‘Gosto de escrever e cantar músicas, mas no palco, outras coisas estão em jogo’, confira a entrevista concedida à T Magazine

por / quinta-feira, 09 fevereiro 2012 / Publicado emEntrevistas

T magazine

 

Uma estrela nasce (e é desprezada)

 

Curvilínea e bonita em um vestido, ela brilha com canções cativantes, tudo com um toque retro, irônico e moderno. Sem se afastar muito do pop, ela é o antídoto perfeito contra a sobrecarga das músicas de Rihanna e Lady Gaga – porque não dizer, uma Adele mais magra, uma Amy Winehouse mais estável? Desde que postou o vídeo de “Video Games” no youtube no último verão, ela acumulou milhões de visitas ao mesmo, shows com ingressos esgotados, e finalmente lançou o seu tão aguardado álbum, que está atualmente no 2º lugar na Billboard Top 200 nos EUA, e em 1º lugar na Inglaterra, Alemanha, Irlanda, Suíça e Áustria. Se você queria criar uma estrela para esse momento, você criaria ela. Algumas pessoas acreditam que é isso o que aconteceu.

Sentada no estúdio do seu produtor, Chelsea, usando jeans e suéter oversize, fumando Pall Mall Blues que divide espaço com – em uma bolsa de pele de cobra – um velho livro de bolso do Tennessee Williams, Lana Del Rey tenta desmentir a história de que seu pai comprou seu sucesso, que ela fez cirurgias plásticas, que ela é apenas uma criação da indústria musical, e todas as outras acusações que rondam ela na Internet. É um absurdo, ou talvez lisonjeiro, mas apesar de suas risadas e sorrisos, isso dói.

Eu conheci todo mundo que tem alguma influência na indústria da música ao longo dos últimos seis anos e eu não servia pra nenhum deles.” diz ela. “Era isso o que todos me falavam. Eu tocava minhas músicas, tentava explicar o que eu estava querendo fazer, e eles me diziam: ‘Você sabe quem é número um em 13 países agora? Kesha‘.”

Há uma fórmula para uma música pop e uma duração pré estabelecida para as rádios. Nada que Del Rey escreve, preenche esses requisitos. “Video Games era uma balada de quatro minutos e meio” diz ela. “Nenhum instrumento nela. Era muito obscura, muito pessoal, muito arriscado, não comercial. Não era pop até estar nas rádios”. E mesmo “Born to Die” – seu primeiro grande vídeo – foi, com seu refrão duplo que nunca aumentava suas batidas, descrita para ela como “outra canção depressiva e monótona”.

Por uma hora, Del Rey e seu produtor Emile Haynie tocam músicas do álbum. Ela ressalta idiossincrasias jazz, letras peculiares e melodias favoritas. Algumas vezes ela canta, e muitas vezes ela se levanta e dança. A última canção que eles colocam é “National Anthem”

Vermelho, branco, azul está nos céus
O verão está no ar e, baby
O paraíso está nos seus olhos
Eu sou seu Hino Nacional

Eu canto o Hino Nacional
Enquanto estou
Sobre seu corpo

Dinheiro é o Hino
Deus, você é tão lindo

Pode não ser a sua música mais complexa liricamente, mas parece emblemática. Como ela fez no vídeo de “Born to Die” (o qual ela envolve seu corpo em uma bandeira americana), ela iguala sua sexualidade ao hino nacional. E ela conscientemente confunde o amor com o sucesso material. Parece uma piscadela para o ouvinte. E a geração do twitter ama piscadelas.

Há também um pouco da música “Party in the USA” da Miley Cyrus. Em ambas você pode dançar sozinho em seu quarto, cantar junto em seu conversível com a capota abaixada ou (pode surpreender os produtores da Disney da Miley) encontrar-se girando em uma rave ilegal em um armazém. Considerando que a canção de Miley é uma confecção pop suave que acabou ficando legal, a música da Lana vem de algum lugar escuro e não estruturado musicalmente e acaba com o apelo pop.

Eu explico a minha teoria para Del Rey, de uma forma indireta, e ela balança a cabeça, canta um pouco de “Party in the USA” e pondera a questão por alguns momentos. “Eu realmente gosto desse refrão” ela diz. “Eu amo uma melodia interessante

Haynie é mais direto. “Essa é a beleza da coisa”, diz ele. “Esse é o tipo de magia. Ela é muito legal. As canções são tão legais iguais elas soam, sonoramente e esteticamente. Mas é como, ‘Espera ai, isso pode ressoar com o mundo’. Ela começou sem qualquer sucesso, uma incógnita, e agora algumas dessas gravações são realmente boas. Quero dizer, isso é o que eu ouvi quando as escutei. É legal, e é escuro, mas eu pensei, isso pode ser grande, sabe?”

Nos fomos até um restaurante na 10th Avenue que seu agente de publicidade tinha escolhido. Parece brega. “Você quer apenas tomar um café no outro lado da rua, e sentar-se em uma varanda? Não está muito frio?” Ela pergunta. Eu concordo, embora esteja, de fato, muito frio.

