Em entrevista ao PrefixMag, Lana Del Rey fala sobre fé, Bon Iver e atuação em seu trabalho

por / terça-feira, 22 novembro 2011 / Publicado emEntrevistas

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Em novembro de 2011, prestes a lançar o clipe e single Born To Die, Lana Del Rey concedeu uma entrevista a revista PrefixMag, onde falou  sobre fé, Bon Iver e atuação em seu trabalho. Confira a tradução abaixo:


Lana Del Rey não será seu exemplo; ela não quer ser. A cantora de 24 anos de idade, que primeiro tentou uma carreira sob o nome Lizzy Grant, foge de interagir diretamente com o público, que é uma das razões pelas quais ela tem recebido tanta atenção desde sua estreia de verão, “Video Games”.

Depois de capturar os corações de meninos indie e blogueiros, o trabalho de Lana Del Rey como Lizzy Grant se tornou um “segredo” tirado do baú, que ela não parece assumir responsabilidade por isso. Para sua vantagem, conversas sobre sua autenticidade e onde sua música pertence, fizeram mais barulho que suas canções “Video Games” e “Blue Jeans”.

Tão nervosa quanto ela estava quando nós conversamos no telefone, Lana Del Rey é pelo menos coerente. E fascinante, considerando que seu punhado de singles tem sustentado seus fãs e críticos enquanto seu disco de estreia ainda está há meses de ser lançado.

Nada menos que de olhos arregalados como quando ela começou como uma cantora de bar em Williamsburg, Lana Del Rey/Lizzy Grant parece despertar a mesma pergunta: O quanto de controle artistas femininas deveriam ter no seu trabalho?

Nós fizemos essas perguntas a ela e discutimos seus pensamentos sobre , suicídio e Bon Iver.

Prefix: Você cantou no coral da igreja e usa uma cruz em suas fotos promocionais. A sua fé é algo que você quer que as pessoas associem a sua música?
Lana: Eu realmente não acho que minha fé é algo que eu planejei para as pessoas associarem com minha música. Embora eu realmente tenha cantado no coral da igreja quando eu era menor, foi mais por ter sido em uma cidade pequena e era o que as pessoas faziam. A fé que eu tenho agora na verdade não vem de uma religião organizada. É uma resposta tão hippie. Mas ela vem através de minhas próprias experiências de vida, rezando meu caminho através de tempos difíceis. É meu entendimento de um poder universal. Eu não tenho certeza o quanto isso vem da igreja. Eu uso sim uma cruz, mas é porque eu gosto da imagem dela. Eu acho que todos esses pontos juntos culminam em uma espécie de modelo que você possa pensar que eu seja, mas eles são meio que apenas coincidências.

P: Quando você ora?
L: Eu espero que as pessoas não me façam parecer uma espécie de evangélica. Não é assim. Eu oro quando eu sinto que preciso de ajuda, se eu estou em apuros. Noite passada [Eu orei]. Eu penso que quando você passa por muita coisa e você meio que esgota todas as suas fontes, e você está deitado na cama à noite, você não sabe realmente o que fazer, sua última alternativa é orar a quem quer que esteja lá fora.

P: O que te levou a orar noite passada?
L: Eu tenho estado nervosa sobre o caminho que as coisas estão tomando. Eu não quero que nada grande aconteça comigo; Eu só quero manter a paz que de alguma forma eu tenho tido durante os últimos cinco anos da minha vida.

P: Paz com a sua carreira ou paz mental?
L: Definitivamente paz mental. Eu não tive paz com a forma como as coisas estavam indo no início mas eu só me adaptei a isso. Eu queria uma carreira onde eu pudesse fazer a música que eu quisesse e um algum tipo de turnê, se eu quisesse, mas essa é, na verdade, uma grande ambição! Eu não fazia idéia. Eu pensei que se você é um bom cantor isso estaria em seu alcance. Mas há tantos bons cantores por aí e isso é difícil: é preciso dinheiro para uma turnê, e é preciso dinheiro para fazer álbuns – especialmente se você quer fazê-los da maneira que quiser.
Eu fiquei em paz com o caminho que as coisas estavam tomando cantando em Nova York e tendo meus amigos e minha própria fan base pequena. Eu tive paz mental porque eu senti que eu estava fazendo a coisa certa com minha vida, e sendo uma pessoa boa, e isso me trás paz mental.

