‘Só queria ter dinheiro suficiente para pagar o aluguel e os impostos. Não tinha grandes ambições’, confira a entrevista publicada na revista S Moda

por / sábado, 28 abril 2012 / Publicado emEntrevistas

S Moda

Lana Del Rey: “Não há nada mais autêntico do que eu”
A cantora se defende das críticas e assegura que faz o que quer e que não se importa que a chamem de antifeminista

 

Lana Del Rey com um colar do desenhista espanhol Andrés Gallardo

Mae Murray foi uma atriz do cinema mudo conhecida nos anos 20 por seus lábios voluptuosos, como “picados por uma abelha”, segundo reza a expressão em inglês (bee-stung lips). Atriz, cantora, colunista e produtora, na verdade ficou mais conhecida como “escaladora” social. Casou-se quatro vezes, a última com David Mdviani, um georgiano que se fazia passar por um príncipe e que a arruinou. Em seus últimos anos, se arrastou pelos clubes noturnos, escondida por camadas cada vez mais espessas de maquiagem, e morreu em pobreza absoluta.

O fotógrafo inglês Simon Emmett, autor da capa e das fotos dessa reportagem, conta a Lana Del Rey a vida de Murray e a mostra uma gravação em celuloide colorido na qual a atriz gira, mais letárgica do que lúbrica, e manda um beijo para a câmera. Emmett acertou. O vídeo não pode ser mais Lana. E cantora se entusiasma. “Sou eu! Sou eu!”, exclama, com essa “voz-ronrono” que se instala na cabeça de todo aquele que escuta a canção Video Games pela primeira vez.

Parece questão de tempo para que Murray apareça em alguma das canções ou vídeos de Lana. Porque a artista, nascida como Elizabeth Woolridge Grant há 25 anos, dá a impressão de atuar como diretora criativa de si mesma: CEO de Lana Del Rey Enterprises.

Em menos de um ano, protagonizou o salto à fama mais vertiginoso que se é lembrado, uma fábula contemporânea retransmitida no tempo real em YouTube, tweets, virais e comentários online.

Custa acreditar que essa garota pequena e amável, vestida com jeans, camiseta de alças e sapatilhas, e a que sua equipe parece adorar, gere tanta conversação. Del Rey passou menos de dois dias em Barcelona, onde voltará no dia 15 de junho para se apresentar no Sónar. Aproveitou para visitar o parque de atrações do Tibidabo. Muito Lana, com suas paredes descascadas e calhambeques vintage.

Outras coisas que são muito ela: os anos 20, 40 e 60, Mulholland Drive, as listras e as estrelas [nota da tradutora: alusão à bandeira dos Estados Unidos], Elvis Presley, o hip-hop branco, Mazzy Star, Miami, o ouro, os cílios postiços, as piscinas de Los Angeles e as unhas bem compridas. Tudo é parte de uma estética neonostálgica que parece passada por um filtro de Instagram. Não é casual que seu meteórico acesso à fama tenha coincidido com o tempo de auge desta rede social de fotografias instantaneamente antigas, calculadamente legal.

O pop foi e é postiço por sua definição – o é até quando se quer ser o resumo do sincero, como no caso de Adele, o oposto de Lana Del Rey quando se fala deste tipo de fenômenos musicais – Contudo, a cantora é perseguida pelo debate da autenticidade. Os fóruns questionam se ela faz seus vídeos, que seus lábios sejam reais, que não é verdade que morou em um trailer park (bairro pobre de trailers), já que seu pai é milionário, e que seu nome não é autêntico.

O crítico do New Yorker, Sasha Frere-Jones, escreveu que as letras de Lana Del Rey parecem vir “dos post-its em uma reunião do departamento de marketing”. Certo. E não só as letras, mas também essas definições que ela faz sobre si mesma, perfeitas para um título: “Nancy Sinatra gangsta”, “Lolita perdida na floresta”. Mas também é muito possível que esse departamento de marketing tenha um só membro, que é a própria Lana Del Rey. Vendo-a escolher que roupa está disposta a vestir (“só pele e pássaro para a capa”, diz, apaixonada pelo colar de porcelana do designer espanhol Andrés Gallardo) e falar utilizando conceitos como fazem os publicitários – “quero que fique muito princesa-morta-de-Mônaco”-, ficam poucas dúvidas. Pode ser que Lana Del Rey seja um produto – e daí se o é? -, mas ela é também seu próprio doutor Frankenstein.

