‘Eu não creio que escreverei outro álbum’, confira a matéria publicada na edição francesa da revista Glamour

por / quarta-feira, 04 abril 2012 / Publicado emEntrevistas

 Glamour

Após Lady Gaga, a consagração de Lady Lana

No verão passado, Lana Del Rey não era mais que um buzz na internet. Nesta primavera ela é o novo ícone norte-americano. Mas o que nos causa tanto fascínio nela?

Se precisassem de uma prova da irrepressível aceleração da vida moderna, seria esta: foram necessários apenas seis meses, seis meses somente, ao fenômeno Lana Del Rey para serpentear da Web ao topo dos charts. Em Agosto passado, ela era aquela cantora estranha das canções feitas em casa cingidas pelo buzz do YouTube. Hoje, ela é esta nova estrela de 25 anos, leve e de fala embolada, que fascina o mundo da moda, encanta os fãs de pop, e anima as discussões matinais. Ou seja: de “perdedora” nova-iorquina a ícone americano. Possivelmente o próprio tempo decidiu destronar Lady Gaga para coroar Lady Lana. Abandonando a herdeira de Madonna em benefício de uma heroína de David Lynch. A consequência foi a reformulação dos códigos mainstream do glamour, da fama e do pop.

O Efeito MAD WOMEN

No início, houve um problema, difundido pelo clipe bricolado [nota do tradutor: do original ‘bricolé’: feito com partes de outros clipes] de Video Games: Lana Del Rey entona uma melodia que nos assombra, e nos fala de seu amor ardente por seu jovem homem viciado em seu vídeo-game. Mas seu olhar foge da câmera, desliza para baixo, é atraído por sua própria imagem transmitida na tela do computador. E assim, nós não sabemos se estamos lidando com uma vampira vinda dos anos 50, uma “party girl white trash” ou uma Lolita formatada pela moral real. Mas uma coisa é certa: Lana Del Rey canta para garotas desequilibradas. Aquelas que se aclimataram moderadamente a esta nova atmosfera ocidental: uma tirania do sexy que transforma o corpo em algo não-natural. Este apelo permanente à vitória que esmaga os acessos de melancolia, essa estranha desvirilização dos caras que quebra as regras do jogo amoroso. Lady Gaga e seu Born This Way defenderam um narcisismo divertido, sem falhas e autossuficiente? Lady Lana responde com Born To Die e põe em cena suas falhas. A primeira vez te diz: “Você deve fazer sucesso!”. A segunda nos sussurra: “Está tudo bem se você falhar”. Está tudo bem se você se transforma em uma marionete desde que você esteja em sociedade, se você sonha em voltar à sua casa de infância para brincar de “Barbie vai à Hollywood”, se algo pesado te puxa para baixo constantemente – e se Lana Del Rey contar em entrevista que suas canções estão lá para “honrar uma história de amor morta que me mudou para sempre”. Sua silhueta de porcelana iluminada por grandes olhos tristes, seu look retrô marcado por alguns defeitos comuns em clubes de strip (suas intermináveis unhas falsas), seu riso infantil parasitando um corpo bastante sensual farão o resto. A moda se apaixonou por alguém que diz não ter estilo: “É necessário que eu me sinta bonita para ir à TV…”. Mas agora, personal stylists se ocupam dela: Dior a convida para cantar em Pequim. A agência Next Model a fez assinar um contrato. Mulberry lançou uma bolsa com seu nome (a “Del Rey). Lady Lana é sedosa e frágil, ela será a “mad woman” que os fashionistas obcecados pelos anos 50 esperavam. Ou também maravilhar a Vogue inglesa, “uma sereia para a geração YouTube”.

