‘Sentir que você é respeitada entre as pessoas que fazem o mesmo que você é incrível e necessário’, confira a entrevista concedida à revista FASHION

por / segunda-feira, 20 maio 2013 / Publicado emEntrevistas

Fashion 2013

Lana será a capa da edição de verão deste ano da FASHION Magazine canadense, porém scans da entrevista já foram divulgados e vocês podem conferir a tradução a seguir:

 

Lana Mania

Por dentro do mundo de Lana Del Rey, a rainha da música sadcore.

 

“Alguns dias vivo de acordo com o ditado, ‘É melhor pedir perdão do que implorar por permissão’,” diz Lana Del Rey, segurando seu cinto de segurança enquanto viajamos por uma estrada de pedras perto da praia Zuma, em Malibu. É meio dia em um dia de Janeiro na suntuosa Califórnia, e o ponto banhado pelo sol para o qual nos encaminhamos – que Del Rey escolheu a dedo para o ensaio de capa – parece uma ilha deserta. Enquanto ela observa dois surfistas pulando nas ondas, a cantora e compositora está muito distraída pela paisagem para ver um sinal em que se lê “Entre por risco próprio, idiotas” (o insulto está em tinta spray). Apesar das preocupações da equipe, Del Rey não pisca um de seus cílios prontos para Las Vegas ao alerta. Ao invés disso, ela arruma delicadamente seu penteado à lá Veronica Lake – recentemente soltos da tirania dos bobes, colocados às cinco da manhã – e assegura a todos que a experiência valerá todo o desconforto.

“São os preocupados do mundo que evitam que os navios afundem, e eu amo todos eles”, a moça de 27 anos diz, quando a van para em um banco de areia. “Mas de vez em quando você deve quebrar as regras e pensar em sair do mapa dos outros”, ela acrescenta. “Nada me faz sentir mais viva”.

Os sentimentos de Del Rey parecem as letras de seu álbum Born to Die, que chegou ao topo da Billboard, ou de seu EP Paradise. Lançados ano passado, ambos os discos são a principal razão de porque Del Rey – chamada pelos críticos de rainha do sadcore pop – foi uma das mulheres mais procuradas no Google em 2012, com mais de 722 milhões de buscas (deixando para trás Rihanna, Lady Gaga e Michelle Obama).

Sua voz sedutora e sombria não é o único motivo da mania de Del Rey. Centenas de comentários surgiram sobre a originalidade de seu estilo retrô americano, discutiram sobre a autenticidade de sua biografia e sobre seu sucesso. De acordo com a maioria das fontes, o resumo de sua biografia é a seguinte: Ela cresceu em Lake Placid, Nova York, e participou de um coral de igreja quando criança. Cansada e desanimada com a vida em cidade pequena, ela se tornou alcoólatra na adolescência. Sem saber o que fazer, seus pais a mandaram para um internato em Connecticut aos 14 anos, esperando que sua filha fosse melhorar. Ela não melhorou. Ela acabou indo parar em uma clínica de reabilitação no Brooklyn, finalmente limpa, conseguiu terminar o ensino médio, entrou na Universidade de Fordham e estudou metafísica até que largou o curso para se encontrar. Logo, começou a compor sob seu nome próprio, Elizabeth “Lizzy” Grant (o nome artístico de Del Rey foi inspirado por Lana Turner e sua afinidade por cidades à beira do mar). Depois que ela se mudou para um trailer em Nova Jersey, duas gravadoras independentes ajudaram-na a lançar músicas, incluindo um número melancólico chamado “Video Games”, para o qual Del Rey fez um vídeo que juntava filmagens de arquivo de desenhos clássicos e filmes com ela cantando. Logo ganhou mais de 20 milhões de visualizações no YouTube e a gravadora de Madonna e Lady Gaga, a Interscope, bateu na porta de seu trailer com ofertas, contratos e promessas.

Enquanto sua trajetória é inquestionavelmente interessante, são as letras de Del Rey sobre o que ela chama de “meus anos de loucura” que a confere um charme. Na faixa-título de Born to Die, ela usa sua extensão de três oitavas para pedir aos ouvintes para “dar uma volta no lado selvagem”, e no primeiro single de Paradise, “Ride”, ela canta versos sobre “morrer jovem e brincar muito”. Por mais ultrajante que soe, as faixas de Del Rey não são um guia sobre como ser um viciado por adrenalina. Ao invés disso, elas falam sobre o que ela considera ser um dos maiores perigos da vida: o amor.

Esse é o caso de sua última música, feita para a trilha sonora cheia de estrelas de O Grande Gatsby: Beyoncé e Florence + the Machine também aparecem no disco – ambas dando seu melhor para incorporar o clima maluco sob efeito de drogas da era do Jazz do filme de Baz Lurhmann. No entanto, é a faixa de Del Rey que se destaca como uma carta aural e selvagem. O refrão sedutor contém dois pedidos repetidos, direcionados a amantes e, talvez, ouvintes: “Você ainda vai me amar quando eu não for mais jovem e bonita?/Você ainda vai me amar quando eu não tiver nada além de minha alma doente?”. A balada obscura e sinfônica já tem um número de pessoas apostando que Del Rey será indicada à categoria de Melhor Canção Original no prêmio da Academia do ano que vem.

Quando o prospecto de cantar no Oscar de 2014 é apresentado a Lana, ela posa pela última vez naquele dia, e responde com o que só pode ser descrito como gratidão ferida. “Sentir que você é respeitada entre as pessoas que fazem o mesmo que você é incrível e necessário”, ela diz, “Não creio na escola de dificuldades, embora eu as tenha. Toda aquela conversa de ‘o que não te mata, te fortalece’ é mentira. Sabe o que te fortalece? Quando as pessoas tratam a você e sua arte com dignidade”.

