‘Se eles dissessem que eu era uma má cantora seria diferente, pois eu sei que não é verdade’, confira a entrevista concedida à Dazed & Confused

por / quarta-feira, 27 julho 2011 / Publicado emEntrevistas

Dazed 1

Lana Del Rey: as lamentações da garota má

 

O fenômeno na internet com Video Games, reinvenção, haters e o jogo da fama

 

Lana Del Rey aparenta estar quase chorando. Sentada embaixo de um velho salgueiro-chorão, os olhos castanhos da cantora pop brilham tristemente ao sol enquanto uma brisa de verão leva o fumo do seu cigarro pelo Regent’s Canal. Para um forasteiro, parece que existe pouca coisa sobre a qual a cantora de 24 anos deve estar triste – no espaço de um mês, o clipe promocional para o seu clipe da balada vulnerável “Video Games” foi visto mais de meio milhão de vezes e transformou rígidos críticos de música em destroços entristecidos. Ela ganhou fãs de artistas diversos, como Juliette Lewis e Skream, inspirou músicas populares e uma cover dubstep, assinou também um contrato com a Interscope/Polydor – tudo sem lançar oficialmente “Video Games” como um single. São coisas do qual sonhos são feitos. Então, porque Lana se sente tão triste?

“Parece que para todo mundo que realmente amou ‘Video Games’, existem tantos outros que o odiaram”, diz ela num miar delicado, pausando para fumar o seu cigarro. “Isso mudou as coisas para mim. Eles disseram que eu era muito falsa e encenada, e coisas sobre os meus lábios… Isso realmente magoou os meus sentimentos e me fez querer nunca o ter lançado. Se eles dissessem que eu era uma má cantora seria diferente, pois eu sei que não é verdade, mas quando eles dizem, ‘Oh, olhem para a cara dela, ela parece tão plástica…’ isso, como uma mulher, magoa seus sentimentos. Esses comentários me fizeram reavaliar tudo.”

Ela se parece drasticamente diferente hoje quando comparada à “Lolita perdida no bairro” que estrelou no clipe de “Video Games”. O cabelo colmeia à la Priscilla Presley e a maquiagem natural se foram. Em vez disso, batom vermelho vivo, cabelo castanho-avermelhado escuro colocado de lado e sobrancelhas afiadas são o estilo do dia. Ela se assimila a garota dos sonhos americana, um fato reforçado por uma camisola de estrelas e listras, um shorts jeans curto e sapatilhas brilhantes da Nike. Este deve ser o visual que a página do YouTube de Del Rey chama de “Nancy Sinatra gângster”.

Ela ri da sugestão. “Eu não inventei isso! Os meus gestores estavam com dificuldade para descrever a minha música às empresas de gravação e continuavam a dizer, ‘Que gênero é? Que estilo?’ Eu o chamei de Hollywood Sadcore. Mas o meu empresário disse, ‘Ela é como uma Nancy Sinatra gângster!’ E logo após isso ter saído da boca dele, colou como cola. Eu gasto oito anos escrevendo músicas lindas e alguém numa reunião diz ‘Nancy Sinatra gângster’ e é isso. É brutal. Eu conheço duas músicas de Nancy, mas ela não é alguém que eu ouço. Eu sei tudo sobre Frank, claro, pois ele é o verdadeiro cantor. Isso apenas mostra o quão estúpidas as pessoas podem ser as vezes”.

