‘Eu canto de um jeito sonhador, como em uma conversa com Deus, com algo que é superior a mim’, confira a entrevista feita pela Obsession Magazine

por / segunda-feira, 03 dezembro 2012 / Publicado emEntrevistas

Obsession

 

É fim de um dia de outubro ensolarado em Los Angeles, o sol está se pondo num piscar de olhos.
Em um carro que está correndo em direção a Hollywood Hills, 3 jovens garotas sentadas apertadas perto umas das outras atrás, estão falando sobre família e histórias de amor,  rindo sobre seu longo dia.

Uma delas tem passado suas últimas horas sendo fotografada pela Obsession em 6 ou 7 diferentes roupas. O resto do tempo, ela canta com o nome de Lana Del Rey.

Mas agora mesmo, como o carro se perde nas estradas de LA, ela não é diferente das outras garotas de sua idade: aos 26, encolhida em seu assento, ela evoca sua família e seu namorado, ela fala sobre Los Angeles onde ela está ficando e Nova York onde ela viveu por um tempo.

As outras 2 garotas são inglesas, elas a seguem por todos os lugares, trabalham pra ela – uma delas está a cargo de seu cabelo, a outra de sua maquiagem, ambas tem estado ao seu lado desde o início e a cantora não faz nenhum movimento sem elas. Lana é uma jovem mulher fiel.

E então, repentinamente, um sobressalto a domina com a menção de Paris, onde ela esteve recentemente: ela diz o quanto ela admira Edith Piaf cuja canção começa a tocar e ela imediatamente começa a cantar junto, em francês: “Non rien de rien. Non je ne regrette rien …” o carro, perdido entre a praia de Santa Monica e a altitude de West Hollywood se torna uma máquina do tempo que se estende por todo o ambiente.

Piaf está aqui, através de Lana, e seu louco dueto é tão incrível quanto efêmero.

Enquanto canta, Lana se metamorfoseia e releva uma diva com a simples força de sua voz. Exatamente como Piaf, ela é pequena e frágil, mas adquire no palco uma segunda natureza, que é de uma estrela.

Lana Del Rey é muita mais complexa do que os simplistas clichês que a seguem desde o fim do último ano. Seus vídeos, os comerciais da H&M com o selo dos anos 50, suéter angora e penteado de velha guarda, contribuíram para fazê-la ser um ícone vintage, uma meia criatura entre Mad Men e David Lynch.
Lana poderia ser a reencarnação da América nos anos 1950-60, a jovem garota pregando o memorial de uma varrida era dourada. Lana é uma feminina figura de retromania.

Mas Lana, de carne e osso, não se parece nada como uma garota do passado e mais como uma bela garota ao lado de 2012 – uma dessas jovens garotas americanas que poderiam ser a próxima garota da vizinhança ou uma estonteante garota com que você passa seus últimos dias de férias.
Quando eu a conheci, algumas horas antes dessa escapada, ela trouxe um par de curtos shorts jeans, uma camisa branca puída e sapatos vermelhos. Sua voz é macia e mais alta do que em suas músicas. O olhar em seus olhos frequentemente suavizam com um sorriso. Seu impressionante rosto distante, ele é uma figura que atrai você – delicada e gravada elegantemente, de seu corpo, nada excede.

Lana parece tímida e essa reservada natureza denota seu status como uma estrela internacional que não para de crescer com o sucesso do álbum Born To Die, o qual as vendas continuam a subir desde seu lançamento em janeiro.
350.000 cópias vendidas na França, 410.000 nos EUA, 400.000 na Alemanha e quase 1 milhão preditos para a época de Natal no Reino Unido.
Em um período de tempo dito rabugento para a música, Lana é uma exceção messiânica.

Nada sugeriu que essa garota, nascida Elizabeth Woolridge Grant em 1986, seria um ícone dos anos 2010.
Lana cresceu em Lake Placid, no estado de Nova York, que ganhou sua glória realizando os jogos olímpicos de inverno de 1932 e 1980. Uma pequena cidade como tantas outras nos EUA, com menos de 3000 habitantes.

