‘Não queria criar uma continuação para Born to Die, e sim continuar a contar a minha história’, confira a tradução completa da matéria feita pela Rolling Stone

por / sexta-feira, 27 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

Rolling Stones 2014

 

Lana é capa da edição deste mês da Rolling Stone e na revista há uma matéria sobre ela. Confira a tradução completa abaixo.

 

A Garota Número 1

A Costa Oeste está sendo remedida. Em sua viagem pela música pop americana, Lana Del Rey constrói sua própria Califórnia – com um resultado sensacional.

Você precisa imaginar Lake Placid como uma espécie de Garmisch-Partenkirchen, porém menor. Um tradicional resort de esqui ao norte do estado de Nova York. Por volta de 2.700 habitantes, com magníficas possibilidades para uma escalada. Há ainda dois lagos paisagísticos nas proximidades. Em 1932 e 1980 as Olimpíadas de Inverna foram feitas lá. O ganhador da medalha de ouro de corrida de esqui de 1976, Eric Heiden, é de lá. “Lake Placid é uma bolha. Lá é um lugar incrível, mas também absurdamente chato”, diz uma colega de escola de Elizabeth Woolridge Grant. “Na rua principal, há o antigo cinema Palace. Nas encostas do rio há o pub e o restaurante/bar The Cottage”. Lugares genuínos como Mr. Mike’s Pizza estão a quilômetros de distância de qualquer aura rock and roll. Você pode conseguir cigarros e bebidas no posto de gasolina Sunoco apenas a algumas quadras”. E o que os visitantes do portal de viagens do Google têm a dizer sobre o bar de Art Devlin, o Olympic Motor? “É limpo e os preços são ótimos!”.

Um paraíso escondido entre montanhas que deve ser depressivo para jovens que tem o grande sonho de se tornar no futuro estrelas internacionais: Elvis, Marilyn Monroe, Bruce Springsteen, Kurt Cobain – essa trupe. Lizzy Grant é como ela costumava ser conhecida em seus primeiros anos na música, quase falida justamente por isso. “Antigamente, ela se preocupava com letras”, diz a colega. Isso fez muitos companheiros de escola pensar que ela era estranha e incomum. Em certo ponto, seus pais a colocaram em um internato. Ela tinha problemas com o álcool.  “Mas ela é genial, não é mesmo deste mundo”, diz a conhecida. E, de fato: a ambiciosa poeta adolescente Elizabeth Grant se tornou a maior cantora pop americana branca com menos de 35 anos anos: Lana Del Rey.

Os valores são impressionantes. Sua balada de estreia, “Video Games”, teve 57 milhões de cliques no YouTube (até o fechamento desta matéria). Em seguida veio “Summertime Sadness”, que foi vista mais 155 milhões de vezes. E até mesmo seu clipe de 10 minutos para “Ride”, um monumental curta-metragem de estrada com motoqueiros mal-encarados no qual Del Rey narra a experiência ao sair de sua província natal (“Eu era uma cantora – não muito popular”), acabou de alcançar a marca de 50 milhões visualizações.

A balada de cair o queixo “Young and Beautiful”, da trilha sonora para O Grande Gatsby, no qual ela está com o cabelo esvoaçante, um longo vestido e uma lágrima tatuada no rosto, possui 82 milhões de visualizações. Em Fevereiro de 2012, a revista Billboard americana escreveu um artigo sobre o primeiro álbum de Del Rey, Born to Die: “A maior estreia de uma artista feminina nas paradas em anos”. Até hoje, o álbum (incluindo sua subsequente Paradise Edition) vendeu aproximadamente sete milhões de cópias mundialmente. E esse número ainda está crescendo. E tudo isso em uma época em que extensivas turnês dão mais lucro. Apenas Adele ainda é uma gigante entre os novos músicos com mais de 50 milhões álbuns vendidos. A trajetória de Adele, porém, é outra, uma saga de volta à moral e aos bons costumes.

