‘Eu busco a companhia dos espíritos’, leia a entrevista concedida à revista francesa Les Inrockuptibles

por / quarta-feira, 18 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

Les Inrocks

 

Em Janeiro de 2012, JD Beauvallet entrevistou Lana para a Les Inrockuptibles (leia a tradução clicando aqui) e em Novembro do mesmo ano, Stéphane Deschamps também a entrevistou (leia a entrevista aqui). Agora ele a entrevista novamente e fala sobre as inspirações para o Ultraviolence, a relação com Dan Auerbach em estúdio, as aflições que a morte provoca nela e muito mais. Confira a tradução completa.

 

Eu busco a companhia dos espíritos

O medo de não ser capaz de escrever, a dúvida permanente, o caos em sua vida: o período após Born to Die não foi bom para Lana Del Rey. Mas ela volta com o suntuoso e despreocupado Ultraviolence, sempre assombrada por fantasmas e infortúnios.

JD Beauvallet: Após o seu último álbum, você disse que estava se aposentando da música. Mas você está de volta com Ultraviolence.
Lana Del Rey: Eu estava incerta se reencontraria a minha inspiração um dia. E eu não posso fazer um álbum sem ter uma ideia sobre o conceito ou a própria narrativa. Mas em Dezembro e Janeiro, tudo foi desbloqueado depois que eu conheci Dan Auerbach do Black Keys. Aconteceu algo físico entre nós, algo químico. Quando nós gravamos a música Brooklyn Baby, nós sentimos que havia algo acontecendo. O álbum foi realizado em uma atmosfera bem despretensiosa. Isso foi muito surpreendente para mim já que eu trabalhava com as mesmas pessoas e ali eu estava com um homem completamente desconhecido!

JDB: Como você se sente em frente a uma folha de papel em branco?
LDR:
Naqueles últimos anos, eu passei por longos períodos nos quais eu não conseguia escrever. Eu estava sempre em turnê e achei, ingenuamente, que eu conseguiria escrever na estrada, mas era impossível. Finalmente, em dezembro de 2013, eu passei algumas semanas no Electric Lady Studio em Nova Iorque gravando sozinha meu álbum inteiro com meu guitarrista Blake Stranathan e um baterista de estúdio. Meu modelo de som era os The Eagles! Naquele momento, eu conheci Dan e ele disse que eu fazia sons parecidos com rock clássico e então nós refizemos tudo em Nashville em 6 semanas e na maior parte do tempo ao vivo.

JDB: A influência de The Eagles é evidente em “Pretty when you cry”. Você vai trazer de volta as músicas lentas e torná-las tendência!
LDR: Ninguém faz músicas lentas mais, eu adoraria tentar novamente, faz tanto tempo. Eu amo dançar. Durante as sessões em Nashville, no fim do dia, nós ouvíamos novamente o trabalho que havíamos feito e dançávamos igual loucos. Dan chamou seus amigos do Brooklyn para a gravação, nós convidamos pessoas que conhecemos em uma loja local, Juliette Lewis ou Harmonie Korine também estavam por lá: eu nunca tinha trabalhado dessa forma antes. Também era a primeira vez que eu conheci pessoas tão criativas em estúdios, e a primeira em que eu abri as portas também. Agora eu sou capaz de me manter isolada das pessoas ao meu redor em um estúdio quando eu estou experimentando livremente: existe um universo enorme dentro da minha cabeça no qual eu posso me abrigar. Eu posso não ter muita sorte diariamente na minha vida pessoal, mas na minha vida em estúdio, eu estou enriquecida: estou sempre rodeada de pessoas boas. O simples fato de que um homem como Dan se interessou em mim colaborou muito para a minha autoestima e meu bom humor.

JDB: Como foi a relação de vocês em estúdio?
LDR: Dan tem um humor imprevisível: ele pode ser muito quieto em um dia e muito animado em outro. Mas as coisas se passavam muito naturalmente entre nós, a gente se divertiu bastante. Ele é uma pessoa verdadeiramente apaixonada, com dogmas rígidos: ele se recusa a fazer algumas coisas categoricamente. Isso nos aproximou. No início, o meu álbum e o dos Black Keys iriam ser lançados no mesmo dia. Após 4 semanas da gravação do meu, ele estava tão envolvido  que começou a imaginar que o meu álbum era dele e isso influenciou seu trabalho com sua banda – ele refez algumas músicas que achou que não estavam no mesmo nível! Ele ama meu álbum. Ele me ligou muito tarde uma noite só para dizer “Eu não sei se estou pirando, mas sinto que estamos fazendo um super disco!

