‘Meu humor é o que mais afeta minhas músicas e vídeos’, confira a entrevista concedida ao site Huffington Post

por / sexta-feira, 20 fevereiro 2009 / Publicado emEntrevistas

Huffington Post

 

A cantora e compositora Lizzy Grant fala sobre prazeres baratos, Elvis, The Flamingos, trailers e Coney Island

 

A cantora nova-iorquina Lizzy Grant fez sua estreia no mundo da música com seu videoclipe para seu single, “Kill Kill”. Munida de um EP com três faixas, um visual devastadoramente retrô e sexy e uma voz cheia de soul, Grant é uma cantora para não se perder de vista em 2009. Lizzy Grant é como uma visita que entra na sua casa e não quer mais ir embora. E quando você estava pronto para fazer uma comparação com Cat Power, Billie Holiday ou Aimee Mann, a voz de Grant te surpreende mais uma vez.

Sua música é incrivelmente original, sua sonoridade decididamente não pertence a gênero algum: as músicas de seu debut, Kill Kill, oferecem uma mistura eclética de jazz, pop, eletrônica, rock, blues e uma melancolia esperançosa. Seus vídeos são diferentes, estranhos, mágicos e pincelados com patriotismo. E enquanto músicas de outros artistas tentam atingir o status de poesia esotérica, as composições de Grant são obscuras, elegantes e belas.

Felicia C. Sullivan: Qual foi o lugar mais estranho no qual você se apresentou? E o mais estranho onde compôs?
Lizzy Grant:
Apresentação: Sozinha em um porão para um executivo lindo de uma gravadora.
Composição: Em seu escritório enquanto estava beijando ele.

Adoro que Coney Island aparece bastante neste álbum, direta ou indiretamente. Dá pra sentir a evocação de um lugar em Brooklyn, Nova York, que um dia já foi símbolo do belo e macabro. Um lugar que tem uma calçada mágica, mas também uma Casa de Horrores. Um lugar que é real, mas que não é… Um lugar que simboliza a fuga. Você pode explicar porque o parque de diversões foi um ponto de partida para o novo álbum?
Gosto disso, “…real, mas não é”. Todas as coisas boas da vida são reais, mas não são, eu inclusa. Coney Island é um lugar em que as pessoas vão para fugir, mas a sua realidade é o que você escolhe como sua realidade. Então, de certa forma, é tão real como qualquer outra coisa. Sempre deixo minha imaginação ser minha realidade. Fantasia é minha realidade.
Nunca fui à Coney Island quando tinha todas aquelas atrações enormes, mas havia algo desesperador naquela calçada, e eu me relacionei com aquilo. Não tinha fim, e havia pessoas em bares que você nem ao menos sabia que estavam lá. Talvez o parque de diversões foi o ponto de partida porque tenho uma longa história com prazeres baratos. Gosto de coisas que vão rápido, coisas com cores claras, coisas gostosas. Em Coney Island você pode comprar uma Coca Cola, andar na montanha russa e observar a todos.

Como uma autora, sempre digo às pessoas que às vezes sou mais influenciada por uma fotografia de David Eggleston ou por uma música de Nick Cave do que pela imersão na obra de outros autores. Enfim, encontro influências ou inspirações onde posso. Se uma música ou uma imagem me leva aonde quero ir, fico feliz. Então, de onde você tira suas influências e inspirações? Quem ou o que afeta as músicas que você compõe? Os vídeos que você produz?
Também sou do mesmo jeito. As fotografias de Mark Ryden me deixam louca e Las Vegas me faz reluzir. Daytona e a costa de Nova Jersey me matam. Sim. Até mesmo fotos de outros artistas me inspiram. Eu soube que as músicas de Elvis seriam a trilha sonora de minha vida assim que vi suas fotografias. Sei que amo alguma coisa assim que vejo. Depois componho sobre isso. Por falar em Elvis, é injusto não falar de Beach Boys e The Flamingos como minhas outras companhias constantes.
Meu humor é o que mais afeta minhas músicas e vídeos. Só quando estou de ótimo humor consigo compor e me gravar em um vídeo. Definitivamente não vou para a frente de uma câmera se não estou me sentindo esperançosa.

O que mais amo em Kill Kill é minha inabilidade em classificar seu estilo, de encaixá-lo em algum gênero. É blues, mas é jazz, e também é pop. “Yayo”, por exemplo, é mais sombrio e melódico, enquanto “Gramma” é mais pop. Quando você compõe, pensa conscientemente na direção musical? Na forma que cada canção tomará?
Compor para mim é como falar, e meu novo terapeuta diz que eu falo muito diferente das outras pessoas que ele atende.  Talvez isso tenha a ver com o porquê de as músicas soarem originais.
Eu sabia como me sentia em relação às músicas, mas me surpreendi quando elas foram traduzidas da mesma forma pelo público. É a única coisa que sei fazer bem.
Meu produtor, David Kahne, e eu nos entendemos muito bem, pois ele sabia que eu vivia em minhas músicas, e ele só tentou deixá-las melhor. Ele me perguntou como eu queria que as músicas soassem, e eu disse “Quero que soem famosas, como uma festa triste”. Ele achou a ideia magnífica e começamos a trabalhar no dia seguinte. Gosto de pensar que somos como aves de uma mesma espécie.

