‘Este álbum sou eu em forma de música’, leia a entrevista concedida ao site The Telegraph

por / terça-feira, 24 janeiro 2012 / Publicado emEntrevistas

Grazia

 

Entrevista com Lana Del Rey: novo álbum Born To Die é “uma coisa linda”

Enquanto a controversa Lana Del Rey se prepara para lançar um novo álbum de um voluptuoso e agridoce pop, ela revela como é , de repente, festejada e difamada ao mesmo tempo. 

 

Lana Del Rey é a garota do momento. Em uma tarde fria de Nova Iorque, vento frio de oito graus negativos, ela entra no átrio de um clube de membros exclusivos com uma aura intocável de alguém transportado no seu própria microclima. Ela parece impecável, tal como sempre foi desde que o mundo a observou – perfeitamente sintonizada com calças apertadas de cor azul, blusa verde e um casaco de camurça, como uma princesa da classe média. Longos cabelos ruivos caem em linhas perfeitas ao redor do seu rosto, profundos olhos castanhos, lançando um olhar firme sobre longos cílios falsos.

Em carne e osso ela ainda mantém uma aparência leve e jovial, mas em frente às câmeras é capaz de mudar agilmente de uma inocência alegre para uma figura mais sombria. É uma qualidade difícil de encontrar, mas está presente nos vídeos, músicas e sessões de fotos que a elevaram repentina e dramaticamente das margens obscuras da internet para o centro da cultura pop, é meio que uma duplicidade, uma sensação de dualidade e contradições. Ela é uma pessoa de muito conteúdo.

Foi o que o mundo tem feito. Em Maio de 2010, Del Rey postou um vídeo caseiro no Youtube de uma enganadora simples música chamada “Video Games”, na qual ela canta numa voz baixa e sensual sobre um momento de amor ocioso e possivelmente idílico para uma melodia dolorosamente triste, filmado com velhas imagens de Hollywood e imagens manchadas pelo sol de Lana. É um clip que tem um poder estranho, de outro mundo, talvez pela falta de batidas, o calmo equilíbrio da sua construção artística aliada com a intensa, no entanto, discreta emoção.

Até o fim do ano,foi visto vinte milhões de vezes, se tornado um hit single no top 10 na marca indie britânica, Stranger Music, conseguido um acordo com a Universal Music, colocado-a na capa das revistas  e como uma artista para se observar, e também ajudou fazer Del Rey a estrela mais falada do ano,  saudada, nas suas próprias palavras, como “Nancy Sinatra gangsta”. Ainda que muito do que foi dito não foi particularmente simpático. Ela era acusada online de ser falsa, criada por Svengalis nos bastidores numa tentativa malvada de conspiração ao pop, uma cabeça-de-vento manufaturada, mimada e super-rica sendo vendida  a um mundo crédulo como uma cantora indie. Insultos voaram rápida e furiosamente à medida que os comentadores falavam de sua autenticidade. Era como se Del Rey fosse boa demais para ser verdade.

É engraçado,” comenta Lana, apesar de ela não estar rindo. “Eu realmente não tenho nenhuma habilidade. Eu não faço nada de extraordinário. Eu nem uso coisas estranhas. Eu levei minha música a gravadoras durante anos, e todo mundo achava assustadora. Eles achavam que as imagens das músicas eram estranhas e quase psicóticas. E então, um dia, foi como se as pessoas decidissem que na verdade não era tão estranho, era realmente perfeito. O fato de que até poderia ser considerado pop é uma revelação para mim. Você sabe o que mudou? Foi tocado na rádio.”

Atrás de uma expressão equilibrada, sem emoções, Del Rey altera sutilmente entre uma provocação marcada e uma ansiedade vulnerável. Estas são as qualidades que você pode ouvir na sua música. Mas a surpresa é que, por baixo da imagem composta artisticamente que ela apresentou ao mundo, a sua sensibilidade se encontra muito perto da superfície. Pois parece que não existe nada irônico ou conceitual sobre Lana Del Rey. “Eu sou 100 por cento sincera,” ela afirma.