As letras e vídeos de Del Rey – opcionalmente em Technicolor ou com pixels do Instagram – são pura literatura americana. E, consequentemente, ela é mais Mark Twain ou John Steinbeck do que Bret Easton Ellis. Suas histórias lidam com a “sociedade rompida”, a extinta (e branca) sociedade americana. A saga da jovem Lolita que aparece do nada. Uma Norma Jean Baker dos dias de hoje. A linguagem imagética que Del Rey utiliza desde o início é uma das melhores que o pop tem a oferecer atualmente. Se compararmos isso ao vestido de carne e a afiliação com a artista Marina Abramovic, Lady Gaga parece literalmente artificial e sem coração.

Com seu novo álbum Ultraviolence, ela quer apenas continuar com sua história, é o que diz Lana. E apenas a noção disto deixa seus fãs malucos. O primeiro show de Del Rey em São Francisco, no meio de Abril, com alguns mil jovens usando coroas floridas em suas cabeças se tornou um ritual religioso. Não seria surpreendente para ninguém se a cantora em seu vestido inspirado no que foi usado por Sharon Tate de repente chegasse a vinte centímetros das cabeças de fãs (mulheres) completamente eufóricas.

No escapismo do show business você precisa tomar cuidado com o que diz. Mas como eu não vou aos Estados Unidos há anos, a semana em que Elizabeth Woolridge Grant (que se mudou recentemente para Los Angeles) lançou “West Coast” restaurou minha crença na cultura pop americana. Especialmente quando o romance Coast of Dreams [algo como, A Costa dos Sonhos], de Kevin Starr, brilha mais uma vez. Obrigado Lizzy!

Piscinas, lábios com Botox e empresários sem noção

O início da promoção de Ultraviolence não é totalmente perfeito. Pelo menos não há uma programação de acordo com os princípios da “eficiência americana”. Nós nos sentamos eventualmente em um Boeing 747 com destino a Los Angeles. No dia seguinte as entrevistas seriam concedidas no lendário hotel Chateau Marmont. “Para mim este hotel é o melhor set de filmagem para filmes noir, com seu interior escuro e pseudo europeu que finge vir de um antigo vinhedo francês. Também serve perfeitamente para filmes de terror”, diz Lana Del Rey. A letra de sua música “Gods and Monsters” conecta essa sublime atmosfera com as incontáveis anedotas do show business que aconteceram por lá. Desde sua adolescência, Elizabeth Grant queria estar entre os poucos selecionados das histórias, apesar de todas as quebras e danos. “Na terra de deuses e monstros, eu era um anjo/ Procurando ser fodida com força/Como uma groupie disfarçada, posando como uma cantora de verdade/A vida imita a arte”.

Na mundo real, no Outono de 2011, ela fez uma sessão de fotos para a luxuosa grife Mulberry no Chateau e falou o que pensa sobre o tópico ‘estilo e acessórios’ na piscina turquesa cintilante do hotel. “É bizarro, porque no início a indústria da moda confiava mais em mim do que a indústria musical. Na indústria musical eu fui por muitos anos a novata que não sabia de nada”. Enquanto diz isso, Lana tem de se sentir um pouco triste sobre si mesmo. “Admito abertamente que lá há menos companhias boas para mim”.

Do Chateau Marmont ao Hennes & Mauritz e de volta. Algumas cenas de seu vídeo para a música “Video Games” também foram gravadas lá. Isso explica a acomodação dele em seu coração.

Mas devido à semana de feriado e o acontecimento do festival Coachella, um tipo muito especial de hotéis em Los Angeles estão lotados. É engraçado pensar que a recepcionista do Chateau teve que recusar um pedido de reserva da equipe de Lana Del Rey. “Sentimos muito, senhorita Del Rey, mas semana que vem realmente não será impossível. Até mesmo os chalés com jardins e os bangalôs perto do morro estão cheios”.

