TEXTOS | Black Beauty

por / quarta-feira, 31 julho 2013 / Publicado emColunas, Textos

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“Eu olhava no fundo dos seus olhos negros e turvos. O dia, lá fora, estava ensolarado, mas aqui, dentro desse cubículo que você chamava de quarto, estava frio (como tudo que envolvia você). Continuava a te olhar e nada.

A porta estava fechada e as persianas abaixadas.

Você não me deixava entrar; seu coração estava em pedaços, e eu disse que remendaria: a sua resposta foi aquele silêncio bucólico que era comum em nossas conversas. Tentei segurar sua mão, que rapidamente se afastou; já estava entrelaçada com a tristeza… E minha mão quente, só queria segurar a sua, queria tocar em você, só um pouco…

O quarto continuava silencioso e seu olhar continuava vazio; desviou seus olhos para as persianas. Você não tinha vontade de sair de dentro de si mesmo? De conhecer, digo, reconhecer, as coisas belas? De me deixar cumprir as promessas que eu fiz?

Sentei ao seu lado, na cama. Dava para escutar sua alma chorando…

As luzes estavam apagadas, e você me beijou naquela escuridão; sua boca encostou na minha, suavemente; apenas um corpo vazio junto ao meu. O seu coração não estava ali, junto com o meu. Eu senti calafrios ao sentir sua pele na minha, olhei para seu corpo e pensei que deveria ser muito escuro lá dentro…

Você era uma rosa. Tão…perfeito, e, no entanto, toda vez que eu tentava me aproximar, acabava me cortando nos espinhos. Não havia nada mais bonito, nem mais dolorido.

Se pelo menos a porta fosse aberta, a persiana fosse levantada…

Eu queria pintar a sua alma negra com aquarela, queria cicatrizar as suas feridas e fazer com que a tristeza se tornasse apenas uma lembrança ruim.

Por fim, levantei e me vesti.

Tão lindos, seus contornos fluidos, sua voz melancólica, suas olheiras profundas. A tristeza caía bem em você como um terno feito sob medida. E você a vestiu, a recebeu de corpo e alma (o que havia sobrado dela). Você era um quadro de natureza morta.

Não havia nada que eu poderia fazer. O seu refúgio era ficar preso aí dentro, nesse lugar obscuro e infeliz. Você se escondia dentro de si mesmo, onde a dor te embalava e te prendia, fazendo você acreditar que estava seguro aí no escuro, na solidão, ela fazia com que você acreditasse que se as feridas não fossem curadas, não haveria novos machucados.

Olhei você por inteiro e percebi o quão quebrado você era. Um quebra-cabeças velho, guardado no porão, com a maior parte das peças em algum lugar desconhecido, que ninguém conseguiria achar, nunca… E você aceitava isso.

E aí pensei em mim, e o quanto, por mais que soubesse que deveria sair desse quarto, nunca o faria, porque eu não passava de uma desiludida esperançosa… Eu te amava com toda a ingenuidade de quem está machucado mas ainda acredita que o amor é a única cura.”

Texto inspirado em Black Beauty, por Yeda Salomão

Clique aqui e confira a letra e tradução da canção.

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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    quero parabenizar pelo site …e o pelos textos .. já li todos .. são todos de um ótimo gosto e incrivelmente perfeito ..

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