“Quando eu era nova, eu costumava amar absolutamente aqueles momentos quando nós costumávamos pegar o carro e dirigir de NY a Flórida. Uma vez que cruzávamos as montanhas do Adirondacks, nós iríamos parar no posto de gasolina e, lá, nós costumávamos encontrar estranhos que eram muito atraentes e amigáveis sem razão alguma. O tipo de pessoa que não voltava para casa, e eles me ajudavam a perceber que um mundo mais receptivo estava me esperando em algum lugar do lado de fora da minha pequena cidade. Desde aquele tempo, eu amo dirigir, e aqueles estranhos que eu conheci são as maiores inspirações para escrever minhas músicas.
A “história” de Lana foi documentada muitas vezes no ano passado. Muito se tem dito sobre a qualidade de sua música, seus primeiros álbuns retirados de venda (mas facilmente encontrados na internet) e especialmente sobre sua persona: Lana é uma artista sincera ou uma criação de marketing destinada a desaparecer assim que o burburinho acabar?

Depois de muitos ataques, particularmente sobre seu físico e seus lábios julgados grandes demais para a frágil face, ela optou por uma tática: se manter quieta, deixar seu trabalho falar por si mesmo. E deixando suas músicas vagarosamente invadirem a internet e televisão. Porque Lana é uma artista de sua geração, que primeiro vê sua música em imagens, pelo YouTube. “Aos 18 anos, eu costumava sonhar em conhecer um diretor que me entenderia e que iria dirigir um vídeo pra mim. Eu procurei e conheci muitos, mas eles estavam muito ocupados trabalhando para alguém com mais sucesso. Todos foram levados pelos anos… Então eu comecei a trabalhar no meu computador. Eu coloquei todos os vídeos e clipes juntos que eu gostaria de ter dirigido, eu os roubei, transformei-os e adicionei imagens de mim mesma, filmada de um jeito que eu queria.

Eles eram seus vídeos, feitos em sua sala, onde começou tudo, mais especificamente Video Games, colocado online em 19 de agosto de 2011 e que tem hoje quase 50 milhões de visualizações no YouTube. “Eu não sei por que foi essa a canção que funcionou. Ela era a última de 17 vídeos que interessou ninguém por 4 anos…“. Cada um de seus primeiros vídeos evocou filmes antigos, impressos com cores melancólicas. “Nos meus vídeos, eu queria coisas coloridas, verde brilhante, azul e branco que me lembravam de imagens da velha Califórnia. Não foi o filme por si mesmo que me interessou, mas os tons das imagens. Eu queria que a minha vida fosse como aquilo, eu queria minha vida colorida” – ela diz, suspirando em uma sinceridade desarmante. “Eu aprendi, muito jovem, a acreditar nas histórias que eu contava, histórias dos tempos quando o rock n’ roll empolgava pela ideia de estar junto, quando a lua era inatingível e as viagens espaciais também… Sim, eu sou nostálgica de uma era que eu não conheci“.

Born To Die foi relançado com 8 novas canções, com o nome de The Paradise Edition. Nós encontramos um cover de Blue Velvet, uma canção dos anos 50 que deu nome – em 1986 – ao filme do David Lynch e uma canção chamada Cola, que tem sua primeira frase vinda entre o vulgar e sexy, a ironia da cultura pop “Minha boceta tem gosto de Pepsi Cola”. E não vamos esquecer de Ride, uma imensa balada hipnótica. O vídeo dura por 10 minutos onde nós podemos vê-la entre LA e Las Vegas, com motociclistas em situações perigosas, à noite ou no deserto sob o sol. Ela faz a ideia de estar na estrada, com os cabelos ao vento, ser erótica.

Na Sunset Boulevard, depois da meia-noite, não há carros. Se nós dirigimos do Chateau Marmont ao oceano Pacífico, nós não estaremos entre qualquer veículo e eu ainda gosto de dirigir muito rápido debaixo das luzes das ruas, e então vagarosamente, e ouço os pássaros da noite e os grilos. Em Ride, eu falo da liberdade que pode ser encontrada na estrada. Eu escrevo com imagens que me assombram e eu soube que eu queria escrever sobre dirigir rápido. Quando a vida se torna muito difícil, é necessário pra mim apenas dirigir, dirigir rápido: a energia vinda da estrada é purificante, meu corpo muda com a velocidade“.

Com alguns meses de existência do público, Lana Del Rey tem mudado vagarosamente. Um ano atrás, nós poderíamos conhecê-la loira na capa de seus CDs, mixando um look hip hop e uma vibe dos anos 50; ela tem estado vagarosamente à deriva disso. Por exemplo, em Ride, ela é uma morena, mais urbana e moderna. Os tempos de fazer vídeos em casa parecem ter acabado. Suas mudanças são lentas e precisas “Eu tento me adaptar, então eu posso sobreviver e continuar a fazer isso naturalmente, mas lentamente, muito lentamente. Isso nunca pareceu contra a minha natureza. Eu sou vagarosamente despida: as roupas estão mudando, os acessórios vão embora, o loiro também… Eu estou retornando ao meu básico“.
Adaptando-se para sobreviver: Lana Del Rey vem passando por muitos buracos negros. Um que ela vem falando agora com tanta emoção é o vício alcoólico que ela sofreu, mesmo que hoje ela esteja o deixando para trás.