JDB: Você listou algumas palavras que resumem seus desejos antes da gravação?
LDR: Havia o “fogo”. Dan é bem técnico e concreto, ao contrário de mim, que sou imaginativa. Com ele, eu usei meu próprio vocabulário para fazê-lo entender onde eu queria chegar. Eu dizia, por exemplo, que eu queria que meu álbum evocasse chamas, mas as azuis, as mais quentes… Eu falava com ele de azul elétrico com reflexos vermelhos.

JDB: O que ele mudou nas suas canções?
LDR: Em uma música eu não gosto da bateria e das guitarras e ele chegou com um tocador de contrabaixo, um saxofonista e um profissional de guitarra elétrica… Ele ama músicos, ele é um homem real, rodeado por 7 caras que são seus melhores amigos, um verdadeiro macho-alfa! (Ela ri) Isso não me incomodou, eu amo os homens, eu tive momentos muito bons. Como eu estou no meio musical, eu só ando com pessoas que estão em uma banda e na maior parte do tempo eles são homens. Eu posso me tornar muito “masculina” nessas condições.

JDB: E quando você está em estúdios, você se comporta como uma geek?
LDR: Sim, principalmente durante a mixagem. Eu passei 4 semanas em Santa Monica com Robert Orton (um dos produtores). Como nós gravamos ao vivo em Nashville, em um console Neve velho, nós tivemos que digitalizar tudo e acabou que o som ficou confuso, todos os instrumentos estavam se sobrepondo. Nós tivemos que reestruturar e reprocessar. Nós passamos da espontaneidade para a meticulosidade. No estúdio, eu sei exatamente o que eu quero ouvir. Mesmo que demore semanas, eu sempre acabo ouvindo a música que eu tinha em mente. O mesmo acontece com meus vídeos: está tudo lá, nos meus storyboards. De repente eu posso fazer o produtor executivo ficar louco como eu talvez tenha feito com o Dan.

JDB: No seu trabalho, qual é a parte agradável e a parte dolorosa?
LDR: O prazer começa com a concepção do álbum e termina com a gravação. Eu não largo o console de mixagem até que as fitas sejam resetadas, um grande momento de tristeza. Então chega a turnê, que é dolorosa, e a divulgação, que é difícil. Eu me sinto forçada a justificar, a me defender, apesar de eu não sentir a necessidade de fazer isso: minha música é boa o suficiente para não precisar disso. Eu preferiria manter o silêncio.

JDB: Suas músicas passam uma estranha mistura de luxo e tristeza, um pouco como Roy Orbison…
LDR: Isso é verdade! (ela canta um pouco de “Only the lonely”) Eu tenho a impressão de que faço músicas alegres, mas quando eu faço outras pessoas ouvirem-nas elas me dizem o quanto elas são tristes… Eu não posso escapar da minha vida, que foi tumultuada o suficiente. Eu continuo sendo atormentada pela dúvida, pela tristeza. Eu só tenho nevoeiro e vazio a minha frente e eu odeio não saber onde estou indo. Na minha vida sentimental, minha vida familiar, eu não tenho nenhuma certeza… Agora eu tenho uma casa na Califórnia,onde eu cuido da minha irmã e do meu irmão, mas eu não posso falar realmente de uma casa “minha”…Quando eu volto, é impossível para mim me reajustar à vida real… É por isso que eu odeio não conseguir escrever, porque por 10 anos escrever foi o único elemento estável e tranquilizante na minha vida.

JDB: O que deu o tom de Ultraviolence?
LDR: A primeira música do álbum, Cruel World, determinou tudo. Ela posicionou o álbum geograficamente: a guitarra de Dan remete imediatamente à Califórnia. No início do texto existe uma certa pureza, uma simplicidade. E então o refrão começa com grandes batidas e uma desordem elétrica… Essa coabitação da normalidade e do caos simboliza muito o que eu passei na minha vida.

JDB: O álbum lembra a atmosfera despretensiosa dos anos sessenta e setenta em Los Angeles, especialmente a comunidade de músicos estabelecidos em Laurel Canyon…
LDR: Eu gosto muito dessa mitologia, principalmente de Joni Mitchell porque minha mãe ama. Quando eu vivi em Nova Iorque, eu estava procurando esse tipo de espírito de comunidade: meio como Jeff Buckley fez aglutinando pessoas ao redor dele nos anos 1990 ou como Dylan nos anos 1960… Mas eu nunca encontrei minha gangue, minha família. Quando eu cheguei em Los Angeles, eu finalmente conheci pessoas com quem eu poderia conversar e tocar, músicos que reatualizaram Laurel Canyon, como o Father Johm Misty ou Jonathan Wilson, com quem eu comecei a fazer o álbum… Tudo o que eu procurava em Nova Iorque, eu encontrei repentinamente na costa oeste.Eu dirigia de uma casa a outra em minha Mercedes velha, eu tinha a impressão de ter retornando ao colégio.

