TEXTOS | Carmen

por / sexta-feira, 09 agosto 2013 / Publicado emColunas, Textos

CARMEN

“Cheguei tropeçando em meus próprios sapatos de salto alto.

Não sei como entrei em meu apartamento, mas entrei.

Meu vestido era de franjas e vermelho. Combinava com o delineador de gatinho e o batom da mesma cor, eu acho.

Olhei-me no espelho. O espelho não conseguia mentir, mesmo que eu conseguisse. Ele só falava verdades, e eu era obrigada a “escutar”.

Cheguei em casa e sentei na frente dele. Se eu cheguei linda, maravilhosa na festa, a rainha do lugar, ele me mostrava a verdade, a tristeza, a solidão, as imperfeições… Talvez eu não fosse tão perfeita quanto eu fingia ser.

Eu não queria ver o que o espelho mostrava. O meu vestido era lindo e me deixava perfeita, mas não era eu.

Não importa o quanto eu fingia ser perfeita; eu sorria como se minha vida fosse completamente feliz, dançava como se não houvesse amanhã, conversava como se todos os assuntos fossem interessantes. E todos gostavam disso: tanto as meninas quanto os garotos, todos queriam estar no meu lugar, estar no meu mundo. Eram todos apaixonados pela minha farsa. Apenas uma mentira.

Mas agora, olhando para esse vidro que refletia, eu via que eu não era assim. Eu não estava bem por dentro, estava destruída, quebrada, despedaçada. E por fora, todos acreditavam no quanto eu brilhava, todos achavam que meu sorriso era verdadeiro.
Eu era uma pessoa, e meu reflexo era uma pessoa completamente diferente, era o “eu” real.

O meu medo era que as pessoas olhassem no mesmo espelho que eu. Até agora não tinha acontecido nada disso. Eles ainda ficavam apaixonados pelos meus olhos enormes e meus cílios postiços.

Quando eu bebia, eu realmente acreditava em quem eu era. Acreditava que eu poderia ser tudo. Só que quando a festa acabava, e eu olhava para essa droga de espelho, eu via quem eu era por dentro, eu via a minha alma desfeita, minha vida confusa…

Eles olhavam para mim, elas também, e todos desejavam ser como sou. Porém, ninguém sabia como eu realmente era, só viam a perfeição que fingia possuir. Ninguém sabia dos meus problemas, dos meus erros, da minha solidão e muito menos das minhas lágrimas.

Para eles eu não era triste como eu sou, nem tão imperfeita como esse espelho mostra. Eu era uma beauty queen.O vestido cabia perfeitamente em mim, o vermelho combinava com as minhas madeixas douradas, mas para onde eu iria? Eu não tinha alguém, ou algo. Eu não tinha nem a mim mesma.

Aqui dentro do meu apartamento, eu era uma pessoa. Lá fora, eu era outra. Eu costumava me chamar de Carmen, e isso era um segredo apenas meu. Ninguém precisava saber que eu tinha mais de uma faceta.

Eu peguei uma garrafa de vodka caríssima e sentei em frente ao espelho. Por que o espelho não poderia mostrar a mesma pessoa que eu fingia ser?

Desde nova eu agia desse modo. Tão adorável, apaixonante e cheia de vida. Sempre dançando até o fim da noite, fingindo que estava me divertindo (…) E sozinha, sempre com a alma podre, esperando alguma salvação que não iria chegar.

E quanto mais eu me sentia mal por dentro, melhor eu ficava por fora. A maquiagem era melhor, o vestido mais ainda, o sorriso maior, a conversa mais interessante. E todos eles queriam que eu prestasse atenção em suas respectivas pessoas, e a verdade é que por dentro eu me sentia tão perdida quanto qualquer andarilho…

Eu ia nas festas para tentar me preencher. Achei que saindo nas fotos, aparecendo nos vídeos, fazendo amizades, tendo um amor novo por noite, eu me sentiria completa. Todavia, não existia como me preencher com pessoas de fora, se o buraco era dentro.

Eu mentia para todos, e para mim também. Quando eu acreditaria em minha própria mentira? Quando eu acharia que sou completa? Quando eu conseguiria me completar finalmente?

No geral, eu não via problema nisso…Contanto que acreditassem em quem eu fingia ser, estava tudo bem, era quase igual a ser, de verdade.

Eu vivia uma mentira permanente que nunca se transformaria na verdade.”

Texto inspirando em Carmen, por Yeda Salomão

Clique aqui e confira a letra e tradução da canção.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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