‘A rendição completa é a base para todas as coisas boas surgirem’, confira a entrevista concedida à revista Electronic Beats

por / quarta-feira, 19 junho 2013 / Publicado emEntrevistas

Electronic Beats

 

Paraíso Perdido: Uma entrevista com Lana Del Rey

Nesta prévia especial da nossa revista impressa no verão de 2013, nós apresentamos a história de capa—uma extensa entrevista com o fenômeno divisor de águas do pop — completa.

 

“Video Games” de Lana Del Rey se tornou viral em 2011, trazendo o escrutínio internacional de sua vida de nascença como Lizzy Grant. Seja suas várias facetas, sua sensualidade, seu amplo contralto, ou o carisma indefinido, Del Rey se tornou o rosto que lançou um pensamento de mil pedaços; o relâmpago de crítica feminista e o inquérito de autenticidade. A foto da capa do Born to Die ecoou uma icônica pintura de Grant Wood, American Gothic, por si mesmo um termo apropriado para sua música. O álbum é familiar, de alguma forma o antiquado se aproxima da composição e a imagem em sépia evocou um senso de nostalgia. Mas combinados com suas letras explicitamente modernas e a produção em floreio – marca de uma inocente era passada emoldurada na conhecida escuridão – isso criou uma tensão única, especialmente aparente em seu EP Paradise. O single de lançamento, Ride, e o vídeo acompanhado, pareceram encapsular cada argumento que rodeava Del Rey, retratando-a como submissa, promíscua, uma prostituta, e armas glamourosas e uma rebelião sem sentido. Ela pode não ter essa pretensão, mas Del Rey entende o poder que sua imagem possui. E ela a usa, independentemente da opinião pública, para adicionar sua música – com certeza o elemento mais negligenciado na fala que rodeia sua pessoa.

 

Lana Del Rey: Eu não tenho falado com um jornalista americano há séculos.

Lisa Blanning: Sério? Eu não conto, entretanto, porque eu sou uma expatriada.
LDR: Eu também. Eu acho que os EUA são surpreendentes pelas suas paisagens e sua história. A Califórnia é linda, Nova York é linda, mas quando eu sou uma cigana de coração, provavelmente combina pra você pra viajar.

LB: Você acha que é uma cigana?
LDR: Eu não me sinto assim da mesma forma que costumava sentir. Na verdade, eu não me sinto mais dessa forma, mas quando eu era mais jovem eu costumava querer muito ter uma vida imprevisível onde eu pudesse me sentir livre e viajar pra qualquer lugar que eu quisesse, quando eu quisesse. Na verdade eu realmente gosto da Califórnia agora, apesar de eu nunca ter morado lá antes. Eu gosto da ideia de viver em um único lugar agora.

LB: Mas você cresceu em um único lugar?
LDR: Sim, eu cresci em Lake Placid, Nova York, até os quinze anos, e então eu fui mandada pra um internato por três anos em Connecticut. Depois eu me mudei pro Bronx quando eu tinha quase dezoito.

LB: Primeiro, vamos conversar sobre seu estilo, porque você definitivamente tem um. Houve uma figura icônica que influenciou você?
LDR: 
Tipo musicalmente?

LB: Não…
LDR: 
Mais no tipo look? Bem, mais pela vibe. O engraçado é que meu estilo é algo que ninguém nunca me perguntou até um par de anos atrás. Por anos ele foi impulsionado pela música. Eu realmente amei Nina Simone; Kurt Cobain foi minha influência impulsionada; eu ouço tudo o que Bob Dylan fez… Mas em termos de estilo de ícones atuais, ícones femininos? Não. Eu era impressionada com o que alguém como Karl Lagerfeld construiu e fez e a casa que ele fez, mas nunca houve realmente uma figura feminina que eu quisesse imitar.

LB: Karl Lagerfeld? Isso é muito interessante porque eu nunca iria associar a aparência que você possui com alguém como ele.
LDR: É, eu sei. Mas muito da razão da minha aparência é do jeito que é porque é bastante fácil colocar um vestido de verão toda noite se eu tenho que me apresentar – ou apenas usar jeans todo dia e camisa de flanela ou algo do tipo. Estilisticamente, eu amo maquiagem. Eu amo fazer minha própria maquiagem e tal, mas no estilo de me vestir, na verdade eu nunca nem me importei. Inicialmente o mundo da moda era mais interessado em mim do que o mundo da música, o que foi estranho quando eu comecei cantando.

