‘Se eu sou uma pessoa dominante? Sim, mas apenas quando se trata de meu trabalho’, leia a tradução da entrevista concedida para a Libération Next

por / domingo, 04 maio 2014 / Publicado emEntrevistas

Liberation Next

 

Capa da edição de maio da Libération Next, Lana deu uma entrevista e falou sobre o trabalho com Dan Auerbach, sua vida em família, o cover de Summertime Sadness feito pela Miley Cyrus e muito mais. Leia abaixo a tradução completa da matéria e entrevista.

 

Lana confidencial

Aos 27 anos, a cantora Del Rey está promovendo seu mais recente álbum “Ultraviolence” e conversa com “Next”. Encontro, em Los Angeles, com uma jovem mulher descriptografando o brilho de seu sucesso, prestando-se a que se espera dela, ultra suave.

Do outro lado da cidade, a alguns quilômetros, chove tanto que  parece que o céu está caindo. Los Angeles, enorme, multiforme e doze vezes o tamanho de Paris, lar de cerca de quatro milhões de pessoas e dezenas de microclimas diários.

Na colina de Beverly Hills, onde vamos na casa do empresário multimilionário James Goldstein, um terreno que parece emergir dos anos 60, vemos um grande céu azul, ventos traiçoeiros, vistas deslumbrantes. Lana del Rey nos provoca arrepios quando aparece em um longo corredor de vidro em shorts jeans e camiseta.

Ela é magra com curvas, ainda tem o cabelo comprido castanho-avermelhado, pele leitosa, um ar tímido e educado, e cílios postiços já postos sobre seus olhos que nós sentimos nos observar. Sua extravagância vem de Johnny, seu estilista, um inglês enfático com camisa vermelha de bandana de quem ela é inseparável desde seu começo, antes que Lizzy Grant, seu verdadeiro nome, se tornasse Lana del Rey.

O vestiário da sessão de fotos está espalhado por toda a mobília do proprietário, que estava ausente naquele dia. Ela nunca teve a oportunidade de conhecer James Goldstein. O lunático septuagenário é conhecido por seu amor sem fim por desfiles de moda satisfeitos e jogos de basquete. Ele construiu a sua imagem de marca com chapéus de cowboy em  python, demonstrando uma clara falta de interesse na causa animal.

VINTAGE

Aos 27 anos, Lana Del Rey, sucesso de público musical, parece ter cansado de seus anos pin-up, da tendência de olhos de boneca saída dos anos 50. Esta vibe ultrafeminina venenosa, muitas vezes vista em seus looks, às vezes é descrita como escandalosamente fabricada. Ela foi revogada, pelo menos nesta quarta-feira de abril.

Para esta primeira cobertura de uma longa promocional vir, ela não quer parecer muito preparado e agora levanta com seu próprio guarda-roupa ea vindima local, os anos sessenta dos anos setenta era, mais Janis Joplin Patti Smith. Esta manhã, ele vai poncho com franja, vestidos brancos bordados, pálida flor kimono rosa, calças de couro. “Tenho visto muitas vezes fotos de mim que me pôs à vontade. Era demais. Mas a mídia quer que ele “, ela defende que cruza longo unhas vermelhas falsificadas.

Para esta primeira capa de revista de uma grande promoção que está por vir, ela não quer parecer muito artificial e usa roupas do seu próprio guarda-roupa, de algumas lojas locais antigas. Estamos de volta nos anos 60/70, numa vibe retrô, mais como Janis Joplin do que Patti Smith… Esta manhã, ele usa poncho com franja, vestidos brancos bordados, kimono rosa-pálido com flores, calças de couro. “Tenho visto tantas fotos minhas que fizeram eu me sentir desconfortável. Era demais pra mim. Mas era o que as mídias queriam”,  diz ela enquanto cruza suas grandes unhas vermelhas postiças.

Cigarro na mão e iPhone ligado, tocando reggae, ela diz que prefere trabalhar com uma equipe leal. Ela mesma está muito surpresa ao trabalhar com um produtor novo, o famoso Dan Auerbach, líder dos Black Keys. “Eu o conheci em um clube de strip no Queens. Eles tocaram uma de minhas músicas, dançamos juntos. Uma semana depois, eu fui gravar algumas músicas com ele, em sua casa em Nashville. Dan é teimoso, um homem dominante que gosta de testar suas próprias ideias em primeiro lugar. Na verdade, elas geralmente soavam exatamente como eu queria. Sobre mim, se eu sou uma pessoa dominante? Sim, mas apenas quando se trata de meu trabalho”.

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Ela tem um jeito de falar que lembra Marilyn, que ela tentou imitar em seu antigo vídeo, Kill Kill, um de seus famosos clipes caseiros feitos “à mão”. Ela tenta encontrar as palavras certas, leva o seu tempo, interrompe a conversa com grandes gargalhadas. É uma mistura de timidez, apreensão e paz. Tranquila como a atmosfera desta casa enorme, de excentricidade arquitetônica em que foram filmados “The Big Lebowski” e o antigo “Anjos de Charlie”.

