Dark Paradise | Capítulo 5: Black Beauty

por / terça-feira, 17 dezembro 2013 / Publicado emFanfics

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“Eu coloro o céu de preto

Você disse que se fosse do seu jeito

Você faria o mundo noturno hoje

Então ele combinaria com o humor da sua alma”

 

A cama estava quente e macia, os lençóis ondulando seus corpos relaxados e em um frisson desesperado de calmaria e aconchego. Andrew suspirou tranquilo ao abrir os olhos para a manhã nublada em preto e branco, sentindo seu corpo espremido em um abraço envolta da pele macia e pálida de Scarlett, ressonando de costas pra ele enquanto sentia as grandes mãos a protegendo em seu inconsciente.

E o britânico apertou-a um pouco mais em seus braços, escondendo o rosto nos cabelos escuros e perfumados ao fechar os olhos à bonança. Ele poderia ficar ali eternamente.

Um resmungo baixinho soou no quarto de tons cinzentos daquela manhã que anunciava uma chuva, e o homem sorriu ao ver a garota se ajeitar na cama e os cabelos em seu pescoço se movimentarem, deixando uma tatuagem à mostra que o surpreendeu. Era uma pequena cruz feita em tinta preta, logo abaixo da nuca, deixando a pele alva ainda mais apetitosa. Ele sorriu ao depositar um beijinho no desenho, fazendo Scar gemer e se apertar no abraço forte.

– Às vezes eu esqueço que você não é tão inocente quanto parece – Andrew sussurrou rouco no ouvido da morena, ouvindo os doces lábios se moverem em um sorriso lento.

– Que atrevido – Ela fingiu um ultraje, virando-se na cama e enrolando suas pernas entre as do britânico antes de deixá-lo deliciado com as íris verdes e preguiçosas da americana.

A jovem envolveu suas mãos no corpo quente enquanto sentia sua nudez ser aquecida em deleite entre os músculos do inglês, escondendo seu rosto no peitoral firme e fechando os olhos para aproveitar cada centímetro daquela sensação maravilhosa e entorpecente que Andrew Barnes sempre lhe referia.

– São quantas horas? – ela murmurou com um beicinho nos lábios, apertando ainda mais o corpo forte. – Eu tenho aula.

Ele riu da preguiça personificada, mexendo-se até conseguir enxergar o relógio digital no criado-mudo atrás da menina, o que a fez perceber um pequeno desenho tatuado na costela do britânico que a intrigou.

– Quem é Elizabeth? – perguntou em um tom de curiosidade, lendo a palavrinha em letra cursiva depois que ele deitou novamente e a puxou para si.

Quem poderia ser? Ela tinha certeza que Andrew não seria do tipo de cara que tatuaria o nome de uma namorada ou grande amiga. Apesar de saber tão pouco sobre ele, a jovem colocaria a mão no fogo ao dizer que o britânico não era do tipo que se deixa levar por afetos ou qualquer coisa irracional o bastante para ser considerada um sentimento. Ele era livre com ela e com seus amigos, mas aquele homem possuía uma grande barreira e um sinalizador que alarmava uma sirene em chamas de que ele era perigo.

E depois de um longo momento em silêncio, ele respondeu quando ela já não esperava por resposta alguma.

– Ela era minha mãe. – Scarlett cruzou seu olhar ao dele, vendo o cenho franzido enquanto ele engolia em seco ao fitá-la de volta. – Ela morreu quando eu era criança.

– Eu sinto muito – sussurrou sentida, deslizando seus dedos para o rosto suave com uma barba por fazer, acariciando a mandíbula marcada no rosto bonito.

– Não sinta – ele murmurou sombrio de repente, tocando a mão pequena e a afastando antes de se sentar sem encará-la. – Eu não quero pena de ninguém, Scar.

Ela suspirou ao enxergar um pequeno menino ali. Ele estava tão machucado…

– Andrew… – ela chamou baixinho, acariciando suavemente as costas bronzeadas e definidas do inglês. – Se você quiser…

– Eu não quero falar sobre isso, ok? – O homem se exaltou, embora não tivesse alterado um único oitavo em sua voz. Ele não se virou para a garota, no entanto. Ela apenas observou os ossos secos tencionados em sua alma e a sensação de estar sendo empurrada de um precipício.

Mas ela controlou o aperto em seu peito ao erguer o rosto.

– Ok, eu tenho que ir. – falou enquanto varria o quarto com os olhos à procura de suas roupas da noite anterior.

