‘Não tenho tanto o que dizer. Não sou tão legal’, leia a matéria publicada no jornal espanhol El País

por / domingo, 15 janeiro 2012 / Publicado emEntrevistas

El País

 

Todos alfinetam Lana Del Rey

Uma recém-chegada de 25 anos se tornou em um grande fenômeno mundial devido a uma única música, “Video Games”, que chegou a 16 milhões de visualizações no Youtube. O álbum debut desta nova-iorquina, “Born to Die”, está a ponto de sair.

Ao que parece, tudo começou com um vídeo colocado no Youtube em algum momento do último verão. Uma ação espontânea segundo sua cantora, Lana Del Rey: “Simplesmente coloquei a música na Internet porque era a minha favorita. Não era nem ao menos para ser um single. É um tema que significa muito para mim, me faz chorar toda vez que canto”, explicou em setembro a uma jornalista britânica. Nessa altura, o vídeo, filmado e editado por ela mesma, já era um fenômeno viral. A música se chama Video Games e o clipe era apenas uma montagem de imagens sem uma ligação. Cenas urbanas, fragmentos tirados de um material comum na Internet: skatistas em preto e branco, extratos de super 8* do passeio das estrelas pela Sunset Boulevard, gaivotas voando sobre um lindo mar azul e quente, ou partes de filmes dos anos 50.  De vez em quando apareciam cenas da intérprete e, como ficamos sabendo depois, também autora, Lana Del Rey.

Tinha físico de campeã: os lábios aparentemente siliconados de Mick Jagger, as curvas e os cabelos de leão de Rita Hayworth e os cílios intermináveis de Elizabeth Taylor. Quer dizer, uma estrela de cinema, mas vestida com camisetas e jeans da American Apparel. Sua música era outro cavalo ganhador: uma voz lânguida e sensual, e uma letra sobre corações partidos, a respeito de um homem que a ignora, construída em torno de uma melodia ligeiramente Torch**, essa tradição que vai de Billie Holiday a Antony and the Johnsons, e sempre com um toque hollywoodiano. Uma simbiose entre o retrô e o absolutamente contemporâneo. Era uma Chris Isaak feminina e renovada, uma Belinda Carlisle do século XXI, uma Cat Power menos atormentada. Era um sex symbol, uma it girl, uma starlet. E Video Games era seu Wicked Game. Tem esse mesmo toque perverso e sexual. E de repente ela se auto definiu: “Sou uma Nancy Sinatra gangster [subcultura criada em torno das bandas juvenis de Los Angeles]”. Havia nascido a primeira diva vintage no estouro da era Internet.

Hoje, seis meses depois de sua aparição, esse vídeo caseiro se aproxima das 16 milhoes de visualizações e o lançamento mundial de seu álbum de debut, Born to Die, previsto para o final de janeiro, será, se sair como está previsto, o primeiro acontecimento musical de 2012. A indústria apostou nela sem demora.

Em outubro se anunciava seu contrato com a Interscope, uma filial da poderosa multinacional Universal, quando apenas três meses antes tinha assinado o contrato com Stranger Records, uma gravadora desconhecida, a mais animada. Uma curiosidade: por trás da Stranger está aparentemente um velho conhecido da música espanhola: o britânico Cameron Jenkins, um nome que ficou conhecido entre os fãs de Amaral. Jenkins foi o produtor dos discos de Eva Amaral e Juan Aguirre, como Estrellas de Mar, Pájaros en la Cabeza e Gato Negro, Dragao Roxo. A dualidade Lana Del Rey: disputam tanto os grandes quanto os pequenos.

Se tivéssemos que buscar um caso próximo e parecido, seria o de Lady Gaga. Em muitos aspectos se parecem tanto que é muito duvidoso que as semelhanças sejam casuais: não só pela rapidez de ambos os fenômenos (faz dois anos que ainda nos perguntávamos se “Gaga” se escrevia junto ou separado e ela já começava a quebrar um recorde atrás do outro). Nem sequer porque as duas compartilham de uma mesma estratégia, a construção de um personagem que oculta a pessoa, até se fazer impossível distinguir o que é realidade e o que é manipulação. Ou pelo similar da origem de seus pseudônimos artísticos: se Lady Gaga assegurava que seu nome era uma homenagem a Radio Gaga, música do Queen, Lana Del Rey afirma que o seu é uma combinação do nome de Lana Turner, a atriz da época dourada de Hollywood, e de um modelo de carro: o Ford Del Rëy, uma berlina de luxo posta a venda em 1981 e retirada do mercado em 1989. Nem porque ambas sejam o produto perfeito pós-moderno, feito de retalhos de artistas que vieram antes que elas. Pedaços perfeitamente reconhecíveis, nada dissimulados. Lady Gaga se apoia na Madonna; Lana Del Rey parece ter sido tirada de um projeto de David Lynch. Não destoaria como secundária em Blue Velvet, poderia ser uma personagem de Twin Peaks.

