‘Eu não sou tão triste como minhas canções soam’, confira a tradução da entrevista concedida ao jornal alemão Die Zeit.

por / quinta-feira, 03 janeiro 2013 / Publicado emEntrevistas

Die Zeit


Eu não faço o papel de “Lolita”

A rainha do retro pop Lana Del Rey fala sobre roupas de brechó, homens mais velhos e seu amor pela bandeira americana.

 

Jürgen Ziemer: Em seus vídeos, você parece ser uma trágica heroína de um drama hollywoodiano dos anos 60. Suas músicas com acordes sensuais são fantasias de uma outra época. Lana Del Rey vive no passado?
LDR: 
Eu gosto das coisas do passado porque elas me lembram de muitas coisas. Mas eu não tenho muita inspiração de lá igual você pensa. O antigo cinema de Hollywood é a influência de muitos, uma maquiagem tradicional, que é o que eu uso. Mas eu gosto da maneira que esses filmes são feitos: Tão épicos e lindos. Eu gostaria que a vida fosse dessa forma.

JZ: Como você se sente sabendo que seu álbum de estreia vendeu 400.000 cópias somente na Alemanha?
LDR: 
Quando eu estava indo de Paris para Berlim, eu respirei fundo e pensei: Isso tudo é maravilhoso, eles gostam de mim e das minhas músicas. Eu achei que elas não iam interessar a ninguém. E de repente essas canções são raras, para investir dinheiro, para a curiosidade, para tocar nas rádios.

JZ: E agora a marca de luxo de carros Jaguar tem um anúncio com uma de suas canções.
LDR: 
Sim, “Burning Desire” é uma canção máscula. É sobre dirigir rápido.

JZ: Nos anos 60, James Bond dirigia um Jaguar. Você cantaria uma canção-tema para um filme do mesmo?
LDR: 
Anteriormente isso seria divertido, e a maioria das minhas músicas se encaixam para isso. Mas agora esses filmes são muito famosos. Para se tornar uma canção tema, você deve ser muito proeminente, e não controversa.

JZ: Você gosta de ser controversa?
LDR: 
Não. Eu não gosto de disputar. Eu estaria feliz quando eu pudesse ser uma cantora normal. Mas apenas nos Estados Unidos que os críticos estão escrevendo sobre mim, desde o lançamento do “Born To Die”, coisas ruins, como se eles estivessem esperando por isso.

JZ: Mas você também recebeu críticas positivas – como a do The New York Times.
LDR:
 Sim, mas teve aquele autor chamado Jon Caramanica que criticou o álbum inteiro de uma maneira muito forte. As coisas que ele escreveu sobre a minha família foram rudes e mentirosas.

JZ: Então você acha que tem uma conspiração contra a cantora pop Lana Del Rey?
LDR: 
Você também pode perceber isso. Uma parte dos jornalistas contataram minha equipe de publicidade e usaram a seguinte desculpa: Eles estavam entediados e estavam procurando por um tema mais excitante. Isso não é sobre errar um tom na apresentação no Saturday Night Live, era sobre outra coisa.

JZ: Talvez seja a arte liberal que está se expandindo nos EUA? “My pussy tastes like pepsi cola” é dito em sua canção Cola, presente no EP Paradise.
LDR: 
Sim, e…? Eu achei engraçado. Um amigo meu, escocês, achava as garotas americanas excitantes. Um dia ele me disse: “Vocês, garotas americanas ficam andando por ai, então sua vagina deve ter o gosto de Coca-Cola, igual vocês se enrolam em bandeiras nacionais para dormirem”. Ele acha que todos nos somos muito patriotas.

JZ: A bandeira americana sempre aparece em seus vídeos e em algumas de suas fotos, você aparece abraçada com ela.
LDR: 
Sim, porque é simplesmente ótimo. Mas eu gosto do que tem por trás disso: A ideia do sonho americano.

JZ: Vendo o vídeo de “Ride”, parece que seu sonho americano é o mesmo das ‘Outsider Histories”, que aparecia nos cinemas independentes dos anos 70. Ela começa com um extenso monólogo, cujo início é: “Eu estava no inverno da minha vida, e os homens que eu encontrei durante o caminho eram o meu único verão”.
LDR: 
Isso é autobiográfico! Houve uma época em que eu me perguntava: O que fazer quando todos os seus sonhos não se tornam realidade? Nesse momento eu procurava proteção e segurança nos homens. Mas “Ride” não é uma história de uma vítima. E nem deveria ser comentado que aborda temas como prostituição, como a mídia americana suspeita. É sobre a minha vida, o que acontece quando alguém quer ser um grande cantor e sua pátria diz que não, você não é.

JZ: Os homens no vídeo pareciam membros do Hells Angels…
LDR: 
Eu sempre me senti uma fora da lei desde os meus 15 anos. Desde então, eu encontrei homens mais velhos. Eu havia descoberto a escrita muito cedo. Mas eles aparecerem de outra maneira. Depois de parar de beber aos 18 anos – Eu tive problemas com o álcool – eu procurei ter contato com pessoas, para conseguir estabelecer minha vida.

JZ: 2013 mudou muita coisa em sua vida?
LDR: 
Ao meu redor as coisas mudaram. Há agora novas pessoas ouvindo minha música e gostando dela.

