ANÁLISE | Clipe de West Coast: Uma viagem pela Costa Oeste

por / domingo, 01 junho 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

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Para entender o clipe que Lana Del Rey e Vincent Haycock fizeram para a música “West Coast”, é preciso ter algumas coisas em mente antes. O vídeo foi gravado em Los Angeles, na costa oeste dos Estados Unidos, e é uma clara homenagem ao jazzista Chet Baker e ao documentário feito sobre ele em seus últimos anos de vida pelo fotógrafo e cineasta Bruce Weber. Anteriormente, Lana já havia demonstrado certa adoração pelo jazz de Baker ao participar do MTV Unplugged da banda sueca Mando Diao, em 2010. A canção “Chet Baker”, uma das que Lana participa, é apenas

Chet Baker na década de 1950

uma bônus do terceiro álbum do Mando Diao, Ode to Ochrasy, lançado em 2006. O contato de Lana com Baker, porém, parece vir até mesmo antes disso.

Chet Baker ficou conhecido mundialmente na década de 50 quando fazia parte do quarteto de jazz de Gerry Mulligan tocando trompete. Com a regravação do clássico do jazz “My Funny Valentine”, em 1952, Baker estouraria mundo afora graças ao seu solo vocal emblemático. Mais tarde, Baker ganhou ênfase na música por ser um trompetista e cantor, lançando seu primeiro álbum solo Chet Baker Sings em 1956. Baker foi um dos primeiros artistas da música a ser reconhecido pela sua imagem, um homem bonito, no melhor estilo James Dean, tendo sido apelidado de “Príncipe do Cool”. Ele se tornou um dos maiores jazzistas do mundo, mas com o início da década de 60 veio também o início de seu declínio. Baker era viciado em heroína desde o início da carreira, em 1950, e foi viciado até o dia de sua morte. Seu vício o levou à cadeia diversas vezes em vários países pelo mundo. Sua carreira foi colocada em pausa devido ao vício e a um ataque sofrido na Califórnia, no qual perdeu dentes e, consequentemente, sua embocadura para tocar trompete. Quando retornou à cena musical em 1966, encontrou-se sendo louvado como o precursor do estilo West Coast Jazz, que mistura o tradicional jazz com músicos que também cantam e têm sua beleza cultuada.

Em 1988, Baker teve sua carreira recapturada e recontada pelo cineasta Bruce Weber no documentário Let’s Get Lost, em que Weber entrevista personagens do passado de Baker, além da presença do próprio, e coloca em contraste o jovem Baker com o Baker atual, concluindo em seu declínio através das drogas e seu desejo de revitalização. Ao invés de ser um documentário casual, Let’s Get Lost já inicia como um grande filme de arte, com suas cenas praianas em preto e branco ilustrando o estilo musical que Baker ajudou a popularizar, o West Coast Jazz. Confira este trecho do documentário abaixo.

O documentário não só revitalizou a carreira e a memória de Chet Baker como também foi louvado por críticos ao redor do mundo por sua substância, além de ter sido indicado ao Oscar de Melhor Documentário. O filme acabou se tornando um tributo à Baker, que morreria meses antes de sua estreia, aparentemente de uma queda da janela de um hotel na Holanda em maio de 1988.

Pôster de Let’s Get Lost

O clipe de “West Coast” remonta traz justamente algumas cenas do documentário em tom de homenagem ao Chet Baker e inclui uma nova história. O elenco fica por conta de Lana, o modelo Bradley Soileau, que já havia aparecido em “Born to Die” e “Blue Jeans”, e o tatuador Mark Mahoney. A história mencionada acima será dividida entre os outros clipes da era Ultraviolence, e ainda não sabemos até onde se estenderá. A cinematografia do vídeo é completamente inspirada no trabalho de Bruce Weber em Let’s Get Lost, com alguns takes quase idênticos, e Lana recriando a cena da moça que gira. Uma das fotos promocionais do documentário, inclusive, lembra muito uma das cenas do clipe. bruce

No capítulo West Coast – se é que podemos chama-lo assim –, Lana está traindo seu atual namorado, Mahoney, que a faz sentir segura, porém presa, com seu ex-namorado, Soileau, que a faz bem e a deixa livre. Tudo está bem até que Mahoney descobre que Lana está se encontrando com seu ex anos mais jovem que ele mesmo. Lana então surge de vermelho e entre as chamas e a Califórnia de Soileau, representando o fim de seu relacionamento com ele. Talvez as chamas representem não só isso, mas também o remorso de ter traído Mahoney e o inferno. Por entre as chamas podemos ver também outros momentos da relação de Lana e Soileau, todos livremente na praia.

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Em seguida, Lana aparece vestida em uma jaqueta de couro e flutuando sobre o mar e ainda entre as chamas, de braços abertos, aparentemente alçando até o paraíso.

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E em uma das últimas cenas, vemos Soileau deitado entre as chamas. Morto ou apenas pensativo?

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A escolha de Soileau para o papel de namorado jovem é curiosa, mas não por acaso, tendo ele trabalhado anteriormente não só com a Lana, mas também com o diretor de Let’s Get Lost, o também fotógrafo Bruce Weber, muito famoso por suas fotografias de moda. Weber e Soileau possuem um portfólio juntos para a marca Calvin Klein. A escolha dele em “West Coast” pode ser vista como representativa não só de seu passado como modelo, mas também como a antítese de Mark Mahoney, o garoto cool da Califórnia, e o já conhecido ex-namorado de Lana através dos clipes.

Já Mahoney foi escalado para o clipe por sua semelhança física ao falecido Chet Baker, sem falar que os dois teriam aproximadamente a mesma idade hoje em dia, Mahoney e Baker. Apesar de não estar em nenhum dos clipes anteriores de Lana, Mahoney é um velho conhecido dela. Ele é o responsável por suas tatuagens, sendo um dos tatuadores mais mundialmente procurados há décadas. Ele encarna Baker no vídeo, e é quem mantém Lana segura e sã, como podemos ver em suas cenas. De certa forma, ela aparece sempre em devoção a ele, em devoção à memória de Baker.

Lana gosta muito de garimpar referências, principalmente das décadas de 1950, 60 e 70, e utilizar em suas músicas, clipes e visuais. Para o clipe de “West Coast” não foi diferente. A história, porém, não termina aqui, continuando com o vídeo para “Shades of Cool” e, quem sabe, adiante com outros clipes.

Assista “West Coast” em nossa Videografia.

Por Lucas Almeida

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Alisson de Castro

    Essa análise com certeza me fez gostar muito mais desse clipe!

  • Guest

    A parte que a Lana esta em chamas, tem uma semelhança com a capa (eu acho que é) do filme/livro ”…E o vento levou” (Gone with the Wind). Eu não assisti o filme, nem li o livro, só estava na internet e vi a imagem, e também achei a capa semelhante com a cena da Lana. A pintura atrás do casal, parece fogo. E o vestido da moça e o da Lana são muito parecidos, eu até achei o penteado do cabelo parecidos também.

  • Maria Rita

    Eu achei essa imagem na internet, e realmente a cena parece com a capa do filme ”Gone with the Wild” (…E o vento levou). Reparem que o cenário do casal parecem chamas de fogo, e o vestido da moça é parecido com o da Lana.

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