‘Subir aos palcos é contra minha natureza, não sou exibicionista’, confira a entrevista feita pela revista francesa Les Inrockuptibles.

por / quinta-feira, 05 janeiro 2012 / Publicado emEntrevistas

Les Inrocks 2012 1

 

Lana é capa da edição de janeiro da revista francesa Les Inrockuptibles e concedeu uma entrevista a Jean-Daniel Beauvallet. Nela, boatos são desmentidos, ela fala sobre o início de sua carreira e sobre o processo de composição de músicas como “Video Games” e Blue Jeans”. Leia abaixo a tradução completa.

 

Lana Del Rey: o nascimento de um ícone

Apenas duas músicas lançadas e Lana Del Rey já está na boca de todos. Às vésperas do lançamento de um álbum emocional e racional, a inquietante americana nos recebeu para silenciar alguns rumores. Liderando os charts, ela se surpreende com o sucesso de suas “estranhas músicas”.

Desde seu surgimento, fantasmagórico, nos palcos europeus, falou-se muito dos lábios de Lana Del Rey. Muito opulentes para serem reais, eles seriam, como sua dona, a criação de um cientista louco. Pena que tem-se dado tanta atenção aos seus lábios e tão pouca ao que sai deles, o canto fluido e tóxico de uma sereia, que nos faz ir cegamente aos seus abismos de delícias, a menos que seus ouvidos estejam tampados.
Algumas lendas rondam Lana Del Rey, nascida Elizabeth “Lizzy” Grant: ela seria filha de um magnata (falso), e teria, durante sua juventude, sido a cobaia dócil de um fabricante de pop-stars em série, suficientemente maleável a ponto de lançar um álbum de pop-xarope e a vestir sedutores decotes. Nós não ouvimos, no entanto, nada dessa vulgaridade chamativa nas canções de seu primeiro álbum que foi lançado na internet, desse protótipo de pop vaporoso que faz sucesso hoje em dia. Sem origens, atirada à tempestade de uma reputação sem precedentes, a americana lançou apenas duas canções em 2011, as imponentes Video Games e Blue Jeans, e já é amada ou adorada com uma paixão incomum. Ela é o rosto pop do momento, e os hipsters já estão punindo-a por dois crimes cometidos contra a moral de seus dogmas: possuir um passado e possuir um futuro. Mas o grande público, que comprou centenas de milhares de cópias de suas duas músicas, não se importa tanto com esse tipo de coisa. Todo artista tem direito a uma juventude e aos seus erros. Assim são os artistas pop: eles se transformam em um, não nascem assim.

Para aqueles que ainda duvidam da veracidade absurda de seu canto, nós vimos Lana Del Rey recentemente em um concerto acústico em Londres. Em um cenário de um piano-bar em Las Vegas, ela fez um show de tirar o fôlego que a fez ir num piscar de olhos de uma funérea Mazzy Star a uma cantora sentimental ao nível de Shirley Bassey. Uma mestre vocal de tom autoritário, que contrasta com o desconforto corporal no palco. Atrapalhados por si mesmos, seus dedos serpenteiam e se enredam na sua saia ou no fio do microfone. Ela inventou então um tipo de lounge-music espectral, com acentos góticos, ferozmente cinematográfica.

Seu jovem gerente Ed diz sobre ela: “Onde quer que ela vá, as pessoas tentam tocá-la, como se ela não fosse real…” A primeira vez que nos encontramos com Lana Del Rey, nós fomos efetivamente atingidos por sua irrealidade: era uma pessoa diferente, uma mulher virtual, poderia até ser um holograma. Como se em um incêndio, ela tivesse se transformado da forma ondulante de Lisa Marie Smith em Mars Attacks. Mas nós não precisamos tocar nela – especialmente em uma suíte de hotel, onde há muita jurisprudência – para medir o quanto ela era de carne e osso, encarnando miraculosamente a excentricidade, a beleza e os mistérios de suas canções. Até agora, a cantora não fez nada concreto para explicar o seu passado e sua redenção, fugia de entrevistas ou, quando as aceitava, esquivava-se das perguntas. Daí a raridade desta entrevista, a mais longa e mais pessoal que ela alguma vez concedeu.

