ANÁLISE | Clipe de Shades of Cool: O Misterioso Drama Hollywoodiano

por / domingo, 15 junho 2014 / Publicado emAnálises, Colunas

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O clipe de Lana para sua música “Shades of Cool” é, ao mesmo tempo, simples e complexo, como o amor, como tudo na vida. Dirigido pelo mestre em videoclipes Jake Nava, muito famoso pelas sua videografia com Beyoncé, que inclui vídeos como o clássico “Singles Ladies (Put a Ring on It)” e “Crazy in Love”, e também por clipes de bandas como Artic Monkeys e System of a Down e dos revolucionários Rolling Stones e Bee Gees, essa foi sua primeira parceria com Lana, que, assim como todos em seus videoclipes, esboçou sua própria história para ser dirigida. Rodado durante dois dias de maio em Los Angeles, o clipe é uma continuação da história que começou em “West Coast”.

O capítulo Shades of Cool abre com o tatuador Mark Mahoney continuando sua interpretação do lendário jazzista Chet Baker, que foi traído por Lana com seu ex-namorado, interpretado pelo modelo Bradley Soileau.

Logo na primeira cena, temos Mahoney em close-up, mostrando seus lindos olhos azuis, e Lana começa: “My baby lives in shades of blue/Blue eyes and jazz and atitude”, esclarecendo que, de fato, Lana é apaixonada por Chet Baker, ou por um homem que a remeta a ele.

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Em seguida, o take expande e percebemos que Mahoney dirige solitário em uma rodovia de Los Angeles, com uma Lana etérea observando-o.

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Vemos Mahoney andando pesadamente ao sair de uma loja, com a fraca imagem de Lana fumando sobreposta sobre ele. Essas são suas lembranças sobre ela.

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Então começa uma sucessão de takes cheios de sobreposições, recurso que Lana já havia usado em outros de seus videoclipes. Nas primeiras imagens, Lana dança levemente de braços abertos enquanto fogos de artifício estouram. Não por acaso, eles são todos em tons de vermelho e rosa, representando o sangue derramado.

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Na próxima cena, temos Mahoney aparentemente dentro de uma casa, olhando ao redor e através de janelas, e a imagem de uma arma de fogo disparando uma munição muito pontuda, com aparência letal.

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Voltamos para Lana, que continua a girar de braços abertos, e desta vez com a imagem de flores sobrepostas. As flores são cravos rosados e brancos, uma espécie muito popular em velórios e enterros, em floriografia representam a sinceridade e a paixão. No vídeo, as flores mudam levemente de cor, de rosa para branco, da cor do sangue representado pelos fogos de artifício para a cor da paz. Isso pode significar que, após sofrer, sua alma está em paz.

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A imagem em sobreposição seguinte é a de gansos alçando voo. Gansos são normalmente associados a falta de disposição e comportamento idiota, mas seus reais significados incluem bravura, lealdade e, o mais importante, proteção. Essas três palavras são importantes para compreender a extensão do trabalho de Lana.

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Em seguida temos Lana incrivelmente nítida pela primeira vez, enquanto ela anda timidamente por uma alameda de Hollywood Hills. Ela parece estar evitando alguém, e, quando vira uma esquina, podemos ver que é Mahoney de quem ela se esconde.

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Ele também a vê, e a observa por alguns instantes, até que as memórias são retomadas.

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Em um take simples de sobreposições, vemos mais uma vez munição de armas de fogo, uma mão segurando uma arma atirando contra Lana, que aparece em close-up, e um ramo de flores de cerejeira. Estas flores, diferentemente dos cravos, representam o amor, a felicidade e a plenitude. Ou seja, Mahoney começa a se lembrar de momentos bons com Lana, até ele a matar.

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Após mais um fluxo de memórias, Mahoney ignora-os e entra em seu Chevy Malibu 1969, seguindo viagem.

Na cena seguinte ele aparece em frente a um aquário, e Lana surge nadando suavemente, até que, em certo ponto, ela coloca a mão no vidro, querendo fazer contato. Mahoney nega tal ligação e faz o sinal da cruz contra o peito, popular amuleto de proteção dos cristãos.

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Vemos mais uma cena de tiro contra Lana.