JZ: Você cita livre pensadores americanos e Allen Ginsberg como importantes influências. As poesias da geração Beat servem para os dias atuais?
LDR: 
Para mim sim. Depois de ler Ginsberg, o meu mundo mudou. O modo como ele desenha as coisas com suas palavras, me impressionaram e muito. Eu sonho que as pessoas falem as mesmas coisas sobre os meus textos: Meu Deus, que lindo texto você escreveu.

JZ: E como você se sente sobre o feminismo? No vídeo de “Ride” algumas pessoas criticaram a forma como você parecia uma “Lolita”.
LDR: 
Eu não faço um papel de “Lolita”! Eu apenas gosto do texto! Muitas estrelas  fazem esse papel, vestindo pouquíssimas roupas. Não é diferente para mim, quando eu sei como explicar… Não é sobre ser uma Lolita, é mais sobre atitude, como alguém escolhe a Poligamia ou o amor livre ou qualquer outra coisa do gênero. É a minha decisão! Para mim, não é sobre o movimento feminista, e minhas canções não criticam nada do cenário pop atual.

JZ: Então é uma mistura de um diário e confissão pessoal?
LDR: 
Eu quero simplificar e explicar o mundo a partir do meu ponto de vista. Na verdade, é sempre sobre o mesmo tema. Pegando a letra de “Born To Die”: No verso autobiográfico é sobre não estragar as coisas e ser uma boa pessoa. Eu estava com um homem que não fazia isso. Juntos, decidimos viver uma vida perigosa. Mas então, depois de um tempo, ele fugiu, e tudo que eu podia fazer era rezar. No início do refrão aparece essa fantasia apaixonante: “Venha e caminhe pelo lado selvagem. Deixe-me beijá-lo intensamente na chuva.” Já no final, é uma forma de escapar do romance.

JZ: Como suas músicas são tão autobiográficas, há uma diferença entre você, Lizzy Grant e a figura de Lana Del Rey?
LDR: 
Não, é apenas outro nome. É o mesmo sentimento para mim.

JZ: Sempre se espera uma figura ao ouvir suas músicas…
LDR: 
Assim eu espero.

JZ: Uma figura de um filme Noir, talvez?
LDR: 
Tenho valores antiquados. Eu gosto de coisas que foram feitas para serem bonitas. E cantar para mim é tão natural como falar. E é por isso que eu não subo ao palco me transformando em outra pessoa. Eu sempre sou a mesma pessoa.

JZ: Mesmo quando você estava posando para a H&M?
LDR: 
Sim.

JZ: Você se interessa pela moda?
LDR: 
Não. Você está vendo o que eu estou vestindo (camisa xadrez, jeans apertado, mocassim vermelho) Eu também não compro só joias. Algumas vezes eu acho algumas coisas bonitas nos brechós.

JZ: Essa jaqueta é de um brechó?
LDR: 
Não, é da K-Mart, onde sempre encontro roupas bonitas e baratas. Quando eu estava, recentemente, em Nova Iorque, estava congelando, e do outro lado da rua onde eu estava hospedada, tina uma K-Mart, então eu fui lá e comprei essa jaqueta. Me desculpe se eu não pareço tão glamourosa.

JZ: Mas as roupas Hollywoodianas, os admiráveis cortes de cabelo, as maquiagens exuberantes – quem pensou sobre isso tudo?
LDR: 
Eu sempre acompanho os responsáveis: Anna sempre está sempre arrumando meu cabelo, Pamela se encarrega dos meus olhos e lábios, e então tem Johnny Blueeyes, como é conhecido no mundo da moda, que cuida do meu guarda-roupa. Então, quando eu quero vestir aquele vestido, eu visto, igual Marilyn Monroe fazia.

JZ: No clipe de “National Anthem” você não só faz o papel de Marilyn Monroe, há também a Jacqueline Kennedy – dois ícones ao mesmo tempo.
LDR: 
Eu gosto dessas mulheres, foi por isso que eu escrevi um roteiro de vídeo em que as duas estão presentes.

JZ: Porque as duas são modelos?
LDR: 
Claro, quem esperaria que Marilyn, mesmo depois de tanto tempo, ainda seria uma grande estrela? Há uma razão para que isso ainda aconteça. Ele era muito gentil!

JZ: Você também se considera gentil?
LDR: 
Sim, eu acho que sou. Eu não sou tão triste como minhas canções soam. Eu tento ser íntegra, fazer as coisas certas. Eu canto desde os 17 anos, e na maioria das vezes, ninguém estava interessado em mim. E eu sei porque agora é diferente. Eu sempre fui a mesma pessoa, mas ultimamente eles estão me vendo como uma outra pessoa, que mudou completamente. E é disso que eles gostam.

 

Por Jürgen Ziemer
Traduzido por Hallem Anderson

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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  • http://facebook.com/paginadoqueridojoao Erick Vinicius

    Lendo essa entrevista agora é até engraçado quando, questionada sobre fazer uma música tema para 007, ela diz que esses filmes são muito famosos e o artista tem que ser muito proeminente. E hoje o que ela tá aí, colecionando tema de filmes incríveis <3

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