‘Eu não sofro. Prefiro dizer que aprendi a me acostumar com minha tristeza’, confira a entrevista concedida à revista Kultur

por / segunda-feira, 26 novembro 2012 / Publicado emEntrevistas

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Em entrevista à revista alemã Kultur, Lana Del Rey falou sobre o início de sua carreira, sua aceitação nos Estados Unidos e sobre o poder da internet sobre os artistas de hoje em dia. Confira a tradução a seguir:

 

Céu é uma palavra incrível

 

Lana Del Rey, superstar do pop, 26,  invejada, a paixão dos assistentes sociais, a noite feliz da canção natalina. “É só eu escrever ‘shut up’ em algum lugar que milhões de pessoas acham isso incrível. Isso me dá arrepios”.

 

Lana Del Rey: Antes de começar, eu gostaria de te perguntar algo. Você realmente gosta da minha música?

Sim, por que a pergunta?
Ah, obrigada, obrigada, isso é surpreendente. A maioria dos jornalistas odeia minhas músicas. Acredite, eu falo por experiência própria, eu já fui insultada várias vezes esse ano por conta do meu trabalho.

Seu álbum ‘Born to die’ foi um dos best-sellers do ano. Você tem alguma ideia do porquê de haver essa polarização  a seu respeito?
É um mistério para mim. Talvez seja porque você apareça com muita frequência no Pop. Funciona como um “telefone sem fio”. Alguns escritores espalham uma história pequena, estranha e zangada a seu respeito, a qual é levada à frente cheia de vícios e maldades até que finalmente a história já não tenha mais nada a ver com você.

Você tem sido criticada pesadamente como um fantoche dos produtores musicais. Por que você acha que isso acontece?
Eu era frequentemente perguntada sobre a suposta misoginia da indústria da música, mas não é o meu caso. Eu acredito que seja algo pessoal. As canções que eu escrevo são, na verdade, muito íntimas e por esses sentimentos parecerem muito sombrios para alguns, eles concluem que eu sou um fantoche. Mas isso tudo apenas ilustra a impotência deles.

A melancolia das suas músicas é uma pose artística ou um caso para terapeutas?
Nem um, nem outro. Sempre houve em mim uma melancolia que chamamos de saudade. Eu tinha quatro ou cinco anos quando costumava sentar na entrada de casa dos meus pais e ficava lá, naquele lugar. Pergunte à minha mãe, caso não acredite. Esse sentimento esteve comigo a vida inteira. Mas eu não sofro. Eu prefiro dizer que eu aprendi a me acostumar com minha tristeza. Mas houve tempos em que não conseguia. Felizmente, eu já superei esses dias sombrios. São as memórias desses dias que hoje inspiram as minhas canções.

Em uma entrevista, você uma vez se referiu à morte como um “paraíso sombrio”. Você estava falando sério?
Sim, morte e paraíso, para mim, estão conectados. Eu espero por algo que seja muito calmo e relaxante depois da minha morte. E isso já pode ser considerado um paraíso. É tão cheio de significados. Eu simplesmente gosto da palavra “paraíso”. Eu até a tatuei em minha mão. “Céu” é uma palavra tão incrível. “Exótico” também.

Mas você acha que se deve tatuar uma palavra nas mãos apenas porque ela soa agradável?
Claro! Eu amo o significado das palavras. Eu tenho tatuado no meu braço o nome dos meus autores favoritos: Whitman e Nabokov. Sempre que eu olho pra elas, eu me lembro  que a vida pode ser incrível.

Qual a diferença entre Elizabeth Woolridge Grant, que é seu verdadeiro nome, e Lana Del Rey, que é o seu  nome artístico?
Nenhuma. Nós somos uma. Eu só achei que esse nome (Lana Del Rey) se encaixaria melhor com minha música. Ele é exótico e misterioso. Mas quando eu estou com meus amigos, eu não ajo diferente de quando estou numa suíte de um hotel, onde eu agora falo com você, como Lana Del Rey. Eu não estou brincando de teatro, o nome ‘Lana Del Rey’ simplesmente combina mais comigo enquanto artista. Algumas pessoas dizem que é um ato inteligente de marketing feito por pessoas inteligentes de uma gravadora, o que não passa de bobagens.

