‘Sinto-me com a alma de uma guerreira’, leia a tradução da matéria e entrevista feitas pela revista Madame Figaro

por / sexta-feira, 27 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

Madame Figaro

 

Lana concedeu uma entrevista à revista francesa Madame Figaro e falou sobre suas inspirações, a importância da parte visual em sua carreira, cinema e mais! Confiram a tradução da matéria e da entrevista abaixo.

 

Três anos após sua aparição fenomenal, ela volta com um segundo álbum mais “rock”, o Ultraviolence. Com frases lânguidas e um lirismo sombrio e sensual: a diva Lana ainda está lá, mas a mulher-menina melancólica se endureceu. Entrevista feita em Los Angeles:

Quando Lana Del Rey propôs seu primeiro álbum Born to Die, em 2011, seus ares de boneca surreal e suas palavras de pássaro ferido partiram nosso coração. Foi como se todas as nossas atrizes americanas favoritas, de Rita Hayworth à Julianne Moore, de repente começassem a cantar o seu mal-estar hollywoodiano com beicinhos de crianças mimadas. Mais de dois milhões de álbuns vendidos mais tarde (sendo 1 milhão só em sua terra natal), a incompreensão a assolou. A jovem Lizzy Grant (seu verdadeiro nome), 24 anos na época, se tornou uma “aberração” que as pessoas amavam ou detestavam.

E então, Lana Del Rey se revelou estranhamente à vontade ao dar vida a uma personagem de lolita já desbotada, fascinante, como se tivesse saído de um filme de David Lynch, auxiliada nesta tarefa pelo francês Woodkid, diretor de dois de seus clipes icônicos. Nós seríamos capazes de chamar esta visão de “anamorfose”, tanto que a percepção do público de Lana Del Rey – rapidamente acostumados às suas poses de pin-up, via um marketing feroz – tornou-se injusta e tendenciosa. Carimbada como “Lady Gaga folk” pelos corporativos sempre prontos a descartar seus ídolos de ontem, às vezes venerada e outras detestada pelo seu sucesso meteórico, Lana endureceu-se.

Ela voltou com um segundo álbum, mais “rock’, com guitarras poderosas, com um toque de “blues”, que a força aos seus limites. De vítima ela se transformou em lutadora. Nós gostaríamos de vê-la em destaque em produções de Quentim Tarantino ou de Brian De Palma. O cinema contemporâneo, como fantasia recorrente, o qual Lana Del Rey reivindica uma ligação visceral entre sua escrita e sua sinestesia.

Poucas horas antes do nosso encontro em Los Angeles, tivemos a oportunidade de escutar, em primeira mão, seu álbum (após muitas objeções) intitulado Ultraviolence. Inteligente e ao mesmo tempo lírico, ele se encaixa perfeitamente com o humor que a cantora tem experimentado nos últimos 3 anos. Ele parece ser um álbum para o verão, mas um verão assassino, desfalecido à beira de uma piscina vermelha de sangue.

Músicas para ouvir em dias quentes, à espera de um outono úmido. Deixando de lado as aparências, o glamour puro e suave deu lugar a algo mais autêntico. A casa escolhida para a sessão de fotos fica em Topanga Canyon, bairro de hippies ricos, oxímoro perfeito para celebrar tanto a sedução quanto a liberdade. O cenário é impressionante e o dia foi longo. Verdadeira, tímida e sorridente, por trás das aparências, nós compreendemos que Lana vive torturada, frágil e misteriosa, presa entre a doçura californiana e a crueldade que implica em ser uma celebridade. Sempre na fronteira de uma sutil complexidade e de um charme retrô de primeiro grau, ela respondeu às nossas milhares de perguntas após o ensaio fotográfico. Conclusão: o mais importante é a música. O resto é apenas um jogo de espelhos. Mas que espelhos…

Madame Figaro: Você tem a impressão de que a imagem ainda é tão importante quanto a música?
Lana Del Rey: Com o primeiro disco, eu não tive a impressão de que eu interessei as pessoas musicalmente. O projeto foi, então, mais ditado pela imagem. Desta vez, eu espero que o público não se foque nas aparências. Eu me sentia controlada pala percepção distorcida que tinham de mim, mas eu já não me sinto dependente dela mais.

MF: Sua voz se revela menos frágil, como se você estivesse lutando contra os elementos, especialmente contra as guitarras que Dan Auerbach colocou contra você.
LDR: Sinto-me com a alma de uma guerreira. Uma guerreira cansada, mas uma guerreira. A diferença se mostrou ao cantar ao vivo, no mesmo ambiente que a banda, registrando tudo em uma única tomada. Soou mais natural. Mantivemos muitas imperfeições. Eu trabalhei com a mesma equipe, comecei a produzir no Electric Lady Estudios em New York, onde eu encontrei Dan. Então nós fomos para Nashville durante seis semanas para reestruturar as músicas.