Ela não havia reparado antes, mas a suíte não era grande, era um tanto quanto simples. Carpete cinza, paredes claras e uma grande janela com vista para o centro de Los Angeles, escondida entre longas cortinas pretas. Uma porta aberta mostrava o início do corredor, enquanto outras duas indicavam o banheiro e um pequeno closet. Um típico apartamento de um jovem solteiro que não parecia muito apegado a bens materiais.

Antes que Scarlett se levantasse, no entanto, ela ouviu um longo suspiro sair dos lábios do rapaz – e sua voz rouca e baixa preencheu o ambiente no instante seguinte.

– Ela foi assassinada. – murmurou com o rosto escondido entre as mãos. – Meu pai era um drogado de merda, viciado em heroína, que morreu de overdose. E foi minha mãe quem teve de arcar com todas as consequências.

– Andrew… – A menina sussurrou, chocada e sofrida com cada uma daquelas palavras. E seu coração perdeu uma batida assim que o inglês a encarou.

– Ela foi encontrada morta em um beco de Londres, assassinada por um traficante como um acerto de contas pelas merdas que meu pai deixou.

Scarlett não sabia como reagir, ela apenas sabia que jamais se esqueceria do olhar perdido e tão machucado que Andrew lhe ofereceu. Os olhos azuis tão sozinhos e sofridos… Ele era apenas um menino órfão, uma pobre criança perdida em uma vida que não o merecia.

E ela o abraçou. Ela o apertou contra o seu peito e sentiu suas peles nuas se beijarem enquanto acariciava os cabelos revoltos e acobreados.

– Eu sinto muito… – cochichou baixinho em seu ouvido, apertando-o ainda mais assim que sentiu os braços quentes circundarem sua cintura. – Eu sinto muito, Andrew. Ninguém no mundo merece algo assim.

– Eu já disse, não sinta – Ele a olhou outra vez, queimando-a por dentro; seus narizes tão próximos a ponto de se tocarem. – Nem todos têm uma vida de realeza, Scar.

A pontada de ironia e sinceridade cingiu seu corpo e a intrigou, mas ela estava absorta demais no meio sorriso que o britânico esboçou junto daquele olhar que fazia seu estômago revirar. Uma das mãos de Andrew caminhou suavemente de sua cintura até seu rosto, e a morena sentiu os longos dedos desenhando uma linha imaginária em sua pele e deslizar em um vaivém penetrante rumo ao seu pescoço. As íris azuis pareciam admirar cada traço que ele tocava e Scarlett sentiu uma pontada deliciosa em seu baixo ventre assim que ele apertou sua mandíbula entre os dedos.

– O que você faz comigo, Scarlett? – sussurrou contra os lábios carnudos, fazendo-a mordê-los para conter um gemido quando ele repetiu a pergunta, apertando ainda mais sua pele. – O que você faz comigo?

– E-Eu não sei… – ela arquejou de volta, sentindo a respiração bater em seu rosto assim que seus olhos se encontraram.

– Você me faz sentir essa coisa, Scarlett… – disse com um olhar raivoso e um tom perigosamente baixo ao enxergar o verde amedrontado e banhado em desejo. – Você me faz sentir.

Ele aproximou a boca perigosamente à da garota, mordendo o lábio inferior sem desviar seus olhos, sem desfazer um ínfimo contato sequer. E ela gemeu no momento em que as pernas musculosas sobrepuseram à suas e a prenderam enquanto ele se deitava sobre o corpo macio e feminino. Ambas as mãos do homem deslizaram sobre pele impecável e apertaram os seios túrgidos ao passo em que ele cobria suas bocas em um beijo faminto.

Scar correu suas mãos pelas costas do londrino, arranhando-as e movendo seus pés deliciosamente pelas pernas dele. E, então, ele desceu seus lábios pelo pescoço da jovem, sugando a pele exposta e com um sabor intoxicante que lembrava cocaína. A língua rodeava seu colo e os dedos do homem encontraram seus mamilos rígidos e sensíveis, apertando-os e a fazendo gritar.

Os lábios de Andrew encontraram os seios firmes no mesmo instante em que sua mão fluiu pela barriga lisa da garota, ouvindo-a gemer e se arrepiar assim que ele tocou o clitóris e deslizou seus dedos na entrada tão molhada e quente.

– Oh, Deus… – ela sussurrou ao se perder nas mãos e boca do britânico, sentindo o volume tocá-la entre os lençóis.

