‘Tanto faz se todo mundo me odeia, se eu continuo ou não a fazer música: isso não é importante’, leia mais uma entrevista concedida à revista Les Inrocks

por / quarta-feira, 21 novembro 2012 / Publicado emEntrevistas

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Prestes a relançar o seu primeiro álbum, Born To Die, sob o título The Paradise Edition, Lana concedeu mais uma entrevista ao Les Inrockuptibles. Leia a primeira entrevista clicando aqui e confira a tradução da nova entrevista abaixo:

 

Lana Del Rey, relançamento e entrevista exclusiva.

Quase um ano depois de seu lançamento, Born to Die de Lana Del Rey está de volta às lojas, com oito músicas novas. É um novo álbum de verdade, rico e lânguido, melhor do que o original. Em entrevista exclusiva, ela retornou de doze meses de loucura.

 

Após 18 meses, tudo já foi dito, tudo foi escrito, tudo foi lido, e tudo foi pensado sobre Lana Del Rey. E o contrário também. Com histórias que rendem pano pra manga, podemos adicionar que ainda há muito humor em sua carreira. Em 2012, Lana Del Rey anunciou duas vezes que pararia de cantar, entretanto ela continua. E o seu primeiro álbum foi lançado duas vezes. Primeiramente no início do ano, sob o nome Born to Die. Mas ela poderia chamá-lo de “Você só morre duas vezes.” Ele ressurge nestes dias numa versão sub-titulada “The Paradise Edition”, enriquecido por oito novas faixas deslumbrantes, terrivelmente sensuais e líricas, envoltas em cordas de uma orquestra sinfônica, como o encontro trágico e delicado entre Roy Orbison e Alison Goldfrapp em um pálido motel antigo de Hollywood. Causando um rebuliço nossos preconceitos: francamente, nós estávamos um pouco decepcionado com a primeira versão de Born to Die, que parece hoje como o purgatório do “The Paradise Edition”.

Em uma de suas novas canções, Lana Del Rey canta “Elvis é o meu pai, Marilyn é a minha mãe.” Provocação final: ela sonha ser a “menina escondida” dos dois maiores mitos da era pop. E isso não é completamente idiota.

Lana Del Rey fantasia sobre seu pai. Ela se parece muito com Priscilla Beaulieu, a pequena noiva de Elvis. E então, podemos analisar a sua recente carreira como o reflexo invertido (a lanamorphose?) da de Elvis. Em meados dos anos 50, Elvis chocou a América branca e puritana com sua sensualidade cigana. Em 2011, depois em 2012, Lana Del Rey enerva (pelo menos os estetas, aqueles que consideram a música pop como uma disciplina artística pura) por suas máscaras de boneca trash, sua falta presumida e assumida de autenticidade. Elvis “esgotou” seu mito e parou de fazer boa música quando ele começou a fazer filmes em massa (vinte e sete, muitos desinteressantes, na década de 60). Com Lana Del Rey, o oposto aconteceu: ela nos fascinou quando a descobrimos através de seus vídeos na internet, mas passou por maus bocados após o lançamento do álbum. Um disco simples, redondo, com alguns tubos aquecidos, um pouco de enchimento, uma produção ultrapassada e a impressão geral de que a música não vale por sua aparência, que a “trilha sonora é menos interessante do que o filme”. Para resumir: quando temos um desejo de Lana Del Rey, vamos assistir seus vídeos ao invés de ouvir o seu álbum.

Contudo, ela tinha nos avisado disso desde primeiro vídeo, Video Games. A canção falava um pouco de vídeo games, mas trata-se principalmente de Lana Del Rey e seu “eu” virtual, de sua música baseada principalmente na estética, na imagem, o jogo com os clichês da América hollywoodiana decadente. Como em um filme de David Lynch, a reinvenção borrada de Lizzy Grant, uma cantora qualquer de jazz-pop, em Lana Del Rey, de Lizzy à Lana, ou ainda em Lana-Lizzy, que é vulnerável e resiste a todas as interpretações. De Lynch ao linchamento*, também.
*do original lynchage: trocadilho com o nome de David Lynch

