‘Eu sou muito grata por ter alcançado um público com minha música’, confira a entrevista publicada no site alemão N-Tv

por / sábado, 07 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

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Lana Del Rey 

“Estou me sentindo muito bem agora”

É meio dia no Sunset Marquis Hotel, em West Hollywood. Lana chega com uma assistente e amiga de Barrie, tudo em silêncio ao redor. Ela veste uma camisa de bolinhas brilhantes, short jeans e sandálias. Cabelos escuros, ela parece bem natural e – não menos importante – mais atraente que por ocasião de seu primeiro álbum, Born to die, há dois anos e meio.

Muito se passou desde então. A cantora de 27 anos, que veio ao mundo como Lizzy Grant, encantou o mundo inteiro com sua estética dos anos 60 e seu pop cinematográfico; “Video Games”  e “Summertime Sadness” já são quase clássicos contemporâneos e as expectativas são de que o segundo álbum, Ultraviolence, seja de um nível ainda mais elevado. Sete faixas já estão disponíveis para serem ouvidas além da já bem conhecida e voluptuosa “West Coast”, e elas têm títulos impressionantes como “Shades of Cool”, “Money, Power, Glory” ou “Fucked my way up to the top”. E apesar de o álbum ter sido produzido por Dan Auerbach, o frontman de vocais rangidos e secos do The Black Keys, um minimalista nato, Ultraviolence é uma estreia absolutamente inigualável na opulência do pop.

 

Lana, como foi seu concerto no “Coachella Festival”?
Foi incrível! Eu diria que foi um dos melhores momentos  de todos. Foi ótimo

Foi um de seus melhores momentos nos palcos ou um dos melhores momentos da sua vida pessoal?
No palco. E na vida também, na verdade. Tudo fluiu tão bem. E nada é fácil pra mim na vida.

Ah, fala sério
(Lana arqueja) Por Deus. Nada na vida me caiu dos céus. Mas ontem a noite foi perfeita. Estava quente, ventando e bonito. Eu nem vi o Muse. E nem o Motörhead, que estava junto com o Slash no palco.

A Lana Del Rey é fã de Metal?
Sim, eu gosto de rock clássico e eu acho o máximo a energia do metal .

Você atualmente mora aqui em Los Angeles? Você se transformou na menina “West Coast?
Sim, pode-se dizer que sim. Eu gosto muito da cultura e das histórias da Costa Oeste. Meu novo vídeo, por exemplo, mostra meu tatuador favorito, Mark Mahoney, que é um dos grandes mestres da sua área profissional. A energia de Mark e a energia dos skatistas profissionais que estão no vídeo revelam uma mistura bem legal à moda de L.A que eu muito aprecio.

No vídeo você vaga bem solta pela praia.
Eu acho praias incríveis. Eu sou de Lake Placid, um lugar de desportos de inverno nas montanhas, perto da Costa Leste. O Oceano Pacífico parece o Paraíso do fim do mundo quando se vem de um lugar desses. O mar sempre foi uma paixão inatingível pra mim. E agora eu vivo lá.

Você mora sozinha?
Não, nós somos quatro. Charlie e Caroline, meus irmãos mais novos, moram comigo. E também Barrie (James O’Neill), meu namorado. Ele é escocês e também é músico, mas acabou de deixar sua banda e está à procura de um novo emprego.

O que fazem os seus irmãos?
Minha irmã é fotógrafa, nós frequentemente trabalhamos juntas. Ela também está se formando como professora de yoga. O Charlie tem 20 anos e estuda cinema na UCLA.

Você faz yoga com sua irmã?
Sim, eu faço. O bom do yoga é que me acalma. Também me ajuda a me acostumar cada vez mais, porque minha vida é muito desgastante. No geral, eu me sinto melhor hoje que há dois anos, quando tudo começou e exigia demais de mim, de certa forma. O começo foi um momento sombrio, com uma multidão quase ameaçadora que vinha de forma barulhenta em minha direção. As coisas finalmente estão melhores agora e eu estou alegre com o que está por vir.