A herdeira puxou os cabelos acobreados quando os beijos alcançaram seu abdômen e a língua úmida rodeou seu umbigo, fazendo-a estremecer. E então ela sentiu ambas as mãos do inglês apertarem suas coxas e afastá-las delirantemente enquanto os beijos desciam pela sua vulva até alcançar seu clitóris e arrancar um suspiro nada contido.

Ela pôde sentir o sorriso de Andrew entre suas pernas e seu corpo se arquear quando a língua dele tocou sua intimidade e a fez delirar, lambendo-a, sugando-a e provando-a com cada fibra de seu palato. Os dedos da morena se infiltravam entre os fios de cabelo do homem, embromando-os e puxando-os ao sentir que estava cada vez mais próxima do prazer.

– Andrew, eu…

– Goze pra mim, Scar – murmurou ao introduzir outro dedo em sua entrada, fazendo-a morder o lábio inferior e gemer deliciosamente.

E os espasmos aproximaram-se lenta e maravilhosamente, crescendo em seu baixo ventre e espalhando-se por cada célula de seu corpo ao fazê-la choramingar em desejo e completo deleite.

– Você parece um anjo… – Sua voz soou macia e perigosa enquanto subia os beijos pelo corpo trêmulo e fraco que ainda arfava, espalmando suas mãos no rosto delicado que o fitou desarmado. – Mas eu sempre me engano quando se trata de você, Scarlett. O que você guarda atrás desses olhos?

– O que você guarda atrás desses olhos, Andrew? – ela questionou suavemente, curiosa, amortecida, envenenada com a sensação deliciosa do orgasmo com aquele londrino sobre seu corpo.

Os olhos azuis flamejaram com alguma ira ao questionamento.

– É de você que estamos falando, Scar, não me provoque – Ele apertou a pele alva ao descer o toque em seus seios outra vez, mordiscando sua mandíbula e ouvindo um alto gemido sair de seus lábios.

A herdeira tentou girar seus corpos, mas o rapaz a prendeu em um aperto e ergueu seus braços acima de sua cabeça.

– Seja uma boa menina, anjo – ele falou em seu ouvido antes de rasgar um pedaço do lençol branco e escorregá-lo em um nó perfeito entre os punhos da jovem.

A visão fez seu membro latejar.

– Andrew…

– O que você quer, Scar? – sussurrou contra sua boca, sentindo as longas e esbeltas pernas da garota rodearem seus quadris.

– Eu quero que você me foda, Andrew – ela murmurou de volta, deslizando sua língua pelo queixo do homem e beijando-o sensualmente.

– Porra, Scar – praguejou ao sentir sua ereção pulsar novamente, pegando uma camisinha na mesa de cabeceira e deslizando-a ao longo de seu membro sob o olhar verde e atento. E, então, ele moveu seus dedos até a intimidade da morena, fazendo-a gemer ao pressionar seu clitóris.

O britânico escorregou suas mãos até a bunda firme e puxou os quadris rumo ao seu, penetrando-a de uma vez. O gemido que se seguiu foi gutural.

As pernas de Scarlett circundaram com mais força o corpo de Andrew e ambos gemiam com o ritmo enlouquecido de cada estocada. As mãos grandes moviam-se por todo o corpo da garota enquanto ela gemia deliciada e tentava puxar suas mãos inutilmente para tocar o homem.

– Oh, Andrew… – choramingou baixinho quando ele apertou seus seios e mordiscou sua orelha. – Por favor, eu vou…

– Venha comigo, Scar – arfou entre os lábios carnudos, aumentando o ritmo e fazendo a jovem arquear as costas com os espasmos se aproximando outra vez.

– Ah, merda – ela sussurrou ao franzir as sobrancelhas e se perder nos olhos azuis, gritando o nome do inglês ao sentir o orgasmo atacá-la e deixá-la subitamente suspensa e paralisada no ar. E ele não demorou a segui-la e gemer ao apertar sua cintura e morder a boca inchada e rubra.

Ele desabou o corpo sobre o seu enquanto ambos ofegavam.

– Isso foi quente – Scarlett murmurou ao arfar e ele sorriu deliberadamente ao levantar a cabeça e olhá-la com suavidade.

– Você é quente – retrucou antes de selar rapidamente seus lábios.

Ele saiu vagarosamente de dentro dela, logo a desamarrando e checando seus pulsos com um leve rosado enquanto ela os esfregava com um sorriso divertido.

– Que tal um banho? – ele perguntou ao se levantar, passando as mãos naquele cabelo fodidamente James Dean antes de voltar seu olhar para ela.

– Soa ótimo.