Ela estava um pouco desconfiada, porque ela vendeu álbuns, Born to Die é um sucesso comercial real. Nos últimos meses, Lana Del Rey juntou-se ao mundo dos grandes empreendedores do marketing pop. Há algumas semanas, ela estava no Salão do Automável em Paris para a apresentação do novo Jaguar. ela também se tornou o rosto da H&M. E contra os nossos princípios éticos mais básicos, nós a adoramos no vídeo para a marca de prêt-à-porter**: uma paródia de um filme de Lynch, particularmente uma emocionante sequência de auto-ironia, quando ela é pega por um anão cantando Blue Velvet em playback. Em seu pequeno suéter rosa angorá, Lana Del Rey superestima a ignorância. Mas seu pequeno sorriso indica que ela não é ingênua, que ela não é o que você acredita.
** “pronto para vestir”, marca que faz roupas em larga escala

Stéphane Deschamps: Você tem uma visão clara dos últimos doze meses, ou é um grande borrão?
Lana Del Rey: Eu me lembro desse ritual: dormir cada noite ouvindo as mesmas músicas, assistir os mesmos filmes. Eu me lembro também de raras pausas, quando ia para casa para passar um tempo com a minha família. Entre esses momentos preciosos, eu não me lembro o que se passou, é um frenesi. Mas eu queria que fosse assim, envolver-me em tudo o que me diz respeito, de qualquer vídeo à capa da Vogue Austrália… Este é o tipo de projeto que me leva a recuar em minha imaginação, e este é o lugar onde eu sou mais feliz. Fico satisfeita quando eu vejo o projeto em meu cérebro, no meu pequeno mundo interior. O resto, eu apenas aprendi a conviver.

SD: É doloroso, o resto?
LDR:
Não, não de todo, é só que eu me sinto melhor aqui (ela bate cabeça)… Isto é assim desde que eu era pequena, eu sempre andei sozinha, sempre fui solitária, introvertida. A partir de 7 anos, comecei a transformar essas ideias em histórias, poemas. Mas a minha sorte é ter descoberto a filosofia na escola, aos 14 anos – uma opção de curso que tem sido a minha primeira paixão verdadeira, o que me levou a estudar metafísica. Eu amei estudar Inglês, mas logo a literatura já não era suficiente para responder a perguntas mais complexas. Mas eu nunca parei de ler autores como Nabokov ou Ginsberg, os primeiros que me deram a impressão de pintar imagens com as palavras. Eu amei a ideia de movimentos literários, que pudessem, como com Sartre e Camus, existir comunidades de espíritos. Parecia tão distante, tão europeu.

SD: Porque você se sentiu sozinha, isolada em sua fazenda*** no norte de Nova York?
LDR:
Eu sonhava em ser parte de uma comunidade espiritual, eu pesquisei por essas pessoas. Mas eu estava condenada ao ostracismo na escola. Esses amigos que eu queria, eu descobri com o passar do tempo, recentemente… Pessoas como o meu cinegrafista Anthony Mandler ou o compositor Daniel Heath, que não trabalha em nada que não seja trilhas-sonoras de filmes, mas aceitou compor comigo.
***do original campagne: região rural

SD: Você lê sempre as mesmas coisas?
LDR:
Não consigo me concentrar em um livro que eu ainda não li. Eu às vezes ouço áudio-books, mas de qualquer forma, seja na música ou na literatura, tive tendência a voltar constantemente, por dez anos, a um punhado de clássicos. The Master Key System de Charles Haanel é um livro que eu constantemente preciso ler para me reconectar com minha criatividade. Todos os livros que me ajudaram algum dia, tenho certeza de que vão me ajudar outras vezes: isso tem funcionado pra mim! O mesmo vale para filmes: eu sei que posso sempre contar com O Poderoso Chefão, Virgin Suicides, Scarface, American Beauty…

SD: Você conta com esses filmes para se animar?
LDR:
Estes não são os mais felizes, mas há grande beleza neles. E realmente, eles me ajudaram a seguir em frente (risos)… O mesmo vale para a música, eu ouço sempre Nevermind do Nirvana de novo e de novo, este é provavelmente um álbum único. O resto é uma lista de cinquenta músicas com as quais eu martirizo o meu ambiente, porque eu posso literalmente viver ouvindo as mesmas músicas constantemente (ela abre seu iTunes): Eagles, Beach Boys, Elvis Presley, Chris Isaak, Bruce Springsteen…

SD: A canção de Elvis é Edge of Reality – “à margem da realidade.” Este é o lugar onde você mora?
LDR:
Sim, justamente isso!

