‘Meu verdadeiro eu é sempre a pessoa que eu sou agora’, confira a entrevista feita pela Intro Magazine

por / quinta-feira, 05 junho 2014 / Publicado emEntrevistas

Intro

 

Lana Del Rey
Eu quero ser eu mesma

Lana Del Rey veio do nada com grandes sucessos como “Summertime Sadness” e parecia um ícone dos tempos dourados de Hollywood em pleno ano de 2012. Como criadora de sua própria figura, a desconhecida Elizabeth Grant não apenas recebeu elogios com seu novo nome. Críticas sobre sua mudança de aparência vieram a tona. Agora que seu segundo álbum “Ultraviolence” está pronto, a artista está mais que feliz com sua realização pessoal. Emanuel Bergman se encontrou com uma Lana Del Rey relaxada, em Hollywood, a qual falou abertamente sobre  trabalhar com Dan Auerbach, seu amor por Marilyn Monroe, seu medo de tubarões e a tão falada cirurgia plástica.

Lana Del Rey senta na varanda de seu bangalô no Hotel Sunset Marquis, em West Hollywood. Ela fuma seu cigarro, aproveita-se do sol de abril nesse lugar glamouroso. The Sunset Marquis é – como o Chateau Marmont que fica perto dali – um hotel do Rock ‘n’ Roll. Algumas das maiores estrelas da música amaram e brigaram umas com as outras aqui se não gravassem algumas músicas do momento. O The Sunset Marquis tem um estúdio de gravação no subsolo. Esses hotéis são um novo luxo para ela. Ela escreveu suas primeiras canções em um trailer e já tinha aceitado que não faria sucesso algum. O álbum “Born To Die” a lançou para os charts, especialmente na Europa. Com 27 anos de idade, a nativa de Nova Iorque, agora tem seu coração batendo forte pela imensa costa oeste. Ela ama os ícones que apenas a Califonia possui. Lana Del Rey gosta de grandes gestos, ela sussurra como uma verdadeira diva de Hollywood no seu novo álbum “Ultraviolence”. Os tópicos principais ainda são o amor e a morte. Embora seja questionável se o público americano a amará tanto quanto seus fãs da Europa. No decorrer da conversa, Lana Del Rey não parecia uma estrela inacessível, mas sim relaxada e com os pés no chão, amigável e pensativa. Antes da entrevista, ela esteve no festival Coachella pela primeira vez. Ela parecia não acreditar no seu próprio sucesso.

 

Emanuel Bergman: Como foi sua apresentação no Coachella?
Lana Del Rey
: Muito louca. Eu nunca imaginei que o Coachella iria me convidar algum dia. E então tem mais de 50 mil pessoas em frente ao palco. Foi um momento deslumbrante para mim, nosso maior show na América até agora. Eu também assisti a alguns shows. Eu gosto muito do Matt Bellamy do Muse, então os assisti no sábado. E eu vi Lemmy e Motorhead da beira do palco, e Slash estava no palco como convidado. Insano.

EB: Você estava curiosa para saber como ficariam as novas músicas do “Ultraviolence”?
LDR: 
Claro, me levou um tempo para escrevê-las. Durante os últimos dois anos, muitas vezes eu me perguntava: “O que você vai fazer agora?” E a minha resposta era: “Eu ainda não sei”. Mas no último novembro finalmente surgiram algumas melodias para que eu pudesse encontrar as palavras certas. Então me acomodei no Electric Lady Studios no Lower East Side de Nova Iorque. O dono, Lee Foster, é meu amigo desde dez anos atrás. Eu perguntei se eu poderia brincar um pouco e ele disse: “Claro.” Tive o estúdio para mim por três semanas e algumas vezes Rick Nowels aparecia por lá, e eu já pensava que estava tudo pronto, mas então eu conheci Dan Auerbach do The Black Keys.

EB: Dan Auerbach influenciou na finalização do álbum?
LDR: 
Sim. Nós dois nos encontramos em um clube, olhamos um para o outro e sabíamos de imediato que  “Hey, precisamos fazer um álbum juntos”. Isso é incomum para mim. Eu trabalho com as mesmas pessoas desde três anos atrás e na verdade não queria que mais ninguém se envolvesse. Mas Dan tem uma certa espontaneidade. Ele é um ser humano muito positivo. Uma semana após encontrá-lo, eu voei até Nashville. Ele convidou alguns de seus amigos do Brooklyn e ouviu as trezes demos que eu tinha produzido no Electric Lady Studios. Eu estava no mesmo cômodo que a banda. Desta vez, eu não queria cantar em um microfone Neumann de ouro como Sinatra costumava fazer. Eu queria um que poderia segurar, de preferência com cabo. Compramos um Shure SM-58 e gravamos o álbum em seis semanas.