Outra similaridade: compartilham biografia. As duas nasceram em Nova York no mesmo ano, 1986. E assim como antes de Lady Gaga estava Stefani Joanne Angelina Germanotta, uma italoamericana de boa família, antes de ser Lana Del Rey, uma personagem transplantada de um night club de Los Angeles dos anos 50 a seu equivalente no século XXI, Lana foi Elizabeth Grant, Lizzy, a primeira filha de Robet Grant. Este empreendedor passou por vários negócios até se tornar milionário investindo em domínios de Internet e terminar formando sua própria empresa, Rob Grant & Associated, uma imobiliária com base em Lake Placid, de 2800 habitantes, nos Adirondacks, uma zona turística no norte do estado de Nova York, perto do Canadá.

Ali cresceu Lizzy Grant com seus dois irmãos mais novos. E ali começou a sua carreira. De fato, uma das primeiras entrevistas conhecidas de Lana Del Rey aparecia em janeiro de 2010 no Adirondack Daily Entrepise “o único jornal diário do parque Adirondack”, segundo dito no cabeçalho. O título era o mais informativo: “Lizzy Grant, pelo pseudônimo de Lana Del Ray, lança seu primeiro disco”.

Se o “Del Ray” é uma errata ou era mesmo a primeira encarnação da personagem, não se tem certeza. Ela mesma reconhece que o nome artístico foi criado por um grupo de empresários e advogados. Os mesmos que a impediram de ser parte de uma banda, como ela desejava, e a levaram a iniciar uma carreira solo.

Naquele momento, sua imagem estava bem menos elaborada: nas fotos aparecia com um loiro platinado, envolta por uma bandeira estadunidense, como se fosse um vestido, segurando um microfone antiquado. Um mimetismo de Britney Spears, uma de suas influências reconhecidas (ainda que seja necessário adicionar a ela nomes como Nirvana ou Elvis Presley. E ultimamente também mencionou Dylan e Leonard Cohen). Em entrevista, seu pai conta como sua voz era cativante desde pequena, e como ela havia crescido cantando em coros e o quanto estava orgulhosa de seu primeiro trabalho, Kill Kill, um álbum gravado com David Kahne, que já colaborou com No Doubt, Springsteen, The Strokes e Paul McCartney. “David me pediu que fizéssemos uma colaboração juntos um dia depois de escutar meu trabalho. Ele tem uma reputação de produtor íntegro, interessado em fazer música que não seja apenas pop”, justificou.

Aquele álbum passou completamente despercebido. Estava a venda no iTunes, mas desapareceu misteriosamente. Restam traços e seu antigo site lizzygrant.com agora redireciona para a grande página de Lana Del Rey. Em teoria, porque agora está focada no futuro e isso é passado. Um fracasso comercial que não levantou nem ao menos a presença da equipe promocional de seu pai nas peças de marketing. Curioso, pois foi nesse campo onde começou a ganhar a fortuna que o levou a ser um milionário. Na realidade, Grant conheceu a mãe de Elizabeth nos anos 70, quando ambos trabalhavam em publicidade. Ele como criativo, ela como executiva de contas.

Entretanto, Lana Del Rey se tornou um objeto de discussão em fóruns de todo o mundo. Agora que já é uma estrela, parece um pouco banal continuar tentando descobrir se é uma “Frankenstein do indie”, como dizem os difamadores, uma marionete nas mãos de um grupo de produtores inteligentes, de gênios de marketing nas sombras, ou se é um artista autêntica, uma pessoa moldada por si mesma, mas a quantidade de linhas que foram escritas para analisar esse assunto continua assombrando. Foi o debate musical do outono. Este mês estampa as capas da revista francesa Les Inrockuptibles e da inglesa Q. O single Video Games entrou em praticamente todas as listas do melhor do ano. Para o diário The Guardian e o semanal New Musical Express, foi o de maior destaque de 2011 e ocupa o 19° lugar das escolhidas pelo pitchfork.com, o site mais influente da galáxia indie; o mesmo que colocou os canadenses Arcade Fire, até então desconhecidos, no lugar mais alto.

E ela, o que tem a dizer? Garante que se mudou para Nova York com 18 anos sem apoio econômico de seus pais, que, no entanto, nunca tentaram impedi-la de seguir seus sonhos e a apoiaram a distância. Que, ainda que em teoria se mudou para a grande cidade para ir à universidade, logo se viu metida no meio de cantores aficionados. Essas noites de microfones abertos para quem quisesse participar. Que não teve outra alternativa senão viver em um trailer durante cinco anos em Nova Jersey porque era o que podia pagar. Até que sua sorte mudou e chamou a atenção de uma gravadora tão pequena que ela era a única artista, ainda que aquilo acabou não rendendo frutos. Sobre o assunto de se ela é Lizzy ou Lana, ela escreveu: “Não existe uma autêntica eu e outra eu. Somos a mesma pessoa, é só um nome diferente. Elvis também tinha uma boa equipe atrás dele”.

Não mudaria nada de sua carreira, garante, nem sente excessiva pressão pelo que vem a seguir. Mas se voltasse a começar, tentaria não criar tanto mistério a seu redor. “Não tenho tanto o que dizer. Não sou tão legal. Há dias nos quais eu simplesmente gostaria de acabar comigo”.

* Super 8 é um formato de filme desenvolvido pela Kodak em 1960
** Torch é o décimo álbum de estúdio da cantora Carly Simon, lançado em 1981

Por Iñigo López Palacios
Traduzido por Isabela Guiaro 

Redação LDRA
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