SD: Você já enfrentou, este ano, decisões estratégicas que você talvez não estivesse preparada?
LDR:
Estas decisões são insignificantes frente às escolhas reais que eu tive que fazer na minha vida… Isso não é nada comparado com o que eu tive que enfrentar antes. Isso não vale nada quando vemos as pessoas caírem e morrerem, somos impotentes. Pequenas preocupações relacionadas com o mundo da música, isso é risível: se eu disser que sim, é sim; se eu disser que não, é não. Onde está o problema? Tanto faz se todo mundo me odeia, se eu continuo ou não a fazer música: isso não é importante.

SD: De onde vem essa distância, essa “quase frieza”?
LDR:
Há muito tempo eu vivi plenamente, perigosamente… Então, eu teria preferido que isso não me afetasse de forma tão violenta, mas eu não vou lamentar: muitos dos meus amigos estão mortos, e isso me permite colocar uma má premonição em perspectiva. Apesar de eu achar que isso é injusto para uma bela música, que eu escuto o tempo todo, que eu amo – especialmente o som. Eu sempre fiz músicas para me agradar, porque por muito tempo, eu era a única a ouvi-las. Era como uma trilha sonora de minha vida.

SD: O seu álbum Born to Die ressurge com oito novos títulos que o reequilibram completamente. No entanto, foi dito que você vai abandonar a música.
LDR:
Eu voltei muito cedo aos estúdios, logo após o lançamento do Born to Die, sem problemas, sem pressão… Só porque eu não sabia o que fazer com tempo livre. Sempre que eu tinha um fim de semana livre em Los Angeles, eu ia para o estúdio em Santa Monica, sob grande influência do Pacífico. Então eu trabalhei muito lentamente, durante um período de sete ou oito meses. Canções como Bel Air, que eu adoro, vieram muito rapidamente, naturalmente… Eu comecei também a compor para o cinema, em casa, longe de tudo, isso abriu novas oportunidades pra mim, longe dos palcos. Durante dez anos da minha vida eu estava apagada, reclusa, e eu descobri isso escrevendo para o cinema.

SD: Concretamente, como você escreve para o cinema?
LDR:
Eu vou te mostrar, vai ser mais fácil. Eu venho com uma melodia de voz que eu gravo sozinha em casa, no meu computador, no GarageBand, depois eu faço meu arranjador Daniel Heath ouvi-la (ela nos faz ouvir alguns minutos do início de uma música: melodia à cappella de uma pureza incrível, onde a sua voz muda constantemente de registros e gamas, com liberdade surpreendente. Sua canção, embora não-finalizada, já traz consigo todas as ligações para as harmonias, cordas e arranjos)… Isto é o que eu dou a eles, já evocando que instrumentos a música precisa e o que devem agregar a ela. E eles me propõe isso (nós ouvimos então a mesma música, mas reforçada com cordas sinfônicas, com arranjos de piano opulentos. Exatamente o que a primeira versão sugeria, com se a primeira versão fosse um esqueleto. É bastante surpreendente ouvir isso: a impressão de que esses instrumentos já estavam lá, ocultos na versão original!). Minhas músicas são sempre cheias de informações, mesmo em um estágio inicial. E Daniel sabe traduzir exatamente as minhas ideias.

SD: Você sempre pensa nos instrumentos ao compor?
LDR:
Eles são fundamentais para mim, eu os ouço na minha cabeça enquanto eu componho a melodia. Cordas e voz: é o meu ponto de partida. Eu ouço um monte de trilhas sonoras de filmes, este é o meu DNA, as de Giorgio Moroder ou Thomas Newman… Milagrosamente, mesmo que eu não seja uma grande musicista, eu consigo que minha equipe traduza exatamente na música os arranjos que eu tenho em mente. Eu explico tudo nos mínimos detalhes, e eles compreendem aonde quero chegar, o humor, a cor que eu quero. Em Bel Air, eu queria ouvir risos de crianças em um parque, mas também a chuva: que simbolizou o fim do verão, a morte do amor, o choque de dois mundos. Eu amo o estúdio, é o lugar onde eu sou mais meticulosa, mais alegre. Gostaria muito de conhecer melhor a parte técnica, porque eu dependo de um engenheiro de som que mexe para mim nesses misteriosos botões. Ser autônoma a qualquer hora seria ótimo. Mas, por outro lado, o trabalho em equipe me deixa incompleta.