LB: Sua música e sua imagem frequentemente parecem ser inseparáveis.
LDR: Sim. Elas são agora, mas não deveriam ser. Eu nem me importo, na verdade. Mas por causa do modo que eu me visto, parece que eu realmente me importo.

LB: Então isso significa que você separa a música disso…
LDR: É, porque eu não acredito… bem, eu não sei como explicar isso. Eu não acho que seja apropriado tentar e parecer extremamente bonita. Eu não acho que seja uma boa mensagem ou foco. Na verdade eu tenho escrito e cantado no Lower East Side desde que eu tinha dezessete anos, mas muito da história da pessoa não se traduz realmente.

LB: Então como é importante ter total controle sobre sua imagem, especialmente hoje?
LDR: É importante – realmente importante. É difícil, entretanto. Isso foi tirado totalmente de mim. Eu não tenho muito controle porque as coisas se tornam virais rapidamente. Eu fui do “não ter nenhuma fã base ou interesse” ao “ter um interesse muito enviesado e críticas”. Mas durante os oito anos disso em Nova York, eu cantei para as mesmas pessoas nos mesmos bares e tinha uma experiência muito confortável fazendo isso. Isso não é mais possível pra mim, porque os bloggers são muito influenciadores e as pessoas são realmente influenciadas pelas críticas e os críticos cinco estrelas. E essas pessoas são realmente influenciadas por imagens, e o que eles veem rapidamente. Também, muito do que foi escrito sobre mim não é verdade: a história da minha família ou minhas escolhas e meus interesses. Na verdade, eu nunca li nada a meu respeito que fosse verdade. Tem sido completamente louco.

LB: Quando você se deu conta que isso havia saído do controle?
LDR: O primeiro dia que alguém havia escrito sobre mim, assim que eu publiquei “Video Games”. Tudo o que eles escreveram era fodidamente louco. Tipo sobre o meu pai, sobre mim, tipo ter milhões de dólares, e toda essa merda. Eu fiquei tipo, “Sério? Eu pensei que estivesse apoiando todo mundo!” [rindo] Tudo era falso. Assim que a primeira pessoa escreveu sobre mim, os artigos se tornaram simplesmente ruidosos, tudo mentiras. Eu achei isso uma calúnia. Se eu tivesse me importado mais, eu teria os matado.

LB: Obviamente você saberá que, em preparação pra essa entrevista, eu li muita dessas coisas.
LDR: É, mas nenhuma delas é verdade.

LB: Porque, na verdade, parece haver uma desconexão entre sua imagem pública…
LDR: E quem eu sou?

LB: E a vida privada que você fala.
LDR: Há uma desconexão, sim. Eu passei os últimos dez anos em serviço comunitário e escrevendo músicas folk. Eu não dou a mínima sobre o que eu aparento. Dizer que eu vim de bilhões de dólares é loucura. Nós nunca tivemos qualquer dinheiro. Eu me sinto, como uma pessoa que cresceu lendo a respeito e sendo inspirada por outras figuras com integridade, meio como se tivesse me tornado a antítese disso que eu não planejei. É o rumo que está tomando agora, mas eu lido com isso conforme essas coisas surgem.

LB: Vamos voltar sobre o que você disse sobre fazer trabalho comunitário. Serviço social envolve trabalhar com pessoas que a sociedade esqueceu ou deixou pra trás, ou quem simplesmente não consegue um papel na sociedade normal. Isso normalmente envolve reintegração…
LDR: Eu não sou uma servidora pública treinada. Eu tenho estado sóbria por dez anos, então foi uma reabilitação de drogas e álcool. Foi mais o tipo tradicional chamado doze-passos. Há pessoas que não conseguem entender isso sozinhas, eu e os grupos de outras pessoas que tem estado em Nova York há um longo tempo trabalhando com pessoas que precisam de ajuda e estenderam as mãos. Era sobre construir comunidades ao redor da sobriedade e ficar limpo e coisas do tipo. Esse foi o meu foco desde que eu me mudei pro Bronx quando eu tinha dezoito anos. Eu gostava de música, mas eu a considerava um luxo. Ela não era meu foco primordial: as outras coisas eram realmente minha vida. Mas ninguém nunca… não é interessante.