A rebelde autoproclamada solta outro risinho maléfico. Ela pode estar reticente por admitir similaridades, mas você pode ver de onde o seu empresário estava vindo. A épica voz harmonizante de Del Rey, sentidos obscuros, senso de humor endiabrado e uma personalidade pin-up relembram mais Nancy do que as músicas ‘autotuned’ de hoje em dia. Enquanto J.Lo pensa que a melhor inovação musical é criar um remix de “Macarena”, Del Rey olha para Bogart e Bacall para inspiração. Ela usa frases de cientistas de computadores, diálogos de Baz Luhrmann e de Goodfellas no seu feed do Twitter, e tudo o que nós sabemos é que a cantora declara que o ambiente de Coney Island é uma influência enorme na sua música. “Sim, claro!” ela diz excitadamente. “Coney Island é a mistura perfeita de grandeza e terra desolada. Para mim, isso é beleza, sem mencionar o local favorito para as férias de 1932. A população veio de toda a América do Norte apenas para se sentar na beira-mar. Agora ninguém vai lá. Para mim, isso é interessante. Isso é o que eu gosto na música; isso é o que eu gosto em filme; é por isso que eu gosto de Antony e dos Johnsons; é por isso que eu gosto de David Lynch…” Uma forasteira nata, não seria precisa muita imaginação para ver Del Rey ser escolhida por David Lynch, Tarantino ou Stone como uma cantora de um clube noturno ou a companheira de um gângster num filme. Tomando partida dos seus vídeos, você tem o sentimento de que ela vive a sua vida como se estivesse estrelando em um dos seus filmes, de qualquer maneira. Em “Kinda Outta Luck”, ela balança uma garrafa de Jum Beam e se gaba de como o seu amante morto está na mala do seu carro. Em “Video Games” ela canta, “Eu ouvi que você gosta de garotas más, amor”, enquanto clipes de Jessica Rabbit e Paz de La Huerta são mostrados. “Blue Jeans” inclui namorados distantes, igrejas brancas, jeans e um monte de amor não correspondido. Parece que onde Lana Del Rey vai, melancolia, corações partidos e perigo a seguem.

“Eu acho que comecei a cantar porque esperava conhecer alguém como eu” ela diz. “Mas quanto mais distante você chega, mais você percebe que não é a única com dor ou miséria. Todo mundo está confuso. Você sabe, o pêndulo balança e a escuridão vem com ele. Mas eu não vivo a minha vida de uma forma sombria. Eu acho que estive sozinha durante muito tempo, e eu não tinha isso…” A sua voz se distancia e ela inala mais um pouco de ar. “Eu não sei se todas as minhas músicas são sobre amor não correspondido. Mas normalmente são sobre amor. Bastante simples.”

O que faz as músicas de amor de Del Rey serem tão agradáveis é o fato de que elas têm pouca semelhança com tudo aquilo que existe atualmente. É como se ela tivesse saltado para fora de um romance de Jim Thompson dos anos 50 e decidisse ditar as regras nos charts. Afinal, ao invés de anunciar a sua chegada com uma festa em um clube, a sua declaração aberta sobre cultura é uma balada de cinco minutos quase sem batidas. Contudo, todo mundo que ouve “Video Games” fica automaticamente em transe. A sua companhia de rádio teve que negar pedidos para que a faixa fosse liberada mais cedo, o que é inédito para uma nova artista mergulhada em lucro, vazamentos e compartilhamento de músicas em MP3.

“Eu estou genuinamente surpresa em relação a como tudo está indo. Você também estaria!” ela exclama. “Eu sempre tive este material no YouTube, mas nunca planejei que alguém o visse, porque ninguém os via. Nunca ninguém me disse que gostava de algo meu e agora de repente todo mundo diz que ama e eu não entendo o porquê. Eu não mudei uma única coisa e o estilo é o mesmo – mesmas influências. Talvez os anjos decidiram que era a minha vez. Da panela para o fogo. Eu acho que rezei por isso. Eu rezo todos os dias. Você tem que rezar.”

Demorou algum tempo até que suas preces fossem respondidas. Bem antes de Lana Del Rey, uma garota chamada Lizzy Grant nascia “no lugar mais frio da nação” – a cidade de Lake Placid (população de 2.638 habitantes), seis horas a norte de Nova Iorque. O seu pai, um investidor da internet, enviou-a para uma escola privada em Connecticut com seus 15 anos. Ela não gostou da experiência e tem tentado, desde então, apagá-la da sua memória. Após se mudar para Nova Iorque aos 18 e se tornar uma cantora, ela tornou-se um rosto familiar no microfone aberto de Lower East Side  e Williamsburg, com todos os julgamentos e atribuições que vêm com isso.

“Eu pensava que era boa em escrever música desde muito jovem” ela relembra. “Eu pensava que se eu pudesse ser a melhor de todas isso seria maravilhoso, então eu apenas continuava a cantar e a escrever. A parte engraçada é que sempre foi uma música bem estranha, então eu não sei porque achei que era uma boa ideia! Ficou mais bonita ultimamente.” O seu talento foi notado e ela gravou um álbum sob seu nome de nascimento. Nunca foi lançado devido a um mau contrato e ela foi incapaz de assinar outro contrato durante três anos. Abatida e aborrecida de tentar fazer hits pop, ela começou a escrever músicas que tinham uma qualidade atemporal e cinematográfica – a sua escolha foi o lado sombrio do Sonho Americano. Ela decidiu reinventar-se e mudar-se para um parque de trailers em Nova Jersey, pendurou uma bandeira e alguns pisca-piscas e Lana Del Rey entrou em cena.

