TEXTOS | Jump

por / sábado, 16 novembro 2013 / Publicado emColunas, Textos

JUMP

 

“Eu estava deitado em um colchão, no meio do quarto. Faltava pouco para as quatro da tarde e eu me sentia cada vez mais sufocado, fosse pelo calor daquele dia ou pelas paredes daquele lugar que pareciam se fechar em volta de mim… Minhas orelhas estavam um pouco suadas e meus fones escorregavam, caindo no meu pescoço, por onde desfilavam frias gotas de suor (não só pelo calor, mas também pela exagerada quantia de comprimidos que eu tinha engolido alguns minutos antes).

Eu olhei para o teto, acompanhando os movimentos circulares do ventilador que tentava me reanimar, quase como se quisesse falar comigo, como se quisesse enfiar uma de suas hélices pela minha garganta e me fazer vomitar a morte que havia engolido.

Pobrezinho, mal sabia ele que já não tinha mais volta pois, uma vez tomada, a decisão não seria rediscutida pelos neurônios confusos do meu cérebro que, por sua vez, já começava a dar sinais de despedida.

Aquela música se repetia várias vezes nos meus fones, falando sobre visões de palmeiras em preto e branco e, estranhamente, isso me fazia ter vontade de levantar, sair correndo pelo quarto, pela casa e, depois, ganhar as ruas, seguir correndo até algum paraíso longe de tudo aquilo ou, melhor ainda, para o paraíso que encontraria nos braços dele. Ele… será que existia mesmo ou teria sido inventado pela minha confusão? Estranhamente motivado por algo que ainda não sei o que era, me apoiei nos meus braços trêmulos e me sentei no colchão. Agora, minha visão não era mais o teto ou o ventilador que queria me salvar, mas sim a parede coberta por fotos, murais, pôsteres, lembranças de uma vida que ficava cada vez mais distante, conforme eu me sentia ingressando em uma outra fase de existência… ou seria inexistência?

Fechei os olhos e estranhamente me guiei para a porta, depois pelo corredor, até que cheguei à porta da frente. Segurando o celular, a música continuava se repetindo nos meus fones, entrando pelos meus ouvidos e causando algo que gostaria de ter entendido naquele momento, mas minha capacidade limitada não permitiu.

Ganhei as ruas, vi pessoas, árvores, ônibus, placas, lojas, sorvetes, mendigos, vida. Não me lembro mais onde estava, tudo o queconseguia ver era a altura que me separava do chão onde, apressadas, as pessoas se moviam para todas as direções, parando apenas para algo que realmente as interessasse… como por exemplo um menino no alto que pretendia pular.

E então eu vi aquela linha do horizonte, distante e lilás do fim da tarde. Era linda e eu queria alcançá-la, a qualquer custo. Eu queria pular. Entretanto, senti uma mão fria tocando meu ombro despido, a camiseta sem mangas me fazia sentir como se estivesse flutuando, como se meus braços fossem asas que me levaram até ali, aos poucos passos da linha do horizonte. E eu queria pular.
Aquela mão fria me apertava e eu não conseguia ver o rosto que as controlava, até mesmo a linha do horizonte não era mais fixa como antes, sentia algo errado dentro de mim, algo que queria sair, talvez os comprimidos estavam seguindo alguma ordem do ventilador que, antes de eu ter deixado o quarto, deve ter sussurrado para as pílulas que eu havia engolido, que saíssem de dentro de mim e me aprisionassem nesse mundo sem linhas lilases de horizonte.

A próxima coisa que me lembro era um teto branco, mas não era o do meu quarto: este, por sua vez, era meio amarelado, minha casa de arquitetura não tão moderna já possuía as marcas do tempo em suas paredes e o teto que agora via se assemelhava a alguma espécie nuvem, grande, brilhante e que se aproximava cada vez mais de mim. Então vi anjos, do tipo que nunca tinha visto: usavam máscaras na boca e luvas de plástico… suas mãos tentavam fazer algo para que eu não desse mais um passo pra onde quer que eu estivesse indo, embora sentisse como se eu estivesse deitado. E agora sei que realmente estava.

Os anjos tentaram me impedir, mas mesmo sem aquelas pílulas dentro de mim, mesmo sem os meus fones, sem aquela música que me acalmava e quase me impedia de continuar o caminho que havia escolhido, mesmo sem o meu ventilador tentando me salvar, eu continuei. Ouvi algumas máquinas emitindo sons agudos, talvez o anúncio para o próximo voo para a linha lilás do horizonte…

E pulei.”

Texto inspirado em Jump, por João Paulo Escute

Clique aqui e confira a letra e tradução da canção.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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