‘Eu suponho que a minha aproximação com a religião é como minha aproximação com a música – eu pego o que eu quero e deixo o resto’, confira a entrevista concedida ao site The Quietus

por / terça-feira, 04 outubro 2011 / Publicado emEntrevistas

The Quietus

 

Pecado Original: Uma Entrevista Com Lana Del Rey

 

Apesar de sua música ‘Video Games’ ter emergido um par de meses atrás, Lana Del Rey já experimentou igualmente a adulação e a suspeita. Aqui, John Calvert fala com ela sobre David Lynch, Nova York e os fantasmas que se escondem por trás de sua linda fachada.

 

Uma garota entra num bar. Olha outra vez. É o demônio. Você a está observando, ou você está sendo observado? Uma moeda é colocada na fenda e o mundo se move outra vez. É 'Sleepwalking' de Santo e Johnny. Os lábios do cupido beijam um cigarro; um velho barão do petróleo cai morto no outro lado da cidade, uma faca em suas costas. "Me abrace, baby. Me ame até a morte." Corta para um grisalho (mas notavelmente bonito) jornalista. Ele tem dedos feridos e pesadelos americanos debaixo de seu chapéu. Ele espera por um telefonema. [A cena escurece] "Alô? John? Sou eu... Lana". Um palco, uma cortina vermelha, um único holofote em Lizzie Grant, conhecida pelo mundo com a Srta. L. Del Rey.  

Uma garota entra num bar. Olhe outra vez. É o demônio.
Você a está observando, ou você está sendo observado?
Uma moeda é colocada na fenda e o mundo se move outra vez. É ‘Sleepwalking’ de Santo e Johnny.
Os lábios do cupido beijam um cigarro; um velho barão do petróleo cai morto no outro lado da cidade, uma faca em suas costas.
“Me abrace, baby. Me ame até a morte.”
Corta para um grisalho (mas notavelmente bonito) jornalista. Ele tem dedos feridos e pesadelos americanos debaixo de seu chapéu.
Ele espera por um telefonema.
[A cena escurece]“Alô? John? Sou eu… Lana”.
Um palco, uma cortina vermelha, um único holofote em Lizzie Grant, conhecida pelo mundo com a Srta. L. Del Rey.

 

Ela fala como uma doce rainha, como Britney Spears, como uma líder de torcida. 24 anos de idade e exultando a ousada efervescência única das saudáveis garotas americanas, não há nada nas maneiras de Del Rey que conecta sua voz ao fim da linha de ‘Video Games’, o hit de sucesso do YouTube carregado de uma performance vocal tão rica que você quase pode sentir o carpete de veludo de David Lynch sob de seus dedos.

Isso até eu colocar o playback no gravador de voz do meu telefone. Vagarosamente todos os anos de exaustão, a juventude assombrada passada no interior do estado de Nova York desvenda o que há por trás da fachada borbulhante, como murmúrios furtivos do outro lado da porta. Conforme as muitas condenadas cantoras e filmes de ídolos mortos que ela evoca em sua música cinematográfica, é como se Del Rey fosse uma boa atriz. Na verdadeira moda de Lynch, através da alegre fachada se escondem as minhocas se contorcendo que atormentam seu pesado coração.

Com uma crescente frequência, opositores estão testando os muros da persona de Del Rey, em particular questionando exatamente quem deveria ser creditado por sua estética perfeitamente parecida com O Vale das Bonecas. No meio do louvor universal por ‘Video Games’, ela, no entanto, é encarada com incredulidade por bloggers de alto padrão e até grandes colunistas e descontentes estrelas indie (Amy Klein do Titus Andronicus principalmente), alguns dos quais estão convencidos de que ela é uma estratégia de marketing produzida e uma farsa com seus cílios postiços. Então com uma deliciosa virada de ironia dramática, é precisamente a persona de Del Rey – o artifício – que forma sua única barreira de defesa contra os piores avanços da mídia.

É uma mentira, contudo, dizer a verdade. Porque parece que a história dela até agora, em grande parte menos glamourosa, não é tão diferente que a de Marilyn Monroe ou Judy Garland, ou até a trágica protagonista de Lynch no filme Cidade dos Sonhos. A história é: uma garota da cidade pequena vai para a cidade grande, cai em águas escuras, se torna uma eterna prisioneira da casa de espelhos que é o opressivo olhar da mídia.

Entre no quadro da Quietus, filmando em close-up ao que ela pode ou não estar pronta.

 

John Calvert: Você sempre teve um lado sombrio, Lana?
Lana Del Rey: 
Quando eu era mais nova eu me sentia solitária… Na minha forma de pensar. Eu tinha a constante sensação de que eu pensava de uma maneira diferente de todos ao meu redor. Então, eu suponho que me sentia solitária em casa. Eu não sabia onde eu queria estar, mas eu sabia que não era ali. Eu acho que essa solidão deu um tom sombrio para as coisas que surgiram.