JDB: Você cresceu no interior. Você já era solitária?
LDR: Eu tinha um grupo de amigas, inseparáveis, nós éramos muito parecidas. Aquela foi a primeira vez – e a última – que eu senti tamanha união. Mas com 14 anos, eu fui mandada para um colégio interno, porque nós estávamos fazendo merda – como ficar com rapazes mais velhos ou fugir para ir a festas… E lá, eu me vi indo à igreja três vezes por semana. Por sorte, havia vitrais, e eu podia sonhar ao olhar para eles. Naquela escola, eu simpatizei com um dos professores – ele tinha 22 anos e eu, 15 – que me fez descobrir Jeff Buckley, 2Pac e Allen Ginsberg. Ele se tornou meu melhor amigo. Quando eu voltei para Nova Iorque aos 19, eu tentei reencontrar a amizade perdida com pessoas da minha idade, mas era tarde demais, eles estavam todos obcecados com suas carreiras, seu sucesso social… Eu me perguntava onde estavam os músicos prontos para sacrificar tudo, prontos para morrer por suas canções.

JDB: E você, você nunca foi atraída por essa realização?
LDR: Eu li um livro que falava justamente disso: sobre essa necessidade dos artistas de queimar as pontes para cada uma das possibilidades de carreira. Durante anos, minha vida estava em minha cabeça, ninguém sabia nada sobre ela. Era quase como uma vida dupla. Por muito tempo, ninguém além da minha colega de quarto ouvia minhas músicas. Eu tocava violão muito mal, através do dedilhado (ela canta). A primeira vez que ouvi Catpower me tranquilizou porque ela também tocava assim no seu início, com simplicidade. Mas houve realmente um encanto, eu sentia a música em mim, literalmente. Músicas inteiras já feitas saiam da minha caneta e no meu notebook. Aos 20 anos, enquanto nada acontecia eu decidi continuar por bem ou por mal, decidi responder a esse chamado. Soa estranho, mas eu era muito fã de minha música, eu nunca contava para os meus pais que eu matava aulas, eles nunca souberam que eu estava cantando ao invés disso. Eu tentei lutar contra a música, eu ficava aterrorizada com os olhares das pessoas, “Quem ela pensa que é?”.Eu tinha certeza que eles pensariam que eu não merecia isso. Muitos músicos me confessaram que se sentiam desconfortáveis. Música é algo muito pessoal, então nós realmente temos muito medo de ser rejeitados… Além disso, eu poderia ter simplesmente sido uma corista.

JDB: Em que momento você sentiu que estava certa em continuar tentando?
LDR: Durante as gravações de Born to Die. Eu nunca vou me esquecer da visita do meu pai ao estúdio. Ele não tinha a mínima ideia do que eu estava fazendo naqueles últimos seis anos e ele nunca havia me visto tão confiante, governada e realizada, pedindo para o produtor tocar uma batida ou sinfonia… Ele ficou em choque, ele sentiu que a minha música realmente era a minha paixão e me disse que aquele foi um dos dias mais lindos da sua vida. Meus pais insistiam para que eu não abandonasse os estudos pela música – eu terminei meus estudos sobre Filosofia, eu sabia que aquilo nutriria as minhas canções. Eu contei a eles bem no começo que eu queria me tornar uma cantora, mas eles não sabiam o quanto eu estava envolvida e determinada. Minha mãe se perguntava o que eu estava fazendo em Nova Iorque. Quando meu pai me viu, ele compreendeu! E isso meio que validou aqueles seis anos trabalhando.

