Dark Paradise | Capítulo 6: Carmen

por / terça-feira, 17 dezembro 2013 / Publicado emFanfics

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“É alarmante, honestamente,

Como ela pode ser charmosa

Enganando a todos

Dizendo-lhes que está se divertindo”

 

A cidade era linda vista do alto. Ali era como se fosse impossível imaginar quantas coisas se passavam em um ambiente entre um deserto e um mar, um lugar carregado de automóveis, tecnologia e pessoas dispostas a fazerem qualquer coisa mais pela fama do que pelo dinheiro. A tão conhecida ideia de status, a vida perfeita, a pose perfeita, a Los Angeles perfeita. A terra de deuses e monstros.

E bem no topo da cidade, na imensa serra logo abaixo do belo letreiro de Hollywood, havia um anjo observando tudo. Um anjo talvez com as asas quebradas demais e que perdia sua auréola aos poucos enquanto conhecia e se aprofundava cada vez mais naquela terra de fantasias. A Cidade dos Anjos, a cidade da inconsciência, a La La Land da inocência perdida.

– Você nasceu aqui? – A voz de Andrew soou baixa e calma enquanto seus lábios expulsavam pequenas fumaças de cigarro. O sol estava nascendo e o céu fluía pequenos riscos amarelos e rosados através do azul claro.

Scar o olhou parcialmente curiosa – ambos estavam quietos há um quarto de hora desde que chegaram cansados, mas ainda dispostos após uma frutífera noite no Old Paul’s. Eles não se viam há uma semana, desde a primeira noite e ótima manhã em que dormiram juntos. Ela estivera totalmente ocupada com a faculdade, seus pais cada vez mais desconfiados e seu namorado mais atento às suas esquivas; mas ela sorriu como um pequeno diabinho em busca de diversão ao trocar uma entre tantas mensagens de textos com o britânico e encontrá-lo no pub em plena quinta-feira à noite.

E naquele início de manhã de sexta, ela sorriu ao responder sua pergunta.

– Na verdade eu nasci no Hamptons durante o recesso de primavera – Mordeu os lábios, divertida. – Segundo minha mãe, eu vim antes do previsto e peguei todos de surpresa.

– Imagino que sim – Andrew murmurou com um sorriso de lado, tragando mais uma vez.

– E você? – questionou curiosa, roubando seu Marlboro Light e sentindo o sabor do tabaco em sua língua.

– Blackpool, litoral da Inglaterra – respondeu sucinto, desviando seus olhos azuis para a paisagem distante dos prédios da cidade. – Meus pais logo se mudaram para Londres, onde eu cresci.

– E o que o trouxe a América? – Ela franziu o cenho, apoiando os cotovelos em suas pernas dobradas sobre a terra e a grama abaixo do letreiro, fitando o homem que fugia de seu olhar.

– Liberdade, vida nova – Ele a encarou de repente, fazendo-a se arrepiar com aquelas íris azuis tão intensas e que gritavam um milhão de segredos. – Você não vai querer saber.

– Por que você se esconde de mim, Andrew? – perguntou com os olhos preocupados e gentis, sentindo-o se aproximar como um felino e acariciar delicadamente seu rosto.

– Sempre tão curiosa… – ele sussurrou com os olhos intrigados e cheios de mistérios, não resistindo àquelas grandes orbes atentas e puxando-a para um beijo delicioso.

Scarlett esqueceu o que tanto a intrigava a respeito daquele homem londrino, deixando a língua quente e com sabor de uísque acariciar a sua em um delírio maravilhoso de desejo e algo que poderia muito bem ser considerado mais do que uma sensação pulsante no peito. E ela não resistiu quando ele infiltrou os dedos em seus cabelos e fez exatamente o mesmo em seguida, puxando-o e sentindo-o contra sua pele.

Era embriagante.

– Eu senti sua falta essa semana – ela sussurrou contra os lábios finos e rosados, deslizando seus dedos entre a mandíbula marcada em uma barba por fazer.

– Você não foi a única que sentiu falta… – declarou em um jeito Andrew Barnes de ser, fazendo-a conter um sorrisinho deliciado. – Vai fazer algo essa noite?

– Infelizmente – A morena suspirou, afastando-se delicadamente enquanto o olhava sem jeito. – Ian está promovendo uma grande festa beneficente pra alta classe de LA, seria impossível faltar.

– Soa bastante divertido – ele comentou irônico, sorrindo por um segundo ou dois.

– Você não imagina o quanto.

E com outro suspiro, Scar tragou novamente seu cigarro para poder sentir o tabaco acariciar seus pulmões e acalmar seus nervos. Somente a respiração de ambos era ouvida ali, com apenas um som distante de um par de pássaros cantarolando em algum lugar enquanto admiravam o nascer do dia.

De repente, a voz do britânico soou baixa.

– Eu posso te fazer uma pergunta? – indagou ao desviar seus olhos para as belas íris verdes que saltaram curiosas e temerosas num instante.

– Claro.

– Por que Ian? – questionou com as sobrancelhas franzidas e o olhar intenso. – Por que vocês estão juntos?

Ela engoliu em seco ao pensar nas palavras. E então deu de ombros com uma expressão preocupada e se autoquestionando.