Como Lizzy Grant você fez um sucesso razoável. Como Lana Del Rey você estava em vários lugares ao mesmo tempo, a campanha publicitária foi enorme e seu vídeo para “Video Games” foi considerado uma espécie de sensação artística.
Eu ainda não estou acostumada com tudo, digamos que estou em uma fase de adaptação artística. Eu ainda estou procurando um equilíbrio que balanceie minha vida pessoal e minha profissão. Eu gostaria de ter uma estabilidade emocional duradoura. O meu estado natural é o de um observador discreto. Porém, por conta das circunstâncias, o acesso a este estado não tem sido tão fácil como antes.

Para uma celebridade mundial, você é bastante introvertida e quase tímida, o que é uma mudança refrescante em relação aos seus colegas, que gostam de tocar certas partes do corpo ou demonstrar algum tipo de excentricidade.

(Risos) Sim, obrigada por ver as coisas dessa forma. Eu, de fato, sou de uma família bastante discreta e tradicional. Eu aprendi a falar sobre certos problemas e discuti-los em pequenos círculos e não em público. Mas eu também não sou um ratinho intimidado. Eu posso ser barulhenta e determinada. Com meus irmãos eu não tenho como agir de outra forma que não desta. (Risos)

Como você consegue não ser tão onipresente quanto Miley Cyrus ou Lady Gaga?
Você consegue controlar até certo ponto. Não morando no Centro, por exemplo. São bons 10 quilômetros da nossa casa até Hollywood ou Beverly Hills. Moramos em uma área normal, com vizinhos normais, o que faz com que eu me sinta bem.

Vamos falar sobre o Ultraviolence. As canções são bem calmas, solenes, às vezes soam como hinos e são atmosféricas também. Os elementos hip-hop de seu primeiro álbum Born to Die foram deixados de lado.
Sim, é verdade. A grande manchete do Ultraviolence era “sentimento”. O primeiro álbum, que surgiu do trabalho com o produtor Emile Haynie, tem algumas músicas com uma batida de hip-hop meio anos 90. Enquanto eu estava trabalhando no Ultraviolence, já no estúdio, eu encontrei Dan Auerbach no Queens, em  Nova Iorque. Fomos a um clube e tocaram “Summertime Sadness”. Nós começamos a dançar juntos. Então nos olhamos, rimos e dissemos quase simultaneamente: “Não seria muito engraçados se nós tivéssemos de ir para um estúdio?”. Eu gostei de Dan, porque ele era muito espontâneo. Voamos para Nashville, ele convidou seus músicos favoritos, e seis semanas mais tarde o álbum estava pronto.

Você tem toda uma influência dos anos 70, apesar de ter desenvolvido uma linguagem musical própria. Rapidamente identifica-se uma canção de Lana Del Rey.
Isso significa muito pra mim. Eu sou muito grata por ter alcançado um público com minha música. Não importa o que os outros digam. Eu tenho desenvolvido a minha música a partir de minhas próprias ideias, com base em minha intuição pessoal. Eu não sou um produto artificial e preciso esclarecer isso mais uma vez. Não foi fácil para minha música no início, pois não era tão típica e inconfundivelmente atribuível a um gênero que estivesse na moda. Eu certamente tive sorte, mas também estava procurando fazer algo novo.

Quando “Video Games” saiu, as pessoas duvidaram fortemente de sua identidade a da autenticidade de sua música.
Oh, Deus, sim. Esse foi um enorme problema.

