‘Ao invés de escreverem sobre minha música, escrevem sobre o que crêem que sabem de mim’, confira a entrevista concedida à Go Mag

por / terça-feira, 29 maio 2012 / Publicado emEntrevistas

go mag

Sua voltinha no “Staurday Night Live” povoou a blogosfera mais que o naufrágio do Titanic, as caças a elefantes em Botsuana, o olho de Saron, a mão de King Kong ou os cadáveres das garotas de “O Iluminado”. Bonequinha de porcelana, personagem tirada de “Mad Men”, diva pop do momento, sofrida compositora, patricinha com aspirações artísticas, sensível e introvertida garota de cidade pequena… Há tantas versões de Lana Del Rey quanto dedos escrevem ou bocas falam sobre ela, incluindo a sua. Lana Del Rey conversa conosco sobre a fama, a difamação, seu suposto oculto e controverso “Born To Die”. Lana Del Rey cantará no Sónar de Noche na sexta-feira, 15 de junho [2012] no palco SonarPub às 23h45.

LANA DEL REY

A fama e a Lana

A penthouse do Hotel Majestic de Barcelona é o lugar marcado para nosso encontro numa tarde de sábado. Lana acaba de saber que vai ser a capa da nossa edição de junho e eu fiquei sabendo na tarde anterior, de modo que a emoção toma conta do ambiente. “Você é genial!”, exclama quando nos deixam a sós no lugar, “diga a todos que estou muitíssimo agradecida, de verdade”. Lana solta um sorriso de orelha a orelha que raramente se apaga ao longo da meia hora que dura a nossa conversa. Fiel a sua habitual imagem, usa um vestido branco até o joelho, um casaquinho de algodão e uma bandana colorida na cabeça. É uma estrela mundial do pop e não parece se vestir nem se comportar como tal. Mas o certo é que a carreira musical de Lizzy Grant, mais conhecida como Lana Del Rey, nasceu como a de tantas jovens americanas: “Vivia em uma cidadezinha no condado de Essex. Tínhamos uma igreja ao lado de casa, de modo que comecei a cantar lá. Como sempre gostei de escrever histórias, quando fiz 17 ou 18 anos, aprendi a tocar violão e comecei a compor canções”. E, então, como em tantas outras histórias, a garotinha da cidade pequena se torna uma mulher e decide se mudar para a cidade grande: “Fui morar no Bronx e no Brooklyn e comecei a cantar nas noites de Open Mic. E assim tudo começou”.

Para começar a escrever tão jovem, suas letras quase sempre foram histórias de amor muito turvas. A sua visão de amor era e é tão obscura?
Na verdade não. De fato, minha vida amorosa não era tão complicada, mas o resto da minha vida sim, de modo que quando eu me sentava para escrever, o fazia com um estado de ânimo melancólico. Não é que eu gosto dos romances obscuros, mas sim dos intensos (olha para a porta, estala a língua, visivelmente incomodada, e se levanta para pedir a sua equipe para abaixar o volume. Volta a se sentar e continua, ainda que pareça um pouco aborrecida). A primeira vez que me apaixonei, me senti eletrizada, viva. Mas ele se metia em muitos problemas e eu, que tinha sido uma adolescente cheia de conflitos, estava tentando levar uma vida boa… Espera (procura novamente algo com os olhos e com o ouvido, o encontra na porta do terraço que, entreaberta, deixa passar um murmúrio dos carros na avenida. Se levanta, a fecha e fica um segundo comprovando que o silêncio é absoluto, e continua, aliviada e mais relaxada). Como dizia, isso começou a criar muitos problemas na nossa relação. Contudo, não me interessam somente as histórias de amor, é simplesmente que quando quis escrever me agradou fazê-lo sobre relações. Muita gente me chamou de antifeminista por escrever o que escrevo.

É curioso que escrever sobre relações seja antifeminista e subir quase nua em um palco como fazem a maior parte das cantoras pop, não seja. Você não veste coisas bizarras como Lady Gaga e nem vai mostrando tudo. Tem um estilo próprio quanto à imagem…
Uau, obrigada.

É verdade. Queria saber se alguém te advertiu a não seguir esses exemplos ou se te aconselharam na sua imagem.
Sempre tive trabalhos normais e me dediquei à minha comunidade, de modo que, à noite, quando tinha tempo de sentar para escrever, minha preocupação se centrava exclusivamente na minha voz e minhas letras. Suponho que por isso, quando chegou o momento de aparecer na televisão ou de tirar fotos, tanto fazia a minha imagem! Deixe-me ver, há coisas que eu gosto: maquiar-me, me vestir de branco, usar laços na cabeça… Mas nunca dei tantas voltas.

Falava de como se foca principalmente na sua voz, e o certo é que é possivelmente o que lhe dá mais personalidade na sua música. A treina de alguma forma?
Quando estava em Nova York fiz duas aulas. O problema era que eu tinha 22 anos e minha voz já estava tão indisciplinada que tentar discipliná-la parecia impossível em tão pouco tempo livre que eu tinha disponível. E o que faço agora? Não pratico, mas escuto os meus favoritos, e isso é como uma prática em si mesma porque você ouve um monte de tons e timbres e os interioriza.

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Quem são esses favoritos? Quais são esses artistas que influenciaram em sua forma de cantar e compor?
Em questão de voz, sou muito fã de duas vozes de ouro, Elvis Presley e Frank Sinatra. Em questão de contar histórias, Kurt Cobain e Bob Dylan. Ainda que na verdade eu escute muitíssima música e nem todas se refletem nas minhas canções. Algo que eu creio que tenha influenciado no meu som são as trilhas sonoras, como as de “American Beauty” ou “Scarface”. Por isso o disco soa tão cinemático.