– Eu não sei – Suspirou, passando os dedos entre os longos cabelos. – Ele só pareceu o homem certo no momento certo.

– Você ainda sente isso?

– Não, claro que não! – respondeu com um sorriso histérico. – Ele não é mais o bastante, sabe? Começamos a namorar quando minha amiga Brigitte foi morar em Paris e todas as minhas outras colegas decidiram seguir a vida que suas próprias mães levavam, inclusive eu. Mas eu não quero isso e agora eu enxergo o porquê.

Andrew se aproximou, encarando o fundo dos olhos da garota.

– Esse “porque”, por acaso, teria alguma coisa a ver comigo? – Sorriu de lado, encaixando o lindo rosto entre sua mão.

– Ah, querido, pra dizer isso eu teria que te matar depois… – murmurou em um tom provocante que fez o britânico rir suavemente. E foi impossível não beijá-la fortemente em seguida.

– A propósito, – ele sussurrou contra os lábios cheios e avermelhados. – se a festa ficar insuportável demais, estarei pelas redondezas, pronto para roubá-la pra mim.

– Estou tentada – falou com um tom risonho, acariciando o rosto do homem que tanto a confundia e a embriagava, beijando-o outra vez.

Algumas horas depois, a herdeira caminhava tranquilamente pelo largo corredor de pedras da Universidade da Califórnia após sua aula de Antropologia. Vestindo calças justas com estampa florida, uma delicada blusinha rosa e mary-janes roxos, ela tinha um sorriso suave no rosto alvo, observando o sol batendo na grama e nas cerejeiras do campus através das pilastras terracotas naquela manhã.

Seu corpo estava leve e fluía magicamente mesmo sem ter pregado os olhos na noite anterior – o fato de poder ter visto Andrew era o bastante para seu organismo se sentir revigorado. E ela mal podia esperar para vê-lo novamente.

– Scarlett! – Ela ouviu uma voz delicada chamando-a, dando de cara com uma loura sorridente e de enormes olhos cor de mel.

– Oi, Emma – Sorriu de volta ao cumprimentar a amiga com um beijo no rosto. – Tudo bem?

– Tudo ótimo, mas e você, maluca? Anda sumida e parece que evita todo mundo. – murmurou com um sorriso, semicerrando os olhos e colocando a mão na cintura.

– Ah, eu tive uns trabalhos pra adiantar esses dias, nada demais – Ela inventou algo de última hora, dando de ombros ao sorrir culpada.

– Vou ver se acredito… – Emma brincou, puxando a morena pela mão enquanto seguiam pelo corredor. – Venha, as meninas querem fofocar sobre a noite de hoje! Ansiosa?

– Muito. – retrucou sarcástica, erguendo seu polegar e fazendo a loura revirar os olhos.

– Você não cria jeito. Essas festas são tão divertidas! – Sorriu maliciosa.

A jovem riu com o comentário da amiga, logo atravessando o campus ao ver as outras três garotas sentadas em uma mesa de mármore do lado de fora de um café.

– Quem é viva sempre aparece… – Avery sorriu assim que viu Scarlett se aproximando, sua pele morena contrastando perfeitamente com os olhos castanhos e os cabelos curtos e lisos.

– A última vez que a vi foi no Getty Center, almoçando com o Ian – Melissa murmurou com seus olhos azul-escuros flamejando em uma nova fofoca maldosa.

– Mel, dê um tempo! – Sophia a repreendeu, levantando-se da cadeira vitoriana e abraçando a herdeira. – Estava com saudades.

– Eu também, Soph. – Ela sorriu e logo se juntou às meninas.

Todas na faixa de seus vinte e poucos anos eram lindas e extremamente ricas. Emma Bellamy era irmã de Brigitte e sempre esbanjava beleza e simpatia através dos olhos de quem amava aprontar; Avery Ferland era a bela morena mais conhecida por sua excessiva sinceridade e olhar amistoso; Melissa Beaumont era a famosa fofoqueira de pele bronzeada e cabelos caramelo que todas aguentavam simplesmente por serem amigas de infância; enquanto Sophia Compton era uma cativa e carinhosa morena de pele clara que escondia seus olhos castanhos atrás de óculos de grau Tart Arnel ao melhor estilo hipster.

– Então, todas vocês vão à festa? – Scarlett perguntou com um sorriso divertido, sentada à mesa ao receber seu frappucino da garçonete.

– Claro que vamos, meu bem! Pra que você acha que andei extorquindo alguns punhados de milhares de dólares do Jake? – Avery sorriu maliciosa, bebericando seu café.

– Ew! Jake Storm? – Emma fez uma careta, o que fez a morena rir ainda mais.

– Só um passatempo já que meu pai cortou meus cartões de créditos desde que fiz aquela burrada em Marselha!

– Falando em burrada, – A loura alfinetou. – está começando a sair na Page Six que você está com o pai do Derek Hewitt por interesse, Melissa.

– New York Post é uma merda, porque não fala só daqueles nova-iorquinos nojentos? – A garota praguejou, mordendo seu croissant.

– Será que é porque você está noiva de um dos empresários mais bem sucedidos da Wall Street? – Scarlett murmurou ao bufar.

