‘Minha mente sempre foi uma vizinhança interessante de se viver’, confira a entrevista de Lana del Rey para o jornal The New Zealand Herald

por / segunda-feira, 06 agosto 2012 / Publicado emEntrevistas

Finalmente haha

Dentro do estranho mundo de Lana Del Rey

Lana Del Rey tem sido tanto criticada quanto reverenciada desde que se tornou algo grande. Greg Dixon fala com a cantora sobre sua repercussão na internet, o que ela quer da música e por que ela prefere compor sozinha ao invés de estar em um palco.

 

Entre a escuridão e acima dos sussurros, uma voz. “Eu te amo, Lana!” são os gritos. A multidão, maioria feminina, completamente adorável, se junta, guinchando suas próprias bênçãos. No palco, a fonte de toda essa adoração contínua quase doentia – uma beleza de cabelos castanho avermelhados vestida como uma bonequinha – para no meio do palco para responder “Eu também te amo, baby”. Mais gritos aduladores entram em erupção.

Deus me ajude, mas eu me sinto como um espião na morada do amor. Lana Del Rey cantou apenas algumas músicas no seu primeiro de dois shows lotados no Palace Theatre em Melbourne, mas a multidão já estava louca por ela desde o momento em que ela cambaleou rumo ao palco de estilo medieval.

Na verdade, não é que não haja um monte de amor no ambiente esta noite, mas também existe um zelo inesperado quase ritualístico pela jovem cantora americana que, há pouco mais de um ano, era basicamente ninguém de lugar nenhum.

Agora – na Austrália mais do que em qualquer outro lugar do mundo – ela é alguém.

Primeiramente, a história de Lana Del Rey pareceu seguir uma narrativa familiar sobre seu repentino sucesso. Ela gravou uma música chamada Video Games ano passado, fez um clipe por conta própria e o postou no YouTube em julho passado. Dentro de três meses após fazer seu upload, ela foi “descoberta”, ganhou um contrato de gravação com uma grande gravadora e fez seu primeiro álbum Born To Die. Desde janeiro, o álbum tem estado em primeiro lugar em 11 países enquanto Del Rey ganhou (à frente de Bon Iver e Foster The People) um Brit Award por “revelação internacional”, em fevereiro. E ela assinou com uma das maiores agências de moda do mundo, a Next.

Mais de 20 milhões de pessoas já assistiram Video Games no YouTube; mais de dois milhões de pessoas no mundo inteiro têm uma cópia de seu álbum.

E há muito do que gostar sobre a dúzia de canções iluminadas e sua voz esfumaçada não-basicamente-ao-estilo-jazz em Born To Die – especialmente, ao que parece, pelas muitas, muitas mulheres na plateia do Palace com capacidade para 1800 pessoas.

Se as letras de Del Rey tendem rumo à exploração de uma quebradiça adolescente solitária ou uma requentada angústia adolescente, isso não parece incomodar as mulheres na faixa de 20 anos que estão de pé ao meu lado em Melbourne. Elas sabem todas as letras, gentilmente cantando junto com o calmo e bobo entusiasmo de garotas com a metade de suas idades.

Elas balançam, mas não dançam; as batidas do álbum são na maioria inexistentes para esse tipo de performance. Del Rey escolheu levar suas canções à estrada com violinos, um baixista e um pianista sentado em um piano de cauda. A banda, junto das plantas de mentira ao redor do palco, clipes com figuras românticas e amaldiçoadas como Elvis e os Kennedys e a melancólica iluminação do palco, incrementam o humor do ambiente enquanto Del Rey – em um cabelo bufante, uma fita no cabelo igual ao de Alice No País das Maravilhas, um vestido fino prateado e um colar que absorve a iluminação – canaliza Jackie Kennedy, apesar de eu ter certeza que a Sra. Kennedy não mostraria tanto a perna.