No lugar da pizza ela pede um grande café sem açúcar e muito leite. O garçom vê o velho livro de bolso Tennessee Wiliams em sua bolsa, o que provoca uma conversa sobre filmes de 1950 e Elizabeth Taylor como Cleópatra.

Então ele pergunta, “Vocês dois são um casal?” olha para mim e diz “Hoje é seu dia de sorte. Eu desejo ter uma sorte igual à sua”.

A presunção não o impediu de flertar com Del Rey. “Xícara grande para você”, diz ele, entregando-lhe o café. “Só um beijinho para mim”.

Del Rey ri e flerta de volta com ele: “Claro, só um beijinho. Onde você quer?

Não houve beijo, mas o assunto sobre a boca da Lana é algo irresistível. Então, sentados em um dos degraus de um triplex na 25th Street, faço a pergunta aparentemente absurda. “Está tudo bem” ela me assegura. “Eles são lábios reais. Na vida real, os meus lábios não parecem ser tão grandes. Acho que é porque eu cartoonizei as imagens de mim mesma no vídeo de “Video Games” para parecer exagerado.”

Se o vídeo é o culpado por um boato pernicioso, ele também é responsável por fazer com que todos a conheçam. O que ele não fez foi lhe arranjar um contrato de gravação. Não até que Fearne Cotton, uma DJ da BBC, encontrou a canção e a tocou na Radio 1 no último mês de Junho. De repente, todo mundo estava se importando.

“Fiquei impressionada com a maravilhosa combinação de imagens de arrepiar e sua voz assombrosa e a simplicidade da canção no vídeo”. Cotton escreveu em um e-mail: “Eu o assisti cerca de cinco ou seis vezes seguidas e me tornei um pouco obcecada por ele. As letras então começaram a se destacar e se tornou a minha canção favorita do último verão… Eu estava esperando por uma canção como essa”.

Para ela é uma experiência típica. Mas se apaixonar por um vídeo ou uma gravação de estúdio pode  criar expectativas irreais para performances ao vivo de Lana Del Rey. Peça para ela destruir o estilo da Nicki Minaj e você ficará desapontado. Sua apresentação no “Saturday Night Live” em janeiro foi amplamente criticada. Ela me disse sobre sua ansiedade de antemão: “Eu não sou, por natureza, uma desmancha prazeres. Gosto de escrever e cantar músicas, mas no palco, outras coisas estão em jogo. Estou sempre dizendo a mim mesma, não atrapalhe tudo. Não atrapalhe tudo.

Del Rey é uma garota do interior. Ela cresceu Elizabeth Grant em Lake Placid, NY, nem rica, nem pobre. Ela se lembra de quando era criança e ficava se perguntando sobre o significado da vida, e se sentia muito especial por fazer isso. Depois, na escola, ela teve uma aula de filosofia e percebeu que todo mundo era igual a ela. Enquanto se graduava em filosofia na Universidade de Fordham, ela começou a se apresentar em Williamsburg, Brooklyn, e no East Village. Aos 19 anos uma pequena gravadora independente indie assinou um contrato de 10.000 dólares com ela com o nome de Lizzy Grant. “Foi incrível. Eu tinha meu próprio lugar para viver. Eu vivi com esse dinheiro, terminei a faculdade. Naquele momento, eu imaginava ter uma boa carreira, ao mesmo tempo em que eu estudava filosofia e me voluntariava” ela me diz. “É a mesma visão que eu tenho hoje. Eu levo uma vida séria aqui. Tenho uma família muito grande. Sou necessária aqui.”

Necessária para quem? Ela aponta a família, o que faz sentido dado o contexto psicossexual de muitas de suas canções

E sobre amor e perda, a outra nota escura em sua obra? “Eu me senti da mesma forma por um longo tempo, e então eu encontrei alguém por quem eu acho que me apaixonei” ela diz. “Eu só não sabia  que eu podia me sentir de uma forma diferente. O tempo que eu passei com ele se tornou uma espécie de lugar que eu sempre me lembro em minha memória

E a separação? “Bem, a separação é uma parte dela da mesma forma que no meio da perda você tenta encontrar a luz no fim do túnel e não se despedaçar ou fazer coisas autodestrutivas”.

Ela se levanta calmamente, e olha em seu relógio. Está ficando tarde. Ela admite que não tem um encontro importante com alguém da indústria musical, como seu agente de publicidade me disse, mas tem que ficar de babá pra uma amiga.

Antes dela ir, eu a pergunto onde ela mora. Ela está procurando um lugar para comprar, mas agora ela está em Williamsburg, “Junto do meu ex namorado”, diz ela com indiferença, e então explode em um riso nervoso e admite: “Eu vivo em seu sofá”.

Eu a olho com aquele olhar tipo: você acabou de me dizer coisas sobre se apaixonar e separações e você está ficando no sofá do seu ex?

Ela cita a turnê, soltando outra risada envergonhada: “Porque não, eu estou ocupada!

 

Por Jacob Brown
Traduzido por Hallem Anderson

 

Veja em nossa galeria as fotos do fotógrafo Terry Richardson para a revista:


Redação LDRA
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