Em 30 de Janeiro, Lana vai lançar um novo álbum, Born To Die, que deve estabelecê-la não só como uma grande estrela, mas como um talento real. É uma coleção educada e emocional de músicas lindamente criadas sobre bons tempos e amor ruim, beber na adolescência, angústia existencial, memórias, perda e vingança. Inclui tortuosos, embora espertas, letras prontas para estabelecer paisagens sonhadoras, melodias exuberantes e batidas trip hop. “Eu o acho lindo. Eu acho que é esplêndido. Este álbum sou eu em forma de música. Então se parece que tudo se encaixa perfeitamente, é porque é verdade. Nada foi alterado, nada comprometido, elas são perfeitamente eu. Para o bem ou mal, é como uma pessoa em forma de música e vídeo.

No núcleo do álbum existe uma dicotomia – a qualidade de estar triste sem estar infeliz, que é refletida na música-título. “Existe um sentimento de perda. Eu costumava me perguntar se o plano de Deus era que eu ficasse sozinha durante grande parte da minha vida. Mas eu encontrei paz. Encontrei felicidade nas pessoas e no mundo. Então sim, tem um toque triste, mas também de verdadeira alegria. Parece como uma mistura entre dois lindos mundos se encontrando.

Então ela realmente pensa que nós nascemos para morrer?

Não, eu acho que nós nascemos para viver.

O nome de nascimento de Lana é Elizabeth Grant. Ela nasceu há 25 anos atrás e foi criada na pequena cidade de Lake Placid, na região rural de Nova Iorque. O pai dela é um empresário imobiliário, a sua mãe é uma publicitária executiva, e embora eles se encontrassem confortáveis na classe média, ela reclama que, ao contrário do que a internet especula, “eles não são milionários. Não havia muito dinheiro. Era apenas uma vida.” Apesar das acomodações, parece que a vida pessoal de Del Rey era tudo, menos sossegada. “Quando eu era muito pequena, eu lembrava bastante que a minha mãe, o meu pai e todo mundo que eu conhecia iria morrer algum dia, e eu também. Eu tinha meio que um crise filosófica. Eu não conseguia acreditar que nós eramos mortais. Por alguma razão esse conhecimento meio que ofuscou a minha experiência. Eu fui infeliz por algum tempo. Eu me meti em muitos problemas. Eu bebia muito. Foi um período difícil na minha vida.

Ela fala frequente sobre bebida na adolescência, e diz que não bebeu nada nos últimos oito anos. Pressionada sobre o quão ruim isso foi, ela responde: “Ruim o suficiente para que eu tivesses que parar.” Quando ela tinha quinze anos, foi enviada para um internato em Connecticut, um evento que ela relembra na música de encerramento do álbum, “This Is What Makes Us Girls”, lembrando sobre a sua gangue de meninas de colégio, “uma geração de calouras rainhas da beleza degeneradas”, e o momento em que ela se  encontra em uma estação de trem, acenando adeus, e “crying ’cos I know I’m never coming back / chorando, porque eu sei que nunca vou voltar

Aos 18, ela se mudou para Nova Iorque, estudou metafísica na universidade e aprendeu a tocar violão sozinha. “Eu sempre escrevi. É  a única coisa na qual eu sou boa. Não é difícil, como matemática. Eu não sou péssima, como eu sou como tudo o resto. Mas não precisa ser música. Eu gosto de cantar. Eu também gosto de editar, juntar filmes. Então eu tenho feito tudo isso, mas a minha única ambição era me tornar uma grande escritora.” O seu tema era a sua vida, particularmente uma relação que se tornou amarga, e que inspira músicas como Off To The Races (“I’m your little harlot, starlet, Queen of Coney Island”), Blue Jeans (“You fit me better than my favourite sweater”) and National Anthem (“We’re on a quick, sick rampage / wining and dining, drinking and driving / On our drugs and our love and our dreams and our rage / Blurring the lines between real and the fake”).