Eventualmente, todo o circo que vem com a entrevista foi relocado para o também luxuoso Sunset Marquis, que fica na esquina seguinte. Um calmo mini-parque na paisagem debaixo da Sunset Boulevard, consistindo de casas brancas, piscinas, coquetelarias e fragrantes arbustos de hibiscos. A coisa toda é enraizada no rock and roll local há mais de 50 anos: no lobby ensolarado você encontra com um Slash enrugado em preto e branco e no foyer há uma crescente exibição fotográfica permanente dos suspeitos de cometer rock. Em um dos pátios, a estrela do soul pop sueco Miriam Bryant está relaxando com sua trupe cabeluda. Todos equipados com as coloridas pulseiras da notória seção VIP do Coachella.

De dentro de uma dessas casas elegantes, por volta das três da tarde, sai uma garotinha hippie vestindo uma blusa branca de tricô transparente e shorts jeans. “Lana está pronta”, diz Belinda Mercer, a assistente pessoal de Del Rey. Então deixe a entrevista começar, a última de hoje. Nós estamos sentados no pequeno pátio do chalé californiano. A senhorita Del Rey, que está celebrando seus 28 anos esses dias, acende um Parliament. Ela pergunta se tudo bem por mim. Sim, claro, sem problemas. Afinal de contas em Berlim as pessoas ainda fumam em todo lugar – o que a deixa claramente feliz.

Lana Del Rey parece natural, relaxada e cortês de uma maneira muito boa. Nenhum sinal dos blogs e da mídia que a criticaram imensamente por uma cirurgia plástica não confirmada (Botox) e preconceito contra garotas Barbie. Até mesmo os lábios “de boia salva-vidas” são… Apenas lábios normais de uma moça de Lake Placid. A própria Lana assumiu brincar com injeções de ácido hialurônico. Mas isso é mesmo relevante?

Nas laterais das mãos, ela tem tatuada as palavras “Confie em ninguém” e “Paraíso” em uma fonte artística. Suas unhas são perfeitamente pintadas. Então ela não se diferente de muito de seus seguidores. Um fator crucial para seu sucesso mundial.

Lana dá um grande trago de seu cigarro e diz: “Depois de trabalhar na Paradise Edition eu só queria respirar um pouco. Todo mundo estava me perguntando como o novo álbum seria. E eu não fazia ideia. Nem ao menos fazia ideia se deveria continuar cantando. Porque se você se leva a sério como um compositor, só quer lançar algo se tiver algo a dizer. Então levou um tempo. Eu também não tinha nenhuma proposta ou um tema principal, mas talvez tivesse uma direção estética na minha cabeça. Gosto de começar com uma palavra. Neste caso, era ‘fogo’ ”. Ela começa a dizer que gosta de flertar com palavras que soam boas. E que ela se imagina trabalhando em um tabloide europeu porque teria de usar palavras simples, mas para fazer frases lindas.

Minha criatividade flui de acordo com esse princípio”, declara Del Rey. “Pouco a pouco a letra surge. Depois do primeiro álbum, todos disseram: ‘O próximo precisa ser maior! Você precisa se exceder!’ ” Mas Del Rey se reclusou e apenas um encontro aleatório em uma festa com Dan Auerbach poderia desatar o nó. Com uma pilha de músicas e arquivos, Del Rey dirigiu até Nashville. Ela precisava de um “facilitador”, ela diz. Alguém com quem pudesse falar sobre “coisas abstratas”, “sentimentos, climas, inspirações, atmosferas”, diz Del Rey. “Não queria criar uma continuação para Born to Die, e sim continuar a contar a minha história. Quando dissemos à minha gravadora que o álbum teria uma sonoridade mais jazz com um pouco de rock negro da costa oeste, eles disseram: ‘Bom… Não fazemos ideia do que isso significa’. Mas temos um contrato que me garante liberdade criativa, então eles não tiveram escolha a não ser confiar em nós”.