Você se sente subestimada?
Por que eu deveria? Só porque alguns jornalistas americanos não conseguem me entender? Meu álbum é um best-seller que vendeu milhões. Eu venci várias premiações. Apenas no meu país, os Estados Unidos, a inspiração de todas as minhas canções, infelizmente, eu não sou compreendida, sabe. Foi por isso que eu saí de lá e me mudei para Londres, onde eu moro agora.

O que você teria feito se não tivesse tido sucesso como Lana Del Rey? Havia um plano-B?
Música era meu plano-B. Eu fiz trabalhos sociais em Nova Iorque por muitos anos. Eu trabalhei em um centro para desabrigados e em um centro de reabilitação para alcoólatras e viciados em drogas desde que eu tinha 18 anos. Música era um luxo. Eu sou muito envolvida com isso, com pessoas que precisam de ter sua segurança social e a os números de suas identidades resgatados. Essa é minha verdadeira paixão.

É difícil de acreditar.
Apenas pergunte meus pais e minha família, eles vão te confirmar tudo. Quando eu vim pra Nova Iorque, eu imediatamente comecei a conhecer várias pessoas que eram socialmente engajadas. Eu vim pra Nova Iorque pra aprender sobre músicos e escritores legais.  Eu não encontrei os poetas dos meus sonhos que, nas noites sem fôlego, escreviam um romance batendo os martelos de uma máquina de escrever. As pessoas apaixonantes que eu conheci em Nova Iorque foram os assistentes sociais. E foi lá, com eles, que eu fiquei, eu trabalhava de dia e fazia música à noite, com meu violão.

Como você fez para gravar um álbum?
Aconteceu quando eu entrei numa competição para compositores amadores. Eu não ganhei, mas um dos jurados tinha uma pequena gravadora e me ofereceu um contrato. Daí eu mesma me levei aos palcos sob o nome de Lizzy Grant e gravei um álbum que me tomou as noites de sete meses, o qual depois foi colocado por dois anos no estoque com a esperança de que alguma empresa se interessasse. Mas nada aconteceu. As canções eram muito sombrias, não eram feitas pra uma ampla audiência. Além disso, os empresários eram irritantes: pessoas que, a princípio, dizem que você é brilhante e que, uma semana depois, te dirão que falta algo em você. Eu aceitei não produzir música. Passei a produzi-las só pra mim. Eu produzia vídeos e os colocava na internet, como fiz com “Video Games”, por meio do qual eu pude gravar um álbum depois.

É verdade que você cresceu sem TV?
Havia uma TV na sala da casa dos meus pais,  mas ela não possuía sinal a cabo, servia apenas para filmes. No quarto dos meus pais, havia TV a cabo, onde eu podia assistir desenhos, mas eu raramente o fazia. Meus pais achavam que eu assistia TV demais, ela me impressionava. Provavelmente eles estavam certos. Sempre que eu via algo interessante na TV, eu falava sobre aquilo por dias, como um papagaio, o que preocupava meus pais. Eu não podia assistir TV normalmente até fazer 14 anos. Foi quando eu criei o hábito de sentar e ver MTV 7 dias por semana, 24 horas por dia e engolir tudo o que passava.

O clipe da sua canção “Video Games” já tem mais 50 milhões de visualizações no YouTube. Onde você estaria sem a internet?
Eu não tenho ideia. Eu já pensei sobre isso. Internet é algo abstrato que até agora eu provavelmente ainda não entendi.  Quem são as pessoas que assistiram a todos os meus clipes? Eu não conheço nem eles, nem seus rostos, o que faz meu sucesso parecer surreal.