A voz de Del Rey é forte, mas sua performance ao vivo é limitada. Sua imagem projeta confiança, embora sua linguagem corporal seja controversa ao parecer hesitante no palco, quase tímida. Mais curioso é que sua imagem – e as imagens passando na tela – parecem fora de sincronia com sua música. De forma lírica, ela está sendo má – ficando chapada com namorados ou “roubando carros de polícia com caras mais velhos” – e de forma visual, ela parece boa – a rainha boazinha do baile anos 60 com algo dos Kennedy e Camelot.

Enquanto eu descrevo a minha confusão sobre o que isso pode significar, a cantora sumiu. Só 45 minutos depois de ela passear pelo palco atrás de sua banda, ela se vai. Não há bis. Ao invés disso, sua primeira noite em Melbourne termina com as luzes do ambiente se acendendo ao revelar os rostos com a expressão: é só isso?

Isso talvez explique um pouco do ódio que surgiu quase imediatamente depois do primeiro rubor de amor. Quase tão breve quanto Del Rey foi descoberta pelo mundo através da internet ano passado e foi ungida como a próxima It-girl da música indie caseira, também foi descoberto que ela não foi um sucesso repentino coisa alguma. Ao invés disso, os trolls da internet descobriram que ela tem se apresentado em pequenas boates e barzinhos em Nova York por anos e que sua abertura anterior à indústria da música foi um pouco mais diferente do que um ano antes de Video Games ser colocada no YouTube; em 2010 ela lançou um álbum que naufragou e alguns anos antes ela havia gravado um álbum que nem ao menos foi lançado.

E, se assuste agora, seu nome nem ao menos era Lana Del Rey. Era Elizabeth “Lizzy” Grant, e ela não era, apesar do que seus clipes querem dizer, nenhuma garota má de Los Angeles, mas sim a filha de um investidor, nascida em 1986 em Lake Placid, no norte do estado de Nova York, que estudou em um internato.

A partir daqui, os boatos ficaram ainda mais rancorosos e a especulação mais paranoica: ela havia feito preenchimento labial; era uma garota rica com um alter-ego financiado por seu papai; sua imagem e possivelmente suas músicas foram criadas para ela por um exército do mal de assessores da gravadora; alguém, possivelmente os assessores do mal da gravadora, tiveram o trabalho de esconder ou apagar todas as referências a Lizzy Grant na internet; ela era o mais novo “fanchote Illuminati”; e que – no despertar de uma aparição semi-desastrosa no programa americano Saturday Night Live – ela não sabia nem cantar…

Então houve essa imundície descarada, tanto que um blogueiro a classificou como “antes ela era alternativa, uma artista mainstream fracassada sem lábios falsos… Ela tinha cabelo loiro, não parecia ‘tão sexy’. Basicamente como uma garota do meu colégio que é garçonete em meio período no [restaurante americano] Chilli.” Ai.

Inevitavelmente, quando Del Rey foi entrevistada pela imprensa mainstream, o que dominou as perguntas foi a chamada-controvérsia de sua autenticidade ao invés da sua música. Preciso dizer que ela não encarou o problema exatamente.

Então eu não fiquei surpreso que, quando eu finalmente abordei o assunto, sua resposta foi opaca; no todo, minha ouvinte por 20 minutos respondeu às perguntas de forma evasiva, às vezes impenetrável e, ao menos de vez em quando, soou um pouco brava.

Deitada em um sofá no seu quarto de hotel em Melbourne, usando um jeans azul apertado e uma blusa de tricô verde-limão, com o cabelo ruivo trançado em um apertado nó no alto de sua cabeça, seus pés descalços e seu rosto sem maquiagem, ela parecia mais Lizzy Grant do que Lana Del Rey. Apenas um colar diamante estava à mostra.

Ela foi completamente educada do jeito que os americanos são, mas com um pouco mais aconchegante. Ela ficou ainda melhor depois que desliguei o gravador e nós trocamos um breve agradecimento e um adeus. Ela ficou mais descontraída quando eu perguntei como ela lidou com a vergonha causada pela internet. Será que ela estava magoada com a repercussão?

“Eu quero dizer, bem, eu não sei por que seria interessante saber se eu estava magoada ou não, então eu não sei…”

Bem, pareceu bastante intenso e desnecessário, eu insinuei.