P: Você disse que queria fazer música do seu jeito. Você vai manter controle completo sobre seu álbum?
L: Parece que isso é possível. Quatro semanas atrás eu assinei com algumas grandes gravadoras mas, pelo que eu entendo, a razão delas assinarem comigo foi porque o que eu estava fazendo estava funcionando. Então, nas últimas quatro semanas todo mundo tem sido prestativo em me deixar conseguir o que eu quero.
Eu estou cansada de fazer meus próprios vídeos, eu não quero fazer isso mais. Por isso, eu conheci esse diretor de filmes francês [Wood Kid] que eu amei de verdade e queria trabalhar comigo e a gravadora inteiramente apoiou isso e pensou que ele era a escolha certa. Ele parece ser uma extensão muito melhor do que eu estava tentando fazer sozinha. E eu queria continuar trabalhando com meu melhor amigo que é um autor de filmes em Hollywood – não na música pop mas em trailers de filmes e essas coisas – e eles amam ele também. Eu acho que fazer o álbum será a parte mais fácil. São as outras coisas que vem com isso que são o motivo de eu não ter certeza.
Eu sinto como se isso fosse um passo na direção certa: ainda trabalhar com pessoas que tem muita integridade mas que são melhores nas coisas que eu.

P: Parece que a personagem em “Blue Jeans” carece de ação. Qual é a sua relação com essa personagem?
L: Quanto mais eu faço entrevistas mais eu estou entendendo que essa é a impressão que as pessoas estão tendo com a combinação de “Video Games” e “Blue Jeans” juntos. Mas eu acho que o que eu estava tentando fazer com essa música era mais uma homenagem ao amor verdadeiro. A verdade é que eu não deixo homens decidirem minha vida. Eu meio que aprendi de maneira difícil como viver pelos meus próprios valores e fazer as coisas para mim mesma, mas nessa música em particular eu encontrei alguém que eu amei muito mas no final não poderia estar com ele. É a mesma premissa do terceiro single para Janeiro, que é honrar o amor verdadeiro mesmo que o destino os separe e não pular de relacionamento em relacionamento mesmo que seu velho amor não tenha acabado. Para mim, é mais sobre prestar homenagem a uma pessoa que visualmente me afetou no começo e depois tornou-se também uma conexão real de alma. E foi assim independentemente da forma como as coisas acabaram, no meu coração eu sei que serei fiel a você. Eu sei que as pessoas pensam que há algo masoquista, mas de uma certa forma, eu estava tentando ser sadia sobre isso porque eu senti que eu ficaria presa a ele mesmo que ele não estivesse lá e talvez algumas pessoas não concordariam com isso. Mas eu penso que se você é o tipo de pessoa que é determinado no amor, é isso o que você faz.

P: Eu não acho que esse poder é uma coisa estável nos relacionamentos. Com frequência ele muda de lados,e as pessoas podem olhar para um relacionamento em um momento, ver um lado ruim, e tirar isso. Mas quão importante você acha que é para as mulheres terem atuação nas músicas que elas cantam?
L: Essa é uma boa pergunta e eu não tenho certeza. Eu acho que é importante ter atuação em sua vida, muito importante porque caso contrário você entra em apuros. Mas artisticamente, eu explorei caminhos diferentes. Eu acho que todos nós aprendemos que você tem que ser responsável por si mesmo e inspirado pela música, mas talvez não procurar nela por direção e orientação. Geralmente não é uma boa fonte para ferrar com a vida 101. Todos acabam se matando.

P: Houveram momentos em que você procurou em uma canção por orientação, mesmo quando você estava tentando superar o rompimento com quem quer que tenha sido esse cara?
L: Eu busquei conforto em melodias que me inspiraram, ou me lembravam da beleza das coisas, e talvez vi inspiração nas coisas, mas em termos de orientação, não, eu não procuro por direção na música. Eu procuro por exemplos especiais – eu acho que essa é uma ideia muito melhor. Se eu quisesse uma vida como a de alguém eu provavelmente estudaria a vida dessa pessoa. Eu sei que a música é poderosa, mas não é meu maior poder.