Jean-Daniel Beauvallet: Qual é sua lembrança mais antiga de cantar?
Lana Del Rey: Lembro-me de quando eu ficava com minha avó, nós cantávamos Donnie Brasco e pela primeira vez eu senti prazer em cantar. Eu também cantava na igreja, na escola, em todos os lugares… Mas não foi o que escolhi como profissão. Eu não tenho nenhuma disciplina, nenhuma técnica, nunca tive nenhuma aula de canto. Eu apenas gosto de brincar com minha voz, do tom mais agudo ao mais grave. Quando me ouço cantando, a autoridade de minha voz me impressiona. Parece ingênuo dizer isso mas eu adoro minhas músicas, eu choro com elas… Quando estou sozinha no estúdio, em frente ao microfone, me sinto livre, capaz de tudo… Eu me sinto mais do que segura nestes pequenos cofres que são minhas músicas. Na vida, não sou boa em muitas coisas: meu único talento é cantar. Em uma canção eu sei exprimir exatamente o que eu sinto, mais até que numa conversa. É um verdadeiro alívio não ter que explicar tudo explicitamente.

JDB: Como você explica aos seus produtores o som que você deseja para suas músicas?
LDR: Eu os peço, por exemplo, que os instrumentos de corda soem como um encontro de “American Beauty” com Bruce Springsteen em Miami. Ou eu digo a eles: “Pensem em um estudante que picha os muros para se libertar”.

JDB: Você gostaria de compor trilhas sonoras?
LDR: Sim, combina bastante comigo. Tanto que os arranjos que usamos no disco vieram todos do cinema. Eu sou muito sensível aos filmes, eu adoro por exemplo a trilha sonora de Thomas Newman para “American Beauty”, a da série “O Poderoso Chefão”, a de “Scarface”… Os filmes são uma terapia pra mim, eu os assisto sozinha, sempre os mesmos, esperando seus finais felizes. Eles me inspiram musicalmente, especialmente pelos instrumentos de corda, mas não pelas histórias, porque são auto-biográficas: eu não posso pegá-las emprestadas, não posso mentir.

JDB: Porque inventou o personagem Lana Del rey e abandonou seu verdadeiro nome, Elizabeth Grant?
LDR: Não há nenhuma diferença entre as duas, nenhum personagem. Me chamam de Lana e de Lizzy indiferentemente. Quando eu era jovem, eu era sobretudo uma escritora, Lana era meu projeto artístico, o grupo que eu jamais tive. Eu não uso uma máscara. Lana não me traz nada diferente.

JDB: Você trabalha muito?
LDR: Francis Ford Coppola uma vez disse: “Se você se sentar no mesmo lugar todos os dias, sua inspiração saberá onde te encontrar”. Eu tentei fazer isso, mas não funcionou. Minha inspiração vem quando quer, onde quer. Às vezes. ela me abandona por meses. Mas eu já não tenho medo de sua ausência. Eu sei que ela sempre volta e me entrega uma canção repentinamente, quando eu menos espero. Eu não preciso de um lugar específico para recebê-la pois eu tenho minha trilha secreta há oito anos. Ela começa na rua 59 (em Nova Iorque), seguindo pelas docas até o Canal Street, passando por Chinatown e pelo bairro italiano, e depois volto pelo East Side… Percebi que para minha mente viajar, meu corpo deve estar se movendo. Eu encontrei Lou Reed várias vezes, ele aparentemente usa a mesma técnica! Eu sempre fiz isso, desde minha infância em Lake Placid, ao norte de Nova Iorque, próximo à fronteira canadense. Eu ia sozinha para florestas… Era muito isolado, montanhoso e escuro, tinha um lado meio Twin Peaks (um seriado de David Lynch). Não me admira que eu me sinta em casa nos filmes de Lynch! No início de minha carreira, alguns descreveram minha música como “lynchiana”. Nós dois temos corações negros, sem dúvida.

JDB: Quando você começou a escrever?
LDR: Muito jovem. Primeiro poesias, depois contos, e por fim músicas, que eram terríveis no início. Estudei filosofia e metafísica. Eu devo esta paixão pelas palavras ao meu melhor amigo Gene, meu professor de inglês na época. Ele me apresentou, aos 15 anos, os livros de Jack Kerouac, Allen Ginsberg… De repente, eu não tive mais a impressão de estar sozinha, perdida em meus sonhos. Finalmente eu sabia que havia pessoas como eu, um pouco bizarras, meio fora do padrão. Fui verdadeiramente salva por esses poetas, eles abriram uma imensa janela para mim e me tranquilizaram sobre minha saúde mental. Em Lake Placid, não havia muitas pessoas com quem eu pudesse compartilhar meu mundo: os livros se tornaram meus amigos íntimos. Eles me falavam de Nova Iorque, de pessoas de quem me tornei íntima. Percebi isso quando estudei filosofia, cercada de pessoas que não tinham vergonha de fazer perguntas do tipo “Por que nós existimos?” ao invés de “Como estará o tempo amanhã?”.