Depois de um banho rápido e Scar conseguir entrar em seu vestido salmão novamente, ela seguiu até a pequena cozinha americana do apartamento de Andrew. As felpas do carpete cinza massageavam seus pés à medida que ela segurava os scarpins numa mão e tentava fechar o cinto bege em sua cintura. O corredor tinha as paredes do mesmo tom claro do restante dos cômodos, com apenas algumas luminárias douradas e dois pequenos quadros com a paisagem do rio Tâmisa e do Big Ben, em Londres.

A sala possuía somente dois sofás escuros, duas enormes janelas com cortinas brancas, um estéreo e uma televisão grande. O que chamou sua atenção, porém, foi uma pequena escrivaninha em um dos cantos ao lado de um violão surrado e alguns papéis. Andrew Barnes compunha? Aquilo a intrigou.

Mas apesar de simples, o apartamento era extremamente aconchegante, principalmente com os ambientes ali em uma nuance acentuada de caramelo por conta dos abajures acesos, assim como as luminárias da cozinha – já que dia estava fechado e parcialmente escuro.

– Está com fome? Tenho alguns pães por aqui – Andrew disse da cozinha, e a jovem jogou seus sapatos em um canto ao se sentar em um banco e observá-lo apenas de calças jeans pretas e os pés descalços através do balcão.

– Só um café está bom. Umas amigas também faltaram aula e me enviaram uma mensagem de texto, chamando pra almoçar com elas daqui a pouco – A garota revirou os olhos ao pegar a caneca que o homem lhe ofereceu.

– As mesmas “amigas” de ontem? – O inglês perguntou divertido, sentando-se ao lado da morena.

Ela riu ao bebericar o café, lambendo os lábios antes de fitá-lo.

– Digamos que sim, mas, graças a Deus, minha cunhada não vai estar lá, então não vai me infernizar sobre o meu ataque de ontem – Sorriu irônica, mas a reação do rapaz a desarmou. Ao invés de sorrir de volta e fazer algum comentário sarcástico, ele franziu as sobrancelhas ao olhar em seus olhos.

– Cunhada?

Puta merda.

Scarlett sentiu a bebida rasgar sua garganta ao se dar conta da roleta russa em que havia entrado, desviando o olhar do britânico enquanto tentava pensar em alguma coisa. Até então, ela nem se lembrava de Ian.

– Ontem eu e meus pais fomos jantar com os pais e a irmã do meu namorado – Ela suspirou ao encarar os olhos azuis outra vez; sua expressão, por outro lado, completamente mascarada. – Eu simplesmente surtei quando eles começaram a falar de casamento e essa merda toda, briguei com meu namorado e depois, na boate, encontrei uns amigos e a irmã dele lá.

Ela queria que Andrew falasse alguma coisa, mas ele apenas assentiu calmamente ao olhar para o lado e sorver um gole de café.

– Me desculpe por não dizer antes, eu só… – Ela meneou a cabeça ao procurar as palavras certas e sentir os olhos penetrantes em seu rosto. – O Ian não é o que eu quero, Andrew. E isso é a única coisa que enxergo nele desde que conheci você.

– É óbvio que você teria alguém. Está tudo bem, Scar.  – Ele deu de ombros com um sorriso rápido ao murmurar.

– Andrew…

– Até porque – Ele a interrompeu, curvando-se sobre seu joelho ao sorrir de lado. – foi comigo que você gozou nas últimas horas.

Foi inevitável o sorrisinho que brincou nos lábios da californiana, fazendo-a se aproximar do londrino e encaixar as mãos em seus cabelos antes de puxá-lo para um beijo delicioso.

Meia hora mais tarde, a Harley-Davidson de Andrew parava em frente à casa da herdeira. Ela sorriu ao descer da moto e olhar para o homem de cabelos revoltos e olhos escondidos atrás do Wayfarer.

– Tem certeza que seus pais não vão te matar nas próximas horas? – inquiriu em diversão e um sorriso de lado.

– Meu pai está no trabalho e minha mãe com certeza deve estar almoçando e fazendo compras com alguma amiga perua, então é território seguro, por enquanto – Ela sorriu, sentindo as mãos grandes entrelaçarem sua cintura. – Até depois?

– Até – respondeu antes de beijá-la suavemente. Os dedos da garota tocaram seu rosto no mesmo instante que suas línguas se encontraram. E ela acenou quando abriu o elevado portão de grades e se afastou sobre os saltos altos.