EB: As duas versões do seu single “West Coast” são bem diferentes uma da outra. O que tem a influência particular dos produtores Dan Auerbach e Rick Nowels a ver com isso?
LDR: 
Rick Nowels é como se fosse meu melhor amigo no quesito música. Ele é muito preciso e eu gosto de improvisar. Quando ele toca alguns acordes, eu posso cantar livremente por uns 20 minutos. Ele sempre fica espantado como uma música pode ser criada dessa maneira. No começo, não conseguia gostar de “West Coast”. Para mim, o som era muito estruturado. Verso, refrão, verso, refrão. Muito tradicional. Na verdade, não tinha intenção de colocá-la no álbum, mas Dan Auerbach trabalhou nela. A banda em Nashville ouviu a versão demo por três vezes, e em seguida, apenas começou. Os acordes não mudaram mas surgiu um fogo na canção. Eu queria esse fogo.

EB: O título do álbum “Ultraviolence” é uma referência ao romance Laranja Mecânica ou à adaptação cinematográfica feita por Stanley Kubrick?
LDR: 
Eu gostei da palavra. Algum tempo atrás, eu fiz um curta-metragem de 30 minutos chamado “Tropico”, que não foi um verdadeiro sucesso. A palavra “Tropico” não tem um significado especial, apenas significa “tropical”. Eu só gosto do som de algumas palavras, como “Ultraviolence”. Ela tem todos os elementos que eu quero: beleza, dureza, feminilidade, o encontro da masculinidade com a feminilidade. É uma palavra luxuosa. Mas apesar disso, eu sou uma grande fã de Kubrick.

EB: Sempre aparecem ídolos do cinema, como Marilyn Monroe ou John Wayne, em suas músicas e vídeos. De onde vem esse fascínio?
LDR: 
Eu não tenho uma conexão especial com John Wayne.  Mas alguém como Marilyn… é possível que o que ela significa pra mim é diferente do que ela significa para os outros. Eu li muito sobre ela e me sinto muito conectada com ela e sua personalidade. Ela era uma boa pessoa, sensível, calma e eu acho que isso é muito simpático. Ela deu tudo de si para atuar e cantar, mas ela foi muito atenciosa ao mesmo tempo. Eu me vejo assim também.

EB: Ela inventou a si mesma de uma maneira nova. Norma Jean se tornou Marilyn. Foi similar com você, que é uma criação própria. Como você chegou a decisão de que Elizabeth Grant deveria se tornar Lana Del Rey?
LDR: 
Quando eu era jovem, muitas vezes eu me perguntava se um dia teria coragem o suficiente para mudar o meu nome e tornar-me o “Diretor de criação” da minha própria vida. Se eu seria capaz de criar a vida que eu sonhava. Eu estava diante de uma tarefa assustadora. Minha família é muito tradicional, então pra mim era um objetivo arriscado. Mas com o tempo, tornou-se doloroso viver uma vida falsa. A única chance era me tornar uma verdadeira cantora, mesmo que eu não tivesse uma carreira de verdade. Não funcionou durante sete anos.

EB: Como surgiu o nome Lana Del Rey?
LDR: Meu namorado na época era de Delray Beach, Flórida. Muitas pessoas que lutavam contra a dependência de drogas e do álcool viviam por lá. Uma comunidade exótica. Eu gostei muito. E eu gostei do som suave do “a” em Lana, como “Allah” ou “Paradise”.

EB: Então você mudou por vontade própria. Quem ou o que é o seu verdadeiro eu?
LDR: 
Meu verdadeiro eu é sempre a pessoa que eu sou agora. Quando você nasce, alguém decide o seu nome e sua localização e de alguma forma seu trabalho. No passado, eu não era vista como eu realmente sou. Por um lado eu sou tradicional mas por outro eu tenho muitas fantasias e criatividade. Há uma grande quantidade de trabalho necessária para criar-se um mundo audiovisual em que você pode viver. Não é fácil, mas você também pode viver no mundo real.

EB: Você precisa de muita autodisciplina para ser Lana Del Rey?
LDR: 
Não, autodisciplina não é a palavra certa, é mais o contrário. Você tem que ser capaz de deixar acontecer.