Você lê comentários do YouTube?
Às vezes. Você tem de ser cuidadoso. Caso contrário, você pode ficar irritado. Às vezes eu reajo a algumas coisas. Eu escrevo um comentário, geralmente sob o meu verdadeiro nome. É só eu escrever ‘shut up’ em algum lugar que milhões de pessoas acham isso incrível. Isso me dá arrepios.

A internet é particularmente rude a seu respeito. Você já se acostumou com isso?
Não, mas eu nunca me blindei contra isso. Eu não levo para o lado pessoal. Às vezes, porém, leva algum tempo para tomar consciência dos fatos.

Você ainda sente a tentação de digitar seu próprio nome no Google?
Antes de me tornar conhecida, eu costumava fazer isso, mas raramente o faço hoje.  Há um ano atrás, ninguém escrevia nada sobre mim. Agora isso me assusta. A internet está cheia de pessoas agressivas. Eu nem mesmo sei como meu novo álbum “Paradise” está sendo processado na internet, mas em poucas semanas, a curiosidade vai assumir o controle.

Você usa redes sociais?
Do Twitter e do Facebook eu me aposentei por questões de privacidade. Eu uso as redes sociais apenas como uma ferramenta promocional. Quando sai uma nova gravação, eu  posto algumas imagens. Apenas isso. Eu estou mais interessada em outros aspectos da internet, por exemplo, eu planejo montar uma pequena fundação. Para isso a internet é fantástica. Nós queremos promover pensadores com até $200,000 – Pessoas que se importam com a sustentabilidade desse planeta merecem melhorar a usabilidade das redes sociais.

De onde vem esse seu comprometimento social?
Meus pais me criaram com a consciência de que eu tinha de estar envolvida com a comunidade e compartilhar com o outro. Amanhã eu vou pra Nova Iorque e vou ajudar fornecendo alimentos para o Dia de Ação de Graças. Eu preciso disso para o meu equilíbrio interior, já que nos últimos dez meses a vida que levei não me pareceu minha. Eu mal falei com pessoas que costumavam ser parte da minha vida.

Você também distribui alimentos para os necessitados na véspera de Natal?
Não, eu estarei com meus irmãos na casa dos meus avós em Lake Placid. Eu prometi à minha mãe há algum tempo que nós passaríamos o Natal sempre juntos. São dias muito importantes entre o Natal e a véspera de Ano Novo em que pensamos como a vida deve prosseguir.

Isso significa que você vai à igreja?
Claro, eu sou católica. Eu gosto de cantar na igreja, porque eu amo canções religiosas, canções natalinas, “Noite feliz” em especial.

Você acreditava em Papai Noel quando era criança?
Ah, sim! Eu estava certa de sua existência. Minha mãe sempre nos escrevia bilhetinhos, aparentemente quem os tinha escrito era o Papai Noel. Coisas como “Obrigado pelos biscoitos. Eu espero que você goste dos presentes. Saudações, W.”

Você se sentiu traída quando descobriu a verdade?
Eu tinha 12 anos e fiquei chocada. Eu pedi ao meu pai que me dissesse a verdade, “Pai, o Papai Noel existe?” Ele balançou a cabeça e eu fiquei atordoada. Daí eu quis saber de todo o circo que havia sido montado por trás do conto de fada. Hoje, naturalmente, consigo perceber o quão importante é um bom show.

É cansativo ser a figura principal de um show da Lana-Del Rey?
Depende muito de onde. Na França, eu me importo com as multidões. Nos Estados Unidos eu mal sou reconhecida. Eu amo sentar em cafés e ler um jornal. Isso não é um problema em Nova Iorque. Bem, às vezes alguém aparece e diz “ Com licença, você se parece muito com a Lana Del Rey”. E eu respondo “Obrigada, é muito gentil da sua parte. Estou lisonjeada.

 

Por Christoph Dallach
Tradução por Max Lima

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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