MF: O título “Ultraviolence”significa que você não estava preparada para o sucesso do seu álbum anterior? Você está preparada agora?
LDR: Está sendo bastante solitário, eu não me sinto melhor preparada, mas ao menos eu luto. Os três últimos anos foram muito duros, eles me mudaram. Mesmo escrever está sendo difícil pra mim, pois eu estou muito cercada. Quando todos ao seu redor andam com a mesma velocidade que você e te irritam, subitamente a energia de um encontro com um desconhecido pode ser pode ser poderosa o suficiente para te despertar o desejo e a ideia de uma melodia. Esses momentos são raros, eu não vivo sempre experiências tão fantásticas assim. Para isso eu preciso dirigir meu velho carro, ir à praia, esperar.

MF: É evidente que você pertence à Costa Oeste e a todos os seus mitos, e podemos ver isso em seu estilo de escrita cinematográfico. É uma fonte de inspiração?
LDR: Sim, com certeza, eu vejo imagens quando escrevo. Visões do futuro, cores.E eu espero ter muitas facetas. Há sempre uma dicotomia em mim. Quanto ao cinema, já me ofereceram papéis em em alguns filmes independentes sobre os anos 60 e 70 exibidos em Laurel Canyon, mas eles jamais serão lançados. Dito isso, atuar é uma extensão natural do meu trabalho. Eu adoraria atuar para Darren Aronofsky. Ou Hitchcock se ele estivesse vivo. Minha inspiração também está intimamente ligada à história e à energia de Los Angeles, com as pessoas que conheci, como meu tatuador Mark Mahoney. Eu amo o início dos anos 90 dessa cidade, que evoca uma espécie de cinematografia perdida. A imagem das paisagens espetaculares de L.A. como a Pacific Coast Highway, o litoral.

MF: Seus álbuns estão cheios de contrastes melancólicos. Você parece esconder um segredo sob a pele…
LDR: Eu tento me manter racional e sã, mas, por dentro, eu carrego muitas contradições. Tenho momentos de paz e de muito tormento. É tumultuado. Como eu adoro a cor das palavras, eu escolhi Ultraviolence como título pelo som que essa palavra cria em sua língua, e também pela justaposição de uma sonoridade luxuosa à dureza de “violência”. Eu gosto disso.

MF: Quando escutamos seu álbum pela primeira vez, nós pensamos em rock, mas é mais complexo que isso?
LDR: Eu estou muito contente por ouvir isso. Mesmo a influência principal sendo o rock na sua forma mais clássica, como o feito pelo The Eagles ou Bob Seger. Na verdade, eu me pergunto se essa não é a música ideal para dirigir. (Risos) Prevalece nele um humor rebelde e selvagem. Além disso, alguns não ficaram contentes ao descobrir que há um tom de jazz em “Shades of Cool” (Nota: para nós, a mais bela canção do álbum). Para mim, tudo veio da química criada com Dan Auerbach e a banda. Quando ouço guitarras elétricas realmente pesadas isso me lembra um festival de música, eu imagino uma cena ao ar livre.

MF: Você não tem medo de que essa face “independente” torne o álbum “invendável” (dificulte as vendas)?
LDR: Sim, um pouco.

MF: E você parece estar orgulhosa.
LDR: Sim. (Lana cai na gargalhada) Eu não deveria, mas isso não quer dizer que meu trabalho veicule exatamente o que eu queira transmitir. Nós tivemos o cuidado de aprimorar todas as músicas para que elas me parecessem verdadeiras, para respeitar minha filosofia, que é compor canções que falem primeiramente sobre mim.

MF: Então o que poderia parecer como “ataques de diva” é, na verdade, perfeccionismo. O que tanto te agrada no processo de criação?
LDR: Eu me preocupo muito com minhas músicas. Quando eu estava em Nashville, eu aluguei uma fazenda e, todos os dias, eu me sentava por horas e escutava o grupo: eu estava em casa. Quando isso terminou, eu me senti vazia e esperei por novos sinais. Eu procurava por sinais em tudo. Eu penso sempre sobre a morte, o conceito de mortalidade é uma ameaça constante e vaga. Eu o acho esmagador, de verdade. Qual é o objetivo? E se nada acontecer depois? Eu creio em um poder maior que nós, que pode nos guiar e nos ajudar a encontrar as respostas. Mas é difícil perceber isso quando você está em constante movimento.

MF: Você está feliz?
LDR: Não realmente.É difícil ser feliz, eu sempre sinto uma espécie de desconforto e me encontro bloqueada, esperando por algo. Eu sou um pouco confusa. Quando eu termino qualquer coisa, eu fico muito chateada…

Por Félicien Cassan
Traduzido por Mateus Santana

Veja também o ensaio fotográfico feito para a revista.


Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Graziele Vieira

    Aí você termina de ler… Traduzido por Mateus Santana. Ai que orgulho <3

    • Mateus

      Ah, Grazi <3 <3 <3

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