‘Se este disco é chamado de “Ultraviolence” é porque isso descreve bem o que eu senti em minha vida privada’, confira a entrevista concedida à revista Paris Match.

por / sexta-feira, 06 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

Paris Match

 

A incompreendida

Dez dias antes de lançar o Ultraviolence, seu segundo álbum, a cantora americana nos recebeu para falar sobre as paixões que o desencadearam.

 

Paris Match: Você estava sempre declarando que queria parar, que não sonhava mais em cantar. Mas agora, você lançou um segundo álbum…
Lana Del Rey: Quando eu digo esse tipo de coisa, eu digo verdadeiramente. Mas geralmente, as pessoas me perguntavam se eu já tinha um novo álbum pronto. E eu não tinha. Eu não me sentia bem em afirmar que eu tinha um disco maravilhoso se não era o caso. Isso tem sido muitas vezes mal-interpretado, transformado em “ela não cantará nunca mais”.

PM: O que despertou o desejo de cantar músicas novas?
LDR: Eu conheci Dan Auerbach [o líder dos Black Keys, produtor de seu novo álbum]. Ele realmente mudou minha vida, simplesmente por ser o que é: um cara engraçado, simpático. Nós nos conhecemos em um clube, dia 21 de dezembro, nós dançamos na pista. E ele me disse em um tom sorridente: “Você deveria vir comigo à Nashville e ver o que que acontece”. Eu peguei um avião com ele… Eu queria tentar, e graças a ele eu percebi que eu não estava me divertindo mais com minha equipe!

PM: Você não tinha músicas em estoque?
LDR: Eu tinha um álbum inteiro! Eu tinha selecionado doze faixas, eu mesmo as tinha produzido, mas Dan abriu meus olhos. Ele me disse que minhas músicas soavam muito como o rock clássico, muito “anos setenta”. E ele tomou conta de tudo.

PM: Você então se livrou do seu álbum?
LDR: Sim, mas foi para o meu próprio bem. Me lançar nos braços dele foi também me meter em perigo. Ele trouxe uma maneira diferente de tocar, trouxe instrumentos diferentes, ele deu um aspecto orgânico a esse disco que eu, por isso, gravei duas vezes. Todas as noites nós fazíamos festas com os músicos, nós escutávamos as músicas novas, foi um verdadeiro prazer que durou cinco semanas. E isso me deixou infinitamente menos nervosa.

PM: Em suas letras você se mostra mais e mais sarcástica. “Eu quero dinheiro, poder e glória”, você clama. Precisa desabafar?
LDR: Evidentemente… Se este disco é chamado de “Ultraviolence” é porque isso descreve bem o que eu senti em minha vida privada. Eu experimentei a alegria de ver minhas canções agradarem e, ao mesmo tempo, eu tive que suportar as críticas, que se espalhavam rápido, sem reagir. E isso deixou marcas. Mas eu garanto a você, eu não quero nem o poder, nem o dinheiro e nem a glória, mas eles disseram tanto isso sobre mim que eu terminei por aceitar isso ao pé-da-letra… Algumas canções não passam de um grande “foda-se” a todos os que disseram algo em meu nome, a todos os que pensaram saber o que eu sou ou o que eu quero. Todos os dias eu tenho que enfrentar pessoas que pensam que eu sou uma piada. E o pior, que minha carreira foi lançada neste mal-entendido!

PM: Você sofreu muito por isso?
LDR: Sim, foi difícil, eu estava infeliz. E eu ainda não superei isso, eu não sei se vou conseguir fazê-lo um dia. Carl Jung disse que aquilo que as pessoas pensam de você sempre acaba se tornando uma parte de sua psique. Quer você queira ou não. Então, sim, em um certo momento, acabei por admitir que eu era aquilo que as pessoas descreviam na internet, nos jornais, “a boneca manipulada”. Isso mudou o modo como eu via minha carreira, mas não a forma como eu escrevo. E isso é o mais importante no fim das contas.

PM: Você não pensa às vezes ter “entregado o bastão para que batessem em você”? Nós a vimos em propagandas, por exemplo, que não tinham relação com a música…
LDR: Eu fiz uma campanha publicitária para a H&M. Do resto, estou me recuperando… H&M me apoiou em um período em que eu não podia contar com muitas pessoas. Me fez bem.