– Foda-se, não é mentira mesmo – Ela deu de ombros, logo sorrindo com um olhar maldoso. – George me ama, assim como Ian ama você.

– Se você estiver insinuando que estou com Ian por interesse, você não me conhece, meu amor – replicou com acidez, fazendo as outras duas amigas rirem divertidas e repuxarem o assunto para a festa beneficente daquela noite.

E quando o relógio estava prestes a badalar o sino das oito da noite, Scarlett se via belíssima pelo espelho de um dos quartos do Beverly Wilshire enquanto, no salão Le Grand Trianon do hotel, os primeiros convidados começavam a chegar. A festa beneficente promovida pela empresa de seu namorado iria arrecadar alguns milhões que iriam direto para os fundos de programas científicos de algumas universidades do país – algo que melhorava quantitativamente a imagem de sua companhia de softwares.

A morena se sobressaltou ao ouvir a porta de seu quarto abrir e, ao olhar através do reflexo, notou que Ian adentrava o enorme cômodo com um sorriso. Os tons dourados dos móveis vitorianos estavam despercebidos pela luz baixa do ambiente, somente com alguns abajures e as luminárias próximas à penteadeira acesas. Sentada na cadeira em frente ao espelho, a jovem colocava um dos brincos de diamantes.

– Já está pronta? – ele perguntou ao caminhar lentamente, trajando um luxuoso terno Gucci e sapatos italianos.

– Quase – Sorriu, encaixando o outro brilhante em sua orelha.

E a passos calmos, ela viu o namorado parar atrás dela e se abaixar suavemente, depositando um delicado beijo em seu pescoço exposto pelos cabelos que caíam de lado em sua posição ao colocar o brinco.

Ela fechou os olhos e ao abri-los, fingiu um sorriso sem dentes.

– Está tão cheirosa… – O homem sussurrou, deslizando as mãos pelos braços da morena enquanto inspirava o maravilhoso perfume em sua pele. – Chanel Nº 5?

– É o que eu sempre uso – respondeu em um tom baixo, terminando de colocar sua última jóia logo que o empresário a beijou outra vez, contornando sua grande mão entre os dedos da namorada ao ajudá-la a se levantar.

Scarlett estava esplendorosa em um longo Vivienne Westwood vermelho-escarlate que se arrastava até o chão, acentuando as curvas de sua cintura e quadris e um decote levemente revelador enquanto as mangas caíam delicadamente de seus ombros. Os cabelos escuros e ondulados, as unhas no mesmo tom de vermelho, pequenos brilhantes e uma maquiagem suave eram as peças finais para iluminar a pele alva e os olhos de um verde intenso.

– Uau. – Ian ofegou ao admirá-la da cabeça aos pés, o que arrancou uma risadinha da herdeira.

Mas no fundo – talvez em algum pedacinho teimoso de seu peito –, ela se perguntou quais seriam as palavras se não fosse Ian Pierce ali e sim Andrew Barnes.

Naquela noite, no entanto, ela não seria Scarlett Hathaway, ela imporia seu pequeno alter-ego capaz de aguentar algumas civilidades demonstrativas da alta sociedade que apenas esperava por boas críticas na coluna das revistas e jornais, fotos feitas por paparazzi na entrada do hotel e talvez algum novo trabalho ou outro já que seriam relembrados após estarem à mira das câmeras fotográficas. Era o tão esperado “luz, câmera, ação” da vida real das pessoas ricas e famosas de Hollywood – famosas por trabalhos respeitáveis, famosas por andarem com pessoas influentes ou simplesmente famosas por saírem com alguma celebridade polêmica.

Ninguém se importava com a merda de beneficência alguma.

E sabe o que dizem sobre os alter-egos? Superman é Clarck Kent, Beyoncé é Sasha Fierce, David Bowie é Ziggy Stardust, Eminem é Slim Shady. Pois então, naquela noite, Scarlett seria Carmen.

E ao pegar sua pequena bolsa de mão e descer as escadarias do hotel Four Seasons, ela sentiu seu celular vibrar e torceu para estar sozinha o quanto antes.

– Ian! – O senador avistou o casal assim que se encontraram no saguão, sorrindo em seu belo terno ao lado da esposa. – Como está, meu jovem?

– Estou ótimo – Ele sorriu, trocando cumprimentos entre si.

– Bela Scarlett. – murmurou galante em seus cabelos grisalhos e olhos claros. – Faz tempo que não aparece aos eventos com seus pais.

– Apenas andei ocupada – Exibiu um sorriso doce. – Mas e vocês? Decidiram sair da capital?

– Viemos para a festa e aproveitamos para passar alguns dias em Los Angeles – A bela madame de cabelos louros comentou com um sorriso.

– Sacramento estava muito parada ultimamente. – O político concordou com a mulher, sorrindo amavelmente. – Falaremos de negócios mais tarde, Ian? Não quero aborrecer as garotas.

– Sem dúvida alguma.

E cumprimentando alguns pares de pessoas, Scarlett e o empresário logo se viram no imenso salão já rodeado de homens e mulheres de negócios, políticos, socialites e um pequeno punhado de celebridades. O imenso lugar de tons dourados e claros tinha belas mesas decoradas espalhadas por todo o ambiente, com paredes e piso de um tom marfim que poderia ser confundido com cor de ouro, luxuosos lustres de cristal e pessoas circulando por todos os lados entre garçons que distribuíam champanhe com framboesas em taças reluzentes. Ao fundo, a banda ao vivo tocava o suave jazz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong.