Este lugar não conhece os rumores da Cidade dos Anjos, a não ser para bilionários como os vizinhos Sandra Bullock e Rupert Murdoch. Há muitas obras em andamento, um clube privado com uma pista de dança em construção sob um campo de tênis. O luxo não gosta de limites. Tudo aqui é feito de concreto, madeira, aço e enormes janelas sobre exuberantes jardins tropicais. Lana Del Rey não perde para nada, ela supera a natureza com a lente objetiva de Mathieu César.

REFERÊNCIAS

Três anos após a tempestade – esse reconhecimento repentino, todos nós estávamos querendo saber como ela enfrentaria a próxima onda… Tal como seu visual, vai ser uma grande mudança, porque nunca é tarde demais para começar uma revolução. As batidas de hip-hop de Born To Die, suas cordas e violinos lendários sumiram… Guitarras, rock n roll e vibes jazzy soft – Ultraviolence está aqui. A sua música favorita (Cruel World) brinca com o amor e o ódio midiático que ela alimenta. “Eu não estou me referindo a isso“, ela negou sem que chegássemos a acreditar. “Ultraviolence é sobre um homem que conhece uma mulher. Mas antes do sentido atual, eu só gosto da palavra. Ela se tornou o espaço de um mundo sonoro que eu queria criar”.

Ela canta seu desejo de abertura, “aproveitar a vida” e “tornar-se selvagem” com o medo de não conseguir isso.“Quando escrevo, penso sobre a liberdade que eu possuía quando tinha 17 anos, também sobre a vida que me faz sonhar. Minhas principais influências? A música que eu escuto e os filmes que eu assisti”. Ela cita Jeff Buckley, Nirvana, Nina Simone, adora o cinema de Kubrick, Tarantino e a versão de Lynch para Wild at Heart. Nós a mostramos excertos de Blow-Up de Antonioni, Jonathan Caouette de Tarnation, Kustom Kar Kommandos Kenneth Anger que ela não conhecia.

Uma cena do “Último Ano em Marienbad” de Alain Resnais volta à sua mente quando Delphine Seyrig avança vestida com um véu à frente nos corredores de um castelo austero e ameaçador. “Esse tipo de plano de me inspira“, ela suspira. Johnny a faz rir, ele alivia o clima quando é necessário. Os seus “amaaazing” e “I loooove your style” combinam perfeitamente com a decoração hollywood-balinesa onde a gente passa o dia.

Com um cigarro entre seus lábios, Lana Del Rey olha para a paisagem e vira as costas para um lago cheio de carpas chinesas, todo branco e laranja. Não muito longe, há um Rolls bege esperando para dirigir, na garagem. “Eu faço entrevistas e sessões de fotos, mas eu vivo em um mundo real, eu sou solitária. Aqui é tudo sobre mim, mas em casa é tudo sobre meu irmão, minha irmã e James, o meu noivo”.

O músico escocês Barrie-James O’Neill, seu companheiro, vai tocar na primeira parte de sua turnê, que passará pelos Estados Unidos, Europa e, inevitavelmente, pela França, onde ela vendeu 460.000 álbuns. O produtor Harvey Weinstein a convidou para se apresentar no evento de caridade AmFar durante o próximo Festival de Cannes. Que acontecerá na Croisette.

GERAÇÃO TUMBLR

Lana está se preparando em Los Angeles, onde ela vive agora, depois de morar em Lake Placid, sua cidade natal próxima a Nova York. É a filha mais velha, e isso a faz um tanto quanto maternal. As pessoas costumavam dizer que seu pai era rico, ele é um corretor de imóveis. “Alegaram que ele comprou minha carreira. Mas as gravadoras não precisam de dinheiro, elas querem artistas. Aqueles ataques foram covardes”, ela reclamou.

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Sua introdução à música veio um pouco tarde, com cerca de 17 anos de idade. Isso resultou na produção de um álbum que nunca viu a luz do dia, apesar das promessas de uma gravadora. Cantora amadora por sete anos, ela costumava aparecer no Brooklyn. Ela sempre falou sobre seu velho alcoolismo e como superou tudo isso. Filha da “geração tumblr”, ela mixou sem problemas em seus primeiros vídeos imagens VHS, o retrô das ‘super-oito’, seu reflexo filmado com seu computador e as descobertas que a internet proporcionam atualmente.