Ao entrar em seu apartamento, minutos depois, Andrew simplesmente não conseguiu segurar todas as merdas de sentimentos, lembranças e sensações que o tomavam vagarosa e distraidamente desde que conhecera Scarlett Hathaway. O que aquela garota possuía que o deixava tão fixado? O que aquela garota rica e infeliz possuía para fazê-lo pensar apenas nela a cada segundo do dia? Qual era o feitiço que havia o feito ficar assim?

Ela carregava aquela melancolia nos traços delicados da pele alva, ela tinha aquele belo e incessante brilho nos olhos de quem anseia por uma vida além de tudo o que já experimentou. Por trás das íris verdes de pequena lolita, aquelas íris de menina curiosa, havia uma mulher malditamente sensual que havia mexido com cada milímetro da porra de seus pensamentos.

O britânico tentava afastar o modo tão sutil que aquela menina o olhava, com aquele tom de preocupação, de dor e de querer absorver cada uma de suas angústias. Ele tentava afastar de suas memórias que aquele era o mesmo modo sutil que sua mãe o olhava e o admirava por horas para, depois, dizer o quanto ele era o filho perfeito que qualquer mulher pediria para ter ao seu lado. Aquelas memórias que ele trancava tão fundo em sua alma, mas que simplesmente ruíam cada junta de seu corpo desde que encarara aquela doce menina perdida em um pub qualquer.

Sabe aquela vontade perturbadora de querer gritar quando você não consegue controlar algo extremamente importante em sua vida? Aquela vontade de berrar com o mundo, arrancar à força toda aquela maldita dor que o enclausura e o mantém preso em uma jaula, incapacitado de gritar por socorro, misericórdia ou, que pelo menos, alguém possa matá-lo antes que você seja capaz de sofrer ainda mais? Era essa esmagadora vontade que batia no peito de Andrew, clamando por piedade em um anseio arrebatador de libertar todas aquelas memórias e deixar cada um de seus demônios o dominar de novo, de novo e de novo.

Porque ele não era um homem bom. Aquele garoto perdido da Inglaterra e que fugira para os Estados Unidos não possuía nem mesmo uma célula que merecia o mínimo de bondade ou honestidade. Ele era fodido, estragado, cheio de falhas e com um anseio tão grande quanto os céus de poder entender a si mesmo ou o mundo ao seu redor.

E, então… De repente, sem esperar qualquer coisa em troca ou qualquer favor que o pudesse colocar atrás das grades, surgiu a sua frente aquela garota de sorriso fácil e um olhar que possuía um grande vazio de coisas a serem conquistadas e um universo de brilhantes possibilidades. Um anjo que só queria encontrar suas próprias asas para poder voar.

Um anjo que já possuía outra pessoa em seu lugar. Ian, certo? Um maldito!

– A porra de um namorado! – Andrew gritou ao fechar com força a porta da sala de estar e chutar qualquer coisa que aparecesse em seu caminho.

Um fogo o consumia, alimentava-se de sua alma e, depois, a digeria e a arrancava pouco a pouco do inglês, rasgando-o por dentro em uma raiva, uma ira e um desejo de ódio e insanidade que o deixou cego!

– A porra de um namorado perfeito! – ele rosnou em fúria, quebrando um vaso qualquer e jogando longe o violão ao seu lado. – Que inferno!

Os papéis na escrivaninha viraram lixos jogados pela sala, cadeiras e vasos quebrados enquanto Andrew praguejava e berrava em uma cólera que o dominava de dentro para fora e o consumia! Consumia-o do início ao fim e o fazia detestar cada merda de coisa a sua frente.

Espere! Ele não queria Scar! Ela não era nada para ele, pelo amor de Deus! Ela era apenas uma garota divertida e que parecia uma pequena gata tentando ser perigosa. Pelo menos era isso que parte de seu cérebro tentava explicar a si mesmo. Ele não se importava, ele não queria se importar com essa garota! Ela tinha um namorado, mas era Andrew quem a fazia sentir prazer, era Andrew que a beijava e arrastava sua língua pelo corpo esbelto. Era “Andrew” o nome que ela gritava quando alcançava o orgasmo.

Mas e se o namorado tivesse ido atrás da herdeira assim que ela voltou para casa naquela manhã? E se ele estivesse com ela naquele mesmo instante, beijando-a e a deixando nua sob seus dedos? Não, não, não. Ele não queria pensar naquela possibilidade, ele não podia pensar naquela possibilidade.

Scar era sua.

“Ian não é o que eu quero, Andrew. E isso é a única coisa que enxergo nele desde que conheci você.”

