é o sexo e o poder, ela se dirige diretamente a ele. Em Ultraviolence, há uma música chamada “Fucked My Way Up to the Top.”

Mas, estará ela feliz agora que alcançou o sucesso? Apesar de tudo, sua voz nas músicas parece sempre muito triste. Em um trabalho intitulado “O significado de Lana Del Rey”, uma acadêmica francesa chamada Catherine Vigier oferece uma explicação: “Ela está representando e falando sobre uma contradição que milhares de mulheres enfrentam hoje, mulheres que tem seguido as receitas padrão da sociedade por sucesso no que tem sido chamado de mundo pós-feminismo, mas que descobrem que a real liberdade e satisfação genuína não as completam.” Vigier continua argumentando que, para mulheres que vivem sob o capitalismo, nunca haverá real felicidade – não por meio do dinheiro, nem pela fama, nem mesmo pelo amor – e a música torna esse aspecto claro. Então é isso que temos: uma pós-feminista e socialista leitura sobre Lana Del Rey. Existe outra matéria estranha disponível também, se você considerar ser sua identidade nos palcos um sinônimo de se travestir, como fez Christopher Glazek no Artforum, chamando-a de “incrível estranha artista”. Com Lana Del Rey, todos se tornam críticos e toda interpretação é possível.

Agora próximo ao lançamento de Ultraviolence, essas infinitas opiniões já há muito se desfizeram mutuamente, deixando espaço para que os ouvintes construam uma relação mais subjetiva com sua música sem a pressão de desenvolverem uma concepção inteligente. Comparado ao Born to Die, o novo álbum soa distantemente mais rock, composto por vocais ao vivo com uma banda em Nashville montada pelo produtor Dan Auerbach. Ela está saindo do pop contemporâneo, um espaço no qual diz nunca ter se sentido confortável; se foram as misturas de gênero que deram ao seu primeiro álbum a impressão de tentar arduamente ser um sucesso. O novo álbum parece um enorme deserto americano, vastamente gigantesco, com uma ventania de guitarras elétricas tremidas. Lana Del Rey está envolvida por fantasmas e completamente sozinha, os últimos versos reverberando e levando ao eterno vazio. “We could go back to the start”, ela canta na canção-título, “but I don’t know where we are”. Com certeza os ritmos rock das baladas se encaixam em sua preocupação retrô; o primeiro single “West Coast” evoca a abertura de “And I Love Her” de The Beatles e a progressão de acordes da canção “Dirt”, da banda de proto-punk “The Stooges”. Ela parece ter adquirido confiança no psych-rock e swing-narcotizado.

Um dos versos mais significativos de Born to Die está na canção “Off to the Races”: “I’m not afraid to say that I’d die without him”. Dentro do universo do álbum, este era tanto um ponto baixo como um ponto alto, com Lana exaltando a sua dependência na presença masculina, mas também estando consciente de tal sentimento para citá-lo. Na canção “Brooklyn Baby” de Ultraviolence, ela exalta o líder da banda, seu namorado, por alguns versos, e em seguida aterrissa nesse incaracterístico território da auto-confiança: “Yeah, my boyfriend’s really cool/ But he’s not as cool as me”. Eu a pergunto sobre o verso e ela responde, “Isso nem era para estar lá, eu meio que cantei sorrindo e o Dan estava olhando para mim e rindo. Eu só estava zoando.” Ela já convenceu a todos de seu trabalho, mas aqui parece que ela, por fim, convenceu a si mesma.

Naquela entrevista para o Huffington Post como Lizzy Grant, ela falou de seu amor pelos ícones americanos: “Todas aquelas coisas são reais, mas ao mesmo tempo não são, e eu me incluo aqui… O que quer que você escolha para ser sua realidade, será a sua realidade”. Você pode ser a esposa do presidente, como em “National Anthem”, e você pode ser sua amante; você pode ser uma stripper e você pode ser Eva, como em “Tropico”; não importa qual versão de você veio primeiro, quando você pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Esse é um pensamento poderoso, e eu não estou certo de que consiga entendê-lo completamente. “Minha carreira não é sobre mim”, ela me diz em um ponto da entrevista, lamentando o engano em relação a sua pessoa que, segundo ela, impulsionou os ataques dos críticos. “Minha carreira é um reflexo do jornalismo, do jornalismo atual. Minha pessoa pública e minha carreira não tem nada a ver com meu processo interno ou com a minha vida pessoal. É apenas um reflexo de processos criativos de escritores e onde eles estão em 2014. Literalmente não tem nada a ver comigo. A grande maioria de tudo o que você leu sobre mim não é verdade”. Nós não sabemos quem ela é, mas quer saber? Ela própria não sabe.

À medida que ela transita de um personagem para outro nos vídeos de suas músicas, de um tipo de homem para outro, e de uma gravação para outra, Lana Del Rey canta não apenas a crise existencial, mas também o poder para cegamente lutar através dela. Na música “Money Power Glory” do Ultraviolence, ela canta, “My life is comprises of losses and wins and fails and falls”, um verso imediatamente acompanhado por mais auto-sacrifício: “I can do it if you really, really like that”. Mesmo que ela esteja apenas se adaptando à maré, não é isso que todos fazemos? Inventamos identidades todos os dias, nos modificando para um namorado ou um chefe. Usando a própria ideia da maleabilidade, Lana Del Rey se vestiu como uma estrela, colocando em sua música o drama humano de se modificar para sobreviver e vencer. Ainda, ela está enamorada por sua auto-destruição, e talvez sua mudança de visual seja precisamente isso: você interpreta tantos personagens que perde seu estável senso de idoneidade, então quando você está em frente a um grande público, por exemplo, e eles estão gritando exaltados, sua resposta é confusão e lágrimas.

Naqueles dias, nos shows, ela tirava intervalos entre as músicas para assinar objetos e tirar fotos com os fãs. Um recente crítico descreveu a recepção do público tão violenta quanto “um motor a jato”; um executivo da música que a viu disse que ela era como Os Beatles. Mas, ao conversar com ela, a realidade enverga até que apenas a tristeza parece ser a resposta mais apropriada. Aquele homem tatuado com olhos cor de chuva que sempre aparece em seus vídeos, de “Blue Jeans” à “West Coast” – seu nome é Bradley Soileau. Chegando ao fim de nossa conversa, eu a pergunto porque ela o recrutou tantas vezes. “Eu gosto de Brad porque eu o respeito, pois ele é livre o suficiente para usar seu corpo como uma tela”, ela diz. “Ele tem uma citação sobre guerra escrita em sua testa. Eu gosto que ele sabia que isso o alienaria da sociedade de uma forma que ele não poderia trabalhar em serviços comuns. Ele fez uma decisão consciente e manifestou fisicamente o fato de que ele iria estar na periferia. Eu gosto do que isso simboliza”. Eu digo a ela que isso soa muito como o que acontece quando alguém se torna um músico famoso. Não há retorno para ela também. “Isso é verdade”, ela responde. “Eu estou bastante fodida”. Um gato listrado segue pela cerca que envolve o jardim e Lana Del Rey acende outro cigarro. Eu a pergunto do que ela mais sente saudades. “Eu sinto saudades de tudo”.

 

Por Duncan Cooper
Traduzido por Raphaella Paiva

 

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Redação LDRA
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