Em um canto do salão, as amigas da herdeira conversavam e riam com bebidas nas mãos e caríssimos vestidos de grife. E foi exatamente para onde ela fugiu assim que Ian se envolveu em uma importante conversa com Sean Penn e o primeiro-ministro da Espanha.

– E temos a rainha do baile, senhoras e senhores! – Emma brincou ao ver a morena se aproximar, o que a fez sorrir e abraçar as garotas.

– Vocês estão lindas.

– Eu sempre estou linda, mas isso é óbvio – Avery riu ao lado de Lauren Cassady, uma linda e perigosa loura de Hollywood Hills.

– Onde está Sophia? Ainda não a vi por aqui – A herdeira comentou bebericando seu champanhe com um suave sabor das framboesas ao fundo da taça.

– Deve estar chegando com o Justin, recém-casados são sempre imprevisíveis! – Emma comentou em diversão, mas antes que as mulheres pudessem rir, Jake Storm se aproximou como uma cobra cascavel pronta para dar o bote.

– Olha só se essa não é a mais gostosa e difícil da festa… – Sua voz fez Scarlett se arrepiar e franzir os lábios em nojo ao tentar ignorar o moreno asqueroso às suas costas.

– Olha só se não é o mais patético. – murmurou venenosa, revirando os olhos para as amigas que não tinham uma reação muito diferente.

– Sempre com uma língua afiada… – falou desgostoso entre seus dentes brancos em contraste à pele forte amorenada e os curtos cabelos negros.

– Você não se cansa Jake? – questionou aborrecida e nervosa, ainda sem se virar para o homem. – Vai foder alguma das suas putas e me deixe em paz.

– Uh, olha quem ficou brava de repente… – provocou com um sorriso de comedor fodido, aproximando-se ainda mais das costas da jovem. – Isso são ciúmes, querida?

– Jake, me deixe em paz.

– Não precisa ficar nervosa assim, meu amor…

– Jake…

– Você não ouviu o que ela disse? – Um timbre firme e masculino espantou o moreno e as garotas. – Deixe-a em paz.

Mas Scarlett sabia muito bem de quem era aquela voz com aquele sotaque britânico que a fazia delirar.

            E ao se virar com os olhos arregalados e seu coração na mão, ela estava mais do que certa. Ali a sua frente, deixando um Jacob com o rabo entre as pernas e trajando um terno preto belíssimo que delineava seu corpo, estava ninguém mais ninguém menos que Andrew Barnes.

            Puta. Que. Pariu.

O moreno rapidamente fez seu caminho para longe dali e as garotas… Ah, as garotas estavam com o queixo no chão e os olhinhos brilhando com o homem que exalava sexo e perigo bem ali. E ele sorriu de lado – as íris azuis misteriosas e completamente imprevisíveis –, deslizando seus dedos entre os da herdeira e levando o peito da pequena mão entre os seus lábios, depositando um delicioso beijinho bem ali.

Scarlett ofegou.

– Srta. Hathaway… – ele cumprimentou com um sorriso cheio de segredos e ela mordeu o lábio inferior, sentindo o olhar quente percorrer seu corpo. – Você está de tirar o fôlego.

– Ah… – balbuciou totalmente perdida e em transe. – Obrigada?!

E o sorriso do homem se alargou.

– Ai meu Deus, vocês se conhecem? Não vai nos apresentar? – Avery perguntou ofegante e com uma risada cheia de segundas, terceiras e quartas intenções.

– Que falta de modos a minha – ele murmurou, parecendo estar se divertindo horrores por dentro. – Sou Andrew Barnes.

– Muito prazer, sou Avery Ferland, mais conhecida como “você quer ir pra minha cama?”. – questionou divertida, fazendo o britânico e as garotas gargalhem enquanto uma Scarlett nervosa ficava com cara de poucos amigos.

– Eu… Eu vou tomar um ar no jardim – ela comentou ao passar as mãos pelo vestido ansiosamente e andar com pressa até as portas francesas do salão; não sem antes lançar um olhar atônito e decidido de “venha agora” para o londrino.

Assim que entrou como um tufão no jardim, era como se toda a loucura e tensão fossem aprisionadas do lado de dentro do Four Seasons – e o sangue da morena pulsava. Mas só bastou seis segundos para o homem fechar as portas francesas e encontrá-la próxima ao chafariz do hotel.

Ela o encarou totalmente chocada e assustada e com os nervos à flor da pele assim que notou aquele perigo entre pernas em um terno Armani que o fazia parecer mais como um deus grego. Santo Deus!

– O que você está fazendo aqui? – ela praticamente gritou ao erguer as mãos e vê-lo simplesmente colocar as mãos nos bolsos com aquele sorriso displicente e olhar quente.

– Eu te mandei uma mensagem de texto.

– O quê? Ah, Deus! – Suspirou desesperada ao abrir rapidamente sua bolsa de mão e enxergar o recente SMS que havia feito seu celular vibrar há alguns minutos.