Não é minha culpa que o amor se tornou ruim. Eu conheci esta pessoa e ia passar o resto da minha vida com ela. Nós estávamos ambos limpos e sóbrios. Vivemos juntos e depois ele começou a se meter em confusão, então teve que ir. Existem muitas facetas da minha vida, nem todas parecem que poderiam se juntar. Tem sido uma viagem estranha.

Nos seus anos em Nova Iorque, fazendo “trabalhos estranhos” e “ajudando na comunidade, em programas contra o álcool e as drogas”, e tocando no circuito de microfone aberto, Lizzy Grant se reinventou como Lana Del Rey. Mas existe um sentimento de que não foi tanto pelo próprio marketing, suspeitado pelos seus críticos da internet, mas foi como um processo normal de descoberta própria. “Não é como se eu estivesse dividida entre duas personalidades diferentes. Não existe distinção. Nem um pouco. Eu queria um nome que fosse tão belo quanto a música. Assim como a única razão pela qual eu uso velhas filmagens de Hollywod é porque  eu gosto da cor e da textura, não para por mensagens subliminares americanas, ou para indicar a glória de décadas passadas. Eu não sinto a necessidade de mudar para outro mundo ou personagem pois eu habitei o mesmo mundo e a mesma pessoa durante um longo tempo. Eu sou muito feliz com isso. Qualquer pessoa lhe dirá isso.

Del Rey pode ter sido inventada pela internet, e de uma maneira, ela foi. Ela é uma criança destes tempos e desta tecnologia. Ela tomou uma identidade adequada para si e descobriu uma maneira de apresentar o seu mundo na música e vídeo, juntando clipes de velhas imagens. Ela lançou um álbum independente em 2007 que vendeu tão mal que a empresa o removeu: “Não havia dinheiro para o suportar, então eles pensaram guardá-lo para outra ocasião.” Ela esteve contando a sua história na sua maneira genuína, para uma audiência dela própria e de seus amigos. E depois o mundo a viu, a exaltou, e depois, na maneira acelerada da nova mídia, críticas começaram antes de ela ter realmente começado.

Fica frio no quarto à medida que a entrevista prossegue, à medida que a brisa petrificante de Nova Iorque entra. “Eu sei o que as pessoas pensam de mim,” diz Del Rey, puxando o seu casaco para os seus ombros. “Eu não entendo, não vejo o porquê de ser esse o ângulo. E eu sou uma pessoa esperta. Quero dizer, por quê?

O que os espalha-rumores e trolls da internet não veem é o efeito que todo este bullying virtual tem na pessoa que se encontra no centro dele. Del Rey fez um disco que merece ser ouvido, mas diz que não quer fazer tour, não quer sair de Nova Iorque, ela quer “manter as coisas pequenas. Tudo o que eu queria era fazer algo belo, e acho que eu fiz isso.

A sua aparência nervosa no popular programa televisivo americano “Saturday Night Live” na última semana levou a mais abuso na internet. Mas a coisa é, Lana está nervosa, mas com uma boa razão. “Eu não quero falar sobre como isso me fez sentir pois acho que é uma falta de respeito a Deus ir a um lugar tão sombrio com este tipo de coisas. As pessoas querem ver eu sair da linha. Essa é a única razão pela qual elas assistem. Elas apenas querem ver o que acontece.” Os seus críticos questionaram a sua autenticidade, mas Lana parece completamente humana. Eu pergunto se ela tem medo do que libertou. “Você acha que eu tenho?” ela pensa, voz trêmula, a mão tocando seus olhos. “Bem, talvez você esteja certo. Mas eu não revelaria.

 

Por Neil McCormick
Traduzido por Bruno Rebelo

Redação LDRA
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