Lana veste Salvatore Ferragamo, brincos de Hélène Zubeldia

Begoña Gomez: A moda te atrai?
Lana Del Rey: Para mim não é tanto uma relação com a moda como uma relação com a cultura visual. Nesta sessão fotográfica pensei: fora os saltos, fora as joias, que seja só eu e o céu azul atrás. Essas são as coisas que me inspiram, as fotos e o cinema. Nas minhas letras e em meu som me atraíram mais a imagem que a música.

BG: Onde mora atualmente?
LDR: Olha, pensava que nunca deixaria Nova York, mas agora cada vez que volto aos Estados Unidos, vejo que me encanto pela Califórnia. Tenho um chalé dentro do hotel Chateau Marmont, em Los Angeles, e agora uma amiga vai me ajudar a procurar uma casa em Hollywood.

BG: E como leva o vai e vem?
LDR: Alguns dias são melhores que os outros. Antes de tudo isso, eu era muito feliz. Estava muito envolvida com a minha comunidade, tinha gente ao meu redor, podia ver minha família frequentemente… Escrevia canções durante as noites e tudo estava bem. E agora… Há toda essa gente aí fora! [diz se referindo aos fotógrafos, maquiadores, estilistas, assistentes e pessoal da gravadora que participam da sessão]. Não desfruto tanto de algumas coisas como antes.

BG: Então, quando escrevia essas canções à noite, não pretendia que elas alcançassem um grande público?
LDR: Não, não sou desse tipo de pessoa. Só queria ter dinheiro suficiente para pagar o aluguel e os impostos. Não tinha grandes ambições.

BG: Você tem tempo para ver os amigos de verdade?
LDR: Tenho um pequeno grupo de amigos que não têm nada a ver com a música. Minhas amigas são boas garotas, com os pés no chão. Uma trabalha no setor imobiliário, outra na Bloomingdale’s, outra é chefe de marketing… Sinto falta delas.

BG: Todas as suas letras estão escritas em primeira pessoa. Acredita que isso contribui para gerar confusão ou curiosidade sobre você?
LDR: São todas reais. Eu sou a protagonista de todas as minhas letras. Mas não acredito que sejam tão controversas. Contam como foram as coisas para mim. Deixei minha casa aos 14 anos para ir a um internato porque havia me metido em problemas. Depos cheguei a Nova York… Olha, Video Games não é mais que um dia em minha vida. As pessoas dizem que é uma canção antifeminista e eu penso “por quê?”. Estudava e eu mesma me mantinha. Ao final do dia eu só queria ficar em casa com meu namorado e jogar videogames.

BG: Te irrita que te chamem de antifeminista?
LDR: Não é uma das coisas que mais me irritam. E talvez há algo de verdade nisso. Sou uma garota muito dura e gosto de um homem que seja forte em todos os sentidos. Pode se que eu provoque os homens a se mostrarem poderosos comigo. Eu faço muitas coisas, trabalho muito duro e controlo tudo.  Por isso que ao final o que quero é que haja alguém que me ajude a me sentir delicada e sexy outra vez.

BG: Lê tudo o que se publica sobre você? Porque isso é quase um trabalho de tempo integral…
LDR: A princípio sim, porque nunca ninguém tinha escrito sobre mim e me afetava. Eu havia passado os 10 anos anteriores tentando ser uma boa pessoa. Deixei de beber, tinha uma boa relação com a família… Quando começaram a misturar a minha família com tudo isso me indignei. Aprendi que tudo o que a imprensa diz pode ser mentira.

BG: Como quando te acusaram de ser um produto manufaturado…
LDR: Isso é mau jornalismo e mau comportamento. Deveria ser ilegal. Tudo o que os jornalistas deveriam fazer era falar com alguns de meus conhecidos. Qualquer um diria a eles que tudo o que fiz, fiz sozinha. Eu escrevi as músicas, eu dirigi os vídeos. E respeito meu nome, comecei com meu nome real, mas sobre o palco sempre atuei com alguém diferente. Todo mundo o faz.