– Não é minha culpa se você não leu – Sorriu de lado, amando tudo aquilo.

– Puta que pariu, por que você está aqui? Ian e mais um monte de milionários e repórteres estão naquele salão ao lado!

– Eu só resolvi passar por aqui e ver com meus próprios olhos sobre as merdas que você fala e tomar um bom champanhe – falou como se fosse a coisa mais simples do mundo.

– Estou falando sério, Andrew! – Ela bufou, colocando as mãos na cintura. E ele se aproximou perigosamente.

– Eu disse que estaria pela redondeza caso precisasse fugir, não disse? – disse com toda aquela intensidade, acariciando o belo rosto entre as pontas de seus dedos. – Eu não quero te deixar sozinha, Scar.

– Você está completamente insano! – Tentou não se abater pelo olhar incandescente do homem. – Sabe o que pode acontecer se eles descobrirem algo?

– Eles não vão saber de nada… – murmurou ao se aproximar um pouquinho mais. – Eu quero você e não vai ser um bando de riquinhos que vai me impedir disso.

– Céus, estou perdida… – sussurrou enlouquecida e embriagada com aquela áurea tão deliciosa do rapaz a sua frente.

– Nós dois estamos – Ele riu e, em um segundo, puxou a cintura da morena em sua direção e colou sua boca à dela.

E ela se perdeu no fulgor daquele peito quente contra o seu e a língua deliciosa com sabor de menta e champanhe em cada fibra da língua dos dois, adentrando seus dedos nos fios do cabelo arrumado do homem, puxando-o, sentindo-o, invadindo-o com suas unhas e dentes para ter cada parte daquele beijo malditamente sedutor que a enlouquecia.

– Merda, eu tenho que voltar lá pra dentro, senão vão começar a suspeitar… – murmurou entre os lábios do britânico que escorria suas mãos entre as curvas deliciosas da morena.

– Certo. – ele sussurrou de volta, abrindo olhos puxando rosto da garota contra o seu, perdendo-se entre as íris verdes. – Foi um prazer negociar com você – afirmou baixinho, arrancando uma risada da garota.

– Eu digo o mesmo, senhor – Ela piscou, saindo dos braços do jovem enquanto se recompunha, desamassando o vestido e os cabelos. – Vejo você lá dentro.

– Com certeza.

E com um sorriso nos lábios quase imperceptivelmente inchados e rosados, Scarlett caminhou de volta para dentro do salão à medida que Beir Mir Bist Du Schön tocava ao fundo, fazendo-a se divertir deliciosamente.

O salão estava ainda mais cheio e o ambiente estava empolgante de repente; e entre uma conversa rápida com um executivo e a ministra de Direitos Humanos, a morena trocou um rápido olhar com Andrew do outro lado do salão que bebia uma dose de uísque puro no balcão, lançando-lhe um suave sorriso safado.

– Finalmente a encontrei! – Ian se aproximou da namorada, deslocando a mão para sua cintura enquanto se deslocavam pelo ambiente. – Estão perguntando sobre seus pais; alguns lobistas da Wall Street gostariam de conhecê-los.

– Diga que eles estão em Frankfurt a negócios e só voltarão em alguns dias – Ela se desvencilhou do rapaz de lindos olhos castanhos, que franziu o cenho ao vê-la se esquivar. – Eu tenho que cumprimentar outras pessoas.

E deixando o empresário um tanto quanto atônito, ela seguiu pelo salão ao passo que ele parava para conversar com outras jovens. Ela revirou os olhos, pegando uma taça de champanhe da bandeja de um dos garçons até que uma voz chamou sua atenção.

– Scar? Scarlett Hathaway? Você cresceu!

A herdeira procurou com seu olhar até topar com uma linda garota na casa de seus vinte e poucos anos, cabelos pretos em um corte curto e repicado, pele alva, sorriso de menina e belos olhos azuis.

– Alice Clarke? – Ela engasgou com um sorriso, abraçando a amiga alguns centímetros mais baixa. – Uau, quanto tempo!

– Nem me fale, eu nem acredito! – exclamou ao soltar uma risada nos olhos amáveis e tão carinhosos. Ela estava tão linda em um vestido azul, parecia uma boneca de porcelana!

Ambas haviam se conhecido em Hamptons quando ainda eram pequenas, onde costumavam passar algumas semanas durante a primavera e o verão. Os Clarke eram conhecidos dos Hathaway e foi impossível não surgir uma amizade entre as duas garotas.

Rever Alice no meio de tanta pressão e falsidade era como uma brisa de ar fresco em seus pulmões.

– O que está fazendo em LA? – Scarlett sorriu, pegando uma cereja na mesa ao lado e colocando-a na boca.

– Só resolvendo alguns negócios, nada demais – Deu de ombros com um sorriso. – Mas me fale sobre você! O que anda fazendo?

– Ah, estou fazendo Psicologia na UCLA, uma coisinha aqui e outra ali – replicou com uma risadinha assim como Alice.

Nesse mesmo momento, Andrew se aproximou alheio à amiga baixinha e magra, os olhos azuis despreocupados e sorridentes como quem queria aprontar algo.