Aquelas foram as palavras dela, aquilo saiu dos próprios lábios da morena e ele pôde sentir uma pequena satisfação entre o vácuo da ira que ainda rastejava em seu peito. Não importava a merda que aconteceria dali em diante, mas era com Andrew que a jovem californiana se sentia bem, completa e em pleno estado de êxtase e torpor.

Tudo o que ele queria fazer era sequestrar Scarlett permanentemente para o seu mundo, tomá-la apenas para si e cercá-la em seus braços até esquecer todos os problemas e os demônios que mastigavam seus pulmões em busca de ar.

Andrew correu seus dedos através dos cabelos ao sentar no sofá e se curvar diante da bagunça espalhada por todo lado. Uma bagunça tão grande ou maior do que a bagunça que aquela garota rica havia feito em sua mente. E foi naquele momento que ele se deu conta de que não mais queria Scar – ele precisava dela, precisava do calor, do aconchego, das palavras doces e atitudes impensadas.

Ele amava seu jeito impulsivo, insano, sem mais nem menos, sem hesitações. E ele amava dar tudo aquilo a ela, ver os grandes olhos brilharem em ilimitadas possibilidades, como se o mundo e sua alma fossem infinitos, como se o calor e o desejo em seu corpo fossem eternos. O jovem se lembrava da expressão tão quebradiça enquanto ela chorava na noite anterior e do modo tão frágil que ela soava àquele amanhecer na praia – e ele não mais permitiria que ela se sentisse daquela forma. Ele iria dar o mundo de experiências e sensações a sua pequena menina.

O toque estridente do celular o assustou, fazendo-o xingar enquanto o pegava no bolso do seu jeans e o colocava contra o ouvido.

– Fala, Paul – disse num tom curto e grosso, esfregando a mão no rosto ao suspirar.

– E aí, Barnes! Tem um tempo livre agora? – O amigo perguntou animado do outro lado da linha.

– Claro, o que foi?

– Acabou de chegar um novo carregamento. Passe aqui no pub.

E foi exatamente o que Andrew fez ao pegar sua motocicleta outra vez e seguir ao Old Paul’s a fim de receber um bom lote de ópio e êxtase que ele distribuía para alguns clientes viciados da classe alta de Los Angeles e arredores de Santa Monica e Malibu – sua pequena e lucrativa sociedade com o parceiro de longa data.

Ele e Paul receberam os novos montantes enquanto os traficantes confirmavam a venda e recebiam o último lucro, logo separando os carregamentos de cada um e  iniciando os contatos com os clientes usuais.

– Barnes, eu preciso de você! – Paul exclamou ao subir as escadas do mezanino a passos largos, horas mais tarde, onde estava o amigo. – Vou atrás de um vagabundo que está me devendo.

– E o que eu tenho com isso? – O inglês riu divertido ao colocar os pés sobre a mesa do escritório do pub. – Não dá mais conta do recado?

– Cala a boca, filho da puta. – falou com uma risada, pegando uma jaqueta e a chave de sua moto.

Ao estacionarem num beco da Skid Row, Andrew desceu devagar de sua Harley, sentindo o couro do casaco aquecer seus braços quando uma brisa fria cortou a rua escura e vazia da noite angelina. Era possível ver uma casa apagada e outra pela calçada através da luz amarelada e sombria dos postes, assim como o zumbido de algum felino mexendo nas latas de lixo do outro lado da rua. Paul caminhou até uma moradia velha, uns bons metros ao longe do beco e, ao subir os degraus de madeira antiga da varanda, bateu com força na tela de proteção da porta da frente.

– Eric, abre essa merda! – Soou firme e alto ao passo que o outro se esgueirava pela janela ao lado, tentando ver algo de dentro da casa escura e aparentemente desocupada.

– Com certeza deve estar escapando pela porta dos fundos – O inglês murmurou ao seguir para o outro lado da residência suja, sendo seguido pelo sócio.

O mato estava bem mais alto ali e ambos silenciaram-se assim que ouviram um passo e outro. E sem pensar duas vezes, Paul e Andrew avistaram um pequeno vulto branco, pulando em cima dele e o atacando com um soco certeiro na barriga.

– Porra! – Eric arfou ao cair no chão, sendo arrastado e cercado pelo britânico que o prendeu pelo pescoço, e o moreno o golpeou outra vez no estômago.

– Cadê a grana, seu desgraçado? – O traficante perguntou em um tom cortante, com o Barnes apertando ainda mais a garganta do cara com seu antebraço.