“Eu acho que a única coisa que eu poderia dizer sobre isso é que eu concordo com você. E sim, claro, é desnecessário também. Mas também ódio sempre é desnecessário porque simplesmente não é certo viver assim. Huh…” Ela disse “huh” como se tivesse pensado em algo que lhe agradou.

Se a repercussão foi sem fundamento e, às vezes de forma ofensiva, isso parece ser mais sobre o puritanismo dos furos musicais na internet que acham que descobriram sozinhos alguma criatura rara e exótica somente para perceberem que, surpresa, ela só é mais uma em uma longa linhagem de cantoras pop – David Bowie, Elton John, Gaga, para nomear alguns – que encontrou o sucesso depois de uma mudança de nome e imagem.

A pergunta em andamento é se Lana Del Rey é um nome artístico ou mais do que um nome artístico.

“É menos que um nome artístico.”

Ah, tudo bem. Então é isso?

“É só um nome diferente. Mas você sabe que eu tive que conhecer a mim mesma muito bem, tantos anos atrás, quando eu me fiquei sóbria e eu meio que comecei a aprender sobre a maneira certa de se viver e quais coisas me deixam feliz – o que era criar e coisas do tipo. E então eu tenho sido sempre a mesma pessoa que eu sou agora e nunca fiz coisas de forma irregular. Eu sempre soube que eu teria meu próprio nome, eu sabia que eu teria meu próprio mundo e… mas, você sabe, se eu estivesse na mesma sala que você e pessoas que eu só tenho trabalhado pelos últimos 12 meses e se eu também estivesse em uma sala com meu irmão mais novo e meu professor do segundo ano, ninguém jamais notaria a mudança na personalidade. É tudo bastante consistente, não haveria surpresas.”

Será que importaria se Lana Del Rey fosse uma invenção, uma criação da indústria da música? Não mesmo. Ou pelo menos não deveria. As músicas são as músicas, a voz dela é a voz dela, a imagem intrigante é a imagem intrigante. Pegue ou deixe.

No entanto, não é tão simples assim. Apesar de ela não dizer isso, parece sim que ela está interpretando o papel de cantora com um tanto êxito. Enquanto ela se sente em casa nos estúdios de gravação, ela é, segunda a própria, tímida quando está em frente à plateia.

“Eu acho, você sabe, a vida é curta. É importante se mostrar na luz que você gostaria de ser mostrado, e a luz que eu gostaria de ser mostrada não é necessariamente um holofote de frente pra todo mundo. Eu adoraria me apresentar às pessoas através das minhas palavras e da forma que eu penso, porque eu gosto da forma que penso. O jeito que eu vejo o palco de frente para mil pessoas não é muito a minha praia, mas eu dou o meu melhor.”

E ela está dando o seu melhor de frente para plateias que têm crescido de dezenas para centenas e para milhares no último ano. Seu agente, Ed Millet, que estranhamente é britânico e não americano, diz que parte do motivo de Del Rey, entre infinitos deveres promocionais, ter se apresentado com violinos, piano e um baixo ao invés de uma banda completa é que seria muito caro para seu nível de popularidade no início do ano, mas também quer dizer que nenhuma checagem de som foi requerida antes de um show.

“Ela não tinha feito festivais antes, é seu primeiro ano e há muito atenção sobre ela. Então, entrar no palco sem checagem de som de frente para 10 mil pessoas com uma banda básica, cheias de batidas quando você não está acostumado a isso, é como uma coisa completamente nova.”

Millet diz que uma turnê mundial com uma banda completa está na jogada para o ano que vem – depois que uma edição especial do Born To Die for lançada.

“Ela não esteve realmente na estrada [esse ano], mas é uma combinação entre se promover e fazer a turnê. Ela tem feito publicidade desde janeiro. Ela fez shows incríveis nesse meio tempo. Normalmente você faz seu trabalho de marketing e você recebe as atenções e as aproveita, e depois você cai fora. Mas por causa de todo o burburinho sobre o álbum, foi um lançamento mundial, ela basicamente não teve pausa, ela meio que teve de dar a volta ao mundo umas 50 vezes… então é um tanto épico.”