Você concorda que já resolveu essa controvérsia ao seu redor? Ninguém mais reivindicou que você seja um produto fabricado.
Provavelmente, sim. Eu ainda sou um pouco suspeita e alvo de opiniões. E minha música também sempre foi. Você não pode criar valores duradouros na música pop se você não tem nada pra contar. Ou quando se é apenas um é um fenômeno passageiro. Então eu não sei se eu – como você disse – venci isso. Sei, porém, que hoje, pela primeira vez em três anos, eu me sinto confortável e não na defensiva. Estou calma e me sinto equilibrada comigo mesma. Que sensação de frescor agradável. (risos)

Sobre o que é a canção “Ultraviolence”?
“Ultraviolence” se volta para o meu tempo em Nova Iorque. Eu costumava ser parte de uma cena underground  enviesada que era dominada por um guru. Isso tudo me voltou à mente de uma forma um pouco estranha. Mas ele era de um carisma tremendo do qual eu não conseguia escapar. Infelizmente percebi muito tardiamente que esse guru não era uma pessoa boa, mas uma pessoa má. Ele acreditava no conceito de que as pessoas devem ser quebradas para depois serem reconstrudas. E as pessoas, ao invés de detê-lo, seguiam-no e confiavam nele cegamente.

Você está em paz agora? Você já encontrou seu estilo de vida preferido e a segurança desejada?
Eu espero que sim. Eu estou tentando construir algo permanente nessa vida, porque eu simplesmente a amo.

Por quê?
Eu simplesmente me fixei nisso. A casa, o relacionamento, tudo isso. Eu tenho desejado uma espécie de vida artística, e agora eu a tenho. Ao mesmo tempo, no entanto, tenho ambições quanto à minha carreira, aspiro a isso tudo longe desta situação estável. Eu preciso olhar para o chão sólido sob os meus pés com a minha ambição e minha vontade de seguir em frente como artista, como se eu pudesse levá-los em linha reta – emocional e literalmente. No momento eu não tenho ideia de como tudo isso deve funcionar.

Mesmo assim, a vida estável e as relações estáveis te fazem bem, certo?
Ah, sim! Eu gosto disso, de poder estar por três anos sendo feliz e vivendo uma relação bonita. Quanto ao Barrie, é a primeira vez que um homem permitiu que meu caminho e o dele, ao meu ver, pudessem correr infinitamente em paralelo.

Em “West Coast” você canta “Down on the West Coast/ They got a saying/If you’re not drinking/ Then you’re not playing”, algo como “Lá na Costa Oeste/ Eles têm um ditado/ Se você não estão bebendo/ Então você não está no jogo”. Você usa o texto pra se referir ao seu problema com álcool na adolescência?
Rum e Cola estão presentes ainda hoje na minha vida.  Parece difícil pra mim me manter abstinente deles. Mas eu não bebia há quase dez anos. Eu não estou certa se devo tentar novamente, mas, infelizmente, eu gostaria de saber. Se você me vir, em breve, bêbada nas primeiras páginas de um tabloide, você vai saber que não foi uma boa ideia dar uma chance para o álcool novamente. (risos altos)

Você trabalhou recentemente como modelo para a H&M e para a Mulberry. Você sabe o que você significa para a indústria da moda? Seria você um ícone do estilo?
(Pensa um pouco) Não sei, talvez meu rosto tenha aparecido no momento certo. Como cantora independente em Nova Iorque, eu não teria como produzir nem roupas de estilo, tampouco roupas caras. No começo eu não entendi porque o mundo da moda estava interessado pra mim.

Você acha que se divertiria atuando em um filme?
Eu acho que sim, se o papel me agradasse. Eu me vejo mais claramente em um filme independente legal do que em uma grande produção de Hollywood.

Você já se resolveu com a sua vida de menina da Zona Leste de Nova Iorque e com a vida de estrela mundial de Hollywood?
Bem, é provável que essa seja a grade tarefa da minha vida. Na maioria dos dias eu me saio comicamente bem, em outros eu tenho algo que parece roer minha identidade, e fico sem saber exatamente quem sou. Felizmente os dias agradáveis têm sido em maior número que os dias ruins.

 

Por Steffen Rüth
Tradução por Max Lima

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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