P: Você gostaria que as meninas de olhassem para Lana Del Rey como um modelo?
L: Eu não sei. O que você acha?

P: Eu acho que uma das coisas mais inspiradoras sobre Lana Del Rey é que ela não tenta mascarar sua feminilidade, o que eu acho que é algo que muitas cantoras indies fazem.
L: Eu acho que é verdade. Eu certamente curto minha feminilidade mas eu não tiro vantagem disso no meu cotidiano. Eu também não planejei usar isso como um veículo para chegar mais longe na música, porque eu tenho cantado por um longo período e se as pessoas não estão interessadas, elas não estão interessadas. Aparências não mudam isso, eu sei por experiência própria.

P: As fotos que eu vi sobre sua carreira como Lizzy Grant parecem muito mais sexualizadas que os shoots promocionais para Lana Del Rey.
L: Talvez, mas existem apenas algumas, e elas foram tiradas pela minha irmã. É difícil saber o interior olhando de fora. Eu não acho que eu estava indo pelo caminho sexualizado porque eu descobri que sexo não é um poder de longa duração. Eu acho que eu estava indo por algo bonito, minha própria versão do que eu achava esteticamente agradável.

P: O que você acha da ideia de feminilidade que está na comunidade indie?
L: É difícil para mim descobrir o que a comundiade indie é. Por exemplo, Bon Iver é considerado indie mas todos sabem quem ele é, então ele não é mais indie.
Existem diferentes níveis na comunidade indie. Existe a comunidade indie real, as pessoas super undergroung, as que ninguém sabem sobre elas – essa é a comunidade indie real. E em seguida, existem as pessoas que meio que explodiram e existe muita informação por aí sobre elas e elas fazem turnês e são como o nível A da comunidade indie. Eu estou tentando pensar nas meninas que estão nessa comunidade, eu realmente não sei.
Eu sinto que eu tenho agido como um agente solitário por muito tempo. Eu queria ser parte da comunidade indie, mas eu não estava na comunidade indie de verdade porque no fundo eu não tinha uma comunidade. Eu realmente não sei sobre essas coisas. Foi só recentemente que chegou ao meu conhecimento que as pessoas estão tentando decidir onde esse gênero caberia.

P: Parece que você tem uma comunidade agora.
L: Sim, parece que sim. Eu não tenho certeza de quem eles são. Tudo que sei é que três meses atrás nada estava acontecendo. Eu tenho conversado com muitas pessoas nos últimos meses e algo mudou. Eu acho que as pessoas realmente gostam dessa música e talvez de “Blue Jeans” também. Eu acho que eu estou encontrando onde eu pertenço, mas isso não parece importar muito porque eu vou fazer minhas próprias coisas de qualquer forma, e parece que meus empresários e minha gravadora estão de bem com isso. Eu realmente não tenho certeza onde isso vai dar.

P: Você se sente pressionada para ter uma determinada aparência na comunidade que você está agora?
L: Não dentro desta comunidade ou dentro do negócio do entretenimento. Eu tenho minhas próprias visões da beleza para homens e mulheres. Eu tenho meu próprio gosto e preferências. Mas, se eu me sinto pressionada? Às vezes. Eu estou bem feliz agora. Minhas fotos de imprensa estão meio luxosas ou algo do tipo, mas, eu não sei, eu me importei em contar minha história – não para alguém em particular mas só porque eu queria, para o meu próprio bem.

P: Você disse que não estava tentando criar um personagem. O quão importante você acha que é um personagem dentro da música?
L: Eu acho que é importante para algumas pessoas. Eu acho que foi importante para mim há um tempo atrás, quando eu tinha 16 anos e eu queria me divertir com isso, mas nada disso é importante assim para mim agora. Eu quero fazer minhas coisas. Eu canto e eu gosto de gravar álbuns, é sobre isso que eu penso. Eu quero fazer meus álbuns e é meio que isso.

 

Por Marissa G. Muller
Tradução por Cristine Sol / Revisão por Mauricio Sousa

Redação LDRA
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