LB: Não, é muito interessante. Então seu serviço social era baseado nas suas próprias experiências?
LDR: É, porque eu fui uma viciada que se tornou limpa.

LB: Quando adolescente?
LDR: Sim.

LB: Então obviamente isso deve ter sido colocado em sua música.
LDR: Sim, isso é minha influência principal, eu diria.

LB: Bem, eu assisti o vídeo de “Ride”, e eu fiquei verdadeiramente fascinada. Pra mim, ela parece tão ‘errada’ em tantos níveis, mas aquilo também ficou transgressora porque mero hedonismo ou ser rebelde não é mais transgressão.
LDR: É. Tipo, eu me lembro que foi o San Francisco Chronicle ou algo assim que escreveu essa grande coisa sobre eu ser uma antifeminista. Mas a coisa é, eu não tenho de fato qualquer comentário no papel da mulher na sociedade. Isso foi a mesma coisa com a minha primeira canção que se tornou grande, “Video Games”. As pessoas têm críticas sobre ela ser submissa ou tanto faz, mas nada que eu já tenha escrito tem essa mensagem. Era apenas minha própria experiência pessoal, e é a mesma coisa com “Ride”. Eu acredito no amor livre e isso é como eu me sinto. É apenas minha experiência de estar com diferentes tipos de homens e ter nascido sem uma preferência por certo tipo de pessoa. Pra mim, essa é a minha história em encontrar amor em várias pessoas diferentes, e isso tem sido a segunda grande influência em minha música.

LB: Eu fiquei surpresa sobre como eu fiquei afetada pelo vídeo de “Ride”, porque eu senti que ele estava realmente dizendo algo importante, de certa forma. Falar sobre a escuridão interna, mas não somente aceitar isso dentro de si mesmo, mas a frase no monólogo onde você fala sobre, na verdade, estar numa posição de explorar isso –  foi muito corajoso, na verdade.
LDR: Obrigada. Bem, uma coisa que você aprende quando fica sóbrio é que a rendição completa é a base para todas as coisas boas surgirem. E eu sinto como se essa ideia fosse traduzida pra todos os aspectos da minha vida. Quando você não tem nenhuma ideia do que vai acontecer com você ou como sua carreira vai terminar e você está apenas aberto pra qualquer coisa, então você não tem realmente nada a perder. Muitas de diferentes pessoas vêm e vão na sua vida. E é muito divertido dizer sim, e é muito divertido estar disposto a qualquer coisa e simplesmente deixar as canções virem até você e deixar as pessoas virem até você. E isso é livre, de certa forma.

LB: Vamos voltar ao que você estava dizendo sobre não necessariamente ter uma mensagem, porque os temas americanos e as imagens, como a bandeira americana, são características proeminentes em seus vídeos e sua música. Embora, na minha opinião, isso pode ser visto como um lado escuro dos EUA.
LDR: Eu estaria mentindo se eu dissesse que eu não amasse qualquer porra de filme ou livro que não tenha sido baseado em torno da obscuridade da sociedade. Eu sempre amei isso. Mas por outro lado, eu meio que sou simples na forma em que eu amo o movimento de uma bandeira americana ondulando-se ao vento, pelas lentes de um Super 8. O mesmo para as palmeiras e aquela cor sépia dos filmes dos anos 50. Como várias das minhas escolhas têm a ver com o grau do filme. Era simples assim, puramente estético. O mesmo pros meus interesses em fotógrafos e coisas como isso. Muito disso é apenas a aparência que tem. Eu apenas gosto disso.

LB: Você se considera patriota?
LDR: Não mais.

LB: Você ainda estava vivendo nos EUA quando Obama tomou posse. Isso mudou as coisas pra você?
LDR: A primeira eleição? Eu fiquei feliz pelo povo dos EUA porque ele era um símbolo que eles precisavam para se sentirem melhores.

LB: Você tem opiniões na reforma da assistência médica ou…
LDR: Eu tenho várias opiniões políticas.

LB: É? Vamos ouvir um pouco delas.
LDR: Eu tenho muito peso apenas falando sobre minhas próprias escolhas musicais. Eu não costumo falar muito sobre meus pontos de vista nos dias de hoje em política.

LB: Você se considera alguém política?
LDR: Sim, definitivamente.