BG: E por que acredita que foi gerado em torno de você esse debate sobre o que é autêntico e o que não é?
LDR: Não sei, não tem nada mais autêntico do que eu. Entenderia se questionasse a alguém que diz que escreve suas músicas, mas não o faz, ou alguém que diz que seu passado foi de uma determinada maneira e mente. Mas não comigo.

BG: Você desfruta quando está sobre o palco?
LDR: Agora começo a desfrutar. Quando estou em Paris ou Itália, fico bem. Quando estou em Hollywood, também, porque a imprensa de Los Angeles me entende, sabe que não estou tentando vender uma mensagem. Só canto. Mas há muitos lugares onde a crítica não me entende. As pessoas com olhos normais te olham e procuram alguém como elas, e eu não sou assim. Só faço o que quero.

BG: Sempre se sentiu diferente?
LDR: Sim, sempre. Por isso quis estudar Filosofia. Estava saturada com o mundo e me alucinavam as coisas que preocupavam a outras pessoas: o que faremos hoje? Aonde vamos durante as férias? Você gosta dos meus sapatos? Eu, enquanto isso, sempre andava procurando um guia, um sinal, um poder superior.

BG: Difícil encontrar em sua cidade, Lake Placid. É muito pequena, só tem 2 mil habitantes. Não tem nenhuma cidade grande perto. A imagino tipo Twin Peaks.
LDR: Sim, é exatamente como Twin Peaks. Estava querendo sair dali e ir a Nova York porque ali me sentia como no céu. Eu gosto de ir à loja da esquina e que um homem te diga [em espanhol]: “Olá, linda. Como você está?”.

BG: O que aconteceu no programa Satuday Night Live? Como foram as críticas a sua atuação?
LDR: Eu já esperava. O que as pessoas não sabem é que antes de performar, sua página na web já criticava tudo o que eu fazia. Quando subi a esse palco eu sabia exatamente o que iam dizer de mim.

BG: Para ser o clássico disco de ruptura sentimental, em seu primeiro álbum, Born To Die, não há despeito. Em vez disso, há a nostalgia.
LDR: Nesse momento, falar de amor me fazia viva outra vez. Baseei-o sobre essa pessoa para dar a ela estrutura, ainda que na verdade fala de mais coisas: de dirigir à noite pela Califórnia, da tristeza que às vezes te dá o verão…

BG: É verdade que você escreveu o single Video Games em 10 minutos?
LDR: Não, não, ele me veio em ondas. Eu andei compondo canções durante cinco dias com um de meus melhores amigos, Justin Parker, que faz os acordes. Já estávamos acabando quando ele me disse “tenho uma progressão que me lembra de você”. Encantei-me pelo início e também pelo refrão. Assim é como imagino que soa o paraíso.

BG: Quando lançar seu segundo álbum, falará do que a fama supôs sobre você?
LDR: Não, o começarei de onde o deixei. Estou começando a escrever novas melodias. Tenho uma nova canção nova que me encanta. [Entona uns versos que dizem “Na terra dos deuses e anjos, eu era um monstro”]. Quando a tive, pensei: “Deus, me lembra de Leonard Cohen!”.

BG: Cohen é um de seus artistas favoritos?
LDR: Eu gosto de imaginar Leonard Cohen e Bob Dylan juntos. Me faz feliz. Na minha lista de favoritos também estão Elvis Presley, Frank Sinatra, Nirvana, Lil’Wayne, Eminem e Odd Future. Não tem mulheres… Não, mas não tenho nada contra.

BG: O que pensa das divas do mainstream Beyoncé, Rihanna…?
LDR: Nunca comento esse tema. É difícil para mim, tudo o que eu digo é tirado de contexto. Que pena que me fez essa pergunta! A entrevista tinha ido tão bem até agora…

 

Por Begoña Gomez
Traduzido por Isabela Guiaro

 

Confira em nossa galeria os scans e as fotos tiradas para a revista por Simon Emmett:



Redação LDRA
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