RESENHA | Tropico: Em Busca do Paraíso

por / sexta-feira, 06 dezembro 2013 / Publicado emAnálises, Colunas

TROPICO

Para melhor desenvolver esta análise, vou me limitar a interpretação de seus aspectos filosóficos e culturais (abordarei seus aspectos musicais em colunas futuras, se não isso aqui vai ficar quilométrico), dividindo-a em três grandes momentos, com passagens a costura-los: Introdução, Body Electric, Gods and Monsters e Bel Air.

Num momento inicial, o primeiro contato com o curta, temos a seguinte situação: O paraíso e a sua criação, Eva (Lana Del Rey), Adão (Shaun Ross), Jesus, Elvis, Marilyn e o Cowboy John Wayne. Seria muito fácil encararmos como uma reprodução fiel do paraíso se não fosse os três últimos personagens – Aparentemente, não têm o que fazer ali. Mesmo assim, os fãs vão logo matar a charada: “Elvis is my daddy, Marylin’s my mother, Jesus is my bestest friend”, bingo! Um prelúdio para anunciar a primeira música do curta: Body Electric. Mas e o John? E porque Lana (ou Maria?) pede que ele a perdoe pelos pecados que cometeu?

Numa das entrevistas que a Lana deu, ela conta da sua fixação por ícones. Toda sociedade moderna, alimentada pelo capitalismo em todos os seus âmbitos, possui os seus ícones – e é óbvio que o berço do capitalismo tenha os seus: Elvis, Marilyn e John. Ícones da música, do cinema e até mesmo da política. Míticos, incríveis, tão conhecidos quanto o próprio Jesus Cristo.

Na minha leitura, Lana toma o paraíso como o sonho americano – perceba que Jesus reza e dissemina suas palavras, Marilyn e Elvis cantam, dançam, recitam suas frases de efeito. E John? John ensina às “crianças” a como ser um cowboy. O cowboy é puramente americano: Wayne ensina a um americano a como sê-lo. Ele é Deus. O Deus-Ícone Americano.

Em Body Electric, Lana Del Rey louva os costumes de seu país: A festa, a dança, Elvis, Marylin. Numa sociedade onde os melhores amigos são os diamantes, o que importa é alcançar a riqueza, é estar em chamas acima de tudo, é cantar, é ser a energia. Eva e Adão vivem no paraíso – o sonho americano. Nada mais importa para eles, se não a diversão, o sentimento de ser “eternamente jovem”. Perceba que eles dançam sensualmente – mas sem beirar a vulgaridade que não demorará muito para ser retratada, e sorriem um para o outro. Maria permanece cautelosa rezando, enquanto que os “deuses” permanecem felizes recitando suas frases de efeito.

Tudo permanece lindo, até o momento que Eva morde a maçã: Marylin grita, Maria abaixa a cabeça (visivelmente entristecida), Elvis e os outros parecem assustados. Ela cai e parece estar morta, e não demora para que Adão também prove da maçã. Daí a cena passa para um plano diferente. Numa rápida transição que envolve raios caindo e vários closes no momento em que ela morde o fruto, algumas cenas da “Eva” dançando no Pole Dance são mostradas. É um cenário escuro, de poucas cores (seria praticamente monocromático não fosse pelo biquíni vermelho que a Lana usa), e não demora muito para que percebamos que se trata do plano real, o nosso mundo. Primeira pergunta: Onde eles pecaram? Essa é fácil: comeram o fruto proibido. Segunda pergunta (que naturalmente se desdobra em tantas outras perguntas): O que significa a maçã? É a sabedoria? É a curiosidade? O que representa esse fruto que, de tão grave ao mordê-lo, eles são transferidos do paraíso e caem no mundo real? Eu ainda não consegui responder a essas perguntas.

Enfim, caímos agora num plano muito menos colorido, e com uma sensualidade deturpada em vulgaridade: temos mulheres praticamente nuas esfregando suas partes íntimas nos rostos de homens, suas vestes cheias de dinheiro, dólares caindo, um ambiente escuro, sufocante e desagradável.

Meus amigos, apresento-os o real sonho americano: Prostituição, drogas, dinheiro sujo e pessoas vulgares. Essa é a américa que poucos querem ver. Você acha que é fácil ser feliz e rico nesse mundo de capitalismo selvagem que vivemos? Se sim, sinto dizê-lo que está enganado. Em Gods and Monsters, Lana Del Rey retrata muito bem isso: Numa terra de Deuses e Monstros, ela era um anjo que tentava se divertir sem ter a alma roubada por esse mundo de vulgaridade que a cerca – como ela narra em um de seus monólogos, a alma está muito além do corpo por si só, sendo tudo isso e mais um pouco. Até o término da música, não há sorrisos sinceros, tampouco cores puras, angelicais. Mas muitas drogas, mulheres dançando e se prostituindo, homens loucos como lobos no açougue. E o pior está em: Todos eles estão em busca da felicidade.

Lana passa claramente as suas intenções nesse momento do filme ao dizer que viu as pessoas de seu tempo serem tomadas pela loucura, loucura esta que não é nada além da busca incessante pela felicidade – que muitos acham estar no sonho americano. Muitos acham que Deus está nos ícones, e acabam se perdendo em si mesmos por conta disso.

No entanto, ela e Shaun querem escapar desse plano. E como fazê-lo?

Daí, entra Bel Air – Trata-se do momento de redenção. Note que, enquanto John Wayne, em seu monólogo, fala porque ama a América, o casal está num carro rumo a lugar nenhum. Lana tira seus acessórios, suas roupas, deixa que o vento acaricie seus cabelos. Tudo isso dividido com flashes de um batizando o outro – encontraram o Paraíso? Encontraram Deus? Sim e sim.

Mas não os encontraram no prazer, na diversão, no material, muito menos nos próprios ícones – Elvis, Marylin e Jesus já não aparecem. Eles encontram o paraíso em si mesmos: o Amor. Batizam-se e tornam-se livres do pecado original. Não negam a Deus, nem a Realidade, mas não retratam nenhum dos dois. Tropico retrata uma epopeia em busca do paraíso, e o paraíso está em nós mesmos – Não em deus, nem no sonho americano, nem nos ícones, nem em nada. Está no amor que temos em nós e nos outros. Ao mesmo tempo que ela declara que está feliz em encontrar o seu amor, prometendo nunca mais enganá-lo, eles dançam, cantam, e finalmente sorriem com o dulçor dos céus, e a luz parece chegar a eles. Não é muito difícil matar essa charada de Lana, meus caros, ela já tratava desta temática em outras músicas: “Heaven is a place on Earth with you.”

E então eles sobem aos céus. Que Céu é esse? O céu particular da Lana. O céu particular de cada um de nós.

Essa é a minha primeira análise de Tropico – não é a última, nem a mais certa de todas as análises existentes. Posso ter viajado muito, ou ter sido muito limitada em minha interpretação, não sei. O que vocês acharam? Quais são as interpretações de vocês para Tropico?

Clique aqui e assista o curta completo e legendado em nossa galeria de vídeos

Por Júlia Félix

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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  • Marcos Henrique

    Concordo plenamente com sua análise, sem tirar e nem por. O engraçado é que tive essa mesma interpretação quando vi pela primeira vez. Pensamos iguais.

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