JDB: Por que você se lançou na música?
LDR: Quando eu cheguei a Nova Iorque, aos 18 anos, uma pequena gravadora me ofereceu 10 mil dólares para fazer meu primeiro disco. Passei um ano em meu quarto na Rua 42, aperfeiçoando-o, produzindo-o. Ele me serviu como uma válvula de escape, eu precisava me purificar de meus pensamentos sombrios. O resultado foi magnífico. Mas ninguém o ouviu, exceto alguns fãs que me acompanham até hoje. É um disco muito sombrio, desconfortável. Eu era apenas uma garota de 18 anos, o meu som amadureceu desde então, mas para mim não há nenhuma grande revolução entre este álbum e o seguinte: apenas um buraco negro de seis anos. De qualquer maneira, eu não vou ficar defendendo minha autenticidade, minha credibilidade. No fundo, nem me sinto como uma cantora de palco… Eu sou em primeiro lugar uma escritora, e depois uma cantora. Subir aos palcos é contra minha natureza, não sou exibicionista.

JDB: Se apresentar nunca foi um prazer?
LDR: Fico concentrada demais pra me soltar, tenho medo de errar, então quero tudo sob controle. Quando eu vejo imagens de Jeff Buckley, aquela liberdade sem precedentes, percebo que ele realmente incorporava a música. Eu não. Não consigo fugir de quem eu sou. A música era a vida dele. Eu penso constantemente nele. Em Elliott Smith também. Mas tive que me livrar de todos os seus discos, senti uma hostilidade, algo ruim…

JDB: Você é uma sonhadora?
LDR: Eu era imatura, até que me recusei a fugir da realidade, que aceitei ver a beleza dela. Acordei e adoro o mundo em que vivo. Minha música é muito vaga, sonhadora, então eu compenso com letras cruas enraizadas no cotidiano. Não trapaceio. Eu fui educada com valores tradicionais mas minha vida nunca foi muito ortodoxa. Eu sempre ouvi meus instintos, segui um caminho complexo, mas pessoal. Os únicos valores que guardei e dos quais não me desfaço são a honestidade e a integridade. Na escola, os professores entenderam isso rapidamente. Eu era livre , eles me deixavam aprender sozinha, no meu ritmo. Sempre vivi assim, seguindo minhas próprias ideias, me questionando incansavelmente. E eu tive medo: de fazer minhas músicas, de não alcançar meus objetivos.

JDB: Sua vida começou de verdade quando você chegou em Nova Iorque, aos 18 anos?
LDR: Nunca tive problemas com meus pais. Quando crianças, mesmo não tendo muitos discos em casa, nós cantávamos o tempo todo entre nós. Mas minha aprendizagem da música, no palco ou nos discos, eu vivi efetivamente quando desembarquei em Nova Iorque. Descobri ao mesmo tempo Sinatra, Dylan, Jeff Buckley, Nina Simone, Elvis, Nirvana… E lá eu fiquei: eu encontrei a felicidade. Eu escuto os mesmos discos de forma contínua, obsessivamente. É raro eu ouvir alguma coisa diferente: a última vez, foi a coletânea de hip-hop Odd Future.

JDB: Você analisa muito o que escuta?
LDR: Não analiso nada, meu cérebro entende as coisas de maneira natural. De qualquer forma, musicalmente não me servem de nada: a música dos outros não inspira a minha. Também sou totalmente incapaz de descrever minhas músicas e suas influências. Ela é apenas… muito estranha. Amo quando minhas canções e eu somos apenas um, eu me senti assim quando escrevi “Video Games”. Depois eu escrevi “Blue Jeans” rapidamente na praia de Santa Monica, e lá eu soube que esse seria o clima do álbum: algo como um verão sombrio, como aproveitar o calor dele e saber que isso não vai durar para sempre. Eu imediatamente senti que “Video Games” seria uma música importante para mim. Ela veio de “Yayo”, uma música de meu primeiro álbum que eu amo. Mas eu jamais imaginei que ela se tornaria popular: é muito longa, muito pessoal.

JDB: Como em todas as suas músicas, temos uma mistura de racional e emocional…
LDR: (Ela interrompe)… Sim, exatamente isso. Mesmo que eu tenha passado a maior parte da minha vida presa em minha própria mente, eu sou assombrada pelo prazer físico. Eu adoro minha música “Born To Die” por isso: aninhada em seus braços, eu sinto a paixão do meu amor, uma verdadeira metamorfose neurológica. Ma faz escapar de minha realidade mental. Amo unir esse sentimento de êxtase com essa obsessão de que tudo termina com a morte… Não conheço nenhuma combinação melhor que emocional e racional.

 

Por Jean-Daniel Beauvallet
Traduzido por Mateus Santana

 

Vaja também as fotos feitas para esta edição da revista pelo fotógrafo Nicolas Hidiroglou em nossa galeria (clicando em uma das fotos abaixo)


Redação LDRA
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