LB: Brevemente, sobre a assistência médica.
LDR: Bem, é complicado porque tudo mudou pra mim. Antes eu não tinha dinheiro algum. E agora tudo o que eu faço, eu perco. Então eu não tenho dinheiro outra vez, porque eu perco metade. A reforma na assistência médica – isso precisava ser tratado. Eu ainda não tenho plano de saúde porque eu não tenho estado nos EUA desde a época em que eu não podia dispor de assistência médica porque custava setecentos dólares por mês.

LB: Okay, vamos falar sobre feminismo. Qual a sua posição no feminismo?
LDR: Pra ser honesta, eu não tenho uma. Eu tenho um grande apreço pela nossa história no mundo. Eu aprendo pelos meus próprios erros, eu aprendo dos erros que nós cometemos como uma raça humana. Mas eu acho que nós chegamos a um bom lugar como mulheres e nós simplesmente iremos continuar progredindo. Isso é meio como me sinto sobre isso.

LB: É verdade que você deixou os EUA porque você se sentia oprimida e odiada pela mídia americana?
LDR: [rindo] Bem, ninguém estava me chamando pra entrevistas, então não havia uma razão pra ficar. Musicalmente, eu não iria trabalhar lá porque eu não saberia onde cantar. Eu tinha um milhão de shows agendados aqui, então isso meio que foi o porquê de eu ter saído. E eu não tinha realmente qualquer show lá. Quero dizer, eu poderia tocar na Sunset Strip e tal. Eu poderia voltar pra Nova York…

LB: Eu tenho certeza que você poderia agendar alguns shows agora. Como se mudar para o exterior afeta a forma que você se sente sobre os EUA ou ser americana?
LDR: Eu acho que o meu amor pelos EUA agora se tornou contido para as coisas mais específicas que eu aprecio sobre eles. Como dirigir pela costa de Santa Monica até Santa Barbara – coisas simples como essa. Em termos do que eu pensei que talvez representava, eu não sei.

LB: Você já disse que muitas dessas imagens foram impulsionadas por escolhas estéticas, mas como explorar o lado obscuro dos EUA afeta o modo de você explorar o tema do americanismo?
LDR: Essa é uma boa pergunta. Na verdade, eu não me imagino voltando a esses temas na minha composição nos últimos treze meses.

LB: Então eu suponho que há algo que veremos o resultado em breve?
LDR: Sim, definitivamente. Eu acho que isso meio que me empurrou de volta a essas influências. Eu ainda amo o modo que eu me senti na primeira vez que descobri Allen Ginsberg e o quanto ele retratou com suas palavras. E ele foi influenciado pelo submundo americano, mas agora, melhor do que ser influenciado pela minha paixão pelo país, eu apenas me sinto bem quando ouço Jim Morrison. Eu me sinto bem quando eu volto e leio alguns poetas da geração Beat. Mas pelo contrário, eu não me sinto tipo, “Rah, rah, América!” Foda-se essa merda [rindo].

LB: Quais são alguns dos novos temas, na sua opinião?
LDR: Bem, eu me formei com diploma em metafísica e eu amava filosofia, eu meio que tenho voltado pras coisas que me deixaram animada sobre aprender, seis anos atrás quando eu estava no colégio. E eu tenho um namorado que eu realmente gosto, eu escrevo muito sobre ele. Então é isso.

LB: Eu li que você estudou filosofia. Houve uma certa escola de pensamento que você mais tenha se interessado?
LDR: Bem, eu misturei isso com meus estudos em teologia, porque era a melhor escola para fé jesuíta e todos os jesuítas aprenderam com aulas de filosofia. Apenas houve muita conversa sobre voltar pra pergunta básica: Por que nós existimos? Como a realidade surgiu? Por que nós fazemos o que fazemos? E como não se tornar o açougueiro, o padeiro, o fabricante de velas, os protetores da classe média – isso realmente me interessou. Eu não sei. É, eu amava estar ao redor de pessoas que se perguntavam por que estávamos aqui.

LB: Você ainda presta atenção com o que está acontecendo com a Igreja? Tipo, o novo papa?
LDR: Sim, eu estou ciente. Eu desejo o melhor a ele.

LB: E o que você acha sobre os escândalos de sexo na Igreja?
LDR: É difícil ver as más escolhas das outras pessoas arruinarem o misticismo que surge de dentro das paredes de uma igreja. É um infortúnio. Eu não entendo muito bem por que certos grupos de pessoas são designados a essa profissão. Eu estava conversando com a minha mãe sobre isso.