Você é fã de David Lynch?
Sim. Quando eu era uma menina tocando em bares em Lake Placid, depois de cada show alguém vinha até mim e dizia ‘Você deve ser fã do David Lynch!’. Naquela época eu não estava por dentro de ‘todas as coisas descoladas’, mas eu assisti aos filmes do Lynch e rapidamente me tornei uma fã. Embora eu ache que os temas que ele explore estejam um passo adiante da extremidade que eu me preparei para ir.

Se você puder escolher uma cena, qual momento dos filmes do Lynch você mais usa como inspiração quando compõe? Eu prevejo algo como a sequência do teatro em Cidade dos Sonhos, misturados com o vídeo caseiro de uma Laura Palmer morta dançando com Donna.
Você já viu Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer e as cenas onde ela está no bar com os lenhadores, meio que dançando e ficando louca? Bem, é essa sensação assustadora de sair do controle que realmente fica na minha mente.

Algumas das músicas em seu campo de especialização escolhido sugerem que o amor tem mais a ver com obsessão do que companheirismo. Por exemplo ‘The End Of The World’ do Skeeter Davis tem um jeito assustador do tipo ‘O Que Terá Acontecido a Baby Jane?’. E então há a sua frase de ‘Video Games’: ‘É você, é você, é tudo pra você / Tudo o que eu faço’. Essa ideia ressoa com você?
Eu realmente amo essa música [do Davis], na verdade. E sim, essa ideia ressoa comigo. Depois de crescida, eu sempre fui propensa à obsessão, parcialmente por causa do jeito que eu sou, mas parcialmente porque depois de me sentir tão solitária por tanto tempo, quando eu encontrei alguém ou algo de que eu gostava, eu me senti levada a isso de maneira impotente. Eu acho que isso explica algumas estranhezas na minha música.

Como uma atração fatal?
Sim. Eu fui enviada pra escola quando eu tinha 15 anos, eu tive que começar a vida por conta própria. Então eu comecei a procurar alguém pra passar o tempo comigo. E aconteceu de eu conhecer ele, então houve ocasiões no passado em que eu fui tomada pelos meus sentimentos. Mas assim como algumas coisas ruins vêm com o amor, vêm muitas coisas boas também… Por exemplo, essa conexão… Com a qual eu lutei pra ter com muitas pessoas. Então apesar de haver um lado obscuro no amor, há também algo realmente esperançoso.

Você se mudou pra Nova York aos 18 anos. Você foi de um todo inspirada pela poeticidade de Nova York?
Sim. A forma que eu experimentei Nova York, por um longo tempo depois de ter me mudado, foi estar sozinha à noite, caminhando pelas ruas. Quero dizer, há milhares de ruas em Nova York e eu as conheço todas. Eu ia até o topo de Manhattan, ou então até Coney Island, depois viajava todo o caminho de volta. Por causa de eu ter vindo de um lugar que, geograficamente, não é tão estimulante. Mas a solitária arquitetura de Nova York é o bastante para inspirar um álbum inteiro. De fato, foi o que aconteceu primeiro – minhas músicas anteriores são em maioria apenas inspirações dessas paisagens.

Você sente que fica diferente quando está ‘no personagem’?
‘Lana’ e ‘Lizzy’ são a mesma pessoa. Eu gostaria de poder escapar pra algum alter-ego, então eu poderia me sentir mais confortável no palco, mas eu me sinto a mesma como Lana ou Lizzy.

Como foi trabalhar com David Kahne [The Strokes, Regina Spektor, Paul McCartney] no seu álbum de estreia? Ele tem um cenário que replica eras passadas.
Foi válido quando David pediu pra trabalhar comigo somente um dia depois de ele ouvir minha demo. Ele é conhecido como um produtor com muita integridade e que teve um interesse em fazer música que não é apenas pop.

Em termos de instrução, o que Kahne sugeriu?
Ele tinha um monte de coisas que queria fazer. Por exemplo, ele estava interessado em um estilo vocal mais tradicional e eu não queria. Ele também é um verdadeiro cientista, então ele tinha um plano muito particular. O álbum terminou em algum lugar entre o que ele queria e o que eu queria.

Há uma teoria de que o arquétipo que você retrata brinca com as fantasias sexuais masculinas?
No clipe de ‘Video Games’, eu estava tentando parecer inteligente e esperta ao invés de ‘sexy’. É claro que eu queria estar bonita, mas ‘inteligente’ era o foco primário.

 

 

O que inspirou ‘Video Games’?
Um garoto. Eu acho que nós ficamos juntos porque ambos éramos forasteiros. Era perfeito. Mas eu acho que com esse contentamento também vem a tristeza. Havia algo celestial sobre aquela vida – nós íamos pro trabalho e ele jogava vídeo games – mas também era bastante normal. Naquela época eu estava ficando desiludida sobre ser uma cantora e estava muito feliz em aquietar com um namorado que eu amava, mas no fim nós dois tínhamos perdido o foco dos nossos sonhos. Talvez há algo não-tão-especial sobre a vida doméstica.