O sucesso do SEGREDO

O manejo industrial das It Girls terminou por nos convencer de que a arte da fama se parece essencialmente com uma agressiva estratégia de ocupação de terreno. Superior à hipersexualização de uma Rihanna. Ao divórcio de Katy Perry, que se espalhou por diversos tabloides. À declaração messiânica-delirante de Gaga. A surpresa é que Lana Del Rey cultiva a estratégia da ausência, a distância, o enigma para melhor exacerbar o desejo. Dessa forma, de acordo com a tendência Anonymous, Lady Lana não se desloca para o centro das atenções dos paparazzi, ela diz zombando de seu súbito estrelato, e, essencialmente, se fecha como uma ostra, parece em pânico e suplicante a partir do momento em que nós nos aventuramos a lhe perguntar algo íntimo. Da Miss Mistério, nós aprendemos algumas coisas: ela cresceu em um vilarejo de Lake Placid, ao noroeste dos Estados Unidos, amou estudar Aristóteles na faculdade de Filosofia, e “passei meus últimos cinco anos com um grupo de amigos do programa de ajuda a desabrigados de Nova Iorque”.  Mas pouco tempo depois da assinatura de um contrato com uma gravadora, outras informações chegaram à internet e suscitaram o mais rápido retrocesso da história do pop. Com apaixonadas teorias conspiracionistas, a blogosfera descobriu que a cantora já havia registrado em 2009 um álbum intitulado Lana Del Ray, sob seu verdadeiro nome, Lizzy Grant. Na época, ela adotava um estilo indie-rock, de cabelos loiros, e, sobretudo, com lábios um pouco menos volumosos, um nariz levemente menos chanfrado e as maçãs do rosto menos côncavas. Seu pai? É um milionário da internet. Video Games? Seus versos remetem à uma canção pop grega de vinte anos de idade. Lana Del Rey seria então o nome de um complô de marketing! Estranho: cada artifício, provocação, reinvenção de si mesma assinados por Lady Gaga são saudados como uma performance de Warhol, a menor suspeita de inautenticidade concernida à Lana é recebida como uma traição – como se a gente esperasse dela algo diferente do puro entretenimento. As tendências em alta no Natal são as mesmas que eles queimaram no verão. E após uma apresentação catastrófica no Saturday Night Live, deu-se a chacina – Juliette Lewis a comparou em um tweet a uma “garotinha treinando para cantar em seu quarto antes de dormir”. Lana se queixa: “O pior é ver pessoas me acusando de não escrever minhas músicas e de não saber cantar.” Mas logo as vendas de seu álbum subiram. A gente viu um “concerto dos sonhos” no Letterman Show. E chega um segundo tweet de Juliette Lewis: “Eu acordei esta manhã cantando uma música de Lana Del Rey”! Nós vamos finalmente poder falar da música.

JUKE-BOX americana

Há um ponto sobre o qual os detratores tropeçam: Lana Del Rey não tem apenas uma voz profunda, sexy, envolvente. Sobretudo, ela tem boas canções em sintonia com as tendências atuais. Enquanto Lady Gaga mixou o RnB com a gritante eurodance dos anos 90, Lady Lana casou, assim como Amy Winehouse, o poderoso hip-hop aos ritmos retrô. A cantora estraçalha a concorrência esquecendo-se de citar os arautos da música dance – Madonna ou Michael Jackson – para abraçar a Americana: Elvis Presley ou Bob Dylan, Leonard Cohen ou Nina Simone. A façanha  do Born To Die é oferecer um pouco de  glamour e modernidade à poderosa onda folk que após dez anos se mostra como uma alternativa à “cultura club”. “Meu álbum é um tributo ao modo de vida rock’n’roll”, diz ela sorrindo, “mesmo que esse não seja verdadeiramente o meu caso, eu tinha o hábito de beber, muito mesmo. Eu não toco em uma garrafa de bebida alcoólica há 7 anos”. É assim que Lana Del Rey encontra a mitologia norte-americana da qual ela se tornou herdeira: do Chateau Marmont a Kurt Cobain, passando por Sinatra e Lolita. Miss Americana? Foi assim que ela escolheu se mostrar em cena no seu magnífico clipe de Born To Die (realizado por Yohann Lemoine): transformada às vezes em Virgem Maria, em papisa e numa rockeira cujas aventuras terminam, obrigatoriamente, mal. Enquanto no plano de fundo uma bandeira americana queima, nós a vemos moribunda nos braços de um It Boy, como la Pietà de Michelangelo. Salvo que aqui os papéis estão invertidos: é a Virgem Maria que se abandona nos braços de Cristo. Uma forma de se confirmar que Lana Del Rey é uma apoiadora da inversão de valores? Sem dúvidas. Uma forma igualmente de assinalar que ela poderia desaparecer dos radares tão rápido quanto surgiu? “Oh, eu não creio que escreverei outro álbum” ela conta, “Tenho a impressão de já ter dito tudo o que eu tinha que dizer…” Para ficar evidente, Lady Lana não terminou de nos fascinar.

 

Por Philippe Nassif e Jess Cartner-Morley
Tradução por Mateus Santana

 

As fotos utilizadas na publicação foram as de Mario Testino para a Vogue, você pode conferi-las em nossa galeria clicando em uma das imagens abaixo:


 

Confira também os scans da revista:


Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
  • Sávio Kurting

    E aqui estamos nós em 2016… O mundo dá voltas.

  • Rafa Capoci

    Pena que Lana jamais escreveu novamente um álbum tão magnifico, envolvente e misterioso quanto Born To Die <3 Até hoje é o meu preferido!

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