Muitos artistas hoje em dia são desconexos com como sua imagem é embalada e como sua música é posicionada; seu som é incrivelmente manufaturado; e às vezes me questiono se as letras foram compostas por um comitê. E depois tem os outros artistas… Renegados e corajosos; seu som é um híbrido de vários gêneros; seus vídeos são estranhos, mágicos, inesperados… Uma representação visual de suas músicas e das histórias presentes na cabeça dos artistas. Ouso dizer que lhe incluiria na última categoria. Sua música é orgânica e ousada da mesma forma que artistas que tentam descobrir sua história, e trabalham suas obsessões e se encontrar fazem. Você se considera uma artista que se recusa a permanecer na linha? O quão importante para você é ser o mais original possível?
Acho que nunca segui regras de nenhuma corporação, mas fazer minhas próprias regras é tão difícil quanto seguir regras de alguém. Para mim não é importante ser o mais original possível. Se parece que eu não sei o que estou fazendo é porque eu não sei mesmo. Mas se alguém aparecesse com ideias melhores do que as minhas para conduzir as coisas, eu aceitaria.
Acho que obsessão é uma boa palavra para se falar. Vivo em minhas obsessões e a música surge daí. Viver deste jeito e compor a partir disso não cabe em “seguir as regras”. Ainda assim, as músicas e os vídeos combinam bem porque vêm do mesmo lugar. Então talvez eu não pense sobre imagem, mas penso sobre tentar fazer coisas que eu adoro.

Seria seguro dizer que Kill Kill conta a história de uma mulher precoce, porém determinada em público (que não confia em si mesma e que não sabe o quão singular ela é) presa em um pobre trailer, com seus sonhos de uma fuga sendo esquecidos pelo homem bom e decente que ela merece?
Bom, eu diria que me saio bem em público… Contanto que não precise falar. Então essa parte é verdade. Mas ninguém me colocou lá. Sei no que sou boa e no que não sou. Componho sobre o que sei, e sei fazer um show.
Não me sentia presa no trailer. Me sentia presa antes de ir para o trailer porque não tinha onde morar. Quando consegui meu trailer, todos lá tinham o mesmo gosto que eu. Todos gostávamos de grandes flores falsas e de decorar as paredes com balões mesmo que não fosse nosso aniversário. Eu não poderia ter sido mais feliz lá. Antes disso, pensei em fugir. Sempre pensei que fosse ser um homem a me levar embora. Não sei se mereço um bom homem, mas penso sobre isso às vezes.

Você sabia que, assim como outras fronteiras de Long Island, Coney Island foi atacada por coelhos (o que me faz pensar em crianças) em 1600? O nome da ilha foi derivado da Conyne Eylandt alemã, e a caça aos coelhos era comum até os resorts aparecerem. E em 1800 se tornou um grande resort, um refúgio para os viajantes que queriam escapar de Manhattan no verão.
Não sabia disso! Dizer que coelhos a lembram de crianças me faz pensar na história “Runaway Bunny” [coelho fugitivo, em português]. Amo coelhos.

Das bandeiras americanas e carros clássicos em “Kill Kill” ao Calico Hills, Las Vegas, luzes, Planet Hollywood, Marilyn e imagens de você como uma filha do psicodelismo em “Yayo”, seus vídeos possuem um sentimento muito nostálgico e clássico americano. Até mesmo o modo como eles são gravados parece retrô, e às vezes você se sente transportado para a América da década de 1950-60. Você pode falar um pouco de como seus vídeos são concebidos e como representam visualmente o álbum?
Las Vegas é um lugar mágico para mim. Sou muito atraída por como as coisas são em seu exterior. Embora eu já tenha me queimado pelo que está por dentro muitas vezes… Não me entenda mal, mas ainda amo algo que embeleza meus olhos. Uma bandeira tremulante ou um Pontiac Grandamn… Nem precisei saber o que esses coisas eram para saber que era bonitas.
Uma vez tive um namorado que falava muito sobre o motivo de ele adorar bandeiras, rock and roll e a América. Eu não sabia muito sobre isso, mas eu o amava e queria ser como ele. Então tudo nos vídeos – a pirâmide de Vegas, o sorriso das noivas, o noivo gesticulando “Tim-tim” – são diferentes expressões da felicidade que sentia quando amei um homem que me amava e amava a América.
Las Vegas, luzes, a década de 50 e todas as coisas belas fazem parte do meu mundo videográfico.

 

Artigo por Felicia Sullivan
Traduzido por Lucas Almeida

Redação LDRA
Down on the west coast. They got a saying...
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