Quando questionada se ela atualmente se sente amparada – considerando que seu armário de troféus inclui um cobiçado Ivor Novello de composição e um Brit Award de 2013 por melhor artista internacional feminina – ela responde animadamente. “Se você nasce um artista, não tem escolha a não ser lutar para permanecer um artista, sinto que meu trabalho é importante, mas não é sempre que me sinto respeitada”, ela diz, provavelmente se referindo aos comentários que recebeu em sua performance no Saturday Night Live ano passado, que foi largamente criticada. A apresentação agora infame, em que críticos e anônimos do Twitter se uniram para julgá-la por estar trêmula e nervosa, e por não ser tão emocionante como os cantores que se apresentaram anteriormente no programa, que estavam dublando (Ashlee Simpson), fora do tom (Coldplay) e usando auto-tune (Kanye West), mas durante esse período, Del Rey adiou sua turnê mundial.

“Quando sinto que as pessoas não gostam de minha música e que os dez anos que me dediquei a ela não foram por um bom motivo, tenho vontade de encher a cara de novo”, ela diz, apontando orgulhosa que suas musas a mantiveram sóbria por dez anos.

Imagens dos salvadores de Del Rey estão estrategicamente colocadas na casa de barco estilo anos 60 que ela considera seu QG em Los Angeles. Um retrato de Elvis em um macacão dourado fica em cima de sua cama, uma fotografia de Marilyn Monroe graceja seu banheiro e vários crucifixos estão esporadicamente espalhados pelo espaço. Fãs de Del Rey sabem que essa coleção de artefatos conectam-se a uma das músicas mais pessoais da cantora, “Body Electric”, em que ela canta: “Elvis é meu papai/ Marilyn é minha mãe/ Jesus é meu melhor amigo”.

Outro grupo de admiradores de Del Rey surgiu de um lugar improvável: a indústria da moda. Surpresos pelo comprometimento ao glamour das décadas de 30 e 60 em seus vídeos como “Summertime Sadness” e “National Anthem” (esse coloca Del Rey como Jackie Kennedy em uma versão moderna do Camelot de JFK), um número de marcas ficou ao seu lado. Os fãs estilosos de Del Rey incluem a Mulberry – que desenhou uma bolsa com o nome de Del Rey – assim como os designers Christopher Kane (que abriu seu desfile de Primavera em 2012 com “Video Games”) e Donatella Versace. Reparando uma fascinação da moda, a agência de modelos Next Model assinou Del Rey à sua equipe antes que a H&M pudesse chama-la para ser o rosto de sua campanha no Outono de 2012.

“As pessoas da moda me salvaram”, diz Del Rey. “Por eles serem tão afastados dessa arena de guerra da música, sentiram que era tudo bem me apoiar quando eu mais precisava. Eles nunca leram nada sobre o que eu era. Acredito que tenha aprendido algo com eles também: sei agora que é muito importante se sentir bonita. Existe um poder nisso”.

O senso de estilo de Del Rey é extraído tanto de pinups da era de ouro de Hollywood quanto de personagens do portfolio de David Lynch, incluindo heroínas como Audrey Horne (Twin Peaks), Lula Fortune (Wild at Heart) e Dorothy Vallens (Blue Velvet). Ela está atualmente trabalhando na tradução deste visual noir para o vídeo de sua nova música, “Black Beauty” (rumores indicam que será lançada em Agosto), assim como datas para uma turnê. Ela descreve seu palco como inspirado por Lynch, juntando “rock n roll, glamour e gárgulas”. Seu show de abertura será Kassidy, uma banda de folk alternativo cujo vocalista é Barrie-James O’Neill, um músico que Del Rey namora há mais de um ano.

Um grande número de músicas do show serão tiradas de Paradise, que foi parcialmente composto em Los Angeles. “L.A. é realmente a terra de deuses e monstros”, ela diz, referindo-se ao título de uma música no EP. “Conheci tantas pessoas ridículas e fascinantes quando morava no Chateau Marmont”, conta. Uma pessoa que Del Rey conheceu durante sua estadia no Chateau foi a atriz Lindsay Lohan, que foi banida do hotel. “Ela é muito interessante, e uma fã minha e que sabe que eu também a adoro”, diz Del Rey em tom de proteção. “Qualquer pessoa que movimente tanto a internet e ganhe muitas opiniões sobre si consegue simpatizar com ela. Estamos no mesmo barco”.

Como Lohan, Del Rey já sofreu com perseguições e dissertações pela cultura do tabloide. Para manter os vampiros do TMZ longe, Del Rey fica com seus heróis literários por perto, como se eles fossem dentes de alho. Uma tatuagem em seu braço direito lê “Nabokov Whitman”, em homenagem a Vladimir Nabokov, o escritor russo que criou Lolita, e o poeta americano Walt Whitman, que compôs a ode favorita de Del Rey, “Eu Canto o Corpo Elétrico”, em Folhas de Relva.

“Estou na era digital, mas o mundo precisa de poesia agora mais do que nunca”, ela diz. “É a única coisa que pode manter a música de se copiar. Olha o que ela fez comigo. Ainda me lembro da primeira vez em que li ‘Howl’ [poema de Allen Ginsberg], e percebi que poetas podem criar imagens através de palavras. Soube então que eu queria fazer o mesmo. Queria eletrizar alguém através das palavras. Isso, para mim, é realmente selvagem”.

Por Elio Iannacci
Tradução por Lucas Almeida

Em nossa galeria você encontrará scans da revista e todas as fotos do ensaio feito por William e Hirakawa para a edição:



Redação LDRA
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