– Scar, eu queria falar com você…

– Só um instante – Ela revirou os olhos ao se voltar à garota sorrindo. – E você, está fazendo Medicina como sempre quis?

– Aham! – sibilou irônica, rindo ao menear a cabeça. – Estou cursando Moda na NYU, acredita? Meus pais me apoiaram tanto e estou amando cada vez mais!

– Ah, mas isso é maravilhoso!

– É sim… – Alice sorriu, olhando para o britânico ao lado da amiga com uma expressão curiosa e quase saudosa. – Seus olhos… – ela murmurou para ele. – Seus olhos me fazem lembrar alguém…

Andrew franziu a sobrancelha por um instante, soltando uma risadinha sem graça ao colocar as mãos no bolso. Scarlett o encarou curiosa por um instante, mas se esqueceu ao ver a outra morena rir divertida, meneando a cabeça outra vez.

– Acho que estou ficando louca – Ela riu, colocando as mãos da herdeira entre as suas. – Meu noivo deve estar preocupado por eu sumir pelo salão de repente, mas foi um prazer te ver de novo, Scar!

– Eu também! – falou ao trocarem um carinhoso abraço. – Vá me visitar, temos tantas coisas pra conversar!

– Pode deixar – Deu uma piscadela ao se afastar acenando. – Até mais pra vocês!

A Hathaway se virou para o londrino com um sorriso, escondendo o nervosismo ao estar entre tantas pessoas com o cara com quem traía seu namorado.

– Então, o que tanto queria comigo?

– Eu vim tirá-la para dançar – Esboçou aquele sorriso de lado, completamente irresistível ao estender sua mão.

Ela mordeu os lábios, olhando para os lados.

– Não sei se é uma boa ideia…

– É só uma dança, nada demais! – Ele deu de ombros ao exibir os belos dentes brancos, ganhando a mão da jovem e a levando para a pista de dança.

Alguns pares de casais moviam-se suavemente ao som lento e encantador de April in Paris, a linda voz da cantora soando em uma harmonia perfeita. As luzes ali eram um pouco mais baixas e deixavam o som do piano parecer ainda mais intimista.

Andrew apertou uma das mãos da herdeira, deslizando os dedos de sua mão livre pela cintura fina e agradavelmente macia através do tecido do longo vestido vermelho. Ela, por sua vez, encostou o rosto delicadamente no peito do homem, sentindo seu aroma delicioso invadi-la e agradá-la inteiramente. Suspirando docemente, deixou-se ser movida na melodia tão aconchegante.

“Abril em Paris, castanhas em flores…”.

            Era como se estivessem apenas os dois ali e a sensação era pertubadoramente maravilhosa.

– Isso é tão bom… – ela sussurrou com os olhos fechados, apertando-se ainda mais ao londrino.

– É maravilhoso – respondeu baixinho, sentindo o corpo tão pequeno e feminino circundar perfeitamente ao seu.

“Abril em Paris, isso é um sentimento que ninguém pode reprisar…”.

            E movendo-se um ao outro, com o outro e para o outro, as vozes se misturavam com as batidas de seus peitos, envolviam seus corpos e os faziam sentir a sensação entorpecente de possuir um ao outro, de ser um do outro. Eles nunca haviam sentindo aquilo – jamais. E ter aquele pequeno pedaço de paraíso naquela canção que cingia ambos, era como estar em casa após anos perdidos em uma guerra.

– Andrew… – A jovem sussurrou outra vez, deslizando-se até seus lábios alcançarem o ouvido do rapaz.

– Sim, Scar? – Tentou esconder um arquejo, inutilmente.

“O que você fez com o meu coração?”.

– Eu… – Ela engoliu em seco, apertando-o ainda mais. – O que você fez com o meu coração?

Ele não conseguiu responder.

Ele sentia, ele sentia aquilo assolar seu peito e esmagá-lo de dentro para fora. Mas fora tão rápido, tão velozmente assaltante. O que era aquilo? O que era aquilo que ele sentia?

O que ela havia feito com o seu coração?

– Scar… – ele murmurou ofegante, tocando delicadamente o queixo da garota e encontrando seu olhar… – Eu… Eu…

– Eu sei – Os lábios cheios e tão macios se moveram em um lindo e pequeno sorriso que o fascinou. Ele não precisava de um abril em Paris.

Scarlett era seu abril em Paris.

E quando o piano suavizou aos poucos cada nota e o saxofone soava longe demais, as vozes da canção sumiram e ambos sentiam seus corações baterem além de sintonia.

Blue Moon começou a tocar quando ambos se afastaram e Scarlett sentiu o olhar de Ian sobre os dois.

– Merda… – praguejou por baixo da voz ao vê-lo se aproximar.

– Olá, amor – O empresário a cumprimentou com um beijo forçado nos lábios, enlaçando sua cintura possessivamente enquanto olhava com um sorriso entre ela e Andrew. – Não vai me apresentar seu amigo?

– Er… – Ela deliberou nervosa e sem saber o que dizer quando o inglês sorriu através do olhar em chamas e apertou a mão do homem.

– Andrew Barnes.

– Ian Pierce, namorado dessa belezinha aqui – murmurou em um falso tom cortês que fez a morena se assustar por um segundo, sabendo que estava em maus lençóis. – O que faz da vida, Sr. Barnes? Não lembro de ter seu nome na lista de convidados.