JDB: Você acredita em um dom, em inspiração?
LDR: Mais do que qualquer outra coisa na minha vida, eu sinto que tenho um dom para música. Mas nestes últimos anos, com todos aqueles longos períodos durante os quais eu não havia escrito uma música que me agradasse, eu rezava para minha inspiração retornar… E então nesse último inverno, “Old Money” veio de uma vez. Carmen veio para mim enquanto eu estava andando na rua, eu coloquei as rimas nos meus passos (ela canta). Naquela época eu costumava andar muito, me ajudava a escrever. Agora eu dirijo, eu vou nadar no Pacífico. A inspiração volta com esses novos rituais, eu me gravo enquanto estou dirigindo meu carro, eu canto em voz alta…

JDB: Sua música é muito frequentemente assombrada por fantasmas e espíritos…
LDR: Se eu quiser falar por mim mesma, as pessoas vão pensar que estou completamente louca. Mas é verdade. A vida foi tão dura comigo nos últimos 4 anos que eu procurei consolo na vida após a morte… Antes de gravar ou de me apresentar nos palcos, eu pedia aos fantasmas que viessem me ajudar, me acompanhar. Eu tive que enfrentar tanto a mente analítica das pessoas que me refugiei no espiritual. Eu me sinto profundamente ligada a uma forma de misticismo, eu procuro a companhia dos espíritos. Eu sempre penso na morte, ela me assombra desde a infância. Quando eu entendi o que ela era, que meus pais não estariam aqui para sempre, tive uma crise de histeria, foi necessário chamar m médico. Lembro-me que um dia meu pai me levou para fazer compras devido a volta às aulas e eu o disse: “Por que comprar roupas novas se vamos todos morrer?” Eu escolhi estudar filosofia e sou apaixonada pela metafísica por tentar responder a essas questões. Por questionar a minha presença na Terra, por incorporar a ciência a essa reflexão. Há dez meses, eu  passei por um momento muito difícil e fiz uma visita a Fleur, uma das médiums mais conhecidas dos Estados Unidos. Ela confirmou um monte de coisas que estavam me afligindo. Sua assistente me fez escrever secretamente algumas perguntas que eu desejava fazer à Fleur. A primeira era “Eu sou feita para este mundo? Eu deveria estar aqui?” Eu teria ficado muito envergonhada em fazer essa pergunta a quem quer que seja, mas por outro lado, eu me sentia totalmente desconectada de minha música, de meus colegas. Ela imediatamente respondeu: “Porque você está tentando escapar de si mesma? Firme seus pés firmemente no chão e diga a si mesma que você nasceu aqui e nesta época por uma boa razão. Ao invés disso, procure conforto na terra, na areia, na água…” E foi lá que eu comecei a me reconectar com os fundamentos do mundo, a caminhar na praia, nadar no Pacífico. Ela sabia muitas coisas sobre mim, sobre minha avó, sobre as joias que ela me deixou, sobre o meu irmão, de quem eu cuido há três anos, sobre as contrariedades dele ou a sobre a sua passagem em um instituto especializado… Isso realmente me abalou pois eu nunca havia contado isso a ninguém. Isso me tranquilizou quanto a presença de uma vida após a morte.

JDB: Muitos de seus ídolos são fantasmas também: Elliott Smithm Jeff Buckley, Marilyn Monroe, Kurt Cobain…
LDR: As pessoas que eu admiro pareciam destinadas a morrer jovens. Felizmente, Leonard Cohen prova o contrário. Eu não gosto do romantismo em torno destas mortes prematuras. Artistas são mais úteis vivos do que mortos.

JDB: Você cita Lou Reed em Brooklyn Baby…
LDR: Eu sonhava em colaborar com ele nesta música, eu achava que os versos pudessem diverti-lo (“My boyfriend’s in the band / He plays guitar and I sing Lou Reed”). O dia em que desembarquei em Nova Iorque para fazê-lo ouvir a canção, ele estava morto.

JDB: Você pode explicar os versos de Fucked My Way Up To The Top?
LDR: Aqui temos uma música que não vai passar nas rádios… Ela é parte de uma peça orquestral de 2 minutos que Dan Health me enviou, isso me inspirou e eu estou cantando essas palavras sobre… Quando tudo começou a ficar mais sério, eu liguei para ele e disse que eu amei sua melodia, que ela deveria se tornar uma canção e que eu esperava que ele me perdoasse pelos meus versos (risos)… De maneira geral, o lado orquestral é menos presente que no Born to Die, não há instrumentos de cordas como em outras músicas – e também sintetizadores. Eu considerei fazer sem eles completamente… Todos me perguntaram por que eu queria finalizar o Ultraviolence com um cover de The Other Woman da Nina Simone. Porque ela diz tudo, porque eu adoro jazz, porque pode até ser uma porta aberta para o que será o próximo álbum. Eu queria poder assinar essas palavras… Eu escutei milhares de vezes um outro cover de Nina Simone – Lilac Wine, por Jeff Buckley (ela canta)… Faz eu me lembrar minha aprendizagem de vida em Nova Iorque.

 

Por JD Beauvallet
Traduzido por Cecília Souza e Mateus Santana

 

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Redação LDRA
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