TEXTOS | National Anthem

por / terça-feira, 06 agosto 2013 / Publicado emColunas, Textos

NATIONAL

“Dei uma última olhada no espelho antes de entrar na festa. Eu tinha colocado minha melhor roupa apenas para ele.

Entrei, e era igual as outras festas que ele dava: regada à álcool, dinheiro e mulheres lindas.

Onde ele estava? Como sempre, ele era o centro das atenções, a festa sendo sua ou não. Perto dele eu sempre tentava fazer o papel de confiante, não acho que ele acreditava…Era apenas alguém insegura que queria ser dele, só dele e para sempre dele.

Acendi um cigarro e peguei uma taça de champagne, será que eu estava bonita o suficiente? estava nervosa, ficava girando o anel que ele havia me dado e que eu nunca mais tirei…

Ele estava na varanda, no meio de um grupo enorme, falando sobre, bem, qualquer coisa… A voz dele era hipnotizante, e todos paravam para ouvir e todos queriam pertencer a ele, assim como eu. Ele me viu e sorriu de canto, mas não saiu de onde estava.

Como ele era lindo, mesmo com aquele sorriso sem graça, como se não quisesse que soubessem que eu estava aqui. Era difícil acreditar que ninguém era perfeito olhando para ele. Deus, seria uma daquelas noites terríveis, meu coração estava contorcido de dor.

Eu nunca pude definir o que tínhamos, sabe? Em algumas festas ficávamos juntos o tempo todo, ele me levava de lá para cá como um troféu a ser exibido, e eu gostava disso. Ele me apresentava aos seus amigos, e todo mundo se interessava por mim; eu fazia parte das conversas, até de um pedaço pequeno de sua vida. Eu me sentia dele, e sentia que ele era meu, mesmo lá no fundo sabendo que era apenas um desejo e não uma realidade. Em outras festas, eu era apenas uma coadjuvante, ele mal falava comigo, só encostava em mim quando não havia ninguém por perto…Um pouco irônico como às vezes eu era a esposa e nas outras, a submissa amante, que amava do fundo do coração e acreditava nas declarações que no fundo eram vazias, que acreditava que um dia ele deixaria tudo para ficar com ela.

Peguei mais champagne… Tudo já estava borrado, eu havia bebido meia garrafa de Jack antes de chegar aqui.

Sentei no sofá no meio de algumas pessoas importantes e elas nem faziam ideia de quem eu era, provavelmente porque ele nem tinha me cumprimentado…

Por que ele simplesmente não poderia ficar comigo de uma vez só? Qual era o problema disso?

Ele sabia que não conseguiria me deixar para lá, nossa paixão era muito forte, nossa atração era sobrenatural. Porém, para ele às vezes não passava disso. Uma paixão ardente.

Mais champagne.

E para mim era mais do que isso: era amor. Eu estava cansada de dormir sozinha, de me sentir caindo no vazio (…) Ele poderia me segurar, me abraçar à noite, cuidar de mim. Ele poderia fazer com que eu me sentisse segura se quisesse. Não precisava largar essa vida de dinheiro, fama e festas, eu poderia participar e ele continuaria nos holofotes, como ele sempre quis.

Ele não pensava nas vezes em que rodávamos em sua Bugatti por aí, sem destino, sem lugar, só para sentirmos o vento gelado em nossos rostos, nossas mãos entrelaçadas, só nós dois? Sem outras pessoas, sem ser a figura importante que ele “tinha de ser”.

À essa altura eu já não via mais nada e dançava, não sei se sozinha ou não, ao blues que tocava. A única coisa que percebi era que ele havia me notado. Veio em minha direção, levantou meu queixo e sorriu.

Eu disse, com a voz pastosa de tanta bebida ” Você pode ser meu”.

A única coisa que eu queria era ser tudo para ele. Não às vezes, não em algumas festas. Sempre. Ser tudo para ele, como se ele fosse o orgulho da Nação e eu, seu hino nacional…”

 

Texto inspirado em National Anthem, por Yeda Salomão

Clique aqui e confira a letra e tradução da canção.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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