TEXTOS | Kill Kill

por / domingo, 24 novembro 2013 / Publicado emColunas, Textos

KILL-KILL

“Caminhei lentamente até o banheiro, me olhei no espelho e, depois, respirei fundo olhando para o meu próprio reflexo. Tirei a camisa e continuei me despindo até sentir o ar frio do mármore encostando na minha pele e comecei a pensar em tudo o que nos aconteceu, mais uma vez.

Liguei o chuveiro e a água que escorria pelo meu corpo não me causava sensação alguma, tão anestesiado que estava eu pelos meus pensamentos e, mais que isso, pelo que eu sentia por ele. Me lembrava das suas tatuagens e me tocava como se ele estivesse ali comigo, o que, como eu bem sabia, não iria mais acontecer.

Eu fiz tudo o que pude, mas não deveria ter feito o que não podia: me apaixonar por aquele rosto tão delicado, aquelas mãos grandes e aqueles olhos castanhos que, quando me olhavam, sorriam pra mim, mesmo que com a boca fechada, sem fazer um movimento sequer. Eu precisava matar tudo isso, precisava transformá-lo em um cara morto, um cadáver que ficaria enterrado junto com toda a melancolia que nos faz escrever longos e desnecessários textos sobre como não se pode confiar em ninguém ou não se apaixonar.

Trust no one. Trust no one. Trust no one.

Eu fiz tudo o que pude, mas não deveria ter feito o que não podia: me encaixar naquele abraço tão apertado, me deixar envenenar por aquele beijo, me acostumar com aquelas longas conversas com alguém que depois eu teria que matar. Matar. Matar? Eu não sei se conseguiria cometer esse crime, mas, se não fosse capaz disso, provavelmente quem acabaria enterrado por aqueles sentimentos seria eu: nada seria melhor do que morrer afogado naquele chuveiro, escorrer pelo ralo, ir parar em um outro tempo, em outro lugar… no fundo, esperava que o ralo tivesse como destino final as mesmas tardes em que, despreocupados com o tempo incerto do futuro, ficamos juntos como se o pra sempre realmente existisse.

Eu fiz tudo o que pude, mas não deveria ter feito o que não podia: conhecendo o terreno espinhoso em que ele estava, dei o primeiro passo em direção a ele, e então o segundo, o terceiro… e nos abraçamos.

E choramos. E ficamos ali, esperando que algo nos ajudasse a exterminar todos aqueles espinhos para que, assim, viessem rosas brancas e vermelhas. Mas já passei daquela fase em que se acredita que, independente dos percalços, aquele lugar pra dois vai estar ali, pronto pra servir de cenário para longos abraços, longas conversas, longas despreocupações. Eu fiz tudo o que pude e agora deveria matar tudo aquilo. Trust no one. Mas como fazer? Alguém teria em sua biblioteca um manual de como matar algo que te fez querer viver?

Como matar algo pelo que se faria qualquer coisa apenas para conseguir um outro abraço, pra sentir as mãos dadas, juntas? Você sabe que vou te deixar, mas não é por não sentir nada, não. Você sabe que vou te deixar, mas não é porque não gosto mais de você. Você sabe que eu vou te deixar, mas eu fiz tudo o que pude pra lutar contra todos esses espinhos, eles simplesmente insistem em me fazer sangrar. Eu fiz tudo o que pude. Eu ainda te quero aqui. Eu preciso te matar. Trust no one.”

Texto inspirado em Kill Kill, por João Paulo Escute

Clique aqui e confira a letra e tradução da canção.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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