– Eu n-não tenho – ele sussurrou com o rosto brilhando em suor à luz da lua e um poste de iluminação ao longe.

– Resposta errada – Andrew murmurou com os lábios encrespados assim que soltou o garoto de traços orientais, socando sua mandíbula e fazendo-o cair no mato sujo e nojento. – Você tem uma última chance, Eric.

– Eu já falei que não tenho a grana que estou devendo, porra! – esbravejou ao cuspir sangue na terra, arrancando um rosnado do homem que esmurrou sua cara outra vez, chutando seu abdômen e ouvindo-o gemer de dor.

Dando como lição resolvida ao ver o corpo caído e fraco que recebeu um soco final do amigo, o londrino se afastou.

– Vamos nessa, Paul. – ele chamou com um olhar sério e os ossos da mão doloridos.

Mas o moreno o ignorou por um instante, enfiando a mão no interior de sua jaqueta ao arrancar um revólver 38 calibre e apontá-lo para o filho da puta que o devia. E sem misericórdia, Paul Miller atirou no peito do homem.

– Com esses viciados não existem segundas chances – murmurou ao guardar a arma e encarar Andrew, que fitava o sujeito morto.

Ninguém questionou ninguém, ambos apenas voltaram para o beco e pilotaram a toda velocidade pelo centro pobre de Los Angeles até retornarem ao pub – presos em suas mentes ao se darem conta que, num mundo como aquele, quem procurava, sempre encontrava.

E após resolverem uns últimos acertos sobre os novos carregamentos e contatarem mais alguns clientes, o homem seguiu em sua motocicleta rumo a Manhattan Beach, rapidamente podendo ouvir o som suave de Jeff Buckley soando de dentro da casa bacana de frente à praia. Com dois andares e de estruturas mediterrâneas típicas daquela região de LA, o lugar ostentava uma simplicidade e bom gosto ao melhor estilo anos 70.

– Olha quem chegou! – Anya sorriu com a voz alterada e um cigarro entre os dedos assim que Andrew atravessou a porta de madeira.

Ela estava jogada entre os tapetes da sala de estar, com Brady bebendo ao seu lado e Katherine curvada na poltrona ao lado do vinil, encaixando a agulha em sua faixa preferida do álbum e colocando Lilac Wine para tocar. A névoa da cannabis preenchia todo o cômodo enquanto era possível ver as portas duplas de vidro, após a sala de jantar, mostrando as ondas macias batendo na orla da praia escura.

– Senti saudades da minha anfitriã preferida – ele brincou com um sorriso nos lábios, aconchegando-se ao lado dela e tomando um gole do uísque em cima da mesa de centro.

A casa fora deixada para Anya após a morte de seus pais em um acidente de avião, há alguns pares de anos. Ela desistira aos poucos da faculdade de Enfermagem e, desde então, ali era um pequeno ponto de reunião dos amigos para boas noites regadas a muita música, conversas e drogas.

– Veio em um bom momento, ela está precisando de colo, garotão – Katherine confessou risonha e alta quando os lábios da morena se repuxaram em um beicinho e ela deitava a cabeça no colo do britânico.

– O que foi dessa vez? – perguntou ao vê-la tragar um pouco mais do seu baseado, compartilhando-o com ele.

– Briguei com Demetri pela milésima vez – murmurou emburrada ao fitar os olhos azuis.

– Vocês nunca se resolvem, vivem num rolo.

– Eu o peguei transando com outra garota quando fui ao apartamento dele hoje à tarde, acredita? – Revirou os olhos, pegando a maconha de Andrew e tragando outra vez. – Tudo bem que não somos realmente um casal, mas se ele queria comer uma garota diferente, poderia ter me avisado, sei lá.

– Ele é homem, Anya, somos todos idiotas – Brady comentou com um sorriso fácil no rosto ao se sentar na poltrona e puxar a namorada ruiva para seus braços.

– Argh, foda-se! – Ela espantou o mau agouro ao se erguer do tapete e subir na mesinha de vidro com a garrafa de Johnnie em mãos. – Eu vou aproveitar a minha vida!

– É assim que se fala, gata! – Katherine gritou ao colocar os dedos dentro da jaqueta do louro e puxar um saquinho transparente com um sorriso malicioso. – E vamos começar agora.

E eles iniciaram com três, quatro, cinco carreiras de cocaína sobre a mesa de centro da sala de estar, aspirando o pó branco em um rolinho de papel e sentindo suas veias e artérias pulsarem com o sangue bombeando através de seus corpos. Uma aspirada de coca, uma tragada de maconha, uma dose e outra de uísque misturada a licor de malte. De novo, de novo e de novo.