– Bem, eu sou um homem de próprio negócio que gosta de agir por impulso – Sorriu sem dentes, pronto para atacar o pescoço daquele cara insuportável.

– Hm… Percebe-se – Ian soltou um risinho baixo e sarcástico, virando-se para a namorada. – Vai começar a cerimônia, vamos nos sentar.

E antes que ela pudesse responder, foi rebocada pelo jovem, enviando um olhar de desculpas e medo para o londrino.

O leilão correu entre provocações, olhares de possessão e uma boa dose de competição. Andrew arrematou um valioso quadro oferecido pelo Museu de Arte Contemporânea com um belo sorriso de vencedor lançado a Ian – fazendo a herdeira se questionar sobre como o britânico o fizera.

Com mais uma viagem a Itália sendo arrematada, assim como um iate na riviera francesa e alguns artigos de luxo, a cerimônia e um maravilhoso jantar logo se desfizeram também. Andrew conversava com alguns ministros e atrizes em uma das mesas enquanto Scar e o empresário representavam o casal perfeito em frente a alguma amiga da Paris Hilton, senadores e executivos do estado.

Em algum momento após a sobremesa, a herdeira sentiu a mão do namorado apertando seu braço, o que a fez soltar um gemido insatisfeito.

– Scarlett, vamos para o quarto – ele murmurou com um olhar chamuscado de algo que ela não conseguia identificar. Ira, controle, estresse… Um misto imperceptível que a receou.

Assentindo em silêncio, a garota se retirou da mesa. No entanto, ao devolver o guardanapo ao lado do prato de porcelana e se levantar, ela notou o olhar azul do britânico sobre ela, do outro lado do salão. E sem qualquer palavra ou expressão, seguiu de volta ao saguão com Ian logo atrás – para completo desespero de Andrew.

Se aquele filho da puta encostasse em um fio de cabelo sequer dela…

Um clic suave soou assim que ela abriu a porta e o homem a fechou atrás de si. A jovem engoliu em seco ao colocar sua bolsa de mão em cima da penteadeira e, finalmente, pôde ouvir a voz do empresário.

– Quem era aquele homem, Scarlett? – perguntou em um tom cortante. – Me diga a verdade.

– Ele é apenas um amigo – murmurou ao passar a mão pelo vestido distraidamente, temendo se virar para o namorado.

– Não minta para mim.

– Não estou mentindo – ela disse alguns oitavos mais alto para total descontrole do rapaz.

E, então, ele a puxou pelo braço outra vez, fazendo-a encarar os olhos flamejantes em cólera.

– Você é minha mulher, entendeu? Minha. – falou entre os dentes, apertando ainda mais a pele clara. – Você é minha mulher troféu e não aceito dividir isso com ninguém!

Aquelas palavras foram o estopim para a guerra na mente de Scarlett Hathaway. E ela estourou.

– Mulher troféu? – repetiu extremamente irônica e com uma ira audaciosa atravessando seus lábios. – Como ousa, Ian? Eu sou uma pessoa, não a porra de um objeto!

– Meça bem essas palavras, Scarlett!

– Vai se foder, Ian! – ela gritou, tentando sair do aperto sufocante do homem, inutilmente. – Me larga!

– Não, Scarlett, você é minha! Minha e não vai a lugar algum! – esbravejou ao puxá-la para uma cadeira que estava ao seu lado e sentá-la à força, ficando atrás de seu corpo.

– O que você está fazendo? Me solte! – exclamou nervosa e assustada, remexendo-se cada vez mais em vão contra o aperto de ferro.

– Diga-me, Scarlett, – ele falou baixo contra o seu ouvido, deslizando uma de suas mãos pelo corpo de belas e suaves curvas. – você gosta quando eu a trato assim? Quando eu toco sua pele do jeito que eu quero?

– Ian, me solta, por favor… – choramingou ao morder o lábio inferior, desejando sair dali, sair daquele inferno insuportável.

– Seja uma boa garota, minha querida – murmurou ao transportar seus dedos para o seio direito da jovem, coberto pelo macio tecido escarlate, descendo a alça caída pelo seu ombro enquanto abaixava o decote do vestido perigosamente.

– Por favor…

– Shhh… – ele sussurrou ao alcançar a aréola rosada e apertá-la antes de preencher sua mão com o seio, sentindo-o e tendo-o como seu. – Você é minha, Scarlett…

Uma expressão de angústia e aflição preencheu o rosto da morena assim que ela fechou seus olhos, sentindo a mão esquerda do empresário alcançar sua face e controlar seus movimentos com a mão direita apertando e cercando um dos seios túrgidos e tão deliciosamente macios.

– Ian… – ela choramingou outra vez, levando seus dedos até a mão que firmava seu rosto para trás, respirando fundo quando ele rodeou e puxou ainda mais a pele de seu colo.

– Eu não divido coisas, Scarlett – murmurou em seu ouvido, sorrindo maliciosamente para si mesmo. – Não divido meu Bugatti, não divido minha mansão em Nice e não divido minha mulher. Mas você vai aprender isso com o tempo, meu amor…

E ela se enojou, se enojou com aquele homem possesso que se transformava como uma lava traiçoeira em volta de seu corpo. Bem ou mal, ele era um homem milionário, mas nunca fora assim. Pela primeira vez, ele se mostrou uma pessoa que ela jamais imaginava que fosse.