Suas primeiras canções geraram muitíssima expectativa. Te afetou de algum modo a hora de lidar com a composição do resto do álbum?
Não, porque suponho que já tinha outras pressões mais importantes em outros aspectos da minha vida. Quer dizer, eu amo a minha música e a levo muito a sério, mas só para mim mesma porque ninguém escuta as canções com tanta intensidade. Incluindo quando eu comecei, nunca me preocupei com o que as pessoas diriam de minhas canções porque em minha cabeça já tinha assumido que não iam gostar.

Contudo, parece que certas opiniões acabam te afetando, sim. Li em uma revista que você havia afirmado que não voltaria a fazer um álbum…
Dei-me conta de que as pessoas podem escrever por aí o que quiserem, ainda que não seja verdade. Incluindo gente que eu considerava como jornalistas responsáveis, que eu admirava… E a questão é que meu álbum é bom. É bom porque simplesmente não é ruim. Não há nada horrível nele. Pode não agradar a você, mas não é tão ruim para os críticos atacarem. Porque, aliás, em geral, ao invés de escreverem sobre minha música, escrevem sobre o que crêem que sabem de mim. E o que eles não sabem é que eu me dediquei de corpo e alma à minha gente durante dez anos, que tenho uma família para cuidar e me preocupar… E eles escrevem coisas irresponsáveis sem levar em conta que eu não trabalho sozinha, que tenho irmãos, primos… De modo que, sim, isso vai causar dano a minha família, então não voltarei a gravar um disco. Acredito que sempre cantarei, mas não tenho que fazê-lo necessariamente para ganhar a vida. Não é tão importante, trabalhei com outras coisas antes e posso voltar a fazer essas coisas. Para mim a paz é muito mais importante que a música, e não tenho paz se estão atacando a minha família.

É verdade que a maioria das pessoas, críticos incluídos, ou te odeiam ou te adoram, e ambos sentimentos parece que têm muita intensidade. Os que te odeiam, odeiam visceralmente.
Sim, e não entendo muito bem o porquê.

O fato é que as pessoas sempre fundamentam essas críticas. Por exemplo: depois da sua apresentação no Saturday Night Live, a crítica e o público caíram em cima e, ainda que não foi precisamente sua melhor apresentação, de algum modo, grande parte deles nem se deu ao trabalho de procurar no YouTube outros vídeos que comprovavam que você é boa, sim.
Aí é onde definitivamente me dei conta de que a verdade já não importa. A verdade é o que as pessoas dizem que é verdade e se o The New York Times diz que algo é horrível, então muita gente acreditará que é. O New York Times retweetou uma revista de fofocas! Isso deveria ser ilegal!

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E o que há com o disco escondido (falamos de “Lana Del Rey AKA Lizzy Grant”, publicado em janeiro de 2010)?
Falam do “disco oculto” de Lana Del Rey como se alguém o tivesse feito desaparecer, mas o fato é que todas as canções podem ser encontradas no YouTube. Era um disco bonito e foi lançado pelo nome de Lana Del Rey, sempre atuei com esse nome.

Esse álbum foi produzido por David Kahne; “Born To Die” por Justin Parker, Jeff Bhasker, Rick Nowels… Parece que você sabe se rodear de bons produtores. Qual é o seu papel dentro de suas canções?
Eu escrevia todas as letras e melodias e eles se encarregavam da música que há por trás. Uma vez levei as canções para Emile Hainey e dizia a ele “esta quero que soe como umas adolescentes que escapam de casa no meio da noite em Miami”, e então ele começava a acrescentar efeitos de garotas rindo e alarmes de carro, construindo uma paisagem sonora que ajudara a criar um estado de ânimo e a te colocar na canção. Também as levamos para a Philadelphia Orchestra para que colocassem cordas e isso deu a elas o ponto cinemático e exuberante.

Vamos falar do Sónar. Será uma das principais atrações desse ano e será seu primeiro show em um festival para milhares de pessoas.
Sempre gostei de apresentações em noites de verão ao ar livre, ou seja, será perfeito, muito romântico e glamuroso…

Além disso, será quase seu aniversário!
(Risos) Sim, sim, é verdade! Que ótima celebração! Já tenho preparada uma terceira parte das projeções que serão vistas durante minha apresentação, que estão inspiradas na Europa e no verão. E além da minha banda habitual, verá um quarteto de cordas, que creio que dará ainda mais romantismo ao concerto. O set inclui cinco canções que não toquei ainda e que são muito apropriadas para uma noite de verão, como “Summertime Sadness” e “National Anthem”

Suponho que não faltará “Video Games”, que foi a canção mais remixada dos últimos tempos. Tem algum remix favorito?
É uma loucura, não? Gosto muito da versão que o Kasabian fez no BBC Radio1 e, quanto aos remixes, não saberia escolher, mas gostei de todos. Ainda que não costume sair à noite, semana passada fui com meus amigos ao The Standard e estávamos dançando quando de repente começou a tocas “Video Games” com um ritmo super dançante por baixo (começa a cantar o refrão estalando os dedos ao ritmo de um tecno imaginário).

Quando a compôs, pensou que chegaria a ser tão popular?
Que nada. Quando acabei de compô-la, disse a Justin “Certeza que ninguém mais vai gostar, mas é minha música favorita”.

Parece que você se enganou…
(Risos) Sim, parece.

 

Por Virginia Arroyo
Tradução por Isabela Guiaro

Redação LDRA
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