Eu não tenho bebido em 10 anos. Mas quando eu era mais nova, eu queria tentar tudo rapidamente, e eu estava morando em Nova York com pessoas que queriam o mesmo estilo de vida. Nova York era o melhor lugar. Eu amava fazer parte disso, eu amava beber em Nova York, eu amava me apaixonar pelos meus primeiros namorados. Isso era o paraíso, eu era capaz de fazer qualquer coisa que eu quisesse, mas quando você vive assim, você tem que esperar perder suas companhias ao longo do caminho. E isso foi o que aconteceu. Em Nova York eu perdi todo mundo. A maioria das minhas canções são sobre os sentimentos que eu costumava ter enquanto bebia, o momento que eu me sentia livre através da bebida. Isso era a mais intensa estimulação física, e eu dependia disso…“.
Ela diz que suas canções são confissões, que dizem sobre sua vida, história que ela viveu, pedaços de autobiografia, imagens recolhidas de sua memória.

Na música, tudo já foi feito. A única coisa original é a história pessoal de cada um. Meu lance é: eu falo sobre mim com a maior verdade e detalhes possível. Eu conto as histórias exatamente como eu as vivi. Eu canto o que eu vivi. Não há outra receita.” É a verdade que alimenta suas músicas (“palavras são sagradas, eu nunca escrevo nada errado“), realidade desenhada de um período preciso de sua vida, exatamente como os livros de Patrick Modiano que vem de anos de experiência entre a adolescência e a fase adulta do autor. Naquela idade, Lana estava bebendo, vivendo em Nova York, cantando em bares e ela fala disso como se fosse um tempo feliz, que a nutre inteiramente agora que ela está em LA pulando de avião em avião (“Eu não tenho passado mais que 30 dias nos EUA nos últimos 3 anos“).

Recentemente, ela esteve em Paris para o lançamento do novo carro da Jaguar que ela será a garota propaganda, depois de aceitar o trabalho da H&M (“Eles insistiram muito…“) e antes de inaugurar uma nova loja Mulberry que teve uma bolsa criada em sua honra, em Cingapura.
Lana é como se segue: uma artista de sua era, sem hesitar em responder as solicitações de tipos assim, viciada em música, que dá sua aura especial – Você deveria ver os rostos de admiração dos convidados do show privado organizado pela Jaguar ou os adolescentes temorosos em frente a suas fotos da H&M e você entenderia que Lana é agora um ícone que instantaneamente hipnotiza aqueles que olham para ela, assim que eles começam a querê-la, querendo viver sua vida. Ela diz que o sucesso não a muda, e que os ataques somente a tem feito ser mais reservada e seletiva.

A mais apelativa coisa sobre Lana Del Rey são suas músicas, especialmente as lentas. Essas onde sua voz vagueia entre cânticos e murmúrios, entre canções amorosas (Nina Simone e Frank Sinatra estão frequentemente em sua mente) e o hippie rock californiano (Jim Morrison não está tão longe). Nessas canções a atmosfera é sonhadora, hesitando entre depressão e frenesi quando encontra o delicado balanço entre ambas. Ela é perfeita nisso, interpretando com melancolia mais do que nostalgia, misturando uma imensa tristeza com uma empolgante alegria. Quando ela canta essas músicas, o ouvinte sente o tipo de epifania, como nos filmes onde todos estão quietos então eles são capazes de ouvir e assistir. “Eu canto de um jeito sonhador, como em uma conversa com Deus, com algo que é superior a mim“.

“Non rien de rien. Non, je ne regretted rien…” O carro corre e Lana, sua voz misturada com a de Edith, parece aliviada por um verso ou dois.

Lana Del Rey é uma pessoa preocupada que, como Edith Piaf era devorada por seus nervos, trata a si mesma com música, encontra absolvição e alegria enquanto canta. O que a assombra é o que a dá aterrorizantes emoções, o que muda seu humor a cada vez que ela ouve a uma de suas diferentes músicas. E ouvi-la cantar é como ser parte de um mundo diferente. Um mundo melhor.

Por Par Joseph Ghosn
Traduzido por Raphaella Paiva

Veja também as fotos do ensaio exclusivo para a revista:


Redação LDRA
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