LB: Para o último EP, Paradise, você diria que houve uma mudança criativa na sua forma de compor?
LDR: Eu estava com um humor melhor, ficando em um único lugar na Califórnia. Isso era tipo uma reafirmação da ideia de viver no Chateau Marmont –  e depois eu me mudei. Foi apenas uma espécie de reclusão. Eu gosto que isso parece mais luxuriante e tropical, e eu gosto que isso soe mais como a Costa do Pacífico às vezes, como “Gods & Monsters”. Paradise é o meu álbum favorito, eu o amo.

LB: Ele tem alguma coisa a ver com trabalhar com Rick Rubin?
LDR: Não, eu só trabalhei com ele por seis dias, porque ele só trabalhou em “Ride”. Mas eu trabalhei com os mesmos caras com que trabalhei em Born to Die. Eu somente tenho trabalhado com esses caras. Emile Haynie, ele entrou no final, e depois há Rick Nowels e Justin Parker que compuseram a música através das canções. Eu compus as letras e a melodia e eles compuseram os acordes e a música. E então Dan Heath entrou para os arranjos das cordas, depois de Emile colocar as batidas e as combinações de sons, como pássaros e sinos.

LB: Emile Haynie trabalhou com Eminem e Lil Wayne, certo?
LDR: Sim.

LB: Você se descreveu no passado como “Lolita pedida no gueto.”
LDR: [rindo] Eu estava zoando com aquele jornalista.

LB: Eu achei isso divertido. Mas como a ideia de “gueto” se encaixa no que você faz?
LDR: Bem, eu morei no Bronx por quatro anos. Eu morei no Brooklyn por tipo quatro anos depois disso. Eu sempre me considero tendo um caso sério com as ruas, mesmo quando eu estava no colegial. Quero dizer, eu era muito louca. Todos que eu conhecia eram muito loucos.

LB: Por que isso?
LDR: É só o jeito que era.

LB: É por que você viveu em uma cidade pequena no norte de Nova York?
LDR: Sim, provavelmente. Era chato. Aquela cidade era loucura também. Eu era uma garota má, mas eu não sou boa agora. Eu acho que eu tenho algumas tendências ruins. Eu não gosto de fazer coisas prejudiciais, mas eu sou puxada pro lado selvagem. Eu amo andar de motocicletas; eu amo montanhas-russas; eu adoro adrenalina. Mas eu também encontrei a verdadeira felicidade quando eu morava em Nova York e trabalhava com outras pessoas daquela forma que nós conversamos. Então, eu não sei. Mas eu não me sinto em vantagem com isso.

LB: A coisa do “gueto” se relaciona com a coisa obscura, mas no seu caso isso meio que surge como um gueto de “pessoas brancas e pobres” em termos da imagem que você projeta, especialmente no vídeo de “Ride”—embora provavelmente não na sua vida real. Mas isso também está relacionado às escolhas que você faz e aos produtores que você trabalha, porque eles trabalham com rappers, que são artistas mais associáveis com a noção de “gueto”.
LDR: Eu me mudei pra um parque de traileres quando eu fiz meu primeiro álbum. Eu ganhei dez mil da gravadora Five Points e me mudei pro Manhattan Mobile Home em Nova Jersey. Havia um elemento de “branco pobre” de certa forma, houve um tempo que eu não queria fazer parte da sociedade mainstream porque eu achava isso muito grosseiro. Eu estava tentando ganhar meu próprio pedaço de torta de um jeito criativo que eu meio que sabia como. E eu achava legal viver por conta própria e trabalhar com um produtor famoso. Eu estava animada sobre o futuro naquela época.

LB: Você não queria fazer parte da sociedade mainstream, do que fazia sucesso nos EUA, pelo que entendi. E agora?
LDR: E agora, ainda, eu estou no meu próprio mundo. É tipo gostar nem daqui nem dali – musicalmente e socialmente, e tanto faz. Eu e Barrie [-James O’Neill, seu namorado que está na banda Kassidy], nós não temos muitos amigos na música, ou pessoas que conhecemos que estão meio que fazendo a mesma coisa. Nós fazemos nossas próprias coisas. É tudo sobre escrever. Tudo costumava ser sobre serviço social pra reabilitação de drogas e álcool, o qual eu não tenho trabalhado mais há dois anos agora. Mas tudo tem sido sobre a arte.