Anya gargalhava ao encarar Andrew, sentindo a baunilha penetrar as cartilagens de seu nariz enquanto ele ria, preferindo seu bom baseado àquela noite. Katherine e Brady riam e dançavam juntos até a sala de jantar, perdidos em si e na bagunça ilusória de pensamentos malucos e sensações vibrantes correndo em suas fibras.

O som suave do blues entrava vagarosamente em seus ouvidos e saiam em notas lentas e distantes, e o inglês soprava a fumaça branca da marijuana quando olhou para a morena ao seu lado e a viu passando a mão no nariz ao cheirar mais uma fileira de cocaína separada sobre a mesa. Ela o olhou com um sorriso longe e as pupilas dilatadas no rosto belo – um filete de sangue deslizando de suas narinas enquanto ela continuava aspirando mais uma carreira, alta demais para perceber alguma coisa.

– Anya… – ele a chamou em um sussurro, franzindo o cenho e tocando seu ombro magro.

A jovem o ignorou, terminando de cheirar a fila branca de pó e sentindo sua cabeça latejar e seus olhos e seu nariz arderem. Ela levantou o rosto, esfregando as pálpebras e passando os dedos pelas narinas ao sentir algo escorrendo até seus lábios e as mãos de Andrew puxarem seus ombros para poder a encarar.

– Meu Deus, Anya – murmurou em espanto ao arregalar os olhos, estendendo suas mãos para limpar o sangue que saía do nariz da morena em um fluxo cada vez maior e assustador.

– Andrew – Ela o fitou, assombrada e com o medo atravessando as íris castanhas. – O que é isso, Andr…

Antes que terminasse a sentença, sangue escapuliu de seus lábios e ela engasgou ao cuspir o líquido e mais sangue jorrar por seus lábios e deslizar pelo nariz.

O homem olhou abismado para aquela cena, vendo a amiga completamente letárgica ao colocar cada vez mais sangue para fora. Ele correu seus olhos para Katherine e Brady que pareciam chapados e perdidos demais em suas próprias mentes ao dançarem pela sala, então voltou toda sua atenção para a garota ao seu lado.

Sem perder mais tempo, ele arrancou sua camiseta preta, puxando a morena para si e limpando com cuidando seu rosto coberto de sangue. Os olhos castanhos estavam marejados e assustados quando ela apenas conseguia colocar mais sangue para fora e Andrew ficava ali, apertando-a contra seu peito e enxugando o vermelho na pele suave do rosto e do pescoço da jovem.

– Shh, está tudo bem, Anya – ele sussurrou ao deslizar o tecido com cuidado nos lábios cheios para limpar o sangue. – Vai ficar tudo bem.

E, com calma, a hemorragia passou à medida que a garota conseguia respirar normalmente outra vez – seus olhos pesando com a crise letárgica que a atingira tão de repente. O londrino apenas a segurou mais forte, puxando-a para seus braços ao colocá-la no colo e caminhar com cuidado escada acima.

– Andrew… – ela murmurou enfraquecida assim que ele a deitou na cama de casal do segundo andar, teimando para manter os olhos abertos.

– Estou aqui, eu não vou sair enquanto você não melhorar – garantiu com um sorriso de lado que a confortou. E, então, trocou as roupas sujas por limpas e ofereceu um copo de água para ela.

– Obrigada, Andrew – falou em um murmúrio através dos lábios secos, tomando todo o líquido e sentindo o homem sentar ao seu lado no colchão e puxá-la com carinho em seu peito.

– Eu sou seu amigo, eu sei que você faria a mesma coisa por mim.

E ambos sorriram de volta, gratos por – mesmo através da escuridão e escolhas erradas – existir um tipo de sentimento que sempre os faria lutar uns pelos outros.

“Você não tem espaço para a luz

O amor está perdido em você”

Por Raphaella Paiva

Raphaella Paiva
Escorpiana, 20 anos. Estudante de Letras - Português pela Universidade Federal de Goiás, escritora em pré-contrato e uma beatnik nascida na época errada. Descobriu Lana Del Rey em 2011 quando Video Games roubou seu coração, tornando-se uma tradutora, redatora e colunista que adora um teste do sofá no Addiction. Cinéfila que também ama jazz e blues, Pink Floyd, Arctic Monkeys, Kristen Stewart, Marilyn Monroe e qualquer coisa escrita ou filmada por Woody Allen.
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