Um popular blog americano recentemente publicou uma suposta exibição sua, com acusações de inautenticidade. Você sente como se você tivesse que ficar de olhos abertos?
Eu não sei. Se eu disser qualquer coisa eles só vão publicar como [falando como um âncora lendo as manchetes] ‘Lana Del Rey Tem Seus Sentimentos Feridos!’. Só pareceu que com aquele único artigo, eles tiveram uma particularidade cruel. Não de um jeito de brincadeira, mas meio como uma vingança pessoal. Eles realmente tinham a missão de me destruir. Eu não sou o tipo de pessoa que confronta, então se essa vai ser minha vida de agora em diante, eu honestamente preferiria não cantar ou ter uma carreira.

Em uma entrevista pra Pitchfork, você disse que as pessoas têm lhe oferecido oportunidades em troca de dormir com elas. Isso é verdade? A que nível corporativo?
[Risos, então não sabe o que dizer] Eu quero dizer… uh… uh… Eu quero dizer, as coisas ficam um pouco loucas, imagino. Hm… Há algumas situações quando você meio que sabe…. Quero dizer, é uma questão complicada.

É conhecimento público que a Chrissie Hynde de The Pretenders era, nas próprias palavras dela, desesperançosamente atraída por bad boys – homens errados e sombrios. Esse seria o caso com Lizzy?
Sim, no passado foi esse o caso. Eu acho que as pessoas denominadas ‘criativas’ têm uma tensão de genialidade que pode causar um pêndulo que balança pra muito longe – rumo à autodestruição e o que você poderia chamar de ‘loucura’, o que é algo ao qual me relaciono. Então, sim, eu já fui atraída a isso. Mas isso era antes. Agora estou procurando por algo mais simples.

Você também disse a Pitchfork que Deus salvou sua vida um milhão de vezes, o que, pra mim, seria uma oposição a sua música. Porque, em filmes baseados em pequenas cidades dos EUA, a religião é frequentemente patriarcal, repressiva e uma má presença, com o arquétipo que você retrata atuando como uma força que corrompe isso.
Eu acho que há uma separação de religiões organizadas similar ao que você descreveu. Mas no que me concerne, meu entendimento de Deus vem das minhas próprias experiências pessoais… Porque eu estive em problemas tantas vezes em Nova York que se você fosse eu, você acreditaria em Deus também. Quando as coisas ficam ruins o bastante, seu único refúgio é deitar na cama e começar a orar. Eu não sei sobre congregações toda semana na igreja e essas coisas, mas quando eu ouvi que havia um poder divino que chama você, eu fui até ele. Eu suponho que a minha aproximação com a religião é como minha aproximação com a música – eu pego o que eu quero e deixo o resto.

Que tipo de ‘problema’?
Nenhum e todos. Quando eu estava em Nova York, eu não tinha onde morar, e eu estava tentando encontrar uma forma de fazer música… Apenas tentando sobreviver, o que é fodidamente difícil, a propósito. Então eu me coloquei em várias situações que eu não planejava. [Pausa] Eu acho que o que eu estava tentando era algo lindo, mas eu meio que me coloquei em problemas ao longo do caminho. Desculpe, isso é muito vago.

Mas você mora em Londres agora?
Não, ainda não. Eu estive em Londres na maioria do tempo nos últimos dois anos, mas eu vou reservar três meses lá e então vou pra casa em Nova York por três semanas. No entanto, quando eu não estou trabalhando, eu vou ver meus amigos em Glasgow, então eu passo meu tempo lá quando eu quero me divertir. Estou em Glasgow agora.

Já deparou com Buckfast [bebida apreciada especialmente em territórios celtas]? Eu gosto da imagem de você apunhalando alguém em um estacionamento.
[Risos] Não, eu sou uma boa garota. Eu tenho deixado as bebidas para os garotos ultimamente.

Você sente que o arquétipo ‘Femme Fatale’ ainda tem o poder de tocar os ‘anseios do sexo masculino’ ou desafiar a sociedade patriarcal?
Sendo honesta, não. Não tanto quanto costumava ter. Nos anos 50 isso era uma nova premissa, uma nova forma de poder feminino. Eu acho que atualmente, o velho intelectualismo óbvio é uma força de poder maior do que a ideia da femme fatale.

Porque, na sua opinião, há tantas coisas da ‘Era de Ouro’ que o pop colocou o amor, assim como erotismo, tão próximo das noções de morte? Em particular a música de Roy Orbison.
Eu acho que é porque, às vezes, o amor parece como situações de vida ou morte. Quero dizer, perder o amor verdadeiro é muito ruim, mais do que morrer ou perder uma boa saúde. A maioria das pessoas sabe disso. A maioria das pessoas se relaciona a isso. Como Davis diz, é como o fim do mundo.

 

Por John Calvert
traduzido por Raphaella Paiva

Redação LDRA
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