PM: Quem te virou as costas?
LDR: As revistas de música. Elas me elogiaram em julho para melhor me rebaixarem em janeiro. Eu tive que mudar meus planos, encontrar pessoas que pudessem apreciar o que eu faço para aliviar minha música diferentemente. Agora por que H&M? Nesses momentos, você deve afundar ou nadar. Eu optei por não ser levada pela onda.

PM: Você ainda escreveu “Minha vagina tem gosto de Pepsi Cola”. Você entende que isso pode não agradar a todos?
LDR: [Ela ri] Qual é, francamente, isso não faz você morrer de rir? Precisamos parar de levar tudo a sério. É a única frase explícita que eu pude escrever e eu a achei particularmente engraçada.

PM: Quando mais jovem, você sonhava com essa vida?
LDR: Eu queria me tornar uma cantora, mas eu não via como conseguir isso. É verdade que eu já sonhei em cantar na Itália, em vir a Paris, em dormir em Versalhes. Eu nunca imagine cantar para Harvey Weinsten, em Cannes, ou escrever para filmes. Meu caminho é verdadeiramente surpreendente, ainda hoje cada dia traz sua cota de surpresas, boas ou más.

PM: Rumores dizem que foi seu pai quem financiou seu primeiro álbum.
LDR: Não, eu não tinha nenhuma relação com meu pai na época. Ele é uma ótima pessoa, mas não sabe nada sobre música. E francamente, você acha que se pode comprar um contrato com um gravadora? A verdade é que, aos 18 anos, eu participei de um concurso de composição e eu conheci o dono de uma gravadora que me ofereceu um contrato um mês mais tarde. Durante dois anos nada aconteceu, meu disco ficou retido. Então eu continuei a cantar em bares. A história de meu pai é uma boa história para a imprensa, mas ela é falsa. Meus pais queriam que eu encontrasse um trabalho “de verdade”, que eu me tornasse advogada. Eles não acreditavam na música. Eu vivia em Nova Iorque com meu namorado, meus pais em Lake Placid, a sete horas de distância. Eles estavam longe da minha realidade.

PM: Você viveu quase dez anos de dificuldades. O que restou disso?
LDR: Fui muitas vezes desanimada, eu fazia meus próprios vídeos que ninguém notava. Então, sim, eu pensei que não teria sucesso, mas eu sempre soube que eu era uma cantora, que eu tinha alguma coisa diferente em relação aos outros, uma voz, especialmente. Eu sabia também que a música me agradava mais que aos outros, era um mundo onde eu me sentia bem. Antes de “Video Game” explodir, eu pensei em encontrar um trabalho para me sustentar… Eu tinha 24 anos, eu cantava há sete anos, tinha chegado ao fim de um ciclo.

PM: O fato de mudar-se para Los Angeles mudou sua vida?
LDR: Eu me mudei para Los Angeles no ano passado. Quando faltaram oportunidades pra mim, eu me mudei para Londres onde morei por três anos. L.A. me fez bem, eu encontrei uma comunidade musical. E eu tive a impressão de encontrar uma válvula de escape lá.

PM: É importante pra você ser americana?
LDR: Não, apesar de que eu amo o meu país. Eu passei tanto tempo em aviões que nem me sinto mais ligada aos Estados Unidos. Aqui, em Versalhes, eu tenho a impressão de estar em casa. E senti o mesmo na primeira vez que pus os pés em Los Angeles.

PM: Você tem amigos na música?
LDR: Um ou dois, não mais que isso…

PM: Amigos de antes de sua desintoxicação?
LDR: Eu não tinha amigos naquela época. Eu era muito solitária, eu tinha o álcool, mas eu estava tão fodida que isso não me permitia criar relações verdadeiras. Meus melhores amigos, eu encontrei em Nova Iorque, uma vez que eu já estava “limpa”. Eu lamento um pouco essa época porque eu não sou realmente feliz em minha vida hoje em dia.

 

Por Benjamin Locoge
Traduzido por Mateus Santana

 

Redação LDRA
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