Sua voz estava em todos os lugares em 2011. Nós esperávamos encontrar uma diva do concerto, uma Adele. Ela era tímida, capaz do melhor e do pior e uma série de outras nuances em todo o constrangimento. Perguntamos “Você gosta de estar no palco?” ela respondeu “Às vezes”, apenas, ela admite. A web e muitos jornalistas não têm perdoado qualquer coisa, acusando-a de sobrecarregar sua música e de reescrever sua história de vida. Fingir demais para algo não realmente grande. O clipe de Born To Die dirigido por Yoann Lemoine mais conhecido como Woodkid, onde a vimos como uma princesa, sob o ouro do castelo de Fountainebleau, rodeada por tigres ecom um roqueiro tatuado, tem crescido o seu incendiário e característico estilo teatral de agora. Cento e quarenta e cinco milhões de pessoas o viram no YouTube. Quanto mais a repreendem, mais seu sucesso cresce.

O francês a filmou novamente, em preto e branco, para outra de suas peças emblemáticas, Blue Jeans. Em torno dela, nas paredes cinzentas altas desta caverna californiana moderna, o fantasma de James Goldstein está em toda parte. Suas fotografias ao lado de Rihanna, George Clooney e uma série de modelos famosas sobre uma longa prateleira. Ele supervisionou e destilou artigos de glóris em torno de sua cidade. Lana del Rey não compartilha desse orgulho.

Ela lê nada do que está escrito a seu respeito, “Muito malvado“, lembra ela, que evita redes sociais onde é pouco ativa. Estar em capas de revistas de fofocas não faz parte de seu cotidiano. “Eu ainda estou presa em dois mundos sempre que tenho que falar sobre fama. Nos Estados Unidos, você nunca me vê na televisão, não conheço nenhuma celebridade famosa e não saio tanto. Na minha casa, tudo está sempre ligado – televisão, rádio, luzes… Ajuda-me a dormir. Fico nervosa sempre que tenho que dormir… O que eu amo? Dirigir. Me deixa calma”.

Ela sabe de cor o tortuoso caminho da estrada Mulholland e das rodovias desabitadas da cidade. O estilo de vida de LA, pontuado pelo tráfego, lhe permite ouvir os novatos, com uma preferência para The Weeknd, Father John Misty e a história KCRW, uma das melhores estações de rádio da região.

AMBIVALÊNCIA

O vento a traz de volta sob o telhado de vidro. Ela coloca sem pestanejar um vestido verde pequeno de crochê que pertence a ela. Este gosto do vintage nunca a abandona. Ela apenas mudou de época. Lana Del Rey manteve essa ambivalência que cativou tanto quanto provocou desgosto. Uma aura, às vezes ingênua e sensual, até mesmo sexual, aparece quando você a vê. Nós a escolhemos porque ela tinha a aparência de um vampiro, a postura romântico-tenebrosa e uma boca indecente.

Você nunca tem certeza sobre o que revelar, especialmente quando se é um artista. Eu venho de uma família simples, quieta. Eu preciso sentir as situações, e controlar tudo que me cerca. Se você falar demais as pessoas podem interpretar-lhe mal. E se você ficar quieto, talvez imaginem o que quiser”. Ela quase largou tudo, muitas vezes, mas decidiu ficar, enquanto algumas grandes celebridades comandam a indústria musical como Lorde, Grimes ou Miley Cyrus.

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A jovem garota country, superstar que divide opiniões como ela, fez um cover de Summertime Sadness no palco. “Eu sei disso. Surpreendeu-me. Somos tão diferentes. Ela é maior que a vida, sem nenhum limite. A maior diferença entre nós é que, provavelmente, eu nunca quis fazer nenhuma provocação porque sei os riscos. Isso faz parte da confusão a meu respeito. Isso me perturbou”.

Seus cinco milhões de álbuns vendidos em todo o mundo a ajudaram a gerenciar a tempestade. Lana Del Rey sente que viveu três vidas diferentes. Antes da tempestade, o desastre e depois. Irônico, obviamente… Então, ela diz de uma maneira séria “O que não mata te faz mais forte? Particularmente, isso me magoa profundamente. Estou cansada disso. Por sorte, quando escrevo, não penso no que as pessoas vão achar do meu trabalho. Só espero que isso não aconteça de novo.”

E pergunta já sabendo a resposta “Você já leu algo bom sobre mim? Na França, talvez. Todos os jornalistas tentaram entender o que eu estava fazendo. Talvez porque aqui, você tem uma cultura realmente artística e romântica. Senti-me entendida em seu país. Em outros países, o que eles escrevem não é sobre minha música. Eu nem mesmo sei o porquê, mas essa é a vida”. Ela filosofa em francês. Ela está aqui, usando seu jeans rasgado. Lana Del Rey entendeu que ELA é o conflito. “Mas eu sou uma cantora, o que posso fazer a respeito?” responde ela com o beicinho de boneca que deu tanto o que falar. Esperançosamente, a controvérsia vai parar com o Ultraviolence, o terceiro capítulo de sua carreira.

Ultraviolence, Interscope-Polydor, será lançado em 13 de Junho

 

Por Françoise-Marie Santucci
Traduzido por Kassia Lasarino e Mateus Santana

Confira na nossa galeria o ensaio fotográfico completo para a revista clicando nas fotos abaixo.


Redação LDRA
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