Sete semanas mais tarde, Lana teve de reportar em Santa Monica para o CEO da Polydor, Lucian Grainge, e para o dono da Interscope, Jimmy Lovine. Lana Del Rey imita o estilo zangado dos nobres homens: “’Muito bem’, foi tudo o que disseram. Isso eventualmente quis dizer que eles não sabiam o que fazer. Claro que eles tinham uma opinião. Mas se você como um empresário está falando com um artista que está diretamente ligado ao produtor, não há muito espaço para influências. Embora eles gostariam muito de ter tido”, diz Del Rey, triste, e acende o terceiro Parliament em 20 minutos.

 

Um gravador quebrado e a Anfield Road de Liverpool

Enquanto estamos conversando algo acontece que seria a catástrofe para um profissional áudio-visual. O aparelho de gravação, neste caso um Ditafone da Sony com microcassetes minúsculos, quebra. Del Rey, como uma profissional de mídia, havia colocado o aparelho do seu lado na mesa – e percebeu em dado momento que nada mais estava girando.

Tendo voado 11 mil quilômetros – e depois não tinha mais nada além de barulhos ininteligíveis. A segunda parte da entrevista foi perdida, pelo menos em fita. “Vamos refazer tudo de novo?”, pergunta Lana, preocupada comigo. Mas, na maioria das vezes, a memória do entrevistador funciona bem o bastante para parafrasear os pontos principais. Para afirmar algumas questões, ela me passa seu endereço de e-mail pessoal. O papo dura mais um pouco enquanto Lana manda seu assessor de imprensa ir embora duas vezes para nós conversarmos. Eventualmente, chega ao fim a entrevista com a pop star.

Devido ao gravador quebrado, pude conhecer um outro lado de Del Rey: Por trás da imagem há uma pessoa autêntica e ela alcança os corações e almas de seus fãs.

Mas Lana não possui uma imagem consistente como Gwyneth Paltrow possui. Ela faz propagandas muito sem noção, mas faz isso muito bem. Por exemplo, a sessão de fotos para a GQ britânica que a elegia como a “Mulher do Ano de 2012”, ela aparece nua e se cobrindo com cortinas brancas. Apesar disso, Elizabeth Grant pode lhe dizer algumas coisas sobre perseverar em fazer algo sozinha, mesmo com toda a oposição. Depois de fazer sucesso algum ou ser chamada de completamente falsa.

Animosidades deste tipo só podem ser conquistadas com uma personalidade estável. O jeito simples de apenas ser uma garota indie completamente honesta nunca passou pela cabeça dela. “Houve um tempo em que eu queria pertencer a uma comunidade indie”, Lana disse certa vez a um blog. “Mas, na realidade, não pertencia a lugar nenhum! Mas eu estava procurando por uma afiliação. Mas no fim eu nem ao menos conhecia músicos de verdade, e naquela época eu não conhecia esses caras clássicos do indie, se é que eles existem. E depois: Quem é indie? Não faço ideia do que seja. Se você parar para escutar, é apenas música pop, não é? Porque é mais ou menos popular. Ou indie quer dizer que não é para ser tocada nas rádios? Então eu nunca tive um passado indie que foi esquecido com a fama. Dormi por um tempo no sofá da minha gravadora britânica. Mas isso é normal quando se é ninguém. Foi daí que eu vim”.

A internet está cheia de coisas de Lizzy. Uma delas é a canção “Kill Kill”, de 2008, com seu clipe feito no estilo Instagram. Ou uma Lana como um cadáver loiro na água em um filme trash em preto e branco. Ela em um trailer sendo entrevistada por um repórter local. Um grande passado que foi muito bem documentado na internet, mas ainda há suspeitas de que seja tudo uma grande fraude.  E mesmo se fosse, seria uma das mais bem-sucedidas campanhas virais dos últimos 4 ou 5 anos.