EB: Você é muito bem-sucedida agora. Isso traz também uma certa imagem sua. É difícil controlar a sua própria imagem na mídia social?
LDR: 
Sim. Eu estive trabalhando no Underground do Lower East Side durante sete anos, desconhecida. Eu era capaz de escrever lá em paz e eu realmente gostei disso. Quando eu toquei minhas músicas para as outras pessoas, não houve nenhuma reação. Mas eu pensei: “Ok, então esta é a minha maneira. Eu faço o que eu amo, mas ninguém vai entender isso”. Eu tive que aceitar as consequências, financeiramente. Três anos atrás, o holofote se acendeu sobre mim, quando Fearne Cotton tocou uma das minhas músicas na rádio. Pessoas que não me achavam interessante, de repente voltaram suas atenções para mim. E em breve eles dirão: “No passado ela era isso, agora ela é isso”. Eles não viram o processo da minha mudança. É uma questão de tempo. Você se encontra em um ponto diferente da sua vida. O momento em que as pessoas veem o que você é, o momento que você começa a existir para elas. Mas a minha vida já estava acontecendo muito antes do sucesso.

EB: No passado, a cultura das estrelas de Hollywood foi afetada pela aura do segredo. Hoje, há muitas estrelas que não se preocupam com privacidade. Isso te assusta as vezes?
LDR: 
Sim. Minha família é muito reservada. Se alguém tem algum problema, você fala sobre ele em privacidade. Você não deveria sair por ai com as suas preocupações, isso seria ruim.

EB: Você acha que na Europa a fama e o sucesso são tratados de maneiras diferentes do que nos EUA?
LDR: 
Não. Mas eu acho que os artistas extraordinários são mais aceitos na Europa. Nós nos apresentamos nos EUA muito pouco antes do Coachella, mas fizemos grandes apresentações em Portugal, Alemanha e República Tcheca. A mentalidade europeia é muito diferente, as pessoas aqui são mais corajosas para analisar um trabalho. A visão da arte e da compreensão do artista é composta de forma mais ampla. Nos EUA, o mercado da música pop está gasto, você é rejeitado rapidamente. As pessoas só se preocupam com os charts. Mas atualmente, isso está mudando aos poucos.

EB: Mas também na Europa, como nos EUA, a beleza e a juventude são admiradas.
LDR: 
Não só na nossa cultura. Uma mulher bonita é um arquetípico, que também se aplica no antigo Egito.

EB: …mas cirurgias plásticas geram críticas negativas. Por quê?
LDR: 
Porque isso é arquetípico. Eu não vou muito fundo no mar, tenho medo dos tubarões. Eu nunca vi um, mas o pensamento não me deixa ir. É algo arquetípico. É sobre sobrevivência. Se você acha que alguém ganhou algo impropriamente, você acha injusto. Embora agimos como se fossemos totalmente civilizados, o ponto principal ainda é a sobrevivência. E, infelizmente, nos dias de hoje, pensamos que sobreviver tem algo a ver com a fama. Não é como no passado, quando ainda era sobre a vida e a morte. Estamos bem no oeste, não temos nenhuma necessidade, só estamos cansados. Qualquer um que tenha seus 15 minutos de fama ganhou o jogo da vida.

EB: As pessoas esperam que as estrelas sejam perfeitas?
LDR: 
Geralmente, estou deprimida porque sou diferente. Para mim, é sobre palavras que criam mágica ou se minha família está bem embora sejamos diferente um dos outros. Tive que me distanciar de algumas pessoas nos últimos anos porque entendi que eles não tinham o mesmo objetivo que eu. Quero me agarrar a coisas disponíveis, falo sobre relacionamentos reais. Mas eu consigo entender a inveja das outras pessoas. Eu tenho inveja das outras mulheres quando penso que elas desafiam o meu lugar no gênero musical.

EB: Só uma última pergunta sobre Hollywood: Você consegue se ver trabalhando como atriz em uma grande produção cinematográfica?
LDR: 
Eu não sei. Mas eu prefiro estar atrás das câmeras, filmando o meu próprio material. Mas me sinto mais confortável na frente de uma câmera do que na frente de 50 mil pessoas.

 

Por Emanuel Bergman
Traduzido por Hallem Anderson

 

Veja em nossa galeria as selfies tiradas pela própria Lana que ilustram a entrevista:

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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