Del Rey diz que está cansada o tempo todo. No entanto, a edição especial do álbum requer mais músicas, mas tudo bem porque ela sempre amou compor, aparentemente.

“Eu fui compositora pelos últimos 20 anos,” diz a cantora de 26 anos. De fato é compor, mais do que a música ou a apresentação, o que ela mais ama, é algo que ela gosta de fazer sozinha em uma sala “com as janelas abertas, esse é o meu processo.”

O que ela tende a escrever, se as letras em seu álbum for um medidor, é sobre si mesma, mas a si mesma como uma adolescente. Ela parece ter tido – apesar de não falar disso com a imprensa – alguma coisa de garota má em sua adolescência, tão má que teve que “ficar sóbria” uma década atrás.

O quanto as coisas ficaram ruins?

“Apenas ao ponto em que eu apreciava mais as sensações que o álcool me dava do que as sensações que eu tinha ao estar com qualquer pessoa que eu conhecesse pessoalmente. Esse é o problema, esse é o problema.”

Sua sobriedade parece estar sempre em questão, isso certamente acaba surgindo em uma conversa, e seus pensamentos sobre isso soam como se eles tivessem formado uma terapia. Não beber é sobre “viver sua vida sem mentiras”, ela diz, e ela agora não tem “nada a confessar porque eu não tenho nada que eu faça de errado.”

Entretanto, em 10 anos sóbria, ela ainda precisa ter certeza de que ela não está ao redor de coisas ou pessoas ruins. “É assustador. Você pode sentir isso acontecendo. Você diz a si mesmo que é simplesmente como a vida é, mas não é bem assim.”

Se seus anos selvagens lhe deram sua inspiração lírica, eu me pergunto em voz alta se a bolha da turnê, publicidade, hotéis e apresentações que ela agora está envolta pode significar que ela encontre um novo assunto sobre o que escrever no futuro. Aparentemente não.

 

“Minha mente sempre foi uma vizinhança interessante de se viver. É o jeito em que eu fui moldada quando eu nasci. [O escritor de livros sobre crimes] James Ellroy costumava dizer que ele, você sabe, tinha pensamentos loucos o bastante em sua cabeça para sustentá-lo pelos próximos 40 anos, tudo o que ele precisava era quietude. Isso é tudo o que preciso também, agora. Eu já fiz muito e não preciso fazer mais nada em termos de experiência de vida.”

Exceto talvez aprender a lidar com seu crescimento como celebridade. Del Rey parece estar tão encantada com a sua ascensão da escuridão quanto seus detratores.

Ela tem feito música há anos, e gravou, editou e colocou na internet clipes para cada uma das músicas de seu segundo álbum fracassado, sem sucesso. Então ela fez Video Games. O que mudou? Bem, ela não faz ideia.

“Bem, eu não… ummm… penso nisso porque nada… Eu não faço ideia do que esteja acontecendo. Como a minha situação é imprevisível. A única coisa consistente em minha vida sou eu mesma e a forma que eu penso. Eu vivo em um mundo onde eu sou a única pessoa que está fazendo… você sabe… que é consistente.”

Quando eu pergunto que tipo de temperamento ela tem, responde – instantaneamente – “pacífica”. Mas ela não soa pacífica quando eu pergunto o que quer da música. Ela soa um pouco confusa, certamente incerta.

“Eu não acho que o meu sucesso seja algo certo, de forma alguma… Mas eu não quero nada de ninguém. Eu tenho o que eu quis há muito tempo, o que é paz, quando eu decidi que eu iria compor apenas para compor, porque esse era meu único amor. E para ser uma boa pessoa [ela diz isso em tom alto e emocional que você ouve em adolescentes] e para estar com a minha família e amigos… é… é… Eu não queria nada em muitos, muitos, muitos anos, em nenhuma forma.

Na verdade eu não sinto esse desejo profundo de que as coisas cresçam ou que as coisas mudem. Eu tenho o que eu quis quando eu me encontrei através da escrita e tenho sido feliz desde então.”

 

Por Greg Dixon

Tradução por Raphaella Paiva

Redação LDRA
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