“É exatamente a mesma pessoa, queridos. Apenas com um nome diferente”, ela ri enquanto raios solares batem no seu anel de ouro. “Eu prefiro Lana, é belo. Eu acho que as músicas vieram primeiro e depois e nome e provavelmente muito depois cabelo e maquiagem. Lana Del Rey apenas soava bem quando saia de minha boca – tinha um som exótico, e eu gosto de lugares exóticos e de coisas muito belas. Soava como uma mulher deslumbrante. E quando você tem um nome, você espera certas coisas dele, então foi como algo para o qual eu me direcionei. Eu podia construir um mundo sônico sobre a maneira como o nome caia dos meus lábios. Me ajudou bastante.”

A sua procura por novos sons levou-a de Nova Iorque para Miami, de Los Angeles para Londres. A sua descoberta foi feita quando ela teve um caso com o escritor de musica Justin Parker, que tocava o piano que seria o suporte de “Video Games”.  Os produtores Robopop melhoraram a orquestra, adicionando Harpas, sinos de igreja e uma marcha funerário à mistura. Ao mesmo tempo, ela estava lidando com a perda de duas relações, então ela pegou a base de Parker e escreveu o que tinha em sua mente. O sentimento sombrio da progressão das cordas rapidamente fez com que as suas emoções explodissem na superfície.

“Os versos falam da maneira como as coisas eram com uma pessoa, e o refrão fala da maneira como eu queria que tivessem sido com outra pessoa, alguém que eu pensei bastante,” ela diz, começando a cantar a música. “Balançando no quintal, você chegava no seu carro, sussurrando meu nome’. Isso foi o que aconteceu, sabe? Ele chegava a casa e eu ia vê-lo. Mas depois o refrão, ‘o paraíso é como um lugar na Terra com você, conte-me tudo o que você quer fazer’ não era assim. Essa era maneira como eu desejava que as coisas fossem – a melodia soa tão atraente e celestial porque eu quis que fosse dessa maneira. A letra é mais como as coisas realmente eram. É uma mistura de memórias e a maneira como eu queria que as coisas fossem. Apenas porque as coisas aconteceram de uma maneira não quer dizer que essa é a maneira de como elas são. É realmente a maneira como você pensa sobre elas. Coisas ruins acontecem todos os dias mas você não ficará mais feliz pensando nelas. Então eu não penso nelas. Eu não tenho esse luxo. Algumas pessoas dizem que ‘Video Games’ as faz ficarem suspensas; é esse tipo de música. É bem triste.”

Quando ela se mudou para o apartamento da irmã em Manhattan, ela lembrou-se de vários shows dela cantando a música olhando longamente para a câmara do seu MacBook, como se estivesse no Skype com o seu amante distante. Ela depois procurou na internet por pequenos vídeos que a ajudassem a contar a sua triste história, desde celebridades alcoolizadas a orquestras e até manobras de skate e paisagens CGI apocalípticas. Após editar a narrativa do vídeo, ela fez o upload no Youtube, sentou-se e observou tudo ficar estranho. Enquanto que atingia 500,000 visualizações, o vídeo foi banido do site devido a varias disputas legais referentes as suas escolhas de imagens, alimentando as chamas da sua personalidade de menina má no processo. Um novo clipe já foi publicado entretanto.

Agora, com a procura de Del Rey de ser conhecida, já se deve ter percebido de que o seu sonho de se tornar famosa finalmente começou a se tornar real. Mas ela ainda quer mais? “Eu queria quando ainda era jovem, mas agora percebi que isso não é tão importante,” ela diz com um sorriso modesto, puxando os braços da sua blusa sobre as suas mãos. “É importante ser uma boa pessoa, então eu parei de querer. Não é o que eu quero, nem um pouco. Eu já faço isso há tanto tempo que é o que eu faço quando acordo; Eu acordo e canto. Não é menos romântico agora, apenas é diferente. Eu vou continuar a viver a minha vida da mesma maneira que eu vivi agora. Eu sei exatamente o que fazer.”

 

Por Tim Noakes
Tradução por Bruno Rebelo

 

Em nossa galeria, você pode conferir o ensaio fotográfico completo feito para a Dazed & Confused, com fotos por Michael Hemy:


Redação LDRA
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