A Lizzy Grant de Lake Placid apenas começou quando foi a até então desconhecida agência de artistas TAP Management em Londres. Na capital do pop refinado, ela conseguiu encontrar a confiança comercial assim como o envolvimento artístico para seus próximos passos substanciais. O que houve com “Diet Mountain Dew” em 2010, por exemplo. Naquele período, ela também conheceu seu namorado atual Barrie James O’Neill, que ficou durante toda a maratona de entrevistas no Marquis vestindo uma camiseta de “Dark Side of the Moon”. Com sua banda de outrora, Kassidy, Lana entrou em turnê na primavera de 2013. Enquanto isso, Barrie se tornou um cantor solo e uma companhia de vida que – como um fã do Celtic de Glasgow – a infectou com o fenômeno europeu do futebol. No site do clube Liverpool F. C. há várias fotos de Lana: em uma visita ao estádio na Anfield Road ou numa partida contra o Hotspurs de Tottenham.

Detalhes como este – e há muitos deles – não apontam para uma artista criada pela indústria, mas revela interesses surpreendentemente complexos e bacanas. “A paixão pelo F.C. de Liverpool surgiu através de meu empresário, que é fã do Reds, o que felizmente combina com o fanatismo de Barrie pelos Celtics”. Não há muitas celebridades americanas que mergulham tão profundamente e ao mesmo tempo bem na psique do antigo continente.

E depois chegou a hora: o segundo single “Shades of Cool”, um hino para as garotas jovens e adultas que lidam com problemas de drogas, de repente aparece no final de Abril. Enquanto a previamente lançada “West Coast” parecia uma mudança brusca de ritmo (acordes e grandes orquestras se foram!), “Shades of Cool” chega com uma grande atitude sem vergonha como a  de “Cola”: “Minha boceta tem gosto de Pepsi-Cola/Meus olhos estão abertos tortas de cereja”.

O álbum Ultraviolence não contém nenhum material superficial como parece ser comum na música popular. Só podemos imaginar o nervosismo dos executivos da Universal Music se preocupando com a falta de “comercialidade” do álbum. As onze canções, obviamente autobiográficas como “Brooklyn Baby” ou “Fucked My Way Up to the Top”, parecem uma viagem complexa da qual você adquire benefícios por muito tempo. Compradores da edição especial do álbum ganham quatro faixas bônus que são caracterizadas mais pela sua calma do que pelas suas batidas típicas do rádio. Ela reduziu suas parcerias estabelecidas com os grandes compositores Justin Parker (“Video Games”, “National Anthem”) e Rick Nowels (“Summertime Sadness”) em favor dos músicos de sua banda. “Rick Nowels ainda está em minha equipe, que foi suplementada com o produtor Dan Auerbach e o compositor de trilhas sonoras Daniel Heath, que já estava presente em “Bel Air” e em meu cover para “Blue Velvet”. No estúdio, dei a cor dourada como um ponto de partida ao responsável pelas gravações. Ele me conhece bem, então sabia o que eu desejava”, diz Del Rey, que no fim de nosso encontro revela ter certa competência para coisas técnicas da música.

Enquanto estamos tomando cerveja depois da entrevista, a agente de Lana, Belinda Mercer, aparece, com os braços suspensos no ar, e diz lacônica: “Então é isso que vocês chamam de trabalho?”.

 

Com flores no cabelo para São Francisco

O feriado de Páscoa no sul da Califórnia foi tomado pelo festival Coachella que aconteceu em dois finais de semana com line-ups quase idênticos. Lá, uma classe social de duas a três escalas domina: de um lado há os fãs normais que pagam pelos ingressos caríssimos, compram bebidas caríssimas e precisam se controlar para não ter um ataque do coração. Do outro lado há as supermodelos e estrelas do cinema em hotpants e tiaras de Swarovski que transformam toda a maratona musical em uma passarela de vendas de joias. No meio disto há ainda as semi-celebridades e convidados que são pelo menos permitidas a passar o tempo no setor de semi-celebridades. “Pacotes VIP estão acabando com os festivais?”, questiona a edição de Junho da Rolling Stone americana. Em 2014, o enorme esquadrão com 90.000 de espectadores inclui Lana Del Rey, que se apresenta em um vestido fluido com um padrão florido. Entre os dois shows no Coachella, ela continua com sua turnê pelos Estados Unidos e tocou em São Francisco pela primeira vez em grande estilo.