Ele era fodido, brilhante, era um homem de um milhão de dólares. E havia partido, quebrado e falido seu coração.

– Quer saber de uma coisa? – ela murmurou ao abrir os olhos novamente, fitando o imenso e belo quarto dourado e vitoriano do Four Seasons. – Você me enoja, Ian. Completamente.

E com os olhos, os lábios e seu sangue em pleno estado de ira que a deixava doente, Scarlett afundou suas unhas entre as mãos do empresário e arrancou os braços mecânicos ao redor de seu corpo. Ele rugiu com a dor e a mulher se levantou no segundo perfeito ao arrumar seu vestido e empurrar o homem com o máximo de sua coragem e revolta que a assolou.

– Você me enoja, Ian Pierce! – ela gritou quando ele apertou seus braços e a puxou para frente dele, tentando arrancar sua roupa e jogá-la na cama à força. – Você me enoja! – berrou outra vez antes de conseguir empurrá-lo novamente e correr para fora do quarto.

– Scarlett! – Ele se exaltou, gritando-lhe, exclamando-lhe em sua ira enquanto ela trancava a porta da antessala e corria escadaria abaixo.

Seus olhos ardiam, seu coração pulava, suas pernas pareciam ter o dobro da força e peso. Ela só queria sair dali o mais rápido possível, fugir daquele inferno, daquela dor em seu peito, de toda aquela farsa armada que a fez cair em uma armadilha mortal como Bonnie e Clyde foram mortos por uma traição.

Até que, ao correr até o banheiro no hotel já praticamente vazio, ela bateu contra o peito de alguém.

– Scar! – Andrew exclamou ao segurá-la; a expressão de alívio transformando-se em extrema preocupação e raiva. – Por Deus, o que aconteceu?

– And… Andrew… – Ela soluçou ao fitá-lo com os olhos marejados e tão assustados e carentes.

– Céus, Scar… – Ela puxou o corpo trêmulo e pequeno para si, arrastando-se até o pequeno corredor entre os toaletes.

O choro em sua garganta não se conteve quando ele a abraçou carinhosa e cuidadosamente, acariciando seus cabelos à medida que ela apertava suas costas e afundava o rosto no peito forte.

Ela se sentia tão segura ali, tão fodidamente segura e bem como jamais se sentira em nenhum outro lugar ou com qualquer outra pessoa. Era apenas com Andrew. Apenas Andrew.

– Scar… – ele sussurrou calmamente ao puxá-la delicadamente para si. – Diga-me o que aconteceu, por favor. Eu estava como um louco te procurando!

A garota meneou a cabeça negativamente, chorosa e tremendo com o temor de cada ação. Ela estava tão assustada!

– Você sabe que eu jamais faria algo ruim a você, Scar. Jamais. – murmurou baixinho, acariciando seus cabelos. – Por favor, diga o que aconteceu. Foi aquele Ian, não foi? Eu juro por Deus que…

– Ele tentou me levar pra cama – ela falou de uma vez, sua voz em um fio trêmulo e temeroso. – Ele… Ele falou coisas horríveis e quase tirou minha roupa, ele…

O britânico paralisou. O ódio atravessou sua mente e nublou seus olhos instantaneamente.

– Aquele filho da puta! – xingou em completa fúria, passando a mão entre os cabelos antes de respirar fundo e, carinhosamente, puxar o queixo da morena até a altura de seus olhos. – Ele machucou você?

– Não, eu…

– O que é isso? – perguntou ao ver as marcas avermelhadas rapidamente ganhando um tom arroxeado ao redor do braço da herdeira. – Eu vou acabar com a raça daquele filho da puta!

– Andrew, não! – ela gritou, agarrando seu terno para que ele não fizesse alguma loucura. – Por favor, Ian não vale a pena, Andrew.

– Como não, Scar? – ele fitou completamente exaltado os olhos verdes. – Um homem já fodeu com a vida de duas mulheres que já foram muito pra mim. Não vou deixar outro homem fazer o mesmo de novo.

Aquilo a intrigou, reacendeu uma pequena chama em seu subconsciente despertado e sempre ansioso por mais. Aquele homem escondia tanto… Mas naquela noite ela já estava cansada.

– Por favor, só… Só fique comigo. – pediu com os olhos em lágrimas, assustados, perdidos, sozinhos. – Só fique comigo, Andrew.

– Scar…

– E prometa que não vai atrás do Ian – Ela mordeu os lábios, fitando os olhos descrentes e ainda exaltados. – Isso só vai ser ainda pior.

Ele suspirou, olhando para baixo antes de puxar a morena novamente para si e aconchegá-la em seus braços.

– Eu não garanto nada se o encontrar por coincidência por aí.

Mas ela não discutiu. Estava perdida e totalmente confusa ainda. E Andrew estava em cólera.

Aquilo era o máximo que conseguiria naquela noite.

 

“Você precisa de mim em sua vida

Você não pode viver sem mim

E eu morreria sem você

Eu mataria por você”

Por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
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