LB: Você não se sente parte de um grupo de pessoas na música que necessariamente estão conectadas com – uma cena, vamos dizer, ou um grupo de pessoas parecidas? O que você fala em público e em entrevistas – digo, ouvindo aos The Doors ou Dylan – parece tudo “normal”. Mas eu acho que o que você faz não é normal, na verdade.
LDR: Bem, eu também achava isso. Eu achava que os meus gostos eram bem normais, mas então eu conheci todo mundo e eu ficava tipo, “Essas pessoas não se importam realmente sobre música e arte. Eles só querem ser descolados”. Eu nunca conheci ninguém que se importasse sobre a música tão profundamente quanto eu e meu namorado, ou quem realmente se importasse sobre poesia – quem realmente vivesse e respirasse isso. Eu nunca conheci ninguém assim. Eu apenas não consigo me associar àquelas pessoas.

LB: Mas você não disse que, em determinado ponto, não estava interessada em lançar outro álbum?
LDR: Eu não estou interessada em lançar outro álbum.

LB: Mas você está trabalhando no seu projeto seguinte?
LDR: Bem, eu trabalho na música, mas eu não tenho um prazo de quando eu deveria lançar isso ou qualquer coisa. Eu poderia pôr pra tocar alguma coisa pra você. Quer ouvir? [ela começa a tocar novas faixas em seu laptop]

LB: Sim, claro. Você está trabalhando com o seu namorado na música?
LDR: Sim, mais ou menos isso. E ele é ótimo.

LB: Quase todas as canções do Born to Die estão em segunda pessoa, o mesmo vai para o Paradise. Até que ponto todas elas estão endereçadas a uma mesma pessoa?
LDR: Isso depende. É como um espírito geral, coletivo. A limpeza espiritual. Eu tenho certas pessoas. Varia mais de época. Como quando eu estava trabalhando com meu primeiro produtor David Kahne e eu estava naquela casa móvel por dois anos. Eu estava entre lá e Williamsburg e eu tinha um namorado na época. Era uma época muito feliz e eu relembro aquelas memórias pras minhas letras, então varia de pessoas. Mas eu nunca diria a eles ou conversaria com eles sobre isso. Mas eu tenho uma versão distinta do jeito que as coisas eram.

LB: Então você vai trabalhar com o mesmo time para o próximo álbum.
LDR: Sim.

LB: Eu achei que o som progrediu um bocado de Born to Die para Paradise.
LDR: Você achou?

LB: Sim, eu achei Paradise muito melhor.
LDR: É, eu achei que ele foi melhor também.

LB: Tem muita obscuridade e melancolia, eu diria.
LDR: Sim.

LB: E isso não mudou, do som que nós estávamos ouvindo de agora.
LDR: Não. As coisas ainda continuam não sendo fáceis, mesmo com as formas que elas deveriam ficar melhores. Elas ainda são bem difíceis, as quais eu acho que têm sido meu tema em vida: arrastando-se na estrada para a felicidade. Definitivamente um destino feliz está se encaminhando.

LB: Bem, a felicidade não é um estado estático. É um estado ativo. Essa é uma antiga definição grega. Não é um estado de repouso – é um processo.
LDR: Sim. 

LB: Pra mim, há momentos de pura felicidade, mas você não pode sustentar isso por um longo período de tempo. Você simplesmente tenta manter isso o máximo possível.
LDR: Definitivamente. E, quero dizer, isso soa bem estranho, mas no geral, eu tenho descoberto que a devotar sua vida às pessoas ao seu redor e cuidar delas é a verdadeira estrada da felicidade.

LB: Por que isso é estranho?
LDR: Bem, quero dizer, as pessoas não vão entender. Vai por mim. Mas só estou dizendo pela minha experiência.

LB: Bem, isso parece meio triste, é quase como se você não conseguisse fazer nada direito.
LDR: É, isso é triste. Vai por mim. Isso não é justo.

LB: E você acha que isso é uma coisa feminista? Ou você diria uma coisa não-mulher?
LDR: [risadas] Não, eu acho que é uma coisa não-eu.

 

Por Lisa Blanning
Tradução por Raphaella Paiva

Veja em nossa galeria fotos tiradas pelo fotógrafo Robert Carrithers (clicando na primeira ou na segunda foto) e os scans da revista (clicando na última).


Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
TOPO