Mesmo horas antes do show há uma fila incrivelmente comprida em frente ao enorme Bill Graham Civic Auditorium. Uma vez que os Warriors de Golden Gate jogaram basquete lá, agora o Queens of the Stone Age e a compositora inglesa Ellie Goulding vão se apresentar em um curto período de tempo. No show de Lana Del Rey, 73% das garotas estavam usando extravagantes arranjos florais em seus cabelos ou roupas como as de Lana. O resto é composto de garotos lindos de todos os estilos. Aproximadamente às sete da noite os portões se abrem finalmente. Há cenas de empurra-empurra como em um show de Justin Bieber. Do lado de dentro, prevalece um clima de salão. Na loja, o arco de flores feitas de plástico ou de orquídeas reais é o produto mais vendido. Antes de o show começar, os DJs tocam coisas antigas do hip hop, de “Cry Me a River” a “Like This, Like That”, tocam Chris Isaak e “Killing Moon” do Echo & the Bunnymen. O mundo musical de Lana Del Rey. Com o primeiro som do concerto fica claro que todas as telas de projeção com tecnologia de ponta de sua turnê europeia em 2013 foi reduzida a uma simples tela. A nova Lana agora funciona de acordo com o princípio: quebre a distância, traga a mensagem aos fãs usando a menor quantidade de tecnologia possível. Seu vestido branco fantasmagórico e suas sapatilhas brancas a conferem uma aura Lago dos Cisnes. As músicas antigas são tocadas de acordo com o dogma de “West Coast”: sem acordes, sem muito retorno, o que passa um tom meio Grunge melancólico. Durante “Born to Die” ela dança diretamente na ponta do palco, para que os adolescentes que quisessem ver sua calcinha pudessem. Em “Summertime Sadness” fica claro que os show de Lana nos Estados Unidos são eventos para adolescentes de ensino médio com fãs hiperativos. Repórteres com um bloco de notas e uma caneta esferográfica são como extraterrestres para esses seres: “Você vai anotar todas as pessoas que estão fumando maconha?”, uma garota próxima a mim questiona. Enquanto isso, Lana anda sobre o palco com o apoio de microfone. Em certo ponto ela fica descalça. Uma montagem com bonecos palito representando o Salmo 51 aparece no telão. Durante “Blue Jeans” todos cantam juntos. “Video Games” os transporta ao Chateau Marmont. Em “Edge of Seventeen” há uma homenagem ao ícone do Valley Stevie Nicks: “Uh, baby, uh!”. Del Rey anda como uma bailarina do Bolshoi e em “Ride” parece estar no clipe de Hell’s Angels, no qual sua irmã também pode ser vista. Para finalizar, há um medley de “Carmen” e “National Anthem”, onde cada letra errada é celebrada pelo público louco pelas palavras, e depois há o solo de guitarra de Jeff Beck. “Sinto a conexão”, exclama Del Rey. E: “Não mereço tudo isso”.

Quando “National Anthem” começa, todos se levantam. Lana dá um banho na multidão, cercada por um forte som de guitarra.  Em seguida ela deixa o palco levemente enquanto a banda ainda toca por algum tempo. Quando deixa o palco, Lana recebe algo retangular de um fã. Uma adorável pintura: Lana flutuando como um anjo de branco aveludado.

 

Escrito por Sebastian Zabel
Traduzido por Lucas Almeida

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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