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É então que o maior fluxo de memórias se inicia. Mahoney não consegue negar a ligação com Lana, e começa a relembrar acontecimentos de suas vidas juntos. Eles aparecem em momentos carinhosos em um cenário que remete à década de 1970. O vestido que Lana usa, inclusive, remete bastante ao início da década, e ela aparece dançando algo muito característico da época.

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As já muito populares cenas na piscina são uma referência bastante clara ao filme Something’s Got to Give de 1962 estrelado por Marilyn Monroe. O filme nunca chegou a ser encerrado, devido aos problemas pessoas de Monroe e, subsequentemente, sua morte. Apenas 37 minutos do longa foram compilados e lançados em 2001, em homenagem aos 75 anos que Monroe comemoraria se estivesse viva. A cena do filme, no entanto, se tornou clássica por apresentar Monroe nadando até a borda da piscina completamente nua, e saindo dela assim mesmo.

Marilyn-Pool

É curiosa a escolha de Lana de homenagear esta cena em especial, podendo representar que ali, naquele momento, ela estava vivendo seus últimos momentos de vida sem nem ao menos saber. Observe também como Mahoney aparece afastado de Lana, mesmo quando eles estão juntos em um abraço.

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Um dos últimos takes com sobreposição apresenta Lana com rosas explodindo de sua cabeça e uma espada perfurando seu peito.

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Em seguida voltamos ao aquário, onde Mahoney está sentado, solitário e contemplativo.

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A Lana etérea aparece pela última vez, com expressão tristonha, e aparentemente se afastando, indo embora. Mahoney também vai embora, deixa o aquário que lhe trouxe lembranças boas e também ruins e segue o rumo na estrada.

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A cena final em reverso mostra Mahoney resgatando uma Lana alegre do chão para um abraço, abraço este que ele corresponde.

O clipe é montado com muitas camadas, muitas cenas que são aparentemente complicadas na verdade não são. A história é simples, mas a forma como interpretamos essa história podem ser muitas. É importante lembrar que, como a artista que Lana Del Rey é, não se pode confirmar nenhuma das teorias expostas aqui, a menos que a própria dê um parecer sobre.

Douglas Sirk

O estilo usado no vídeo é bastante marcante, por se tratar de uma história melodramática e pelas suas sobreposições quase onipresentes. Sempre bebendo de uma fonte, desta vez Lana aborda como referência o cineasta Douglas Sirk, alemão muito famoso em Hollywood na década de 1950 pelos seus filmes considerados péssimos pela contemporaneidade. Após sua morte, Sirk começou a ser aclamado justamente pelos seus dramas pesados, chegando a ser um dos grandes nomes do gênero. Seus filmes eram esnobados por Hollywood em sua época por tratarem de temas menos importantes com pouca visibilidade, e sempre envolvendo mulheres, como violência doméstica, sentimentos internos e plano espiritual. Podemos enxergar todos esses temas facilmente dentro do clipe “Shades of Cool”.

 

Se Douglas Sirk foi a inspiração para a história, Edward Wood foi o homenageado com as

Edward Wood

inúmeras sobreposições. Wood também não obteve muito sucesso durante sua vida com seus filmes de terror, e hoje em dia carrega o título de pior diretor de todos os tempos. Ele usava uma técnica não muito popular na época, o uso de gravações de arquivo. Por exemplo, se ele queria uma cena improvável de um polvo atacando um homem, Wood sobrepunha as filmagens do homem feitas por ele com imagens de um polvo nadando rapidamente para criar a alusão ao ataque. Lana faz justamente isso ao representar sangue sendo derramado com fogos de artifício vermelho, sua morte com tiros através de sobreposição de várias imagens, entre outras coisas.

Tendo dois capítulos já contados para montar essa narrativa, West Coast e Shades of Cool, não sabemos até onde ela se estenderá, mas podemos esperar ainda mais ícones da década de 50 e visuais vintage. E que venha mais!

Assista “Shades of Cool” em nossa Videografia.

Por Lucas Almeida

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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  • Alisson de Castro

    Clipe mais lindo! <3

  • Ricardo

    Adorei a análise do clipe. Mas tenho curiosidade em entender melhor o que a Lana canta naquela parte do solo de guitarra distorcida. Pq ela fala alguma coisa e é difícil entender…

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