SD: A força dessas novas canções é a sua atmosfera muito forte: ao contrário daquelas do álbum, não impuseram nelas as batidas de hip hop, quase parasitas.
LDR:
Foi uma progressão natural, estou imersa em uma atmosfera dos anos sessenta, mais norte-americana, mais pacífica… Eu não queria mais enviar minhas músicas aos produtores para acrescentarem batidas, eu queria que elas permanecessem naturais. Por exemplo, eu não fiquei feliz com a produção de This Is What Makes Us Girls do álbum – mas esta é a única que eu mudaria se eu tivesse escolha. Para mim, há claramente dois álbuns nesta nova versão de Born to Die – as oito novas músicas formam um novo álbum, que me reflete hoje. Sou sempre eu, mas sem qualquer maquiagem.

SD: Em Nova York, sua vida parecia governada por rituais, percursos. É assim também em Los Angeles?
LDR:
Eu passo minha vida no meu carro. Como os habitantes de LA vão para a cama cedo, a cidade e rodovias só existem, para mim, à noite… Então eu pego a Sunset Boulevard em torno de 2:00 da manhã, vou até o oceano, eu ando e eu volto. E pela manhã eu me levanto cedo, leio o jornal bebendo café, então eu telefono todos os dias, exatamente no mesmo horário, para o meu irmão e minha irmã mais novos. Eu dependo inteiramente dos meus rituais, eles são fundamentais quando todo o resto está desmoronando. Eu também tenho um hábito quando vou para a casa de meu pai, na Flórida. Nós vamos pescar num barco, no Everglades. E depois há os passeios no Laurel Canyon atrás de Los Angeles, agitado pelos fantasmas dos anos sessenta. Eu realmente sinto as vibrações do meu velho conversível, as tragédias, as trevas…

SD: Você também tem rituais quando canta?
LDR:
Eu canto o tempo todo, na frente do meu computador ou com meu namorado (ela canta uma melodia à cappella que ela escreveu – calafrios)… Uma vez que há menos produção nas novas músicas, nós ouvimos muito melhor minha voz, sua textura. Eu posso ter menos risco, mas há uma música que diz: “Eu não tenho nada mais para foder, eu faço o que eu quero”. Muitas canções nascem de estilo livre, como Body Electric, Summertime Sadness ou Cola: por vezes, basta um acorde do teclado de Rick Nowels para que eu comece a compor. Minha música é tão influenciada pelo cinema que seria lógico eu acabar trabalhando com músicos de Hollywood. Eles são a minha base.

SD: Entre as novas músicas, você resgatou Yayo, uma das principais músicas do seu primeiro álbum em 2010 sob o nome de Lizzy Grant. Este álbum será relançado um dia?
LDR:
Como aconteceu com Yayo, eu adoraria retrabalhar algumas dessas músicas, como Kill Kill ou Mermaid Motel. Eles significam muito para mim, eles dizem algo sobre minha vida mais do que qualquer outra música, minhas viagens para Coney Island, onde eu ia recarregar minhas energias… Mas eu não gosto de suas produções, eu não poderia relançá-las como estão. Eu gravei isso há seis anos, há uma eternidade… Yayo foi um momento fundamental da minha vida. Uma passagem. Meu primeiro vídeo… Muito engraçado.

SD: Seus pais te apoiaram no início?
LDR:
Eles são ex-hippies, a música era muito presente em nossa casa. E além disso, meu pai é compositor – de coisas country. Minha mãe canta no coral da nossa igreja, onde eu também cantei – nervosamente, mas com prazer. Eles sempre me deram suporte, antes mesmo da música, quando eu tive problemas… Eu não bebo mais, mas eu bebia muito na minha juventude. Eles me ajudaram bastante, desde então estou, por dez anos, muito envolvida em ajudar as pessoas que querem parar de beber. Dia e noite eu estou lá, nos centros para o que estão em tratamento, como aconteceu comigo quando eu tinha 15 ou 16 anos. Eu estou viva. Eu aproveito cada segundo de calma, todo tempo de folga, cada segundo de meditação, cada segundo de companhia… Eu sou apenas grata por estar viva. Todas as manhãs, eu digo obrigada.

 

Por Stéphane Deschaps
Traduzido por Mateus Santana

 

Veja em nossa galeria as fotos de Nicolas Hidiroglou para a revista:


Redação LDRA
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